por clicio em 31 de janeiro, 2010
A Fotografia de cauda longa

©2010 Clicio Barroso
Esta semana as listas de discussão de fotografia, mais especificamente a Profoto e a Fototech, manifestaram perplexidade coletiva através de seus integrantes; o motivo das discussões foi o lançamento de um DVD de Microstock, aparentemente o primeiro de uma série, recheado de fotos de baixo custo, alta qualidade, e assinadas por um fotógrafo de renome.
Antes de tomar alguma posição, duas premissas básicas terão que nortear essa nossa reflexão;
1-) Fotógrafos tem livre arbítrio e amparo legal para dispor de suas fotografias como bem lhes aprouver.
Se o fotógrafo decide vender caro, não vender, emprestar, ceder temporariamente, ceder por 99 anos, doar, destruir, ou vender bem baratinho a sua produção, é problema exclusivamente dele, e quanto a isso não se pode julgar, criticar ou tomar posição definitiva, pois cada um sabe onde o sapato lhe aperta o calo.
2-) O mercado de fotografia, assim como o mercado de música, o de textos, o de jogos para celulares, o de programas de computador e muitos, muitos outros, vem passando por uma revolução na distribuição, preço, custo, acessibilidade e disponibilidade de seus produtos; a oferta passou a ser infinitamente maior, os preços consideravelmente menores, e a facilidade de se encontrar o que se busca está ao alcance de um clique: deus Google tudo encontra.
O processo que vem ocorrendo há anos amadureceu com ferramentas de busca mais sofisticadas; quem melhor descreve as potencialidades até então ocultas dos produtos de nicho é o editor da Wired, Chris Anderson, em seu best-seller “A cauda longa“; segundo Anderson, tudo pode ser vendido, e há compradores para qualquer produto, ao preço que for; o importante é que o produto esteja disponível, e possa ser achado.
No caso da fotografia, primeiro surgiram os bancos de imagens, que facilitaram a distribuição das imagens e a negociação entre fotógrafo-vendedor e cliente-comprador; o fotógrafo decidia o valor e preço de sua imagem, caso a caso, e de acordo com tempo de uso e veiculação desta, podendo inclusive dar exclusividade de uso pelo tempo determinado a apenas um cliente. Este modelo de negócio evoluiu para os CDs royalty-free, onde o preço do pacote de imagens é fixo, a quantidade de imagens também é limitada, mas o uso é livre; a pegadinha é que a imagem pode ser veiculada simultaneamente por clientes concorrentes, não há controle nem limite. O próximo passo foi o Microstock: uma quantidade absurdamente grande de imagens, disponíveis online, a um preço fixo por imagem, sendo que tal preço é extremamente baixo, por vezes centavos de dólar. Quem disponibiliza as imagens (produtor) ganha no volume de vendas, quem as produz (fotógrafo) ganha no volume de vendas.
Este modelo de cauda longa (abundância de oferta em oposição à escassez, busca sofisticada e preços decrescentes), porém, pressupõe infinita oferta, sempre crescente, com custo baixissimo de estocagem, de transporte, e sem data de vencimento; mas isso só é possível quando se movimentam bits, e não quando se movimentam átomos. Para que o modelo funcione, os produtos (fotos digitais, músicas) não podem existir fisicamente (a não ser ocupando espaço baratíssimo nos HDs dos servidores), e tem que ser entregues sem custo aparente (apenas a banda larga necessária para seu download).
A iTunes Store e a App Store funcionam assim, e são um grande sucesso; os e-books para o Kindle e para o iPad funcionarão assim, e serão um grande sucesso; Microstock funciona assim com imagens, e é muito conveniente para o comprador de fotografia.
Mas uma pulga começou a se movimentar atrás de minha orelha, e pulou magnificamente para a longa cauda, muito mais apetitosa; será este o único modo de se vender imagens daqui para diante, ou é possível concorrer com a infinita abundância?
E a pulga me responde:
- O nosso exemplo de DVD esbarra em duas limitações:
1-) É físico, de átomos.
Precisa ser produzido (custo), prensado (custo), embalado (custo), estocado (custo), divulgado (custo), transportado (custo). A soma destes custos faz com que o modelo de negócio seja semelhante ao dos CD Royalty free, um modelo antigo, caro, ultrapassado e arriscado; é preciso que se vendam milhares de unidades para que se tenha lucro.
Se o fotógrafo vende por um preço fixo o pacote de imagens que vai rechear aquele disco, o risco é do produtor ou editor; se o fotógrafo assina um contrato de percentagem sobre as vendas, o risco é compartilhado. De qualquer forma o fotógrafo abre mão de seus direitos de comercialização daquelas imagens.
2-) Não tem uma quantidade ilimitada de fotos, não tem um mecanismo de busca eficiente (e nem precisa, dada a sua limitação física de espaço), e consequentemente pode não ter todas as imagens das quais o cliente precisa; nesse caso, o comprador acaba sendo refém daquele modelo de negócio, tendo que comprar periodicamente novos DVDs da série para formar a sua biblioteca de fotos, que vai ser igual à biblioteca de seus concorrentes, a um custo considerável.
A conclusão é que este lançamento não é um Microstock de fato, e sim um produto híbrido, mais próximo do Royalty-free, e consequentemente esbarra naquelas mesmas limitações que inviabilizaram este antigo modelo: tem que custar caro (em relação ao custo unitário de uma imagem de Microstock) e tem que vender muito (para cobrir os custos e dar lucro aos envolvidos).
Aos fotógrafos, resta a decisão de um posicionamento.
Produzir independentemente e comercializar suas próprias imagens, produzir para bancos de imagens e negociar suas próprias imagens, vender os direitos de uso de suas imagens para que outros as comercializem, utilizar uma forma menos rígida de licenciamento como o Creative Commons, ou produzir literalmente milhares de imagens por mês para Microstock (é um monstro insaciável!) para que possa sobreviver.
