por clicio em 5 de janeiro, 2010
Profissionais/Amadores; quem liga?

©Clicio Barroso 2010
Desde que a fotografia se tornou comercialmente viável, na segunda metade do século XIX, os fotógrafos naturalmente se dividiram em categorias de acordo com seus interesses financeiros, artÃsticos ou polÃticos. Uma consequência desta segmentação foi a criação de rótulos e sua aplicação na fotografia, fazendo com que algumas das diversas categorias, em alguns momentos, se tornassem antagônicas ao invés de unÃssonas; inevitável, posto que quando interesses comerciais estão em jogo a competitividade aumenta.
Surgiu então no decorrer do século XX uma pirâmide social da fotografia, com os fotógrafos dedicados à publicidade se imaginando no topo, já que seu faturamento era o mais alto dentre as categorias ditas profissionais, enquanto jornalistas e documentaristas se enganavam achando que o importante não é o dinheiro, mas sim a “fotografia pura” com seu vÃnculo sagrado ao referente, à verdade, apesar das conhecidas manipulações de imagens por motivos estéticos, polÃticos ou simplesmente para destacar as suas funções conotativas; um paradoxo quando a tal fotografia do real deveria ser apenas denotativa, o que sabemos ser impossÃvel quando se trata de imagens técnicas.
Se profissionais são aqueles que produzem fotografias comercialmente e dela tiram seu sustento, então é necessária uma preparação para que o negócio seja bem sucedido; isso inclui o domÃnio dos conceitos e técnicas que formam a praxis da fotografia, capital suficiente para a compra de equipamentos e instalações fÃsicas de cimento e tijolos, e um network de clientes incentivado pelo marketing e divulgação. Tais pré-requisitos serviam como um filtro natural, elitizando a fotografia comercial durante todo o século passado, já que equipamentos caros, educação, treinamento especÃfico, e estúdios estavam ao alcance de apenas poucos indivÃduos; os que se arriscavam por conta própria deveriam necessariamente fazer sucesso, sob o risco de falirem; e as grandes corporações, principalmente jornalÃsticas, contratavam como funcionários ou free-lancers aqueles fotógrafos que se destacavam mas não tinham recursos ou inclinação suficiente para montar seus próprios negócios de fotografia.
Na base da pirâmide, os amadores.
A palavra vem do latim amator, “amante”, aqueles que gostam do que fazem, sem expectativas de lucro. Alguns amadores, com recursos próprios e sem a necessidade do ganho financeiro, já que não fizeram da fotografia a sua profissão, acabaram se tornando especialistas bem informados e possuidores de equipamentos e conhecimento mais relevantes e especÃficos que aqueles dos próprios profissionais; o problema naquele momento histórico era de escala, já que o número destes “amadores avançados” foi sempre limitado pelo preço dos equipamentos e acesso à distribuição das suas fotografias. Ainda assim, durante o século XX, o número de pessoas fotografando por prazer foi aumentando progressivamente, na razão inversa do custo de se fotografar; quanto mais acessÃveis as câmeras, objetivas e ampliações, maior o número de aficionados, fortalecendo esta base.
Nos anos 90, duas forças começam a inverter essa pirâmide; a substituição da tecnologia fotográfica mecânica pela digital, permitindo o desenvolvimento acelerado das câmeras inteligentes, “auto-tudo”, e eliminando o custo-filme; e a Internet, facilitando o acesso à pesquisa, estudo, produção e distribuição de fotografias a um custo baixo e alcance global.
Foi uma verdadeira revolução.
Os milhões de consumidores de fotografias passaram também a ser produtores e distribuidores; o amador passou a contar com centros integrados de divulgação, feedback e relacionamento social, como o Flickr; o acesso à s ferramentas, fator que historicamente separava profissionais de não-profissionais, se democratizou, se popularizou e eliminou o gargalo. A diferença entre profissionais e amadores ficou cada vez mais difÃcil de ser definida. E quando milhões de amadores que fotografam por experimentação e diversão, passaram a distribuir suas fotos de forma gratuita, apenas para ganhar reputação e prestÃgio, imagens de nÃvel “profissional” se destacam dentre esses bilhões de fotografias produzidas, e são consequentemente vistas, utilizadas, consumidas.
A partir do momento em que consumidores são também produtores, todos produzem e todos consomem, criando um cÃrculo virtuoso que é ótimo para a fotografia, mas não tão bem recebido pelos profissionais estabelecidos. O que falta a esses é a compreensão de que a economia sofreu uma mudança radical; vive-se uma cultura de micro-preços e oferta ilimitada, em oposição a custos altos e pouca oferta; deixa-se, como diz Chris Andersen em seu livro “A Cauda Longa“, uma economia de escassez para uma economia de abundância, onde o equipamento é acessÃvel a todos, o custo de armazenamento e distribuição é praticamente inexistente, e as ações de marketing e publicidade tradicionais já não tem muita valia; sim, na cultura das redes sociais e dos blogs, é muito mais importante a indicação e certificação de produtos por usuários reais (e confiáveis; visibilidade e prestÃgio online são moedas muito fortes), do que um anúncio impresso que vai sempre enfatizar os pontos “vendáveis” deste e esconder os pontos fracos.
A substituição dos átomos pelos bits permite que a informação se mova instantaneamente, sem custo mensurável; os produtos que carregam essas informações vão desaparecendo até que se estabilizem em nichos; no caso da fotografia impressa, o papel pode ser abandonado em favor dos downloads de imagens; o Kindle e o iPad vieram para ficar…
A conclusão não é uma morte anunciada do fotógrafo profissional, mas sim a inevitável mudança de paradigma; profissionais e amadores se igualaram, e o diferencial tradicional formado pelo trio técnica, capital e distribuição já não se sustenta. Ou o fotógrafo participa deste universo de ilimitadas fotografias disponÃveis a custo e preço baixos, ou migra para nichos cada vez mais isolados, onde a chance de ser um fotógrafo-estrela está limitada aquele nicho especÃfico.
