Fotografia, cultura e politica

Gerard Depardieu, mito e ídolo do cinema francês, anuncia que vai viver na Bélgica, e inclusive renunciar a cidadania francesa.
O motivo alegado? “A paisagem lá me agrada.”
A realidade? “Não quero e não vou pagar 75% de imposto sobre meus ganhos acima de 1 milhão de Euros por ano.”
Depardieu é apenas um dentre os artistas que, usando um mix de dinheiro público e patrocinadores poderosos consegue a proeza de ser mais bem pago na França que em Hollywood. Sem julgamento de mérito e sem tomar partido, um país de primeiro mundo em sérias dificuldades financeiras, que conclama seus cidadãos a que apertem os cintos e tenta aumentar a carga tributária dos muito ricos, que por sua vez fogem para países vizinhos para evitar o fisco, me faz refletir; o que, afinal, está dando tão errado por lá? Estaremos nós aqui no Brasil fadados a repetir os mesmos erros?
Não.
Os daqui são, aparentemente, piores.
Não temos, para começar, os mil anos de história para aprender com nossos erros, e também parece que preferimos não aprender com os  daqueles países muito mais antigos que nós. Estamos vivendo tempos bastante curiosos, do inferno financeiro ao paraíso da nova classe média em menos de uma década; e para o fotógrafo, sobra a percepção de que hoje todos, absolutamente todos são fotógrafos.
Onde buscar inspiração, recursos, histórias a serem contadas quando tudo parece já ter sido fotografado? Vamos dividir a resposta em partes, a começar pelos recursos, que aparentemente tem sido tão fáceis para o Depardieu.
A fotografia dita aplicada, aquela comercial ou editorial que é feita por encomenda e que é paga, é ancorada hoje por dois fatores-poita, que a imobilizam no melhor dos casos, ou a puxam inexoravelmente para o fundo:
1-) A oferta que se multiplicou (muita oferta = preços menores).
2-) A condenação à eterna repetição (tudo já foi fotografado).
Quanto menos recursos para cada fotógrafo comercial, menos ele precisa saber de fotografia, menos ele pode se equipar, menos ele precisa estudar. Os politicamente corretos sempre são a favor da democratização total do mercado, mesmo que isso implique em menos exigências técnicas e conceituais para que todos participem deste mesmo mercado, fazendo com que fotógrafos despreparados e medíocres se posicionem, a preços aviltantes, como se fossem profissionais completos. Outros, como eu, pensam que capacidade e valorização dos saberes deveriam continuar norteando a escolha dos profissionais da fotografia.
Aqui vale uma explicação; a chamada popularização da fotografia é obviamente excelente para a fotografia, que nunca vendeu tantas câmeras e nunca produziu tantas fotos, mas para a maioria dos fotógrafos comerciais foi péssima. De uma situação privilegiada, os magos-alquimistas, alguns poucos senhores dos mistérios, segredos e orçamentos da fotografia, subitamente se veem na posição incômoda de ter que disputar mercado com centenas de novos fotógrafos que, com câmeras auto-tudo, jogam por terra os mistérios e segredos e não se preocupam com orçamentos viáveis, já que não vivem exclusivamente de fotografia. A quebra de paradigmas virou este micro universo de cabeça para baixo, literalmente; o tradicional patinho feio, que sempre foi o fotógrafo de casamentos, passou a ocupar o topo da pirâmide comercial, fazendo com que o antigo cisne-fotógrafo-publicitário despencasse várias posições, o que machuca.
Muito.
