Período Sabático Internético

Clicio Barroso Filho

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A Fotografia me enganou três vezes

©2012ClicioBarroso

Quando me interessei por fotografia, bem cedo ouvi de todos a quem consultei, incluindo meu próprio pai, que o primeiro passo seria dominar a técnica. Uma tarefa que me parecia longa e complicada, apesar de fascinante e misteriosa. Teria que aprender tudo o que pudesse sobre câmeras: pequenos formatos, médios formatos, grandes formatos. 35mm, 6x6cm, 4x5pol.
Mas isso seria apenas o básico do básico: Era mandatório também saber tudo sobre lentes, elementos, grupos, objetivas, zooms, grandes-angulares, olhos-de-peixe, teleobjetivas, macros. Aberturas de diafragma, velocidades de obturador, ASA, DIN, foco, profundidade de campo, profundidade de foco, distância hiperfocal, básculas, química, física mecânica, óptica. Filmes, filtros, reveladores, ampliadores, papéis. Nomes estranhos como Leitz, Zeiss, Schneider, Angenieux, Nikkor.
E  não, não acabava por aí; havia que se conhecer de enquadramento; composição; iluminação; direção de modelos; ângulos; plongée e contre-plongée.
Claro que isso tudo só se aprende na escola, e foi exatamente para onde fui.
O professor de fotografia era formado em engenharia óptica na Alemanha. O professor de laboratório era engenheiro químico. Uma das maiores marcas da indústria emprestava seu nome à escola. Depois de quatro semestres suados, já trabalhando como assistente de fotógrafo e respirando fotografia 24/7, achei que poderia começar minha própria carreira e “virar” fotógrafo profissional.
E então, começaram os tombos.
“Sua fotografia é muito certinha, falta personalidade”, ouvia de um; “Essa luz é uma luz covarde” vinha outro me dizer.
E descobri da maneira mais difícil que me faltava conteúdo, vivência, conceito. Saber tudo sobre equipamento e como usá-lo não significava absolutamente nada; ter controle dos processos no laboratório também não.
O que dava era para viver de fotografia comercial, reproduzindo idéias dos outros e copiando em filme o que já havia sido criado anteriormente.
Reprodutor e plagiário!
Faltava ainda muita coisa.
Primeira mentira: “Fotografia é técnica.”

Fui em busca daquilo que, pensava eu, iria modificar a minha fotografia.
Cultura fotográfica.
Comprei livros, todos os que pude. Viajei, e fui conhecer as galerias, os estúdios, os ateliers, os museus; Moma, Prado, Galleria degli Uffizi, NY Metropolitan, Guggenheim, MASP, Pinacoteca, MAM, Louvre, Musée de l’OrangerieMuseu Calouste Gulbenkian, Museu Picasso, Museu de Atenas, Museu do Cairo, Capela Sistina, ICP.
Enxurrada de imagens, de estilos, de épocas, de assuntos, de técnicas. As rupturas, do expressionismo ao surrealismo ao cubismo ao abstrato de Pollock; a Pop Art de Warhol ironizando a cultura contemporânea do consumo. Me esforcei para entender muito do que não podia compreender, estudando, viajando mais, comprando mais livros. Vivi na América do Norte e na Europa, na tentativa de absorver por osmose a cultura visual de que precisava.
A boa notícia é que minha fotografia mudou. Aprendi a olhar para o mundo de forma menos formal. Minha fotografia já não era mais tão “certinha”, tão previsível, o que me garantia uma certa liberdade, e poder viver de uma fotografia editorial que incentivava, compartilhava e absorvia idéias menos convencionais, mais pessoais. Algumas tinham um ligeiro borrado, tremido intencional de baixa velocidade para simular movimento; outras um foco seletivo tão curto que as altas-luzes se misturavam em brilhos poéticos criando um efeito de “desfoque líquido” (como o definiu um amigo fotógrafo), e muitas em ângulos bastante inusitados que permitiam que o não-mostrado fosse fabricado pela mente do observador e se transformasse em imagem, ainda que etérea.
A partir dessa experiência preparei esse meu melhor material não-comercial e o apresentei as galerias e marchands, para expor onde fosse possível; o amadurecimento do trabalho me parecia suficiente para que as minhas “fotografias autorais” fossem aceitas de imediato.
Mas não foi bem assim.
Descobri da maneira mais difícil que me faltava pensamento, profundidade, história. Apesar da trajetória bem sucedida na fotografia editorial e da cultura visual adquirida que me permitia romper com os paradigmas da fotografia comercial tradicional, apenas técnica e olhar não significavam absolutamente nada.
Dava sim para continuar vivendo de uma fotografia comercial menos previsível, e também dava para ensinar um pouco do que já havia sido criado anteriormente, por artistas e fotógrafos relevantes. Mas não mais que isso.
Produtor e instrutor!
Faltava ainda muita coisa.
Segunda mentira: “Fotografia é só olhar.”

