dezembro 31, 2012
Fotografia, cultura e politica
Gerard Depardieu, mito e ídolo do cinema francês, anuncia que vai viver na Bélgica, e inclusive renunciar a cidadania francesa.
O motivo alegado? “A paisagem lá me agrada.”
A realidade? “Não quero e não vou pagar 75% de imposto sobre meus ganhos acima de 1 milhão de Euros por ano.”
Depardieu é apenas um dentre os artistas que, usando um mix de dinheiro público e patrocinadores poderosos consegue a proeza de ser mais bem pago na França que em Hollywood. Sem julgamento de mérito e sem tomar partido, um país de primeiro mundo em sérias dificuldades financeiras, que conclama seus cidadãos a que apertem os cintos e tenta aumentar a carga tributária dos muito ricos, que por sua vez fogem para países vizinhos para evitar o fisco, me faz refletir; o que, afinal, está dando tão errado por lá? Estaremos nós aqui no Brasil fadados a repetir os mesmos erros?
Não.
Os daqui são, aparentemente, piores.
Não temos, para começar, os mil anos de história para aprender com nossos erros, e também parece que preferimos não aprender com os daqueles países muito mais antigos que nós. Estamos vivendo tempos bastante curiosos, do inferno financeiro ao paraíso da nova classe média em menos de uma década; e para o fotógrafo, sobra a percepção de que hoje todos, absolutamente todos são fotógrafos.
Onde buscar inspiração, recursos, histórias a serem contadas quando tudo parece já ter sido fotografado? Vamos dividir a resposta em partes, a começar pelos recursos, que aparentemente tem sido tão fáceis para o Depardieu.
A fotografia dita aplicada, aquela comercial ou editorial que é feita por encomenda e que é paga, é ancorada hoje por dois fatores-poita, que a imobilizam no melhor dos casos, ou a puxam inexoravelmente para o fundo:
1-) A oferta que se multiplicou (muita oferta = preços menores).
2-) A condenação à eterna repetição (tudo já foi fotografado).
Quanto menos recursos para cada fotógrafo comercial, menos ele precisa saber de fotografia, menos ele pode se equipar, menos ele precisa estudar. Os politicamente corretos sempre são a favor da democratização total do mercado, mesmo que isso implique em menos exigências técnicas e conceituais para que todos participem deste mesmo mercado, fazendo com que fotógrafos despreparados e medíocres se posicionem, a preços aviltantes, como se fossem profissionais completos. Outros, como eu, pensam que capacidade e valorização dos saberes deveriam continuar norteando a escolha dos profissionais da fotografia.
Aqui vale uma explicação; a chamada popularização da fotografia é obviamente excelente para a fotografia, que nunca vendeu tantas câmeras e nunca produziu tantas fotos, mas para a maioria dos fotógrafos comerciais foi péssima. De uma situação privilegiada, os magos-alquimistas, alguns poucos senhores dos mistérios, segredos e orçamentos da fotografia, subitamente se veem na posição incômoda de ter que disputar mercado com centenas de novos fotógrafos que, com câmeras auto-tudo, jogam por terra os mistérios e segredos e não se preocupam com orçamentos viáveis, já que não vivem exclusivamente de fotografia. A quebra de paradigmas virou este micro universo de cabeça para baixo, literalmente; o tradicional patinho feio, que sempre foi o fotógrafo de casamentos, passou a ocupar o topo da pirâmide comercial, fazendo com que o antigo cisne-fotógrafo-publicitário despencasse várias posições, o que machuca.
Muito.
Duas opções sobram para os fotógrafos comerciais tradicionais que vieram do filme, e que decidiram continuar no mercado; ou se especializam em nichos dependentes de técnicas plenas de especificidades, ou se transformam em “autorais”. No primeiro caso, os poucos que conseguiram acabaram abrindo em relação aos outros um abismo em termos de preços. Se só existem no mercado um ou dois fotógrafos especialistas em fotos de aviões em pleno voo, por exemplo, estes podem (e devem) cobrar o que quiserem. O segundo caso é muito mais complicado; por melhor ou mais bem sucedido que o fotógrafo comercial seja, ninguém “vira artista” da noite para o dia; e no caso específico do fotógrafo publicitário, a metamorfose pretendida esbarra também na barreira de preconceito e incompreensão dos que estão “do outro lado”, e a dificuldade se torna, além de conceitual, política. Publicitários, que pela própria intenção de estímulo ao consumo são vistos como de direita, se contrapõe à jornalistas, documentaristas e artistas, tradicionalmente considerados de esquerda, mesmo que ambas as posições políticas não sejam necessariamente verdadeiras; são arquétipos que se perpetuam.
Já o fator da repetição de temas é quase inevitável, pois quebrar o círculo vicioso requer uma visão muito mais interiorizada que estética, uma posição política inequívoca, repertório imagético, uma dedicação quase suicida.
É para poucos, claro.
Histórias devem ser construídas, e essa arquitetura passa sempre primeiro pela desconstrução do que se convencionou chamar de realidade; em seguida, caso o artista consiga conceituar o que seu imaginário sem antolhos previsualizou, remontar o puzzle e transformar isso em um projeto viável, uma boa parte do percurso em busca dos recursos para materializar o idealizado terá sido cumprida. Há na verdade muito pouco de inspiração, e muito de pensar a fotografia como método de expressão pessoal ou concepção do mundo.
Mas quando falamos em captação de recursos para projetos culturais de fotografia, muitas vezes trombamos com a mediocridade explícita, tanto na captação para os projetos aprovados, dependentes dos temas que interessam politicamente ao possível beneficiário da renúncia fiscal (grandes empresas, geralmente), quanto dos próprios projetos, em grande parte mal escritos, mal pensados, mal elaborados, dificultando muito sua escolha e aprovação, produzindo como corolário projetos ruins mas aprovados, que acabam algumas vezes recebendo quantias obscenas por meio das leis de incentivo à cultura para apenas produzir lixo cultural.
O ponto crucial, neste caso, é a distorção perceptiva que acaba permeando os iniciantes; certos de que seus projetos eventualmente serão aprovados independentemente do esforço neles colocado (já que outros projetos piores o foram anteriormente), produzem menos e com menos empenho do que deveriam, perpetuando a distorção…
Não, não é apenas #mimimi de velho fotógrafo pessimista; é acordar para o fato que não há mais necessidade de livros e livros de fotografia que continuam a ser publicados com as mesmas paisagens, os mesmos passarinhos, os mesmos retratos de vaqueiros nordestinos ou de comidas mineiras; nada contra, mas há limites para a repetição ad nauseum dos mesmos temas, que se tornam banais e desinteressantes. Por outro lado, também não é fotografando vidraças desfocadas com gotinhas de chuva no Instagram que o nirvana fotográfico será revelado aos não-iniciados. A solução passa necessariamente por mais empenho, mais estudo, mais criatividade por parte dos fotógrafos, e mais rigor na aprovação dos projetos culturais.
A conclusão é que se há pouco espaço para um fotógrafo comercial bem preparado se sobressair em meio a clientes que não estão muito interessados em fotografia, mas sim em comprar commodities, também não se configurou ainda em definitivo um mecanismo que permita privilegiar financeiramente apenas os projetos culturais de fotografia que realmente se destaquem em meio a tantos outros de baixa relevância e qualidade.
Clicio Barroso Fº, 30/12/2012
PS: E neste último día do ano, Roberto Carlos segue cantando a namoradinha de um amigo dele no domingão do faustão.
É incrível.