Duas opções sobram para os fotógrafos comerciais tradicionais que vieram do filme, e que decidiram continuar no mercado; ou se especializam em nichos dependentes de técnicas plenas de especificidades, ou se transformam em “autorais”. No primeiro caso, os poucos que conseguiram acabaram abrindo em relação aos outros um abismo em termos de preços. Se só existem no mercado um ou dois fotógrafos especialistas em fotos de aviões em pleno voo, por exemplo, estes podem (e devem) cobrar o que quiserem. O segundo caso é muito mais complicado; por melhor ou mais bem sucedido que o fotógrafo comercial seja, ninguém “vira artista” da noite para o dia; e no caso específico do fotógrafo publicitário, a metamorfose pretendida esbarra também na barreira de preconceito e incompreensão dos que estão “do outro lado”, e a dificuldade se torna, além de conceitual, política. Publicitários, que pela própria intenção de estímulo ao consumo são vistos como de direita, se contrapõe à jornalistas, documentaristas e artistas, tradicionalmente considerados de esquerda, mesmo que ambas as posições políticas não sejam necessariamente verdadeiras; são arquétipos que se perpetuam.
Já o fator da repetição de temas é quase inevitável, pois quebrar o círculo vicioso requer uma visão muito mais interiorizada que estética, uma posição política inequívoca, repertório imagético, uma dedicação quase suicida.
É para poucos, claro.
Histórias devem ser construídas, e essa arquitetura passa sempre primeiro pela desconstrução do que se convencionou chamar de realidade; em seguida, caso o artista consiga conceituar o que seu imaginário sem antolhos previsualizou, remontar o puzzle  e transformar isso em um projeto viável, uma boa parte do percurso em busca dos recursos para materializar o idealizado terá sido cumprida. Há na verdade muito pouco de inspiração, e muito de pensar a fotografia como método de expressão pessoal ou concepção do mundo.
Mas quando falamos em captação de recursos para projetos culturais de fotografia, muitas vezes trombamos com a mediocridade explícita, tanto na captação para os projetos aprovados, dependentes dos temas que interessam politicamente ao possível beneficiário da renúncia fiscal (grandes empresas, geralmente), quanto dos próprios projetos, em grande parte mal escritos, mal pensados, mal elaborados, dificultando muito sua escolha e aprovação, produzindo como corolário projetos ruins mas aprovados, que acabam algumas vezes recebendo quantias obscenas por meio das leis de incentivo à cultura para apenas produzir lixo cultural.
O ponto crucial, neste caso, é a distorção perceptiva que acaba permeando os iniciantes; certos de que seus projetos eventualmente serão aprovados independentemente do esforço neles colocado (já que outros projetos piores o foram anteriormente), produzem menos e com menos empenho do que deveriam, perpetuando a distorção…
Não, não é apenas #mimimi de velho fotógrafo pessimista; é acordar para o fato que não há mais necessidade de livros e livros de fotografia que continuam a ser publicados com as mesmas paisagens, os mesmos passarinhos, os mesmos retratos de vaqueiros nordestinos ou de comidas mineiras; nada contra, mas há limites para a repetição ad nauseum dos mesmos temas, que se tornam banais e desinteressantes. Por outro lado, também não é fotografando vidraças desfocadas com gotinhas de chuva no Instagram que o nirvana fotográfico será revelado aos não-iniciados. A solução passa necessariamente por mais empenho, mais estudo, mais criatividade por parte dos fotógrafos, e mais rigor na aprovação dos projetos culturais.
A conclusão é que se há pouco espaço para um fotógrafo comercial bem preparado se sobressair em meio a clientes que não estão muito interessados em fotografia, mas sim em comprar commodities, também não se configurou ainda em definitivo um mecanismo que permita privilegiar financeiramente apenas os projetos culturais de fotografia que realmente se destaquem em meio a tantos outros de baixa relevância e qualidade.

