por clicio em 27 de fevereiro, 2010
Terry Richardson & Tostines
Em 01 de Dezembro de 2007, foi postado por mim no Tramafotográfica (da Simonetta Persichetti) este pequeno artigo, que deu margem a muito assunto, e que vem sendo discutido até hoje. Com autorização da Simonetta, resolvi republicá-lo aqui com a adição de um comentário de Rubens Barbosa Filho, pertinente e correto.
Este artigo também originou o meu próximo, que já está disponível, e se chama “O fotógrafo egocêntrico”.
Enjoy!
Terry Richardson & Tostines
Um breve artigo intitulado Assimetria Criativa, publicado por Ivan de Almeida em seu blog, despertou minha atenção por tratar do assunto técnica/conceito/linguagem de uma forma elegante. Ivan se apoiou em uma conhecida foto de David LaChapelle para, em torno dela, desenvolver seu raciocínio; muitos criticaram a sua escolha, pois em se falando sobre imagens não-nítidas ficou a dúvida; a foto em questão, quando vista em seu contexto mais conhecido que é o impresso, tem nitidez de sobra, que perde notavelmente quando vista na Internet.
Ora, o que poderia ser um demérito ao artigo de Ivan acabou sendo uma vantagem, pois os fotógrafos já não tem mais controle absoluto de como ou onde as suas fotografias vão ser vistas, e não podem prever o ambiente do observador; o que deixa o ponto em questão mais fortalecido! A foto é boa com ou sem nitidez, principalmente quando se conhece a importância do autor…
O que nos leva ao trabalho de Terry Richardson.
Filho de Bob Richardson, famoso fotógrafo de moda na “Swinging London” dos anos 60, Terry sabe muito de fotografia, convencional ou não. Talvez por tédio fotográfico, ou esperta jogada de marketing, acabou se dedicando ultimamente ao estilo Gonzo, sempre usado com maestria por Nobuyoshi Araki desde “Tokio Lucky Hole”, e que vagamente remete aos autorretratos e espelhos ensaiados anteriormente pela Nan Goldin.
Aliás, ambos declaradamente são fortes influências na carreira de Richardson.
A maior resistência ao trabalho de Terry acaba vindo justamente daqueles fotógrafos ou críticos mais técnicos, que questionam a aparente crueza e falta de sofisticação dos enquadramentos, iluminação e direção de cena apresentados em suas fotos.
Tome-se como exemplo a sua foto mostrada acima; contém todos os elementos considerados criminosos por qualquer autor de apostila de fotografia básica! A foto não é nítida; a luz, dura e direta, clareia em excesso o seio em primeiro plano; o enquadramento é absurdo, com o tal seio ocupando 2/3 da imagem; o rosto, esmagado na diagonal superior do quadro tem as narinas de frente para a camera, dois infinitos buracos negros.
E, claro, axilas peludas sempre se parecem com ouriços.
Mas a foto virou capa de um livro,“Feared by Men, Desired by Women”! E fez sucesso absoluto quando vendido durante a exposição de mesmo nome, na galeria Michael Hoppen, em Londres.
Claro que é uma estética muito peculiar, baseada em conhecimento real e sofisticado de fotografia, mas totalmente corriqueira na Internet; quantas imagens porn ou gonzo como essa recebemos por dia em nossas lotadas caixas-postais de e-mail? Quantos popups se abrem em nossos computadores repentinamente mostrando filmes “caseiros” com a mesma linguagem? Quantos adolescentes por dia fotografam os amigos bêbados usando celulares?
O rigor técnico é totalmente sobreposto pela necessidade de comunicar, usando a linguagem das “point ‘n shoot” mais populares. O que o Terry faz é se apropriar desta linguagem (afinal, ele não passa de um adolescente brincalhão…) e a transformar em dinheiro.
Dinheiro de verdade, como podem atestar as marcas (de Vogue a Sisley a Gucci: veja lista de clientes em seu site) que pagam os milhões de dólares que ajudam a criar e sustentar o mito.
Mudou o modo que vemos fotografias? A estética é orgânica e flui com o passar dos tempos? A técnica nunca teve real importância? Não, essas não são as perguntas certas, pois as respostas serão sempre sim.
O mistério maior, aquele a que aludiu o Ivan em seu artigo, continua sem resposta: Terry Richardson é famoso pelas boas fotos que faz, ou as fotos se tornam famosas e boas por terem sido feitas pelo Terry?
Não sei.
Só sei que não consigo parar de olhar para esta foto.