O difícil é concorrer com esta oferta ilimitada proporcionada pela Internet, com filtros de busca cada vez mais precisos e rápidos, com distribuição global, a custo unitário de centavos por imagem.
O que fazer para sobreviver na selva das imagens digitais? Aqui a sua opinião é importante!
Update 01: Acabo de ler que a Apple vendeu dois BILHÕES de applications na AppStore, ao ticket médio de U$ 1.00. Conta fácil: 2 bilhões de dólares.
Pergunta; alguém conhece algum fotógrafo (não empresa de microstock, fotógrafo) que tenha vendido ao menos um milhão de imagens por U$ 1.00 ?
Update 02: O Pepe Mélega colocou um pequeno artigo complementar a esse assunto em seu blog, intitulado “Opções do Improvável”. Vale a pena dar um pulo até lá.
Update 03: Este post tem tudo a ver com aquele intitulado “Profissionais & Amadores; quem liga para isso?”.
É de certa forma um complemento daquele pensamento.





45 Comentários
Confesso que está difícil escolher a melhor forma de trabalho.
A grande realidade é que o mercado está passando (já há alguns anos) por uma modificação. e esta transição não vai acabar amanhã. nem semana que vem, nem no ano que vem.
É uma fase longa e demorada que nos cobrará muita paciência, segurança e poder de observação.
Acho, ainda, que cada caso é um caso.
É mais um dos casos onde eu digo que só há uma resposta certa pra toda e qualquer resposta na fotografia.
E esta resposta é: não sei, depende!
Há um mercado que tem permanecido bom ao longo da história da imagem, mas é muito exclusivo e muito poucos terão qualidade e capacidade para lá entrar, é o mundo das marcas de muita qualidade que estão habituadas a pagar. Acho que neste mundo da venda de imagens para bancos das mesmas, só mesmo alguns fotógrafos poderão vingar fazendo imagens de qualidade, mas muito provávelmente se esse for apenas um dos seus ramos de negócio.
Antítodo: O trinômio “Talento + Hard work + Sorte”, quem tem tem, quem não tem…
Lúcido artigo Clicio, parabéns!
Abraço
Vic
Confesso que no primeiro momento, em função do nome do fotógrafo envolvido, houve um choque do tipo: “estamos perdidos, o mercado acabou, vou pensar em fazer outra coisa que não fotografia”, mas depois com mais calma cheguei a conclusões parecidas com as de Clicio e Daniel Sorrentino: Cada caso é um caso e é preciso respeitar as decisões de cada profissional, independente de concordarmos com elas ou não, pois não sabendo a motivação e a exatidão do modelo de negócios. É esperar e ver como o mercado reage. E torcer que o que julgamos ser uma perda para a classe seja na verdade mais um bem sucedido modelo de negócios.
Clício,
acho que mesmo com as mudanças no mercado (muita oferta, preço baixo) independente do modelo de negócio, é indispensável fazer um bom trabalho, de qualidade, aquele que tem a sua marca.
O modelo de negócio vai depender da produção de cada um. É exclusivo? é puramente comercial? é autoral?
No fim das contas o modelo de negócio vai depender do valor que o fotógrafo quer pelo seu trabalho.
Não gosto da ideia de vender um calhamaço de imagens por um preço baixo, pra quem sabe, talvez, vender muitos DVD’s, e ganhar algum.
Se posso vender uma imagem por R$500,00 ou R$1000,00, valorizando meu trabalho, por que vou vender 1000 imagens por um contrato de sabe-se lá quanto?
Prefiro correr o risco e vender meu trabalho tentando agregar valor ao mesmo.
abs
Gabriel Lordêllo
Buscando uma analogia com o mercado fonográfico, onde o músico está focando em ganhar fazendo shows (bem/serviço não replicável), acredito que a saída rentável para o mercado fotográfico esteja na produção de imagens sob medida, por encomenda.
A foto inédita, feita de acordo com a demanda do cliente não está em microstock nem em DVD’s royalty free. Esta venda de imagens no atacado, sem limites acredito q ficará nas mãos dos semi-prós ou amadores avançados (escolha o nome que preferir), fotógrafos que ganham a vida com outra coisa e buscam apenas a publicação e o reconhecimento de suas fotos, e por isso não se preocupam com a receita fincanceira.
Por outro lado, estes semi-pró ou amadores avançados não podem arcar com o custo, seja financeiro ou de tempo/dedicação, para atender uma produção exclusiva e inédita. Este nicho ficará com os profissionais, que continuarão cobrando o valor que quiserem, de acordo com a qualidade dos seus serviços e a demanda do mercado.
Eu acho que foi mais um que deixou de bancar a virgem no puteiro.
Mário,
Este mercado de alto luxo, de Louis Vuitton e Gucci, é para poucos.
Muito poucos.
Claro que se é o que se deseja, com esforço, sorte e talento (como diz o Vicente Sampaio), se pode chegar lá.
Mas para o resto dos mortais, as opções estão se afunilando…
Gabriel:
“Prefiro correr o risco e vender meu trabalho tentando agregar valor ao mesmo.”
Eu também.
Mas tá ficando cada vez menos fácil.
Clicio
Sergio,
Apesar do caso específico não ser o tema deste post, me parece (posso ter interpretado errado) que você não vê problema em fotógrafos se vendendo barato.
Em parte concordo (a parte do puteiro), em parte discordo (a parte do barato).
Meu pai, publicitário da área da criação e artista plástico, falava sobre a publicidade:
“Se é para ser prostituta, seja a prostituta mais cara da cidade.”
Abraços e obrigado por comentar!
Clicio
Clicio. Lá vou eu novamente com meus exemplos baseados em experiência própria. Mas é o único jeito que eu sei opinar, minha realidade me faz ser mais justo, eu acho. Como você sabe, trabalho com direção de arte e por conseguinte consumo imagens regularmente. Quando apareceram os bancos de imagem, eu achei uma idéia genial e realmente é porque algumas agências que não tinham acesso à imagens (por causa do preço), passaram a usar fotos em seus anúncios e campanhas, o que foi bacana pro mercado.