Clicio Barroso Fº,  30/12/2012

PS: E neste último día do ano, Roberto Carlos segue cantando a namoradinha de um amigo dele no domingão do faustão.
É incrível.

Traído pela Apple

Logo Apple

Em 1994, comprei meu primeiro MAC; era um Apple Performa 630 CD.
Fiquei imediatamente fascinado, e nunca mais parei de comprar produtos da marca. Fui evangelista. Convenci os outros. Usei maçãs coladas em todos os meus carros. Falei mal do Windows. Zombei da Microsoft e do Gates. Me endividei. Escrevi inúmeras matérias elogiando a Apple, ministrei cursos sobre o MacOS, fotografei dezenas de vezes para a revista MacMania. Tatuei o MacIntóshico no meu ombro direito. Idolatrei o Jobs por se preocupar com o que interessava: o consumidor, o ineditismo, a simplicidade, o design.
Hoje, não existe mais Jobs. Em compensação o foco também mudou: o importante agora não é o consumidor (mesmo os fanáticos, como eu), e também não é o produto; o importante agora é o lucro, são as vendas.
Danem-se os que fielmente foram “sócios” da Apple por 20 anos, danem-se os que compraram iPads que saem de linha 6 meses após serem lançados, danem-se os que tem iPhones com mapas que não funcionam mais, danem-se aqueles que fazem upgrades inúteis de computadores, tablets e telefones (que funcionam pior que os anteriores), e são muito mais caros.
Muito bem, a minha resposta só pode uma: meu próximo tablet será de outra marca, e meu próximo telefone também.
E dane-se a Apple.
#prontofalei

UPDATE 01: O meu amigo Pedro Mac me mandou uma matéria do Globo que tem tudo a ver com esse post; vale a pena a leitura!
‘A Apple já era’, dizem os adolescentes
http://oglobo.globo.com/megazine/a-apple-ja-era-dizem-os-adolescentes-7290331

A Fotografia me enganou três vezes

©2012ClicioBarroso

Quando me interessei por fotografia, bem cedo ouvi de todos a quem consultei, incluindo meu próprio pai, que o primeiro passo seria dominar a técnica. Uma tarefa que me parecia longa e complicada, apesar de fascinante e misteriosa. Teria que aprender tudo o que pudesse sobre câmeras: pequenos formatos, médios formatos, grandes formatos. 35mm, 6x6cm, 4x5pol.
Mas isso seria apenas o básico do básico: Era mandatório também saber tudo sobre lentes, elementos, grupos, objetivas, zooms, grandes-angulares, olhos-de-peixe, teleobjetivas, macros. Aberturas de diafragma, velocidades de obturador, ASA, DIN, foco, profundidade de campo, profundidade de foco, distância hiperfocal, básculas, química, física mecânica, óptica. Filmes, filtros, reveladores, ampliadores, papéis. Nomes estranhos como Leitz, Zeiss, Schneider, Angenieux, Nikkor.
E  não, não acabava por aí; havia que se conhecer de enquadramento; composição; iluminação; direção de modelos; ângulos; plongée e contre-plongée.
Claro que isso tudo só se aprende na escola, e foi exatamente para onde fui.
O professor de fotografia era formado em engenharia óptica na Alemanha. O professor de laboratório era engenheiro químico. Uma das maiores marcas da indústria emprestava seu nome à escola. Depois de quatro semestres suados, já trabalhando como assistente de fotógrafo e respirando fotografia 24/7, achei que poderia começar minha própria carreira e “virar” fotógrafo profissional.
E então, começaram os tombos.
“Sua fotografia é muito certinha, falta personalidade”, ouvia de um; “Essa luz é uma luz covarde” vinha outro me dizer.
E descobri da maneira mais difícil que me faltava conteúdo, vivência, conceito. Saber tudo sobre equipamento e como usá-lo não significava absolutamente nada; ter controle dos processos no laboratório também não.
O que dava era para viver de fotografia comercial, reproduzindo idéias dos outros e copiando em filme o que já havia sido criado anteriormente.
Reprodutor e plagiário!
Faltava ainda muita coisa.
Primeira mentira: “Fotografia é técnica.”