Update01: O comentário de Rubens Barbosa Filho, postado no site Tramafotográfica, segue abaixo:
Oi Clicio.Tentei entender melhor a tal da fotografia gonzo. O criador do estilo gonzo foi o jornalista norte-americano Hunter S. Thompson. O jornalismo gonzo, para muitos, nem é considerado uma forma de jornalismo devido à falta de objetividade e falta de seriedade com que trata a matéria. Hunter também fotografou. Sua imagem de uma garota nua na privada com a mascara de Nixon e falando ao telefone podia ter sido feita por Terry Richardson e o próprio Hunter está sempre presente nas suas fotografias. Gonzo também é um termo bastante popular na pornografia (filmes pornô gonzo) e recentemente fez muito sucesso na televisão e no cinema com Jackass. O termo gonzo veio de outra mídia, o jornalismo. Então pra ser fotografia gonzo ela deve ter as características do gonzo. Não basta estar somente presente na cena. O trabalho pessoal e explicitamente sexual de Terry Richardson (não a fotografia que você mostrou especificamente) possui as características do gonzo como o deboche, o sarcasmo e ele muitas vezes também é associado a pornografia. O Araki possui as mesmas características no divertido Tokyo Lucky Hole. Clicio, você escreveu que Nan Goldin ensaiou o estilo gonzo em The Other Side, mas lá ela nem esta presente nas imagens. Só tem um retrato dela feito por David Armstrong antes dos créditos e da introdução. Algumas pessoas realmente associam Nan e Clark como os precursores da fotografia gonzo. Mas ambos são documentaristas sérios. Não possuem as características do gonzo. Nada mais correto dar o crédito como precursor da fotografia gonzo a Hunter S. Thompson. Clicio, como disse a Claudia no post acima o que importa é cada um com o seu estilo. Todos os citados são muito bons. Goste-se ou não.
Parabéns para a Simonetta por abrir esse espaço onde fotógrafos podem discutir idéias democraticamente.
O site com as fotografias de Hunter S. Thompson é:
http://www.mbfala.com/artists/_Hunter%20S.%20Thompson/”
Update02: O artigo original pode ser visto no Tramafotográfica.
Update 03: Um artigo relacionado a esse, intitulado “Quando o fotógrafo vira muso”, foi postado por Estudio Madalena no blog do Paraty em Foco (PEF), e vale a pena ser lido.





10 Comentários
Gostei do texto e estou lendo. O link para fotos de Hunter S. Thompson não funcionou. Este funciona.
http://www.mbfala.com/artists/_Hunter%20S.%20Thompson/
Abraço!
Adorei o texto e o tema… Essa área da fotografia sempre me chamou mta atenção, vejo a cada dia pessoas fazendo coisas estranhas e ganhando mta grana como também vejo trabalhos brilhantes, onde o fotógrafo que paga pra trabalhar…
abs…
Se alguns links não funcionam, é porque o artigo é de 2007, e foram por algum motivo modificados ou retirados.
Vou substituí-los, com a ajuda de vocês.
Leonora, obrigado!
Clicio
Eu gosto desta foto mas não curto muito o trabalho deste maluco não… agora nunca achei que a nitidez fosse “determinante” para o sucesso de uma foto. Bem eu como não levo a fotografia como profissão e sim como: algo que eu tenho que fazer, não estou nem ai para a nitidez – porque não me interessa – na maior parte do tempo. O equilibrio de uma imagem ate certo ponto pode ser analisada, estudada, conceituada, definida e tal, mas sempre havera algo de “misterio”, a se revelar pelo talento do fotografo e somente dele(a).
Dizem que a vida se torna uma aventura quando se é narrada, e o artista vai revelando sua propia historia… A obra que instiga não é feita sem riscos.
Sobre o equilibrio da imagem descobri este titulo no blog da Luciana Cavalcanti, que para um leigo como eu foi muito bom ter lido:
Sintaxe da linguagem visual, Donis A. Dondis – Na verdade, o título original é “A Primer of Visual Literacy”. Uma tradução correta seria algo como “Princípios de alfabetismo visual”.
Na verdade acho que muitas vezes a nitidez nos impede de ver a profundidade/superficialidade das “coisas”. Mas este Terry não curto não… prefiro o japa… a Goldin… perturbadora. Quando ando perturbado – costumo ouvir vozes dentro da minha cabeça – não vejo Nan Goldin, nem gonzo. isso me deprime.
Oi Clicio, obrigado pela gentileza de me citar e parabéns pelo seu sucesso. Abraço.
Olá Clicio,
É muito interessante como diante toda evolução tecnológica que vivemos, existem uma porção de fotógrafos, consagrados ou emergentes, que vem buscando propositalmente uma estética mais crua, mais granulada, mais soft, mais casual….
Pode-se traçar um paralelo com outras manifestações artística.