Mas o que aconteceu.
Depois de todo esse tempo, as imagens prontas estão deixando de ser usadas por 2 motivos:
1 – A imagem de banco de imagem tem CARA de stock foto.
2 – Você cria uma campanha genial pra uma imobiliária e amanhã lançam outra campanha genial pra uma marca de refrigerante com as mesmas imagens!
Então eu penso assim, se uma agência, no caso, só usa imagens stock, ela provavelmente é um cliente que não investiria mesmo em imagens exclusivas. Sendo assim, os bons clientes continuam investindo em boas imagens (não é Clicio?).
Abraço a todos!
Achei muito legal o questionamento levantado pelo Clício. Achei que todos orbitaram no centro da solução. Vou olhar a questão sob a ótica da transformação dos mercados. Vejamos o caso dos vestidos de noiva (minha esposa é estilista). No princípio ter um vestido de noiva era uma condicionante da noiva. Quando muito, usava-se o vestido da mãe. Aluguel nem pensar. Pois bem, surge a locação de vestidos, o primeiro, o segundo aluguel, etc, etc. Os ateliers de alta costura se assustam com a competição do mercado de aluguel. Todavia, o mercado apenas se expande. Minha esposa continua fazendo vestidos de noiva sob encomenda e sob medida. O que realmente ocorreu, e ocorrerá com o mercado de fotografia é que o mesmo se expandirá! Quem não podia pagar a criação de uma foto exclusiva, agora poderá ter uma de “aluguel” na Microstock!
A verdade é que, o vestido sob medida continua imbatível em sua perfeição. O mercado que podia pagar, continua pagando e requisitando. A moda continuará consumindo imagens exclusivas. Como comprar uma foto com uma peça exclusiva na Microstock?
Veja a interpretação equivocada do colega Rique Fróes. Como seria possível usar uma mesma imagem para uma campanha de uma imobiliária e para um refrigerante? Isto é quase impossível. Como publicitário (também), vejo que as agências e seus criadores não vão abrir mão de terem imagens exclusivas. Agora, tem o caso do cliente que você dá o orçamento da campanha e quando ele vê o custo da produção da imagem ele acaba desistindo. Aqui é onde o mercado vai se expandir. Com a Microstock, este cliente vai anunciar e comprar uma imagem “genérica” por um custo que pode pagar. Abraços a todos.
Sou pessimista. Concordo que esse mercado de ‘alto luxo’ é para muito poucos. Em nosso país uns 10 fotógrafos, no máximo e se tanto.
A fotografia se tornou uma mera commodity, de escolha ”a la carte”. A questão maior não é como encaramos a profissão, mas como ela é encarada pela sociedade. A fotografia still perdeu seu caráter artesanal para ser associada a algo automatizado e cujo produto final pode ser feito por qualquer pessoa. Sabemos que não é assim, mas o corpo social vê, em sua maioria, dessa forma.
A saída? Como estamos no meio de um processo absolutamente dinâmico, é complexo ver uma alternativa, ou algo viável. Concorrer com a avalanche de imagens de stock é impossível. Oferecer qualidade é, antes de tudo, necessário definir o que é qualidade. A técnica está ao alcance de todos, basta paciência para ler tutoriais e uma camera razoável e qualquer blogueiro (sic) se assina ”fotógrafo profissional”, ainda mais na área de objetos, que conta com o benefício do tempo e não envolve Gente.
Quem der uma resposta taxativa a todos esses questionamentos, está se enganando.
Eu acho que quem disponibiliza as imagens (o site), ganha no volume de venda. Para o fotógrafo é apenas um bico e é ilusório ele pensar que ganha na quantidade. É mais provável que, se ele fizer fotos de aniversário no final de semana, vai ganhar mais. Se ele quiser ter uma renda de R$ 4.000 por mês e ele ganha R$ 0,50 por foto, ele precisaria vender 267 imagens por dia para conseguir o valor desejado no mês. Basta multiplicar por 12 para ver que as chances começam a diminuir. Considerando que todos os meses teremos mais imagens no site, as chances de manter a média irão diminuindo.
A Getty já tem um grupo no flickr¹ para o pessoal enviar 10 fotos. Agora tem 28.985 membros e 182.870 fotos. Todos querendo ficar ricos ou conhecidos?
¹ http://www.flickr.com/groups/callforartists/
Clício, ótimo artigo (as usual).
A saida que vejo, (como sempre, tento ir direto pro lado prático) é achar um nicho e tratar dele direito. Tentar mostrar o que por incrível que pareça ainda não existe em bancos de imagens comuns.
Não adianta mais fazer splashs de qquer tipo, crianças na beira de uma piscina segurando uma bola amarela contra um céu azul, patinho dentro de banheira, gota d’agua caindo, olhares com cílios ultra produzidos… … Tudo isso já tem aos milhares; mas quem tinha uma foto decente da igreja de Paraitinga que caiu agora em janeiro?
Ninguém.
Nem eu.
Abs
Respondendo: meu comentário foi em cima dos dois primeiros parágrafos desse post e da sua chamada no Twitter: Autofagia Fotografia. Acho que o comentário foi pertinente.
Segundo: não falei que era a favor da medida e muito menos defendi que se venda foto a preço pífio. Acho que minha posição nesse quesito é mais do que conhecida. É chata até, tanto que já fui aconselhado, mais de uma vez, a tratar da minha vida e deixar que cada um trate da sua.
Finalmente chegamos naquela dúvida antiga: será que puta todos somos, só depende do preço?
O que quis dizer é que foi mais um profissional que viu o mercado atual (?) sem qualquer ilusão mais.
Viu o mercado como ele é. Um grande puteiro, onde tudo está à venda, o que varia é o preço. Não dá para bancar a virgem inocente morando num puteiro. O máximo que se permite é não dar beijo na boca.
