©2010 Clicio Barroso

Esta semana as listas de discussão de fotografia, mais especificamente a Profoto e a Fototech, manifestaram perplexidade coletiva através de seus integrantes; o motivo das discussões foi o lançamento de um DVD de Microstock, aparentemente o primeiro de uma série, recheado de fotos de baixo custo, alta qualidade, e assinadas por um fotógrafo de renome.
Antes de tomar alguma posição, duas premissas básicas terão que nortear essa nossa reflexão;

1-) Fotógrafos tem livre arbítrio e amparo legal para dispor de suas fotografias como bem lhes aprouver.
Se o fotógrafo decide vender caro, não vender, emprestar, ceder temporariamente, ceder por 99 anos, doar, destruir, ou vender bem baratinho a sua produção, é problema exclusivamente dele, e quanto a isso não se pode julgar, criticar ou tomar posição definitiva, pois cada um sabe onde o sapato lhe aperta o calo.

2-) O mercado de fotografia, assim como o mercado de música, o de textos, o de jogos para celulares, o de programas de computador e muitos, muitos outros, vem passando por uma revolução na distribuição, preço, custo, acessibilidade e disponibilidade de seus produtos; a oferta passou a ser infinitamente maior, os preços consideravelmente menores, e a facilidade de se encontrar o que se busca está ao alcance de um clique: deus Google tudo encontra.

O processo que vem ocorrendo há anos amadureceu com ferramentas de busca mais sofisticadas; quem melhor descreve as potencialidades até então ocultas dos produtos de nicho é o editor da Wired, Chris Anderson, em seu best-seller “A cauda longa“; segundo Anderson, tudo pode ser vendido, e há compradores para qualquer produto, ao preço que for; o importante é que o produto esteja disponível, e possa ser achado.
No caso da fotografia, primeiro surgiram os bancos de imagens, que facilitaram a distribuição das imagens e a negociação entre fotógrafo-vendedor e cliente-comprador; o fotógrafo decidia o valor e preço de sua imagem, caso a caso, e de acordo com tempo de uso e veiculação desta, podendo inclusive dar exclusividade de uso pelo tempo determinado a apenas um cliente. Este modelo de negócio evoluiu para os CDs royalty-free, onde o preço do pacote de imagens é fixo, a quantidade de imagens também é limitada, mas o uso é livre; a pegadinha é que a imagem pode ser veiculada simultaneamente por clientes concorrentes, não há controle nem limite. O próximo passo foi o Microstock: uma quantidade absurdamente grande de imagens, disponíveis online, a um preço fixo por imagem, sendo que tal preço é extremamente baixo, por vezes centavos de dólar. Quem disponibiliza as imagens (produtor) ganha no volume de vendas, quem as produz (fotógrafo) ganha no volume de vendas.
Este modelo de cauda longa (abundância de oferta em oposição à escassez, busca sofisticada e preços decrescentes), porém, pressupõe infinita oferta, sempre crescente, com custo baixissimo de estocagem, de transporte, e sem data de vencimento; mas isso só é possível quando se movimentam bits, e não quando se movimentam átomos. Para que o modelo funcione, os produtos (fotos digitais, músicas) não podem existir fisicamente (a não ser ocupando espaço baratíssimo nos HDs dos servidores), e tem que ser entregues sem custo aparente (apenas a banda larga necessária para seu download).
A iTunes Store e a App Store funcionam assim, e são um grande sucesso; os e-books para o Kindle e para o iPad funcionarão assim, e serão um grande sucesso; Microstock funciona assim com imagens, e é muito conveniente para o comprador de fotografia.

©2010 Clicio Barroso

©2010 Clicio Barroso

Mas uma pulga começou a se movimentar atrás de minha orelha, e pulou magnificamente para a longa cauda, muito mais apetitosa; será este o único modo de se vender imagens daqui para diante, ou é possível concorrer com a infinita abundância?
E a pulga me responde:
- O nosso exemplo de DVD esbarra em duas limitações:
1-) É físico, de átomos.
Precisa ser produzido (custo), prensado (custo), embalado (custo), estocado (custo), divulgado (custo), transportado (custo). A soma destes custos faz com que o modelo de negócio seja semelhante ao dos CD Royalty free, um modelo antigo, caro, ultrapassado e arriscado; é preciso que se vendam milhares de unidades para que se tenha lucro.
Se o fotógrafo vende por um preço fixo o pacote de imagens que vai rechear aquele disco, o risco é do produtor ou editor; se o fotógrafo assina um contrato de percentagem sobre as vendas, o risco é compartilhado. De qualquer forma o fotógrafo abre mão de seus direitos de comercialização daquelas imagens.
2-) Não tem uma quantidade ilimitada de fotos, não tem um mecanismo de busca eficiente (e nem precisa, dada a sua limitação física de espaço), e consequentemente pode não ter todas as imagens das quais o cliente precisa; nesse caso, o comprador acaba sendo refém daquele modelo de negócio, tendo que comprar periodicamente novos DVDs da série para formar a sua biblioteca de fotos, que vai ser igual à biblioteca de seus concorrentes, a um custo considerável.
A conclusão é que este lançamento não é um Microstock de fato, e sim um produto híbrido, mais próximo do Royalty-free, e consequentemente esbarra naquelas mesmas limitações que inviabilizaram este antigo modelo: tem que custar caro (em relação ao custo unitário de uma imagem de Microstock) e tem que vender muito (para cobrir os custos e dar lucro aos envolvidos).
Aos fotógrafos, resta a decisão de um posicionamento.
Produzir independentemente e comercializar suas próprias imagens, produzir para bancos de imagens e negociar suas próprias imagens, vender os direitos de uso de suas imagens para que outros as comercializem, utilizar uma forma menos rígida de licenciamento como o Creative Commons, ou produzir literalmente milhares de imagens por mês para Microstock (é um monstro insaciável!) para que possa sobreviver.
O difícil é concorrer com esta oferta ilimitada proporcionada pela Internet, com filtros de busca cada vez mais precisos e rápidos, com distribuição global, a custo unitário de centavos por imagem.
O que fazer para sobreviver na selva das imagens digitais? Aqui a sua opinião é importante!

Update 01: Acabo de ler que a Apple vendeu dois BILHÕES de applications na AppStore, ao ticket médio de U$ 1.00. Conta fácil: 2 bilhões de dólares.
Pergunta; alguém conhece algum fotógrafo (não empresa de microstock, fotógrafo) que tenha vendido ao menos um milhão de imagens por U$ 1.00 ?

Update 02: O Pepe Mélega colocou um pequeno artigo complementar a esse assunto em seu blog, intitulado “Opções do Improvável”. Vale a pena dar um pulo até lá.

Update 03: Este post tem tudo a ver com aquele intitulado “Profissionais & Amadores; quem liga para isso?”.
É de certa forma um complemento daquele pensamento.