Voltei para a escola.
O ambiente acadêmico, com seu lastro de pesquisa, de aprofundamento, suas referências, debates, palestras e simpósios só poderiam ajudar a desenvolver o pensamento fotográfico que me faltava. Apesar da surpresa inicial de constatar que a maioria absoluta dos mestres e doutores é incapaz de produzir uma única imagem decente (com raras e conhecidas exceções!), o pensar imagético me pareceu instigante, um desafio intelectual com passeios adoráveis pela filosofia, astronomia, psicologia, mecânica quântica, genética e poesia. A falta de imagens é largamente compensada pelos outros saberes, e a ausência da obrigatoriedade da fotografia aplicada, do ato fotográfico em si, é libertadora ao extremo.
Aqui cabem duas interrupções na linha de pensamento que estamos traçando;
1-) Não só os doutores em fotografia, mas também a grande maioria dos críticos, curadores, filósofos, galeristas e marchands é incapaz de fotografar sem que tentem justificar o injustificável com longos e indecifráveis textos, por vezes totalmente disassociados das imagens em questão. Claro, não são fotógrafos, e deles não se deve cobrar boas fotografias!
2-) A Academia nos dá disciplina, cultura adquirida, deadlines, referências, trabalho em equipe, discussões interessantíssimas, respaldo intelectual, e prestígio. É uma oportunidade que não deve ser desprezada por ninguém, mesmo que não se produza uma única fotografia durante o curso.
O ambiente acadêmico me permitiu sonhar mais, dedicar mais tempo a leitura, pesquisar mais profundamente, a respeitar pontos-de-vista diametralmente opostos aos meus. Além da leitura obrigatória dos autores fundamentais como Roland Barthes, Vilém Flusser, Susan Sontag, Walter Benjamin, Rosalind Krauss, Jean Baudrillard, Philippe Dubois, Arlindo Machado ou Boris Kossoy (dentre muitos outros), poder desfrutar da inteligência e sabedoria  de Helouise Costa, Rosely Nakagawa, Lucia Santaella, Simonetta Persichetti ou Annateresa Fabris (dentre muitas outras) é algo que não se esquece.
Mais uma vez a minha fotografia mudou; ganhou intenção, um pensamento prévio, tornou-se mais econômica e sintética; descolou-se dos aparelhos (técnica, equipamento, fetiches); desvencilhou-se dos truques fáceis (desfoques, movimentos desnecessários, tratamento de imagem).
Pronto.
Eu estava pronto para o sucesso.
Mas..
Descobri da maneira mais difícil que as minhas imagens careciam de emoção, de contar uma história intrigante, eloquente ou socialmente relevante de modo não-linear, faltava nelas força política e de denúncia. Apesar de toda a cultura acadêmica, apenas técnica, olhar, pensamento, profundidade e história não significavam absolutamente nada.
Faltava ainda muita coisa.
Terceira mentira: “Fotografia é pensamento.”