Foi mais um que se cansou desses discursos quase diários de que o que importa é o talento, que o trabalho duro é a solução de todos os males. Todo mundo hoje tem uma posição firmada sobre tudo. “Sólidas” posições até que algum guru vem com uma nova orientação e a cambada muda de opinião sem nenhum pejo.
Não vou perder tempo dizendo que temos as exceções de praxe, pois isso é óbvio. E acabei perdendo tempo falando isso.
Ele, assim como muitos, provavelmente já se cansou desses discursos acacianos, inflamados, panfletários e pouco consistentes. Chega de lugar-comum. Chega dessa xaropada que o talento prevalece, que o mercado procura os bons, que o lugar dos trabalhadores está assegurado. Os bons, os realmente bons prevalecem apesar de tudo isso e não por causa disso.
Que o talento ajuda, ajuda. Que o trabalho duro é necessário, é claro. Que o aprimoramento constante é fundamental, ninguém questiona, mas quantos bons, realmente bons, estão na merda? Lutando com dificuldades para manter o seu nível de excelência no trabalho? Por que ainda ficamos renovando equipamento fotográfico e de informática a cada ano, fazendo cursos e comprando livros, se o mercado não está acompanhando esse esforço em seus preços? Por que, se continuo vendo meus orçamentos serem batidos por preços ridículos para a importância do serviço?
Porque temos esse compromisso, primeiro conosco mesmo.
Até que chega uma hora em que você olha pro lado e só vê putaria, só vê discursos bonitos desalinhados com a prática e resolve participar também da putaria geral. Nem que seja para ver como é.
Se dará lucro não é a questão a ser colocada, afinal o material está pronto, pago e estragando na gaveta ou no hd. Provavelmente serão feitos apenas alguns DVDs e os outros apenas sob encomenda.
A questão que se deveria colocar é saber se tal prática pode prejudicar o mercado, como um todo?
Alguém se interessa por isso? Quando tentei discutir isso, repito, fui educadamente convidado a tratar de meus negócios. Lembra?
Será que alguém acha que possa existir alguém que não gostaria de vender seu serviço e suas fotos por preços elevados? Será que alguém acha que isso é atitude bacana reservada a alguns poucos paladinos? Ora, todos nós gostaríamos de ver nossos preços cada vez mais valorizados, mas o que o mercado nos esfrega na cara, todo dia, é que nossas fotos estão valendo cada vez menos. Somos cada vez mais fornecedores baratos de mão de obra e matéria prima.
Finalizando a tergiversação, quero dizer que não apoio a ideia de se vender fotos em lote e a baixo preço. Aliás, tenho dificuldades em ver qual a diferença em se colocar fotos num banco de imagens e fazer isso por conta própria. O custo de produção, ridículo por sinal, seria compensado com o não pagamento da comissão da agência. Colocar fotos em micro agências, que vendem as fotos por preços aviltados, para mim, é o problema. A micro agência acaba fazendo o papel do sofá na sala.
Por que vários fotógrafos estão partindo para os cursinhos e workshops? Pergunta se eles preferem ganhar dinheiro fotografando ou dando aula? Não vejam nenhuma crítica aqui, mas apenas uma constatação.
Mais uma vez, enfadonhamente, ressalto as exceções de sempre, ok?
Ainda existem os antigos e fiéis clientes que continuam pagando bons preços pelas fotos, mesmo sabendo que poderiam encontrar bons fotógrafos, aos montes, que as produziriam por muito menos.
Por que ainda continuam fiéis?
Sei lá…
São malucos, ou ainda tem um sentimento de parceria, ou conhecem de ética ou sabem que o serviço será entregue certo e na hora aprazada. Quem sabe?
E, evidentemente, há aqueles serviços em que seu olho e sua cabeça são mais importantes do que a técnica ou o preço. Mesmo esses começam a sucumbir.
Hoje o conselho principal que se ouve é que o fotógrafo deve procurar novos nichos. Quem procura nicho é coruja.
Continuo achando que enquanto não houver um movimento de respeito à entidade “mercado”, vamos ver fotógrafos preocupados, cada vez mais, com o mercadinho da esquina.
Desculpe a prolixidade.
Eu sei que é um mercado rarefeito, muito rarefeito e ao alcance de uma pequena minoria. Para mim a solução passa por procurar mercados que necessitem de imagens e porpor diretamente soluções a eles. É muito trabalhoso e de sucesso incerto, mas é uma estratégia de sobrevivencia e possível crescimento. Partilha de recursos e parcerias também é um caminho a trilhar.
Concordo com o Guilherme quando diz: “A foto inédita, feita de acordo com a demanda do cliente não está em microstock nem em DVD’s royalty free.” E aqui se pode estender a discussão. A fotografia é um campo extremamente abrangente. Tanto o mercado publicitário, quanto o editorial e também o de atendimento direto ao público (retrato) continuarão a ter seu espaço garantido no que se refere à exclusividade e particularidade do produto\pessoa fotografada em determinado momento ou situação de venda daquela imagem. Meu cliente de moda quer ver a sua coleção da temporada no catálogo. O cliente de produto quer ver o próprio produto em evidência na imagem. O mercado de retrato então nem pode entrar nesta discussão. Assim, acredito que o que está em jogo nesta questão é mais a fotografia institucional, aquela que tem por objetivo vender o conceito. Todas as outras formas de fotografia, a meu ver, não sofrerão as consequências desta massificação e banalização que o universo dos bits vem tentando infligir.
Abraço a todos, e obrigada Clício por proporcionar esta discussão e nos dar informações tão precisas sobre o que está acontecendo neste segmento do mercado fotográfico.
o que é baixo cuso?
Luisa,
Desculpe-me, baixo custo.
Já corrigi, obrigado.
Volto a insistir: não é como, nós, fotógrafos Pro vemos o Mercado, mas como o mercado, o corpo social, nos vê, ou melhor, vê o produto fotografia. A única saída para o fotógrafo hoje, creio, é a autoria. Fotos ”perfeitas” podem ser produzidas por qualquer pessoa interessada.
