O Pêndulo e a Imagem

Já há muito tempo se tem falado e discutido sobre o uso abusivo e exagerado do tratamento de imagens, suas consequências para a fotografia contemporânea, e seu óbvio distanciamento da “realidade da captura”.
O assunto é polêmico e merece uma reflexão mais apurada, sem levar em consideração apenas a diversão e comicidade dos absurdos postados em sites como o Photoshopdisasters , mas também discutindo a necessidade e as consequências éticas de se transformar radicalmente as fotos, sejam elas comerciais, documentais ou autorais.

Uma estranheza é que o principal aplicativo para se editar fotografias acabou se tornando um verbo; “Vou photoshopar aquela imagem, esta ainda não está photoshopada…” dizem os que dele se utilizam, mas a verdade é que o programa sozinho não faz nada, nem é capaz de modificar ou alterar realidade alguma.
O problema está geralmente com o operador, com o cliente e com quem consome estas imagens.

O que deveria ser apenas uma excelente ferramenta de ajustes tonais, cromáticos e de pequenos retoques, acabou se tornando, nas mãos de usuários inábeis, em vilã da contemporaneidade. O Photoshop é certamente poderosíssimo, possui mais de 5 mil comandos e menus, e permite desde o processamento mais básico e necessário da imagem Raw (através do plugin Adobe Camera Raw ou do Lightroom), até fusões complexas envolvendo módulos de 3D e vídeo. Isso possibilita, caso assim se deseje, um completo distanciamento visual da imagem daquilo que pode-se considerar como a sua origem, que é a cena diante dos olhos de quem faz a captura digital. Muitas vezes este distanciamento é intencional, mas pode ser meramente acidental. Este poder quase ilimitado de manipulação tem sido usado comercialmente pela publicidade, pelas editoras de revistas e pelo jornalismo, provocando uma mudança profunda no modo de se olhar fotografias, alterando nossa percepção visual e fazendo com que a imagem que era perfeitamente aceitável há dez anos em termos de qualidade, seja agora considerada “tosca”, mal acabada. Quanto mais jovem é o observador, mais este fenômeno se torna evidente, e exemplifico: tenho duas filhas que praticamente nasceram com o mouse nas mãos. Ambas cresceram vendo-me trabalhar com tratamento de imagens, e comprovando os resultados antes-depois, o que as permitiu desde cedo desenvolver um senso crítico em relação às fotos que observam nas revistas e nos anúncios de publicidade; pois bem, fotos que não sofreram nenhum tipo de tratamento além dos estritamente necessários (ajustes de contraste, balanço de brancos e cores) são por elas consideradas “não-acabadas”, e imediatamente chamam sua atenção. O difícil é explicar que aquilo que estão vendo é muito mais próximo do que chamamos de “realidade” do que o excesso de manipulação, pois o seu (delas) modo de ver imagens já está contaminado, viciado na pós-produção digital. O mesmo se dá com técnicas de filtros de vinheta, de HDRs e dos “efeitos Instagram”.

O triste, porém, é o fato de percebermos a decadência progressiva da qualidade destes tratamentos; a ferramenta utilizada no ofício que já foi em passado recente domínio absoluto de especialistas e fotógrafos dedicados, passou a ser disponível a todos, mesmo aos que nunca haviam utilizado qualquer aplicativo gráfico, fazendo com que aberrações de todas espécies passassem a ser aceitas, publicadas e muitas vezes elogiadas. No caso de fotos de pessoas, é praticamente obrigatório o uso exagerado das ferramentas de suavização de peles, ou de ajustes estruturais tais como afinar cinturas, tirar celulites, eliminar todas as rugas e aumentar a estatura. E não apenas é exigência das publicações, mas também dos próprios fotografados! Porém, quando são feitos por quem não tem noção de luz e sombra, nem de proporções, nem de anatomia e tampouco de texturas, os resultados tendem a ser catastróficos. Por outro lado, mesmo aqueles profissionais que possuem as habilidades técnicas necessárias para realizar o trabalho com perfeição, são muitas vezes levados ao exagero por imposição de quem os contrata, aqueles que assinam o cheque, que obviamente deveriam estar cuidando de outros assuntos e deixando o bom profissional decidir qual é o limite do verossímil, do ético e do estético. A doença parece ter se tornado crônica, pois nos últimos anos uma enxurrada de absurdos tem sido publicados e criticados, desde a famosa “pele de plástico” das capas das revistas femininas, até a manipulação vergonhosa de fotografias de zonas de conflito por alguns fotojornalistas, como recentemente aconteceu com fotos do Irã.

