O alento do tempo

 

Lendo o excelente livro “Fazer acontecer”, do publicitário Julio Ribeiro, tropeço em uma frase que sintetiza o que venho maturando há meses;

“A arte pela arte e o brilho pelo prazer de brilhar são leviandades caras e perigosas.”

Em tempos de internet selvagem, onde a autopromoção reina absoluta e todos se acham geniais, encontrar humildade e autocrítica necessárias para deixar de publicar o que não interessa a ninguém mais além do próprio autor, parece ser uma tarefa impossível.

O problema são os mitos; aquele que afirma que “estar permanentemente na mídia” é o que realmente importa, o que diz “quem não é visto é esquecido”, ou o batido “falem bem ou mal, mas falem de mim”.
Pura vaidade. Vã ilusão de ser algo ou alguém, apoiando-se em nuvens.
Balela.

Vejamos um exemplo simples e popular, o Twitter; milhares de pessoas postando irrelevâncias pueris, expondo-se gratuitamente, virando chacota. Quem está ligando se o gato do fulano subiu no piano? A quem interessa o bom ou mau humor da namorada de sicrano? Ou se beltrano está comendo um brioche na padaria da esquina? Puro tempo perdido.

Irrecuperável.

O tempo é cura para as mazelas de amor, o tempo é pai da experiência, mas o passar do tempo nos aproxima da inevitável morte.
Desperdiçá-lo lendo ou publicando bobagens, fazendo marketing pessoal vazio, achando que lá na frente estará a recompensa é pura ilusão. O “lá na frente” é inatingível, inacessível, uma mera abstração; mais vale aproveitar o que se tem, o presente (que é um presente!), para realizar o tangível. Fazer acontecer.

Um fotógrafo tem que se impor pela qualidade e relevância de seu trabalho; é este que deve falar, gritar, aparecer. Sem trabalho, não há sustentação possível, nem assunto para publicar nada. Obviamente, porém, ele tem que divulgar o seu trabalho, tem que estar nos sites de relacionamento, tem que se mostrar ativo, sob pena de, ao ser alcançado pela avassaladora e diária quantidade de informações, eventos, exposições, textos e imagens, ser engolido e submergir, desaparecendo sem deixar traço.

Mas como fazê-lo?

Sugiro começar com um trabalho fotográfico sólido, maduro, embasado em história, teoria, livros, museus e experiência. Sem o trabalho, qualquer tentativa de divulgação acaba em vapor, em fumaça. Primeiro tenha orgulho do que produziu e certeza do que tem para mostrar.

Depois, apresentar esse trabalho a quem interessa, a quem o entende e aprecia, possibilitando a encomenda de novos trabalhos. E quem interessa são clientes para fotógrafos comerciais, curadores e galerias para fotógrafos autorais.

Em seguida, como rezam as boas regras da publicidade, mostrar o que se tem de melhor e esconder os fracassos. Em um bonito portfólio impresso com os melhores papéis, em fotolivros de diversos tamanhos para presentear, em um site profissional (não no Flickr), em mailings eletrônicos periódicos e dirigidos. Exposições em galerias de arte são sempre eficazes e geram mídia espontânea.

Buscar então os prêmios, que são visibilidade a baixo custo; alguns, inclusive, são bem lucrativos! Porto Seguro; Conrado Wessel; Bienais. Fugir, no entanto, dos prêmios caça-bancos de imagem, aqueles que ficam com todos os direitos de uso das fotografias em troca de troco para o fotógrafo; são a maioria.

Aí sim, se integrar a comunidades, virtuais ou não; associações, redes, fotoclubes, para troca real de experiências, promover a cultura fotográfica e ajuda mútua. Acredite, são sérias: Abrafoto, Fototech, Aphoto, Confoto, RPCFB, temos muitos exemplos espalhados pelo Brasil.

E então, *se sobrar tempo*, postar, discutir e comentar em blogs de fotografia e publicar suas fotos em sites de relacionamento, mesmo ciente dos riscos que todos corremos: uso não autorizado das imagens, contratos e têrmos de adesão esquisitos, milhões de puxa-sacos que elogiam qualquer coisa (sim, tem gente que fotografa muito pior que você e vai sempre lhe achar um gênio), e outros milhares de carentes que vão lhe deixar constrangido insistindo para que você veja e comente os *seus (deles) trabalhos toscos*, que você já viu e detestou.

O alento que o tempo me traz é a certeza de que sempre se pode repensar as estratégias, sempre se pode interromper um processo auto-destrutivo, corrigir rumos, reestabelecer as prioridades, e focar.

E assim progredir.

O eu não tem a menor importância, posto que vai desaparecer, mais cedo ou mais tarde; o meu também não, já que se eu não sou, não posso ter; resta apenas o fruto do meu trabalho, que para ter relevância, precisa da minha total atenção.
Agora.

Ah, continuo me divertindo muito com meus amigos no Facebook; é uma gigantesca mesa de bar, onde se vai de tempos em tempos para se jogar conversa fora, fazer convites para exposições e eventos, e provocar aqueles que se levam a sério e acham que viver é passar a vida a teclar bobagens.