Colega John…
Desculpe se você não entendeu, mas aqui vai a explicação:
As campanhas que citei são EXEMPLOS…
Mas vamos brincar de imaginar (acho que você consegue).
Um empreendimento que tenha um espaço para adolescentes (tipo uma lan house) e isso vai constar do catálogo de lançamento. Eu escolho a foto de adolescentes (talvez um close) sorrindo na direção da câmera… Bem, agora temos a campanha de um refrigerante e… puxa, quem sabe uma foto em close de adolescentes sorrindo para a câmera? Bom, novamente colega, esses são exemplos, mas não achei praticamente impossível de acontecer. Achei sim que faltou um pouquinho de criatividade. Da sua parte é claro.
Abraço “colega”
Sergio,
Gosto de posicionamentos claros e inequivocos como este seu. Obrigado pelo depoimento.
Por outro lado, apesar de sua opinião ser minha conhecida, muitos os que leem os comentáriso não o conhecem, e não sabiam da sua luta por moralizar o mercado.
E já que estamos falando nisso, você deve saber que concordo em termos gerais com a sua opinião…
Abraços
Apesar de estar cada vez mais difícil de tentar valorizar seu trabalho, através do investimento em qualidade, e tendo uma marca própria de seu trabalho, eu acho que sempre existirá mercado para a exclusividade.
Uma foto feita do jeito que o cliente quer, nunca estará em um banco de imagens. O problema é que ninguém quer pagar por isso…e devido a quantidade enorme de pessoas no mercado se vendendo por nada, o preço de quem faz seu trabalho direito, não consegue subir.
Eu que estou entrando no mercado agora, e não acho certo cobrar menos do que eu acho que é justo, estou sentindo na pele esta realidade…
Ótimo artigo Clício !
John e Rique;
Os publicitários, como vocês, estão mais otimistas do que os fotógrafos, e digo o porquê; publicitários são assalariados ou donos de seus negócios, e dependem muito pouco dos humores do mercado para pagar as contas no fim do mês.
Por isso, ao escolher comprar uma foto por U$0.99 ao invés de produzi-la com um fotógrafo (com o dinheiro do cliente, sempre, e não aquele que sairia de seus bolsos), o resultado da escolha sempre é sentido do lado de cá.
Já a foto de arquivo que serve para tanto para refrigerante quanto para imobiliária, pode ser facilmente identificável como stock por nós, fotógrafos e publicitários que estão no mercado e tem esse olho, mas o público, o leigo, esse não enxerga.
Para ele, tanto faz.
Adolescente feliz é adolescente feliz, e se a imagem foi comprada, produzida ou roubada, a ele (o leigo) não importa, contanto que a mensagem atinja seu objetivo.
E então (generalizando), o mais barato se perpetua…
Sergio diz:
“A questão que se deveria colocar é saber se tal prática pode prejudicar o mercado, como um todo?
Alguém se interessa por isso? Quando tentei discutir isso, repito, fui educadamente convidado a tratar de meus negócios. Lembra?”
Lembro sim.
São muitos interesses em jogo, e o interesse dos fotógrafos geralmente é o último a ser levado em consideração.
A prática prejudica efetivamente o mercado ( o fotográfico, lembre-se, não o publicitário); mas não há nada que possamos fazer a não ser buscar os clientes que precisam de fotos exclusivas. Não exclusivas por ter mais qualidade (o que é isso, afinal?), mas sim por mostrar um produto ou serviço ou personagem único, de interesse dele, cliente.
O resto é comprável.
Por peanuts, a preço de banana.
Clicio;
Os autores musicais não vivem mais de discos. Isso significa que o fato de comporem ou cantarem e gravarem não gera mais dinheiro suficiente. E, o que eles estão fazendo? Estão vendendo a única coisa que não pode ser duplicada, que é sua presença em shows ao vivo.
Agora, com os leitores de ebooks, escrever também não será mais gerador de renda de forma direta. Afinal, assim como o CD pode ser centuplicado, o livro idem.
Você pode notar que estou falando de pirataria, mas em muitos sentidos e pelos mesmos motivos o valor de troca tende a zero. O problema é o mesmo: o custo ínfimo da reprodução digital e da dsiponibilidade digital (não o custo de produzir, é claro, mas da mera reprodução/disponibilização). Você bem coloca que o estoque crescerá incessantemente e os mecanismos de busca e filtros tornar-se-ão melhores, e isso é o mesmo que dizer que uma foto a ser feita concorre com o estoque existente disponibilizado a preço ínfimo.
Qual é a saída? Creio que no mundo da grande fotografia o problema não é tão agudo, pois, como você também disse, no andar de cima ninguém quer dividir a mesma foto com o concorrente, ou, se alguém quer comprar conceito, sabe que só pode comprar do produtor do conceito.
Mas o que está acontecendo com os músicos é preocupante. Ao final, o nicho termina sendo o singular, pois só o singular não está disponível.
Ivan,
Criatividade. Uniqueness. Ser diferente com qualidade. Pensar de modo diverso do mainstream. Colocar alma em seu trabalho. Acreditar em suas singularidades e transpô-las para o papel.
Talvez sejam os únicos caminhos viáveis para o que chamamos de fotografia comercial profissional.
Talvez.
Clicio,
O seu post me lembrou de algumas histórias. A primeira delas foi da revista TIME, de abril. A capa daquela revista era uma imagem simples, de um jarro de moedas em fundo branco. Nada complexo, e sem dúvida uma boa escolha para o tema daquela edição (economizar). O único detalhe: a imagem utilizada veio de uma agência de microstock, a um preço ridículamente baixo.
A TiME, como você certamente sabe, sempre produziu suas próprias capas sobre encomenda, ou fechou contratos de exclusividade de reprodução de determinada imagem. O valor médio do custo da capa de TIME, no que se diz respeito ao fotógrafo, sempre variou entre U$ 1.800,00 a U$ 4.000,00 (houveram valores maiores, mas estou me referindo aos mais comuns). Para mim, isso deixou bem claro que estamos vivendo uma época onde muitos editores desistem de buscar algo realmente original, e se contentam com algo que é “bom o bastante”.