Fui em busca daquilo que, pensava eu, iria modificar a minha fotografia.
Cultura fotográfica.
Comprei livros, todos os que pude. Viajei, e fui conhecer as galerias, os estúdios, os ateliers, os museus; Moma, Prado, Galleria degli Uffizi, NY Metropolitan, Guggenheim, MASP, Pinacoteca, MAM, Louvre, Musée de l’OrangerieMuseu Calouste Gulbenkian, Museu Picasso, Museu de Atenas, Museu do Cairo, Capela Sistina, ICP.
Enxurrada de imagens, de estilos, de épocas, de assuntos, de técnicas. As rupturas, do expressionismo ao surrealismo ao cubismo ao abstrato de Pollock; a Pop Art de Warhol ironizando a cultura contemporânea do consumo. Me esforcei para entender muito do que não podia compreender, estudando, viajando mais, comprando mais livros. Vivi na América do Norte e na Europa, na tentativa de absorver por osmose a cultura visual de que precisava.
A boa notícia é que minha fotografia mudou. Aprendi a olhar para o mundo de forma menos formal. Minha fotografia já não era mais tão “certinha”, tão previsível, o que me garantia uma certa liberdade, e poder viver de uma fotografia editorial que incentivava, compartilhava e absorvia idéias menos convencionais, mais pessoais. Algumas tinham um ligeiro borrado, tremido intencional de baixa velocidade para simular movimento; outras um foco seletivo tão curto que as altas-luzes se misturavam em brilhos poéticos criando um efeito de “desfoque líquido” (como o definiu um amigo fotógrafo), e muitas em ângulos bastante inusitados que permitiam que o não-mostrado fosse fabricado pela mente do observador e se transformasse em imagem, ainda que etérea.
A partir dessa experiência preparei esse meu melhor material não-comercial e o apresentei as galerias e marchands, para expor onde fosse possível; o amadurecimento do trabalho me parecia suficiente para que as minhas “fotografias autorais” fossem aceitas de imediato.
Mas não foi bem assim.
Descobri da maneira mais difícil que me faltava pensamento, profundidade, história. Apesar da trajetória bem sucedida na fotografia editorial e da cultura visual adquirida que me permitia romper com os paradigmas da fotografia comercial tradicional, apenas técnica e olhar não significavam absolutamente nada.
Dava sim para continuar vivendo de uma fotografia comercial menos previsível, e também dava para ensinar um pouco do que já havia sido criado anteriormente, por artistas e fotógrafos relevantes. Mas não mais que isso.
Produtor e instrutor!
Faltava ainda muita coisa.
Segunda mentira: “Fotografia é só olhar.”

Voltei para a escola.
O ambiente acadêmico, com seu lastro de pesquisa, de aprofundamento, suas referências, debates, palestras e simpósios só poderiam ajudar a desenvolver o pensamento fotográfico que me faltava. Apesar da surpresa inicial de constatar que a maioria absoluta dos mestres e doutores é incapaz de produzir uma única imagem decente (com raras e conhecidas exceções!), o pensar imagético me pareceu instigante, um desafio intelectual com passeios adoráveis pela filosofia, astronomia, psicologia, mecânica quântica, genética e poesia. A falta de imagens é largamente compensada pelos outros saberes, e a ausência da obrigatoriedade da fotografia aplicada, do ato fotográfico em si, é libertadora ao extremo.
Aqui cabem duas interrupções na linha de pensamento que estamos traçando;
1-) Não só os doutores em fotografia, mas também a grande maioria dos críticos, curadores, filósofos, galeristas e marchands é incapaz de fotografar sem que tentem justificar o injustificável com longos e indecifráveis textos, por vezes totalmente disassociados das imagens em questão. Claro, não são fotógrafos, e deles não se deve cobrar boas fotografias!
2-) A Academia nos dá disciplina, cultura adquirida, deadlines, referências, trabalho em equipe, discussões interessantíssimas, respaldo intelectual, e prestígio. É uma oportunidade que não deve ser desprezada por ninguém, mesmo que não se produza uma única fotografia durante o curso.
O ambiente acadêmico me permitiu sonhar mais, dedicar mais tempo a leitura, pesquisar mais profundamente, a respeitar pontos-de-vista diametralmente opostos aos meus. Além da leitura obrigatória dos autores fundamentais como Roland Barthes, Vilém Flusser, Susan Sontag, Walter Benjamin, Rosalind Krauss, Jean Baudrillard, Philippe Dubois, Arlindo Machado ou Boris Kossoy (dentre muitos outros), poder desfrutar da inteligência e sabedoria  de Helouise Costa, Rosely Nakagawa, Lucia Santaella, Simonetta Persichetti ou Annateresa Fabris (dentre muitas outras) é algo que não se esquece.
Mais uma vez a minha fotografia mudou; ganhou intenção, um pensamento prévio, tornou-se mais econômica e sintética; descolou-se dos aparelhos (técnica, equipamento, fetiches); desvencilhou-se dos truques fáceis (desfoques, movimentos desnecessários, tratamento de imagem).
Pronto.
Eu estava pronto para o sucesso.
Mas..
Descobri da maneira mais difícil que as minhas imagens careciam de emoção, de contar uma história intrigante, eloquente ou socialmente relevante de modo não-linear, faltava nelas força política e de denúncia. Apesar de toda a cultura acadêmica, apenas técnica, olhar, pensamento, profundidade e história não significavam absolutamente nada.
Faltava ainda muita coisa.
Terceira mentira: “Fotografia é pensamento.”

