©Terry Richardson

Em 01 de Dezembro de 2007, foi postado por mim no Tramafotográfica (da Simonetta Persichetti) este pequeno artigo, que deu margem a muito assunto, e que vem sendo discutido até hoje. Com autorização da Simonetta, resolvi republicá-lo aqui com a adição de um comentário de Rubens Barbosa Filho, pertinente e correto.

Este artigo também originou o meu próximo, que já está disponível, e se chama “O fotógrafo egocêntrico”.
Enjoy!

Terry Richardson & Tostines
Um breve artigo intitulado Assimetria Criativa, publicado por Ivan de Almeida em seu blog, despertou minha atenção por tratar do assunto técnica/conceito/linguagem de uma forma elegante. Ivan se apoiou em uma conhecida foto de David LaChapelle para, em torno dela, desenvolver seu raciocínio; muitos criticaram a sua escolha, pois em se falando sobre imagens não-nítidas ficou a dúvida; a foto em questão, quando vista em seu contexto mais conhecido que é o impresso, tem nitidez de sobra, que perde notavelmente quando vista na Internet.
Ora, o que poderia ser um demérito ao artigo de Ivan acabou sendo uma vantagem, pois os fotógrafos já não tem mais controle absoluto de como ou onde as suas fotografias vão ser vistas, e não podem prever o ambiente do observador; o que deixa o ponto em questão mais fortalecido! A foto é boa com ou sem nitidez, principalmente quando se conhece a importância do autor…
O que nos leva ao trabalho de Terry Richardson.
Filho de Bob Richardson, famoso fotógrafo de moda na “Swinging London” dos anos 60, Terry sabe muito de fotografia, convencional ou não. Talvez por tédio fotográfico, ou esperta jogada de marketing, acabou se dedicando ultimamente ao estilo Gonzo, sempre usado com maestria por Nobuyoshi Araki desde “Tokio Lucky Hole”, e que vagamente remete aos autorretratos e espelhos ensaiados anteriormente pela Nan Goldin.
Aliás, ambos declaradamente são fortes influências na carreira de Richardson.
A maior resistência ao trabalho de Terry acaba vindo justamente daqueles fotógrafos ou críticos mais técnicos, que questionam a aparente crueza e falta de sofisticação dos enquadramentos, iluminação e direção de cena apresentados em suas fotos.
Tome-se como exemplo a sua foto mostrada acima; contém todos os elementos considerados criminosos por qualquer autor de apostila de fotografia básica! A foto não é nítida; a luz, dura e direta, clareia em excesso o seio em primeiro plano; o enquadramento é absurdo, com o tal seio ocupando 2/3 da imagem; o rosto, esmagado na diagonal superior do quadro tem as narinas de frente para a camera, dois infinitos buracos negros.
E, claro, axilas peludas sempre se parecem com ouriços.
Mas a foto virou capa de um livro,“Feared by Men, Desired by Women”! E fez sucesso absoluto quando vendido durante a exposição de mesmo nome, na galeria Michael Hoppen, em Londres.
Claro que é uma estética muito peculiar, baseada em conhecimento real e sofisticado de fotografia, mas totalmente corriqueira na Internet; quantas imagens porn ou gonzo como essa recebemos por dia em nossas lotadas caixas-postais de e-mail? Quantos popups se abrem em nossos computadores repentinamente mostrando filmes “caseiros” com a mesma linguagem? Quantos adolescentes por dia fotografam os amigos bêbados usando celulares?
O rigor técnico é totalmente sobreposto pela necessidade de comunicar, usando a linguagem das “point ‘n shoot” mais populares. O que o Terry faz é se apropriar desta linguagem (afinal, ele não passa de um adolescente brincalhão…) e a transformar em dinheiro.
Dinheiro de verdade, como podem atestar as marcas (de Vogue a Sisley a Gucci: veja lista de clientes em seu site) que pagam os milhões de dólares que ajudam a criar e sustentar o mito.
Mudou o modo que vemos fotografias? A estética é orgânica e flui com o passar dos tempos? A técnica nunca teve real importância? Não, essas não são as perguntas certas, pois as respostas serão sempre sim.
O mistério maior, aquele a que aludiu o Ivan em seu artigo, continua sem resposta: Terry Richardson é famoso pelas boas fotos que faz, ou as fotos se tornam famosas e boas por terem sido feitas pelo Terry?
Não sei.
Só sei que não consigo parar de olhar para esta foto.

Update01: O comentário de Rubens Barbosa Filho, postado no site Tramafotográfica, segue abaixo:
Oi Clicio.Tentei entender melhor a tal da fotografia gonzo. O criador do estilo gonzo foi o jornalista norte-americano Hunter S. Thompson. O jornalismo gonzo, para muitos, nem é considerado uma forma de jornalismo devido à falta de objetividade e falta de seriedade com que trata a matéria. Hunter também fotografou. Sua imagem de uma garota nua na privada com a mascara de Nixon e falando ao telefone podia ter sido feita por Terry Richardson e o próprio Hunter está sempre presente nas suas fotografias. Gonzo também é um termo bastante popular na pornografia (filmes pornô gonzo) e recentemente fez muito sucesso na televisão e no cinema com Jackass. O termo gonzo veio de outra mídia, o jornalismo. Então pra ser fotografia gonzo ela deve ter as características do gonzo. Não basta estar somente presente na cena. O trabalho pessoal e explicitamente sexual de Terry Richardson (não a fotografia que você mostrou especificamente) possui as características do gonzo como o deboche, o sarcasmo e ele muitas vezes também é associado a pornografia. O Araki possui as mesmas características no divertido Tokyo Lucky Hole. Clicio, você escreveu que Nan Goldin ensaiou o estilo gonzo em The Other Side, mas lá ela nem esta presente nas imagens. Só tem um retrato dela feito por David Armstrong antes dos créditos e da introdução. Algumas pessoas realmente associam Nan e Clark como os precursores da fotografia gonzo. Mas ambos são documentaristas sérios. Não possuem as características do gonzo. Nada mais correto dar o crédito como precursor da fotografia gonzo a Hunter S. Thompson. Clicio, como disse a Claudia no post acima o que importa é cada um com o seu estilo. Todos os citados são muito bons. Goste-se ou não.
Parabéns para a Simonetta por abrir esse espaço onde fotógrafos podem discutir idéias democraticamente.
O site com as fotografias de Hunter S. Thompson é:
http://www.mbfala.com/artists/_Hunter%20S.%20Thompson/

Update02: O artigo original pode ser visto no Tramafotográfica.

Update 03: Um artigo relacionado a esse, intitulado “Quando o fotógrafo vira muso”,  foi postado por Estudio Madalena no blog do Paraty em Foco (PEF), e vale a pena ser lido.