Então…
Fotografia é emoção?
Fotografia é política?
Fotografia é documento?
Fotografia é construção de realidades?

Fotografia, agora todos já sabemos, pode ser muito complexa.
Ao substituir a pintura (que segundo muitos autores se auto-esgotou no século XX) como método visual preferencial de expressão artística contemporânea, a Fotografia pode ser  olhar, cultura, documento, expressão, linguagem, filosofia, técnica. Ou um pouco de tudo isso junto, em maiores ou menores porcentagens.
Essas três, ou cinco, ou doze mentiras só são mentiras quando tomadas isoladamente; quando somadas, deixam de sê-lo.
Se ouvimos fotógrafos falando em tom irônico de fotografias feitas por cegos, como por exemplo as de Evgen Bavcar, temos primeiro que entender a experiência vivenciada pelo Dr. Oliver Saks, descrita no livro “Um antropólogo em Marte“, de um seu paciente cego que tem sua visão cirurgicamente recuperada, mas ESCOLHE permanecer cego pois a sua maneira de “enxergar”o mundo lhe faz muito mais sentido do que aquela que a “visão” lhe trouxe.

A partir do momento em que compreendi que todos os saberes possíveis não transformariam a minha fotografia em Arte, ela mudou novamente; agora fotografo o que quero, quando quero, do jeito que bem entendo. Mostro um pouco de mim, um pouco do mundo, construo realidades. Manipulo. Uso a técnica a meu favor. Desfoco. Foco. Sou livre com a minha maneira de olhar ou imaginar o que está ao meu redor.
Entendi, finalmente, que a minha fotografia é o que ela é.
Única, tão minha quanto a minha voz ou as minhas impressões digitais, e será considerada Arte quando alguém, que não eu, assim a enxergar.
Como me alertou mais de uma vez o meu amigo Pepe Mélega, não sou artista.
Sou fotógrafo.

 

UPDATE 01: O Iatã Cannabrava me lembrou de um artigo antigo, aqui postado, e que discute a existência ou não do talento; a discussão foi *muito* interessante, gerou mais de 80 comentários bem embasados, e talvez valha a pena ser revisitado.
Fica aqui o link:
http://www.clicio.com.br/blog/2009/talento-nao-existe-nao/

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Photography deceived me thrice  -  Photographie m’a trompé trois fois

Adobe Lightroom 4

 

Lightroom 4 Beta, com processador Camera Raw 7

Lightroom 4 Beta, com processador Camera Raw 7

Comemorando seis anos do lançamento da primeira versão do Lightroom, acaba de sair dos laboratórios da Adobe o Lightroom 4.
O aplicativo vem com dois novos módulos, um mecanismo de renderização moderníssimo (Process Version 2012), ferramentas inéditas no módulo de revelação e de ajustes locais, e soft proof para printers, entre muitas outras novidades.
Para quem é usuário do programa, só novidades boas (curvas em RGB, canal a canal!); para quem não é, existe a possibilidade de importar arquivos diretamente do Apple Aperture ou do iPhoto, facilitando a migração.

Abaixo, listo algumas das mudanças, dentre muitas outras, que já são minhas favoritas:

Soft Proof no Lightroom 4

Soft Proof diretamente no Lightroom 4; adeus visita ao Photoshop!

Soft Proof; fácil e resultado preciso.

Soft Proof; fácil e resultado preciso.

1- Se eu tiver que escolher o “feature” MAIS ESPERADO, tem que ser o Soft Proof integrado aos módulos Develop/Print.
Poder visualizar o resultado de sua foto impressa em tela, antes de gastar papel e tinta, é fundamental para que o programa seja chamado de profissional; agora é de gente grande!

 


Process Version 2012

Process Version 2012; resultados sensacionais. Mesmo.

