©2010 Clicio Barroso

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Requiem aeternam dona eis

Essa foi uma semana auspiciosa para a Fotografia; eu nunca havia visto tantas comemorações acontecendo simultaneamente no dia 19 de agosto (Dia da Fotografia) quanto agora. Uma pluralidade de eventos, mostras, festas e exposições fotográficas, por todos os cantos do país, uníssonas, alegres, manifestações culturais espontâneas e não-comerciais, promovendo o pensar, o fazer e o prazer fotográfico puro e simples.
Mas as coisas não são o que parecem ser.
Quanto mais a fotografia se populariza, mais a indústria deixa de ser fotográfica e mais passa a considerá-la como produto de consumo de massa. Uma indústria que surge na virada do século XIX (o século da burguesia) para o século XX, com George Eastman e a Kodak já anunciando “You push the button, we do the rest”, nascida do entusiasmo de um bancário que se apaixona pela fotografia, a sua evolução vai nos mostrar que o principal motor para os seus sucessos são as pessoas que nelas trabalham, fotógrafos primeiro e técnicos depois. O segredo sempre foi esse, fotógrafos realmente dedicados a fotografia, commitment, mesmo sendo fotógrafos-empresários, fotógrafos-engenheiros, fotógrafos-químicos.
Mas isso já não é verdade.


Morte anunciada

A preocupação maior da bilionária e crescente indústria fotográfica contemporânea não é a fotografia, e sim “mover as caixas”, vender produtos tecnológicos de ciclos cada vez mais curtos, cada vez mais massificados, automatizados, pré configurados. Nascem condenados, com a morte anunciada.
A obsolescência programada nunca foi tão visível, e exemplos não faltam; uma empresa global que produz aparelhos de medição de cores compra todos os concorrentes, se transforma em monopólio e seus produtos passam a ter prazo de validade (no recall); outras gigantes tem nos produtos fotográficos uma pequena parcela de suas vendas, e nem sempre a mais importante; o comprometimento com a fotografia passa a ser uma questão de planilhas, de números, e os aparelhos se tornam obsoletos em prazos menores que os famosos 18 meses da “lei de Moore“, para que as caixas continuem a ser movidas em ritmo alucinante.
Ora, para que se mantenha o ritmo, propaganda agora não é mais suficiente, por isso as feiras de fotografia e eletrônica se tornam fundamentais, assim como promoções, pontos-de-venda e abordagens agressivas, o corpo a corpo que se vê nas feiras. Patético e na maioria da vezes ineficiente, pois feiras comerciais acabaram se tornando feiras de trade, onde o desconhecimento sobre os fotógrafos (os consumidores finais) por parte de quem compra (lojistas) só é menor que o desconhecimento daqueles que vendem (fabricantes). Empurram produtos aos lojistas, que por sua vez tem que os empurrar para os fotógrafos.
Festivais culturais de fotografia, nos moldes do Paraty em Foco, ou FestFotoPoa, ou FotoRio, são encarados pela indústria com desconfianca, pois não há um modelo de vendas diretas que os beneficiem, e o fato de que a formação de percepção (awareness-o que a publicidade chama de “institucional”) não é tangível, impede a possibilidade de patrocínios mais substanciais; um posicionamento que, a médio e longo prazo pode se demonstrar suicida.
O maior problema é que os executivos de marketing e vendas, com a corda no pescoço para que obtenham resultados *sempre* de curto prazo, imediatos, estão se lixando para formação de novos e fiéis consumidores das marcas que representam, se isso significa acontecer apenas depois de suas aposentadorias. Importante é vender agora. Novamente patético.
Já as “novatas” na fotografia, empresas de eletrodomésticos como televisores e celulares, demonstram grande interesse nesse mercado no qual não tinham tradição alguma, mas que, massificado, se torna bastante desejado. Compram tecnologia, know-how e pequenas empresas tradicionais, fundem-se e aliam-se a outras, e tentam recriar o link; não são mais somente empresas de eletrônicos, mas sim de fotografia.

O comprometimento
Claro que existem empresas ainda dedicadas a qualidade quase artesanal de seus produtos voltados a fotografia; as duas maiores produtoras de papéis de algodão para impressões de pigmento mineral, européias, mantém a tradição de mais de 500 anos e respeitam aqueles que utilizam seus papéis; alguns de  nossos printers mais respeitados, como Silvio Pinhatti, Renato Cury, Marcos Ribeiro, vieram da fotografia química e utilizam esses papéis de forma totalmente personalizada. Ou outros fabricantes muito tradicionais de câmeras, mais focados e que, mesmo quando comprados por empresas maiores, conseguem manter um ciclo menos rápido de obsolescência e dedicar mais cuidados a seus produtos, para que tenham maior longevidade.

Se toda essa conversa de qualidade, comprometimento, Fotografia com “F” maiúsculo, está parecendo conversa de boteco, afirmo: discussões acaloradas e minuciosas sobre os “vemelhos” da Kodak, os “verdes” da Fuji (puro mito, alimentado pela cores das caixinhas dos filmes das marcas), ou a “textura” diferente do Rag da Hahnemühle em relação ao Rag da Canson (são ambos particamente lisos, sem textura perceptível), ou aquele papinho técnico-filosófico sobre a “verdade” do referente na fotografia publicitária, são fundamentais para que a indústria aprimore seus produtos e atenda aos desejos e necessidades dos verdadeiros especialistas, os fotógrafos.
Sim, ninguém é mais especialista que a comunidade formada por aqueles que realmente usam os produtos, e por isso a credibilidade na hora de comprar, hoje está muito mais confiável nas indicações das redes sociais do que na publicidade tradicional.