Então…
Fotografia é emoção?
Fotografia é política?
Fotografia é documento?
Fotografia é construção de realidades?

Fotografia, agora todos já sabemos, pode ser muito complexa.
Ao substituir a pintura (que segundo muitos autores se auto-esgotou no século XX) como método visual preferencial de expressão artística contemporânea, a Fotografia pode ser  olhar, cultura, documento, expressão, linguagem, filosofia, técnica. Ou um pouco de tudo isso junto, em maiores ou menores porcentagens.
Essas três, ou cinco, ou doze mentiras só são mentiras quando tomadas isoladamente; quando somadas, deixam de sê-lo.
Se ouvimos fotógrafos falando em tom irônico de fotografias feitas por cegos, como por exemplo as de Evgen Bavcar, temos primeiro que entender a experiência vivenciada pelo Dr. Oliver Saks, descrita no livro “Um antropólogo em Marte“, de um seu paciente cego que tem sua visão cirurgicamente recuperada, mas ESCOLHE permanecer cego pois a sua maneira de “enxergar”o mundo lhe faz muito mais sentido do que aquela que a “visão” lhe trouxe.

A partir do momento em que compreendi que todos os saberes possíveis não transformariam a minha fotografia em Arte, ela mudou novamente; agora fotografo o que quero, quando quero, do jeito que bem entendo. Mostro um pouco de mim, um pouco do mundo, construo realidades. Manipulo. Uso a técnica a meu favor. Desfoco. Foco. Sou livre com a minha maneira de olhar ou imaginar o que está ao meu redor.
Entendi, finalmente, que a minha fotografia é o que ela é.
Única, tão minha quanto a minha voz ou as minhas impressões digitais, e será considerada Arte quando alguém, que não eu, assim a enxergar.
Como me alertou mais de uma vez o meu amigo Pepe Mélega, não sou artista.
Sou fotógrafo.

 

UPDATE 01: O Iatã Cannabrava me lembrou de um artigo antigo, aqui postado, e que discute a existência ou não do talento; a discussão foi *muito* interessante, gerou mais de 80 comentários bem embasados, e talvez valha a pena ser revisitado.
Fica aqui o link:
http://www.clicio.com.br/blog/2009/talento-nao-existe-nao/

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Photography deceived me thrice  -  Photographie m’a trompé trois fois

