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É provável que o grande Cláudio Feijó não se incomode com minha apropriação indébita do nome de seu mais famoso workshop; mas como sou veterano (fiz o descondicionamento duas vezes e sobrevivi para contar), aprendi lá mesmo que descondicionar também significa aumentar o nível de tolerância com as modernidades dos amigos, logo está tudo OK, penso eu.
O que interessa é que nada poderia ter sido melhor que o choque de realidade que tenho vivido.
Depois de uma década plugado, fulltime online, quase um ser virtual, decidi voltar a me dedicar a algo mais tangível, que produzisse objetos ou produtos, e que pudesse ser feito com as mãos; em fevereiro de 2010 abri um núcleo do ADI-Atelier de Impressão em São Paulo. Basicamente impressão de fotografias, metacrilatos e obras de arte de alta qualidade, aliado a atendimento personalizado em um lugar físico onde as pessoas pudessem ter orientação prática de como preparar corretamente suas obras a serem impressas.
Moleza, né? Facinho, passar o dia inteiro sentado na cadeira ergonômica, no ar-condicionado, apertando a tecla “P” e depois correr para a caixa registradora (tá bom, Redecard).
Só que não foi bem assim…
Desde o primeiro dia em fevereiro, o ritmo só aumentou; fazer acabamento em metacrilato é uma atividade insana! O processo tem tudo para dar errado, as variáveis são inúmeras, os materiais extremamente frágeis, o trabalho que demanda é exaustivo… Mas absolutamente libertador.
Explico: usar suas próprias mãos fazendo trabalho que exija habilidade e esforço, ter prazos beirando o impossível, suar muito, faz com que o ser-amorfo que passava o dia inteiro na frente de monitores enxergue que a realidade pode ser diferente. Que existe outra maneira de enxergar o mundo, esquecida. Não que eu tenha algo contra a virtualidade, pelo contrário; só não me sobra mais tempo, literalmente. Uma questão lógica de prioridades.
Abandonar Orkut, Ning, Linkedin, check.
Parar de navegar sem rumo na web, check.
Deixar as 20 listas de discussão e focar só nas 3 que são úteis, check.
Acionar o antispam do email para 90% das mensagens que entram, check.
Direcionar o Facebook só para família e amigos próximos, check.
Twittar apenas quando realmente sobra tempo, check.
Instagramar somente em deslocamento, check.
Blogar só quando tiver o que dizer, check.
Ministrar cursos? Workshops? Só os bem pagos, e poucos.
Festivais e feiras mambembes de fotografia “para fazer network”?  Tô fora!
No começo foi duro.
É como largar o cigarro. Passar perto de um teclado, olhar para uma tela de iPhone acesinha, ouvir os pings de mensagens não lidas é torturante, mas com o tempo a vontade vai passando. Há coisas mais importantes a serem feitas; criar novos objetos, realizar experimentações, produzir arte, resolver problemas reais de clientes reais, ter só conversas presenciais, andar, ver gente.
E sem aviso,  percebemos que nada de trágico acontece quando não respondemos todos os emails, quando desligamos o celular, quando nos filtramos e deixamos de ser um avatar de nós mesmos.
Os desmembramentos foram notáveis: me desfiz de um dos carros da família e passei a andar de Metrô; me mudei para um prédio que *não tem garagem*, o que me faz andar a pé a maior parte do tempo; e por andar mais, comecei a perder peso; e por perder peso comecei a me preocupar em ter uma alimentação mais saudável; e por me sentir mais leve, passei a prestar mais atenção as pessoas na rua, e a fotografar mais.
O resultado, surpreendente, é que hoje tenho muito mais tempo para o que importa: fazer o meu trabalho com a maior qualidade possível, atender com  cortesia (e Perrier), cuidar da minha família, conversar com meus poucos amigos, e fotografar o que bem entender.
Tirar os olhos da tela e olhar para o mundo é um excelente descondicionante.
Recomendo.

Update01 – Os meus principais parceiros no ADI-SP, o Felipe Baenninger e o René Lentino, usam prioritariamente a bicicleta como meio de transporte. Gente inteligente.