Outro caso que logo veio a minha mente foi o da revista Época e da Veja do mês de Janeiro deste ano. Ambas colocaram, em sua capa, a mesma imagem. Cada uma deu um tratamento diferente, claro, mas estamos falando da mesma imagem. O centro de ambas às revistas era o Haiti e o recente desastre que acometeu aquela pequena nação. Sem dúvida, novamente, tivemos uma imagem comprada por uma agência de microstock. A pior parte é que, em duas revistas tão grandes quanto a Veja e a Época, nenhum deles se importou com a possibilidade de tamanha gafe (e foi uma gafe) acontecer?
Eu não sei dizer com certeza se realmente gosto do movimento de microstock, mas admito que é um processo que não será revertido. A oferta da fotografia cresce à cada dia, isso é inegável. O que realmente me preocupa é a falta de preocupação de editores com a qualidade final que eles querem exibir em seus produtos (revistas). Quer dizer, será mesmo que estamos fadados a viver em uma época em que é melhor 400 imagens “boas o suficiente” do que uma obra-prima?
Ivan,
eu já discordo contigo sobre a música. Acho que é o mercado que vai perder menos com essa história. A gravadora funcionava mais como um Microstock. Do que é gasto na compra de um CD, apenas uma pequena parcela chegará ao músico. É uma boa vitrine, mas a banda fará shows onde ganhará o grosso do dinheiro. E uma banda ou músico quer mais é fazer show e interagir com o público. Vender CD não tem adrenalina. É provavel que algumas bandas poderiam viver só da venda dos disco, mas muitos não. Agora, aqueles que não eram aproveitados pelas gravadoras, possuem a chance de fazer sua propaganda e tentar um lugar. Muitos lançavam discos por gravadoras independentes, vendiam seus discos no final do show ou coisas parecidas. Hoje até as rádios procuram novidades na internet (pelo menos as que eu escuto). Muitos músicos possuem outra profissão. Outros que já são conhecidos estão disponibilizando as músicas na internet. Não sei exatamente o funcionamento dos livros, mas alguma coisa se modificará.
A pirataria sempre existiu¹. Só está mais fácil e mais globalizada (afinal é o mundo em que vivemos). Para alguns setores até é uma espécie de marketing. Piratear o Windows, por exemplo, é interessante para a Microsoft. Quanto mais gente utiliza, mais gente conhece, mais informações estão disponíveis, etc.
A fotografia já é um produto final. Disponibilizar por uma fração do custo não tem muita capacidade de trazer outro retorno para o fotógrafo. E acho que mesmo quem está no andar de cima tende a cair na tentação da ‘gratuidade’. O caso da capa da TIME pode ser um exemplo (o autor recebeu² US$ 30,00). O caso da Época e Veja fica muito estranho. O Banco do Brasil³ utilizou uma imagem da Getty em sua campanha. Provavelmente o autor não deve ter tido uma boa remuneração (e vi a foto nos terminais, em ôibus, lotação, etc). Não trabalho na área, mas vejo como algo preocupante. Será que a criatividade será o suficiente?
Desculpem pelos links, mas acho que a fonte das informações sempre é importante. Qualquer coisa, é só puxar a orelha que eu não coloco mais.
¹ http://www.picturapixel.com/?p=2856
² http://www.paratyemfoco.com/blog/2009/08/quanto-vale-uma-foto/
³ http://www.flickr.com/photos/bolivar-trindade/3834364168/
Não sou fotografo profissional. Talvez amador. Apenas gosto de fotografar e como estou me recuperando de uma operação no joelho venho aqui me informar.
Minha experiencia é esta:
Sem querer – porque conheço pessoas que trabalham na mídia, diga-se jornalistas com uma clara posição politica de esquerda – acabei publicando ensaio fotografico em uma revista com uma clara posição politica de esquerda. Depois me pediram para fotografar o FSM em Belem ano passado, pois os fotografos deles só queriam ir a Belem se fosse de avião e ficar em um hotel – a revista não vive de anuncios e não tem grana mesmo para bancar, coisa de militante. Eu falei que iria a Belem com uma “caravana de maluco” e ficaria acampado embaixo do primeiro pé de manga que aparecesse. Achei normal isso mas ninguem acreditou. No fim minha caravana gorou e curioso que sou fui saber como andam as coisas na area. Constatei que ninguem mais quer pegar carona, acampar embaixo de um pé de manga ou colocar o pé na estrada para correr atras de uma pauta. Tudo hoje se resume a “grana” e a galera não quer viver bem, mas viver luxuosamente bem e virar celebridade. É…
Sem querer tambem – será que sorte existe? – amiga me convidou para expor umas fotos na galeria. Coloquei lá, e em menos de um mes critico de arte pediu para escrever sobre o meu tablho e que eu não iria pagar nada por isso. (Jamais pagaria por isso). Legal, o critico foi la e escreveu. Gostei! Após isso coloquei meus trabalhos em mais galerias vendi algumas coisas – sem fazer alarde é claro e sem dizer que vendi – e ganhei uma graninha. O tempo passou, um marchand entrou em contato comigo e agora estou em seu portfolio. Pedi a ele que se vendesse meus trabalhos, vendesse como um trabalho unico e com preço de “fotografo profissional” em respeito a quem realmente precisa disso para viver, não desvalorizando o “deus mercado”, que o bicho é bravo… Bem não é que o maluco ta vendendo? E olha recusei vender para dois especuladores, detesto esta raça…
Hoje não adianta ser bom, é ilusão, tem que entrar no “esquemão”, mas e sempre tem um mas, “cada um sabe um de lhe aperta o calo”, a diferença é que vc pode ser um Van Gogh ou um Duchamp que começou bem e terminou mal na fita, mas é este ultimo que virou referencia… fazer o quê?