2- O segundo astro da lista é o novo processador interno de revelação, versão 2012. Ao importar Raws ou DNGs, ele é automaticamente usado; ao importar arquivos já processados por outras versões do Lightroom ou do Adobe Camera Raw, podemos fazer o update para a nova versão, de modo quase instantâneo; com o novo processador, as ferramentas do módulo de revelação (painel Basic) são também atualizadas, e a diferença de resultados é significativa.

 


Lightroom 4 módulos

Módulos novos do Lightroom 4: Map e Book

Dois novos módulos surgem na versão 4; o de geotagging, chamado Mapa, e o de criação/edição de livros de fotografia, chamado Book. Vamos falar um pouco deles a seguir:

Lightroom 4 Map Module

Mapa no Lightroom; GPS na mão !

Lightroom 4 Map module

A vista de satélite é bem precisa.

3- MAPA: As fotos podem ser arrastadas e soltas na posição correta no mapa; este pode ser visto de várias formas, e o zoom é bastante poderoso; a facilidade com que podemos acrescentar coordenadas de GPS à fotos que não as possuam é única. Viciante.

 

 


Módulo Book: Fotobooks direto para o Blurb!

O preço estimado do Blurb já aparece!

O preço estimado do Blurb já aparece!

4- LIVRO: O módulo permite que se crie um fotobook (ou uma versão em PDF) que pode ser diretamente enviado ao Blurb; entre outras facilidades, o preço final já aparece na página!

 

 


Email embutido no Lightroom 4

5- Emails podem ser enviados, com fotos anexadas, diretamente de dentro do Lightroom 4, poupando tempo, trabalho e configurações tediosas. Um ganho de produtividade considerável!

 

 


Vídeo no Lightroom!

Vídeo no Lightroom4 !

6- O Lightroom 4 agora mostra, reproduz e edita vídeos por ele importados, no módulo Library (Biblioteca) e usando o Quick Develop (Revelação Rápida). Para quem tem câmera com vídeo e quer equilibrar as cores dos vídeos com as fotografias, é imprescindível e rápido. Abaixo, um exemplo do mesmo clip “nativo”, e depois de editado no Lightroom. Mão na roda!

Video original no Lightroom

Video original no Lightroom 4

Video editado no Lightroom 4

Video editado no Lightroom 4

 

 


Stack nas coleções: Estava na hora!

Stack nas coleções: Estava na hora!

7- O Adobe Lightroom 4 permite agora que se criem Stacks dentro das coleções (antes, era só nos Folders); e as bandeiras brancas, pretas e neutras nesta versão são globais, ou seja, aplica-se uma bandeira em Folders e ela aparece também na mesma foto que esteja dentro de uma coleção. O processo fica mais intuitivo, e bem mais útil!

 

 


Compressão DNG com perdas? Um JPEG de luxo!

Compressão DNG com perdas? Um JPEG de luxo!

8- Assunto polêmico… A Adobe está introduzindo a possibilidade de arquivos Lossy DNG (um Raw, em última instância, com perdas na compressão); o arquivo fica menor, ocupa menos espaço em disco, e pode ser totalmente editável, tanto no Lightroom 4 quando na nova versão do Adobe Camera Raw (ACR). Claro que não existe milagre, e a compressão com perdas, apesar de ser imperceptível ao olho, muda o arquivo. Deve ser exaustivamente testado, pois abre uma nova gama de possibilidades para o formato DNG.

 

 


Novas ferramentas no painel Basic; mais precisas.

Novas ferramentas no painel Basic; mais precisas.

9- No Lightroom 4, ao se importar novas imagens ou converter antigas para o novo processamento (PV2012; ver dica lá acima), o painel Basic mostra as novas ferramentas, que além de mais precisas, também são mais intuitivas e com nomes mais tradicionais da indústria gráfica. Não é uma mudança apenas cosmética, as ferramentas se comportam de maneira diferente (melhor, mais qualitativa) em relação às versões anteriores do Lightroom, especialmente na recuperação de altas-luzes e sombras. Todas elas foram atualizadas; o Clarity, por exemplo, ficou muito mais agressivo, e deve ser usado com parcimônia.