O fotógrafo é rei?
Vejam o exemplo da Sinar P, uma câmera técnica de grande formato, imprescindível nos estúdios de publicidade na era do filme, e que possibilita correções de foco e de perspectiva através de seu sistema de básculas. Foi literalmente abandonada nos armários dos estúdios, tida como equipamento obsoleto na era digital; porém alguns fotógrafos teimosos, em lugares tão distantes como o Brasil, desenvolveram traquitanas para encaixar cameras DSLR digitais no elemento traseiro das Sinar, e assim continuar a usar as básculas. Esses inconformados tem nome, e tenho a sorte de conhecer alguns deles, como o André Nunes e o Norberto Isnenghi; o espantoso é que, com seis anos de atraso, a Sinar P-SRL finalmente anuncia a grande solução da fábrica: um back adaptador para as suas câmeras de báscula que pode ser usado para encaixar a sua DSLR!
É o fotógrafo mostrando o caminho para a indústria, que é pródiga e rápida ao lançar novos e desnecessários gadgets, mas lenta, muito lenta para perceber o óbvio. É a desconexão, a distância quase infinita entre o “campo de realidade alterada” do produtor e a necessidade do profissional.

Desespero Retrô

E justamente por se sentir deslocado e tonto com as mudanças alucinadas, que o fotógrafo acaba caindo na cilada do saudosismo: “Ah, como era bom o cheiro do ácido acético…” ouço, perplexo, de um velho colega de profissão; ou “antes, era só entregar o cromo, e acabou a responsabilidade do fotógrafo; agora tem que saber processar, editar, fotoxopar…” e ainda “comprei minha Hassel aos vinte anos de idade e só troquei de equipamento aos quarenta!”.
Pois isso é alimento certo para aqueles que, percebendo os anseios dos descontentes, imediatamente forneçam a falsa sensação de segurança, a zona de conforto, e assim entram em campo as câmeras retrô. Com “cara” de filme mas com tecnologia digital, tem máquina com jeito de anos 40, 50, 60, 80, para todos os gostos.

Algumas, verdadeiras piadas, como a Rolleiflex Mini-Digi, que cabe na palma da mão e tem 5 mpx; outras, pequenas jóias, como a Epson R-D1S, que imita uma Voigtländer Bessa , mítico ícone da fotografia de filme entre os fotógrafos mais experientes.
Do ponto de vista filosófico, o texto abaixo de Matt Zoller Seitz mostra um pouco dos sentimentos dos fotógrafos, e só deles:
“Há desvantagens para o digital, mas infelizmente para os loucos por filme, a maioria delas são estéticas – argumentos menos técnicos que  filosóficos.
A saber: Mesmo nas melhores impressões de fotografias produzidas digitalmente falta o calor, a vitalidade de fotos produzidas com uma câmera de filme, porque o filme é literalmente orgânico. É celulóide, um composto de celulose, cânfora e corantes, e as imagens que o filme produz são registros físicos diretos de coisas que aconteceram na distância de visão da lente – Registros de luz que atingem o negativo não-exposto e brincam com suas moléculas.
Povos pré-industriais, que temiam que fotografias capturassem um pedaço de sua alma, não estavam totalmente errados. Um retrato criado com o filme é uma lembrança da existência de uma pessoa em um determinado ponto no tempo/espaço – uma versão fotoquímica mais complexa de uma pegada na areia.
Já as imagens digitais são criadas quando um sensor registra o campo de vista da câmera, e coloca um fac-símile da imagem em um chip de computador. O resultado é ainda uma imagem, mas o processo é diferente – mais independente, mais teórico, e ao mesmo tempo mais abstrato.”

A Rey muerto, Rey puesto: viva el Rey!
Entendidos os objetivos da indústria, que definitivamente não são os mesmos da fotografia, o que nos resta a não ser descobrir os caminhos menos tangíveis e palpáveis, aqueles que não podem ser medidos por gráficos e não encontram lugar nas planilhas, aqueles que os industriais e burocratas não percebem?
A resposta está na evolução cultural desta fotografia comprometida, na criatividade, na pesquisa, na coragem de mudar tudo, na abstração poética.
Algumas iniciativas (dentre muitas outras, igualmente importantes!) tem sido, no Brasil, sintomáticas; a aproximação que o MinC e a Funarte estão promovendo em relação a fotografia, e sua preocupação com a produção contemporânea, preservação e memória, o que vai diretamente ao encontro do que a REDE [RPCFB] pretende com a criação de futuras Fototecas; o trabalho intenso e educacional de instituições como a FotoAtiva, com mais de duas décadas de atividades; o trabalho de coletivos como o Garapa, que incentivam a cultura fotográfica, preservando o respeito e história da nossa fotografia em sites como o “Produção Cultural no Brasil“; são muitas e variadas as atividades que impulsionam a fotografia em todos os estratos sociais, incluindo-se aí a prosaica fotografia doméstica, a caixa de sapatos que documenta nossa contemporaneidade. Associações de fotógrafos sem rótulos, amplas e plurais como a Fototech também se tornam uma saudável realidade.
Na Europa, o “The Impossible Project”, idealizado por André Bosman e realizado pelo próprio Bosman com a parceria do Dr. Florian Kaps e Marwan Saba, literalmente ressucitou o instantâneo Polaroid, demonstrando uma vontade que superou todas as improbabilidades.
A conclusão é que não há necessidade de um réquiem para a Fotografia; ela está vivíssima, metamorfoseando-se, evoluindo, crescendo.
O verdadeiro réquiem é para a miopia da indústria “fotográfica” contemporânea, que se foca em lucro rápido e se esquece do que é a Fotografia.

por Clicio Barroso

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