E acredito que isso ocorre pois as pessoas estão querendo trazer a tona mais realidade, mais verdade, mais vida, mais profundidade em detrimento de todo um “movimento” perfeccionista e muitas vezes frio que a fotografia digital provocou com suas inúmeras possibilidades.
Essa foto em específico não me agrada, mas aprecio muito o trabalho de Terry Richardson.
Afinal, fotografar o calendário Pirelli 2010 com um flash direto não é para qualquer um….é preciso saber muito bem o que se esta fazendo, e que resultado se pretende chegar.
Ou em outros casos, é no mínimo interessante ver como ele consegue retratar a verdade de “personagens” da vida noturna com uma simples máquina compacta de filme e flashizinho embutido…..
Abraços
Grandes questionamentos… Numa análise superficial, acho sim que as fotos se tornam famosas por terem sido feitas pelo Terry. Mas, para isso, logicamente o Terry teve antes que se destacar e aparecer, então algum valor diferencial o trabalho dele tem. Ou talvez ele tenha um grande projeto de marketing pessoal…
Enfim, eu até gosto do trabalho dele, estou vendo um vídeo com o making of do calendário da Pirelli, aparentemente as fotos ficaram bem “borracharia”, e é interessante vê-lo em ação…
Ainda não conheço os outros citados.
Clício, não é de hoje que me estranha muito ver críticos, jornalístas e colegas fotógrafos, atacarem formas de expressão, principalmente na arte, e em especial, na fotografia, quando essas mesmas vozes sempre se disseram portadoras da verdade, pregadoras da liberdade de imprensa, de expressão…
Bom, não é bem isso que vemos na maior parte das vezes!
Quer dizer então que uma foto “tecnicamente” errada não tem valor?
Humm..quer dizer que devo deixar de gostar de algumas das melhores fotos do Henry Cartier Bresson, por não terem foco ou estarem tremida?
Acho que esse tipo de análise é o mesmo que dizer que uma gravura reproduzindo ad infinitun latas de sopas Campbel não sejam arte…
Esse tipo de críticas não é exclusividade da fotografia, haja visto que os maiores pintores da modernidade sofreram igual preconceito.
Creio que não devemos estar apegados a nada, devemos ter distânciamento para ver, e principalmente, nos dias de hoje, não dizer que essa ou aquela fotografia está correta ou errada, pois é puro erro, ou no mínimo, imprudência e falta de visão para o que vem pela frente!
Os tempos mudaram, os tempos estão mudando e nós estamos bem no meio desse turbilhão de mudanças!
Como você, sempre claro e didático, já postou, a fotografia como conhecemos, está em plena mudança, de mercado, de técnica, de nicho…
agora, muda quem quer, segue quem quer e o que quer, até porque, devemos preservar o princípio básico, que há espaço para todos e para tudo!
Um grande abraço,
Walmor de Oliveira
Parte I
Esse cara é filho de uma nova era transgênica e medíocre. Sinto náuseas quando vejo a cara dele, quanto mais suas fotos. É tal história da fermentação da abobrinha e do dono da abobrinha – para não dizer outra coisa. Estudei esse cara num livro lixo que estava numa prateleira da Fnac. Um nojo!
Parte II
Voltei de dentro do fogo com pouquíssima paciência, pois percebo que o ser humano é um cínico, um doente. Clicio, estão destruindo a amazônia na cara dura com o aval do governo federal. Os incêndios nascem na beira das estradas; um bota fogo no terreno do vizinho e ninguém viu; e ainda existem órgãos que continuam autorizando a destoca para um cara que não tem vocação nem amor a terra, mas que a mantém sob seu domínio para especular. A ganância pelo muito não tem limites; os serrados dão lugar aos pastos que degradam e enriquecem meia dúzia; os buritizais estão sendo destruídos pelas máquinas e fogo criminoso; os lagos estão sendo aterrados para darem lugar aos grãos; as nascentes estão sendo desmatadas pela pata do boi e pela foice do homem nada inocente e canalha; e a maioria das nossa crianças estão inseridas no atoleiro da falência moral múltipla e pior: sem educação e esperança. Um caos! Denunciem o crime porque, por aqui, a guerra já começou e não haverá trégua. A Amazônia é do Brasil e não somente dos amazônidas, e, além disso, deve ser preservada radicalmente. Pedimos ajuda, sim! Obrigado, Clicio! Hasta La vista!
Como sempre, você coloca as questões com muita propriedade.
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[...] sequência ao artigo anterior, “Terry Richardson & Tostines”, esta versão de 2010 traz um pouco mais de inquietude ao tema. Este artigo foi originalmente [...]
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