Em tempos em que tudo tem um preço, em que a especulação é a regra e a busca da “fama” é uma constante me volto aos grandes mestres do seculo 19 que morreram sem terem vendido nada ou quase nada, mas foram ate o fim na certeza que estavam fazendo o melhor. Grandes artistas que de forma critica constestaram o seu tempo não se vendendo ao “deus mercado”. Quem vai encarar?
Alguem ai ja leu A GRANDE FEIRA – UMA REAÇÃO AO VALE-TUDO NA ARTE CONTEMPORANEA DE LUCIANO TRIGO?
Hare Krishna e seguimos…
Guaraci,
Links pertinentes são sempre bem-vindos.
Obrigado por comentar!
Clício,
realmente o assunto do DVD de imagens rendeu nas listas. Muito foi dito sobre ser certo ou errado, mas sua primeira premissa é soberana.. cada um faz o que desejar com seu trabalho ao preço que lhe convier.
Apesar disto, esta forma de trabalho acaba jogando o valor do mercado ainda mais para baixo. Como outras ações pontuais, cada vez que num mercado alguém resolve tirar um pouco mais da gordura (ou da carne) de seus valores, todos vão descendo na ladeira abaixo.
No segmento que atuo profissionalmente, além da fotografia, existe a possibildiade de por várias razões as empresas micarem com equipamentos usados que foram instalados e retirados de clientes ao longo do tempo. Uma vez usados, só podem ser alugados, e a demanda para isto não é tão grande.
Numa reunião gerencial discutimos a possibilidade de efetuarmos uma “liquidação” destes equipamentos usados que se acumulavam. A princípio a idéia pareceu muito boa, pois envolvia uma campanha maciça, a oportunidade de colocar mais clientes de uma faixa mais baixa na base, etc..
No meio do caminho, um dos sócios levantou um ponto que pôs todos os outros por água abaixo. Se iniciássemos esta campanha vendendo usados a 60% do valor original, por exemplo, depois de 1-2 meses de campanha o mercado teria se acostumado com este valor, os concorrentes teriam baixado seus preços, haveriam proposta nossas circulando sem haver mais a campanha. Mas a soma destes fatores iria provocar a perda praticamente irreverssível dos valores de mercado dos equipamentos (isto para algo que tem um preço de custo conhecido, fabricante, etc).
Extrapolando isto para a fotografia, acredito que cada vez mais estas ações estão provocando este processo, derrubando o valor unitário de mercado de cada imagem produzida. Sim é natural que ocorra em virtude da exponenciabilidade que HDs maiores e mais baratos, foto digital e internet rápida provocam.
Mas da forma que se encontra, hoje quem quer entrar no mecado autoral esta sendo barrado pela venda dos portfolios antigos de fotógrafos conhecidos (como este DVD), quem quer partir para estúdio começa a esbarrar nos microstocks e similares (e poucos tem capital para montar mega estúdios para produzir milhares de fotos mensais), sobram eventos onde hoje se concentram os antigos e os new faces da fotografia (e mesmo neste mercado os valores estão caindo).
Fica a pergunta, no rítmo que anda esta evolução, daqui a 5 anos, 2 anos, ou talvez 6 meses, como um novo apaixonado pela fotografia que desejar viver dela vai começar a ganhar seu pão?
Abraços
Russo
Discussão continua boa.
Uma historinha.
Um cliente fez um catálogo de jóias com um fotógrafo conhecido meu. Chorou orçamento até não aguentar mais. Fundo preto, fundo branco, uma guerra, mas no final o fotógrafo conseguiu o valor atendido. Meses depois o cliente, que tinha uma camera semi-pro monta um estúdio capenga em seus escritório para fotografar as jóias, com resultados ruins; o webdesigner do site ”dava um jeito” nas fotos; não ficava bom porque não tinha habilidades necessárias e nem tinha obrigação para tal. O negócio das jóias acabou cerca de um ano depois.
André,
Adoro essas historinhas.
Não porque o negócio quebrou; também não porque o fotógrafo tinha razão em querer fazer direito, mas sim pelo conceito.
“Quem não tem competência, não se estabelece”, dizia vovó.
Se o fabricante de jóias desse o devido valor ao seu (dele) trabalho, pagaria bem, cobraria bem, e muito provavelmente não teria ido a falência.
Princípio básico.
Lembro ter dado uma consultoria (paga) nesse job, porque as jóias tinham defeitos na ouriversaria e ficavam HORRÍVEIS quando ampliadas! Tratei uns 3 ou 4 aneis com muito Liquify para tornar o resultado viável. (O meu texto anterior tem uns erros porque estava vendo Bob Esponja, absoluto nonsense que torna as minhas manhãs de segunda muito mais suportáveis
Uma das mais importantes discussões na fotografia de hoje. Muito bom ver esse debate. Parabéns, clicio
Caro Rique,
Desculpe se o fiz sentir-se ofendido com meu comentário. Com relação a sua provocação de “falta de criatividade”, fique tranquilo, longe de me incomodar. É preferível ficarmos no cerne da questão e discutir a questão com clareza nas palavras e exemplos.
Caro Clício,
Embora tenha estado como publicitário e também dono de agência, hoje encarno a atividade de fotógrafo. Por tanto, tenho uma visão dos dois lados da questão. Eu concordo com grande parte de sua exposição. Todavia, o ponto que eu levantei tem outro epicentro.
Mudanças de mercado é uma constante inexorável. Novas técnicas, novas tecnologias, levam a novos mercados. Não adianta se opor a lei da oferta e procura. Contudo, do meu ponto de vista, entendo que o mercado com um todo se expandirá. Haverão mais anúncios impressos com imagens de R$ 0,99, do que com imagens de R$ 999,00. Interessantemente, na minha previsão, quanto mais anúncios forem publicados com imagens de R$ 0,99, mais se provocará os anunciantes de peso a terem anúncios com imagens de R$ 999,00, pois se assim não o fizerem vão ter seu share-of-market reduzido.