Descondicionando o olhar

Instagram ©Clicio

É provável que o grande Cláudio Feijó não se incomode com minha apropriação indébita do nome de seu mais famoso workshop; mas como sou veterano (fiz o descondicionamento duas vezes e sobrevivi para contar), aprendi lá mesmo que descondicionar também significa aumentar o nível de tolerância com as modernidades dos amigos, logo está tudo OK, penso eu.
O que interessa é que nada poderia ter sido melhor que o choque de realidade que tenho vivido.
Depois de uma década plugado, fulltime online, quase um ser virtual, decidi voltar a me dedicar a algo mais tangível, que produzisse objetos ou produtos, e que pudesse ser feito com as mãos; em fevereiro de 2010 abri um núcleo do ADI-Atelier de Impressão em São Paulo. Basicamente impressão de fotografias, metacrilatos e obras de arte de alta qualidade, aliado a atendimento personalizado em um lugar físico onde as pessoas pudessem ter orientação prática de como preparar corretamente suas obras a serem impressas.
Moleza, né? Facinho, passar o dia inteiro sentado na cadeira ergonômica, no ar-condicionado, apertando a tecla “P” e depois correr para a caixa registradora (tá bom, Redecard).
Só que não foi bem assim…
Desde o primeiro dia em fevereiro, o ritmo só aumentou; fazer acabamento em metacrilato é uma atividade insana! O processo tem tudo para dar errado, as variáveis são inúmeras, os materiais extremamente frágeis, o trabalho que demanda é exaustivo… Mas absolutamente libertador.
Explico: usar suas próprias mãos fazendo trabalho que exija habilidade e esforço, ter prazos beirando o impossível, suar muito, faz com que o ser-amorfo que passava o dia inteiro na frente de monitores enxergue que a realidade pode ser diferente. Que existe outra maneira de enxergar o mundo, esquecida. Não que eu tenha algo contra a virtualidade, pelo contrário; só não me sobra mais tempo, literalmente. Uma questão lógica de prioridades.
Abandonar Orkut, Ning, Linkedin, check.
Parar de navegar sem rumo na web, check.
Deixar as 20 listas de discussão e focar só nas 3 que são úteis, check.
Acionar o antispam do email para 90% das mensagens que entram, check.
Direcionar o Facebook só para família e amigos próximos, check.
Twittar apenas quando realmente sobra tempo, check.
Instagramar somente em deslocamento, check.
Blogar só quando tiver o que dizer, check.
Ministrar cursos? Workshops? Só os bem pagos, e poucos.
Festivais e feiras mambembes de fotografia “para fazer network”?  Tô fora!
No começo foi duro.
É como largar o cigarro. Passar perto de um teclado, olhar para uma tela de iPhone acesinha, ouvir os pings de mensagens não lidas é torturante, mas com o tempo a vontade vai passando. Há coisas mais importantes a serem feitas; criar novos objetos, realizar experimentações, produzir arte, resolver problemas reais de clientes reais, ter só conversas presenciais, andar, ver gente.
E sem aviso,  percebemos que nada de trágico acontece quando não respondemos todos os emails, quando desligamos o celular, quando nos filtramos e deixamos de ser um avatar de nós mesmos.
Os desmembramentos foram notáveis: me desfiz de um dos carros da família e passei a andar de Metrô; me mudei para um prédio que *não tem garagem*, o que me faz andar a pé a maior parte do tempo; e por andar mais, comecei a perder peso; e por perder peso comecei a me preocupar em ter uma alimentação mais saudável; e por me sentir mais leve, passei a prestar mais atenção as pessoas na rua, e a fotografar mais.
O resultado, surpreendente, é que hoje tenho muito mais tempo para o que importa: fazer o meu trabalho com a maior qualidade possível, atender com  cortesia (e Perrier), cuidar da minha família, conversar com meus poucos amigos, e fotografar o que bem entender.
Tirar os olhos da tela e olhar para o mundo é um excelente descondicionante.
Recomendo.

Update01 – Os meus principais parceiros no ADI-SP, o Felipe Baenninger e o René Lentino, usam prioritariamente a bicicleta como meio de transporte. Gente inteligente.

Instagram, vício ou virtude?

Instagram no iPhone; nunca imaginei que fosse ser tão feliz ao abandonar equipamentos pesados, princípios rígidos, regras engessadas e papos técnicos intermináveis; apertar o botão sem nenhum compromisso a não ser comigo mesmo, com um minúsculo aparelhinho que está sempre no bolso…

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