Concluímos assim que o pêndulo do inaceitável atingiu seu ápice negativo, e para voltar ao ponto de equilíbrio uma contra-proposta se apresenta: o uso do “não-Photoshop”.
Fotos sem maquiagem, sem processamento algum além daquele efetuado pela câmera, sem tratamento de nenhuma espécie. É uma tendência que toma corpo e tem se intensificado com o passar dos últimos meses, mas que ainda encontra forte resistência tanto na publicidade quanto no próprio consumidor de fotografias, pois apesar do entusiasmo dos fotógrafos e editores que apóiam a eliminação definitiva do Photoshop, o leitor-padrão não consegue mais enxergar beleza no que está próximo ao seu cotidiano. Pensa que a única fotografia comercial possível é a exageradamente alterada,  glamurizada.

Minha opinião é que a própria inércia (é a gravidade…) vai trazer de volta o equilíbrio desejado ao pêndulo; fotos tratadas que tenham um fim comercial definido, vão ser menos falsas e mais próximas da realidade tangível, enquanto fotos processadas para dar vida ao fazer do autor, ou as realidades inteiramente construídas, deixarão patente a arquitetura do imaginário, a ficção autoral; e o Photoshop, bem utilizado, vai continuar dominando as operações de processamento/ajustes/retoques, absolutamente necessárias e inevitáveis quando se trata de fotografia em tempos digitais.

 

4 Comments

  1. Anna Carvalho

    1 Junho, 2014 at 9:27

    Nossa. Texto e ideias perfeitos !!!
    Tenho passado por isso a uns 3 anos, desde q um metidinho ai apareceu com um photoshop extremamente exagerado e os “consumidores”, em sua maioria leigos, agora só conseguem apreciar uma foto com efeitos.
    Chegou ao ponto de, pessoas q adoravam meu trabalho, me elogiavam e sempre me chamavam, hoje olham pras minhas fotos (quando nao tratadas) e torcem o nariz, como se tivesse faltando algo nelas. E está: o raios do photoshop exagerado !!!
    Fui obrigada a começar a exagerar no ps também, pois estava perdendo clientes.
    E acabei numa crise de identidade, pq eu num gosto de foto com muito ps, mas tenho q fazer nas minhas e entaum eu olho pra elas e fico descontente.
    Ah, alem da febre do ps q o metido causou, causou tambem a febre do “vamos trabalhar de graça”. Ofereceu fotografar de graça pra todo mundo do nixo, sem a menor ética, passando por cima dos outros fotografos q (obviamente) cobravam/cobram pelos seus trabalhos.
    Hoje em dia, eu mesma tenho q ceder a alguns abusos, ou então fico “fora do circuito”, pq é tanta gente q esta seguindo os paços dele e fotografando de graça, q se eu nao ceder em algumas ocasiões, literalmente me esquecem.
    Resumindo, o photoshop aliado a falta de ética, se tornou um cancer, uma doença q está se alastrando !!!
    =(

  2. André nSantiago

    2 Junho, 2014 at 15:16

    simplesmente maravilhoso … clik

  3. Fui fotografo de laboratorio, revelava meus filmes e ampliava em casa, (anos 70) foi difícil chegar nas digitais e mais ainda no colorido, só fotografava em pb . Mas progressivamente as cores foram tomando conta de minhas fotos e desenhos e pintura. Mas meu susto foi quando comecei a tratar as imagens utilizando somente (ajustes de contraste, balanço de brancos e cores) eram infinitas possibilidade e depois os negativos, enfim tenho fugido do photophop pois as possibilidades dele são infinitas e tenho tantas imagens para tratar que me dá desespero imaginar utilizando o photoshop. Outro dia me deparei colando meus desenhos em fotos de 1970 e ficaram muito intrigantes.

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