 


Ferramentas novas nos ajustes localizados!

Ferramentas novas nos ajustes localizados!

10- Minha última das dez dicas favoritas é sobre os sliders dos Ajustes localizados; muito mais ricos, com opções necessárias como “Noise” e “Moiré”, entre outras novidades. Aliás, MUITO bem vindas!

 


Link para baixar a versão BETA do Lightroom 4:
Public Beta Site: http://labs.adobe.com/technologies/lightroom4/

Link para discutir a versão BETA do Lightroom 4:
Forum: http://forums.adobe.com/community/labs/lightroom4/

OUTRAS FONTES de informação seguramente confiáveis (algumas com vídeos e tutorias; algumas em Francês, a maioria em Inglês):

Vídeo da Adobe:
TV.Adobe.com

Tom Hogarty:
Lightroom Journal

John Nack:
Blogs.Adobe.com

Victoria Bampton:
The Lightroom Queen
Updated Shortcuts List: LR4 Keyboard-Shortcuts

John Beardsworth:
Lightroom Solutions

Terry White:
Techblog

Richard Earney:
Insidelightroom

Seth Resnick:
D65.com

Laura Shoe:
laurashoe.com

Andrew Rodney:
The Digital Dog

Ian Lyons:
Computer Darkroom

Gilles Theophile (em francês):
Utiliser Lightroom

David Marx (vídeos):
TheLightroomLab

Sean McCormack:
Pixiq

Matt Dawson:
The Photogeek

Gene McCullagh:
Lightroom Secrets

Rob Sylvan:
Lightroomers

Piet Van den Eynde:
More than words

Mark Wilson:
Wild Photoforum

 

VIDEO-TUTORIAIS (em Inglês)

New Process Version Basic Panel Controls
http://vimeo.com/34653183
http://www.youtube.com/watch?v=4eiC-R_FJYs

Map Module
http://vimeo.com/34629532
http://www.youtube.com/watch?v=HBOOVaWfGP8

Video Editing
http://vimeo.com/34626424
http://www.youtube.com/watch?v=2DzYufWng7I

Integrated Email Engine
http://vimeo.com/34615628
http://www.youtube.com/watch?v=v6tDwI7ZZe8

Ability to Move Multiple Folders
http://vimeo.com/34615584
http://www.youtube.com/watch?v=BsAQWhio1ko

Lateral Chromatic Aberration Repair
http://vimeo.com/34692920
http://www.youtube.com/watch?v=LHjrt-t68tE

Metadata Status Smart Filter
http://vimeo.com/34712996
http://www.youtube.com/watch?v=maGm2-nsCJg

New Graduated Filter Controls
http://vimeo.com/34770457
http://www.youtube.com/watch?v=RrAxOcFvsG8

Export to PDF from Book Module
http://vimeo.com/34770532
http://www.youtube.com/watch?v=N44NjtLMZLA

Cross Process Effect Using Per Channel Curves
http://vimeo.com/34771842
http://www.youtube.com/watch?v=TEtledTWWig

 

 