Portanto, acho que não devemos nos preocupar e sim sermos mais criativos na geração de novas imagens. Boas fotos, simplesmente, vão estar sendo vendidas à R$ 0,99. O desafio é a criatividade. Preferencialmente criatividade com qualidade, tal qual são suas imagens.
Realmente polemico…
Como dizem,
bem-vindo ao século XXI.
Dispomos de uma vasta experiência histórica sobre isso. Trata-se da história da industrialização, na qual gradativamente coisas que eram feitas artesanalmente são feitas em série, ou nelas há tais ganhos de produtividade que é como se em série fosse.
Historicamente, grupos de artífices perdem com isso, enquanto a humanidade como um todo beneficia-se do ganho de produtividade, pelo que é um caminho inexorável.
Como bem apontado pelo Clicio, a capacidade de fazer o único, que prefiro chamar de singular, mantém os mercados de exclusividade.
No campo da fotografia, a festa de 15 anos da “julinha” não pode usar as fotos da festa de 15 anos da “dulce”. Isto é singularidade.
Os vestidos de uma coleção de 2010 não podem ser mostrados com fotos das coleções de 2008, 2007. Mesmo porque estão apoiados em outra estética.
De um lado a singularidade da festa da julinha, do outro a unicidade dos conceitos que representam diferencial. Essas são as vias principais para o artesanato fotográfico.
Não existe como deter a máquina. Os ludistas não impediram a revolução industrial. Agora essa etapa da industrialização volta-se para a produção intelectual, e assim rebaixa o valor de cada objeto, como ocorreu com os objetos industriais.
Ivan,
excelente sintese do inevitável.
Pergunta;
os 10 melhores ferreiros da Inglaterra foram trabalhar nas hípicas e continuaram a fazer manualmente as melhores ferraduras da Grã-Bretanha depois do lançamento do automóvel?
Resposta;
certamente.
Já os outros milhares de ferreiros…
Estamos na era da Informação, que sucede a industrialização, onde commodities (como fotografias para uso comercial) vão ser produzidas aos bilhões, e cairão de preço; produção intelectual única e criativa, porém, passa a ter valor agregado.
O importante agora é saber pensar.
E nem todos tem essa capacidade…
Temos ótimas reflexões aqui, vou tentar contribuir um pouco.
Vejo que um dos problemas hoje é que criou-se na mente da maioria das pessoas, clientes e novos fotógrafos, a ilusão que uma fotografia, devido ao processo digital, não gera grandes custos para ser produzida.
No popular todos pensam é apertar o botão, se não ficar bom apertar outro para deletar até que a fotografia fique boa.
Este pensamento, embutido na mente das pessoas pela industria de equipamentos, trouxe estas dificuldades ao mercado que esta atribulado com esta mudança.
Acrescente a este pensamento a falta de preparo da maioria de nós em lidarmos com planilhas de custos e orçamentos, e está pronta a confusão no mercado que vivemos.
Mas, assim como citou o John Kirchhofer, acredito que teremos espaço para os trabalhos de $0,99 e $999,00, afinal o Brasil ainda tem muitos mercados inexplorados.
Abraços a todos.
Clicio: “Mas para o resto dos mortais, as opções estão se afunilando… “
Chamo isso de processo de decantação. Acho ótimo porque a febre baixa…
Clicio de novo: “Produzir independentemente e comercializar suas próprias imagens…”
Esta é a única saída. Selecionam-se os clientes e tratemos bem deles e fiquemos atentos ao concorrente, principalmente se este tiver propensão a se prostituir e pisar no pescoço alheio para tentar manter as contas. “O pouco com Deus é muito!”
Clicio, bateste um bom escanteio de novo.
Clicio,
Isso já era esperado, aki em Belém aconteceu a mesma coisa, as agências quando não compram de banco de imagens a preços baixissimos, compram na BH uma camera digital reflex qualquer, e transformam qualquer estagiária em Fotografo. E ainda montam uma escola de propaganda, mesmo não tendo respeito nenhum pelos profissionais de fotografia. Com isso o mercado publcitário entrou em falencia e as agências tão indo junto. Bem feito!!!!
Agora os clientes estão procurando diretamente os profissionais e deixando de inflacionar os orçamentos pois os famosos “BVs” não estarão incluidos….Ufa!!!!
Desculpa pelo desabafo.
Marcelo Vieira
A analogia entre os mercados é pertinente, música, software, etc… , estas mudanças vieram para ficar, não tem mais volta, precisamos nos reciclar e nos adaptar, não quero dizer que vamos vender nossos fotos (nossa arte?!) por R$ 0,99, mas os dois mercados vão coexistir, é assim com software, é assim com música, quem quiser, ou melhor dizendo, quando alguém quiser, algo diferenciado, original e exclusivo vai pagar mais caro, é assim que funciona, já esta instituindo, não é nenhuma novidade, ingenuidade de quem pensa que é…, o lançamento do cd é parte de um processo que já começou a muito tempo…
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[...] Semana que passou li textos sobre erros que levam a fotografias de arte, vi fotógrafos de arte pasteurizarem seus trabalhos comercializando-os em DVDs com conteúdo livre para qualquer aplicação sem limitação de tempo. Será que estou com o pensamento ultrapassado? Pois para mim a busca por registrar a ideia fotograficamente sempre foi obrigação de quem se diz fotógrafo e receber (remuneração adequada) pelo que faz comercialmente sempre foi uma obrigação justa! Óbvio que todos tem a liberdade de cobrar o que desejam ou o que acham justo, mas nesse caso sou a favor de que se é para cobrar, cobre bem. Aliás ideia compartilhada com outros amigos que dividem o oficio de fotografar como profissão – vide o texto de Clicio Barroso em seu Blog. [...]
[...]André Russo em seu post http://andrerusso.wordpress.com/2010/02/01/fotografia-quando-o-mercado-vai-perdendo-valor/ citou Clicio Barroso, http://www.clicio.com.br/blog/ [...]