Descondicionando o olhar

Instagram ©Clicio

É provável que o grande Cláudio Feijó não se incomode com minha apropriação indébita do nome de seu mais famoso workshop; mas como sou veterano (fiz o descondicionamento duas vezes e sobrevivi para contar), aprendi lá mesmo que descondicionar também significa aumentar o nível de tolerância com as modernidades dos amigos, logo está tudo OK, penso eu.
O que interessa é que nada poderia ter sido melhor que o choque de realidade que tenho vivido.
Depois de uma década plugado, fulltime online, quase um ser virtual, decidi voltar a me dedicar a algo mais tangível, que produzisse objetos ou produtos, e que pudesse ser feito com as mãos; em fevereiro de 2010 abri um núcleo do ADI-Atelier de Impressão em São Paulo. Basicamente impressão de fotografias, metacrilatos e obras de arte de alta qualidade, aliado a atendimento personalizado em um lugar físico onde as pessoas pudessem ter orientação prática de como preparar corretamente suas obras a serem impressas.
Moleza, né? Facinho, passar o dia inteiro sentado na cadeira ergonômica, no ar-condicionado, apertando a tecla “P” e depois correr para a caixa registradora (tá bom, Redecard).
Só que não foi bem assim…
Desde o primeiro dia em fevereiro, o ritmo só aumentou; fazer acabamento em metacrilato é uma atividade insana! O processo tem tudo para dar errado, as variáveis são inúmeras, os materiais extremamente frágeis, o trabalho que demanda é exaustivo… Mas absolutamente libertador.
Explico: usar suas próprias mãos fazendo trabalho que exija habilidade e esforço, ter prazos beirando o impossível, suar muito, faz com que o ser-amorfo que passava o dia inteiro na frente de monitores enxergue que a realidade pode ser diferente. Que existe outra maneira de enxergar o mundo, esquecida. Não que eu tenha algo contra a virtualidade, pelo contrário; só não me sobra mais tempo, literalmente. Uma questão lógica de prioridades.
Abandonar Orkut, Ning, Linkedin, check.
Parar de navegar sem rumo na web, check.
Deixar as 20 listas de discussão e focar só nas 3 que são úteis, check.
Acionar o antispam do email para 90% das mensagens que entram, check.
Direcionar o Facebook só para família e amigos próximos, check.
Twittar apenas quando realmente sobra tempo, check.
Instagramar somente em deslocamento, check.
Blogar só quando tiver o que dizer, check.
Ministrar cursos? Workshops? Só os bem pagos, e poucos.
Festivais e feiras mambembes de fotografia “para fazer network”?  Tô fora!
No começo foi duro.
É como largar o cigarro. Passar perto de um teclado, olhar para uma tela de iPhone acesinha, ouvir os pings de mensagens não lidas é torturante, mas com o tempo a vontade vai passando. Há coisas mais importantes a serem feitas; criar novos objetos, realizar experimentações, produzir arte, resolver problemas reais de clientes reais, ter só conversas presenciais, andar, ver gente.
E sem aviso,  percebemos que nada de trágico acontece quando não respondemos todos os emails, quando desligamos o celular, quando nos filtramos e deixamos de ser um avatar de nós mesmos.
Os desmembramentos foram notáveis: me desfiz de um dos carros da família e passei a andar de Metrô; me mudei para um prédio que *não tem garagem*, o que me faz andar a pé a maior parte do tempo; e por andar mais, comecei a perder peso; e por perder peso comecei a me preocupar em ter uma alimentação mais saudável; e por me sentir mais leve, passei a prestar mais atenção as pessoas na rua, e a fotografar mais.
O resultado, surpreendente, é que hoje tenho muito mais tempo para o que importa: fazer o meu trabalho com a maior qualidade possível, atender com  cortesia (e Perrier), cuidar da minha família, conversar com meus poucos amigos, e fotografar o que bem entender.
Tirar os olhos da tela e olhar para o mundo é um excelente descondicionante.
Recomendo.

Update01 – Os meus principais parceiros no ADI-SP, o Felipe Baenninger e o René Lentino, usam prioritariamente a bicicleta como meio de transporte. Gente inteligente.

Instagram, vício ou virtude?

Instagram no iPhone; nunca imaginei que fosse ser tão feliz ao abandonar equipamentos pesados, princípios rígidos, regras engessadas e papos técnicos intermináveis; apertar o botão sem nenhum compromisso a não ser comigo mesmo, com um minúsculo aparelhinho que está sempre no bolso…

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