Quem realmente não tem mais chance é o “profissional-generalista”, que faz de tudo um pouco, pois agora existem milhões de especialistas que são capazes de fazer, para cada uma das categorias que o generalista domina medianamente (mediocremente?), fotografias melhores, entregando mais rápido, e cobrando menos.




43 Comentários
ClÃcio, estou desenvolvendo um texto que meio que completa isso tudo. Já há muito tempo a gente fala isso, ficar chorando não vai trazer o mercado e suas práticas anteriores de volta. No fim, é a velha frase de auto-ajuda: Se você quer um resultado diferente, não adianta ficar fazendo sempre a mesma coisa.
Muito bom !!!
pra variar
parabéns e um ótimo 2010 p/vc
360 abcs
Ayrton
O Generalista, comum no fotógrafo editorial, deixou de existir há muito tempo; acredito que a partir de 2002 ele passou a sucumbir, ou se adapta ou está irremediavelmente perdido. Existe a bagagem e experiência adquirida com essa pratica, mas não existe a remuneração adequada a esse profissional e não se iludam, pois há excelentes fotógrafos que faziam parte do segmento e que se saem muito bem em novos nichos. Logo é necessário migrar, criar uma especialidade renovável, sim renovável, pois com a velocidade que a informação circula nos dias atuais e a necessidade de se mostrar o que há de novo, essa tem vida curta. Não adianta querer esconder, camuflar, etc da mesma maneira com se aprende com alguns o que está se fazendo de novo, outros vão aprender também. Sobra o network, essa é a verdadeira ferramenta que te propicia continuar a atingir ganhos respeitáveis em uma profissão muito concorrida. Abs
Esse mesmo texto serve para diversas profissões. A gente lê isso de tempo em tempo, sempre o mesmo blá blá blá. Isso não vai acabar nunca, não adianta ficar remoendo. Aceitam-se as mudanças e pronto. Se tu for bom, o mercado te abraça, caso contrário, deixa que o tempo resolve. É só discussão que não acaba em nada mesmo. Igual, valeu pelo post.
Abraço
Mto boa sua matéria.
As mudanças de um modo geral vieram e ficarão não só na fotografia mas no mundo como um todo.
Cabe a nós (mais velhos) nos adaptarmos ou não.
ClÃcio,
Um belo texto, fortemente baseado numa experiência inquestionável, concordo quase 100%.
Por mais que a tecnologia tenha evoluido e aproximado tanto os “amadores” quando os profissionais, acredito que hoje houve uma mudança no padrão da exigencia da imagem. Fotos muito boas se perdem entre milhões de imagens medianas, existe uma forte produção sem consciência do que é feito e para quê é feito.
Não existe mais espaço para o “profissional-generalista” esse é um fato, mas ainda existe uma necessidade da melhor formação do profissional, aquela formação que um amador, por mais avançado que seja, não sente a necessidade de trabalhar. E existe uma necessidade ainda maior da formação do contratante do profissional de imagem… Como diferenciar?
Simplesmente o mercado foi nivelado por baixo, tá na hora de todo mundo fazer e refazer os cursinhos do sebrae, pois eu acredito que nasce um fotógrafo mais empresarial neste momento. Concentrado em metas e em fidelização de clientes. Novos atributos de negociação e mais determinado com rápida solução de problemas.
Texto MUITO bom, ClÃcio! Vc anda bem inspirado! Parabéns!
Qual é o engenheiro atual que não sabe lidar com autocad? Qual é o administrador de empresas atual que não sabe lidar com CRM, Business Inteligence e afins. Na minha leitura o profissional da fotografia não morreu. O que ocorreu foi uma evolução tecnológica. O produto da fotografia mudou, e pra isso, a forma de comercializa-lo teve que acompanhar. Apesar do “full-automatic” das câmeras atuais tenho certeza que ainda há espaço para o fotógrafo profissional e artista, que hoje precisa entender de tratamento digital e de psicologia.
Parabéns pelo artigo.
No meu ver essa democratização é ótima, a certeza de que só ira ser reconhecido realmente os “BONS”. Aqueles que inovarem e supreenderem nossos olhos.
Thiago,
O problema mora aÃ…; o “contratante do profissional de imagem” hoje, produz imagens.
Vamos ser realistas, ninguém precisa saber fotografia para fotografar.
Comprei recentemente uma Lumix para levar comigo o tempo todo. Minha filha de 15 anos pegou a câmera, saiu clicando, encheu um cartão em 2 dias, e adivinha? Algumas fotos eram realmente boas. E ela não tem idéia do que seja diafragma, ISO, Matriz de Bayer. Não precisa.
A melhor formação realmente diferencia os profissionais.
Até quando?
Pepe,
Concordo que, mesmo atuando em nichos, a renovação e mudança de nicho é inevitável.
Como tenho aconselhado; bola pra frente que a fila anda!
Sou sempre cerimonioso quando o assunto é fotografia profissional, pois sou e sempre fui amador. Posso falar melhor sobre o amadorismo, portanto. Penso que temos mais e mais pessoas apaixonadas pela imagem, e essas pessoas hoje dispõem de meios para produzir, mostrar e debater sua produção, e isso é, para muitas delas, suficiente, visto ser um caminho estético, uma prática estética cuja recompensa confunde-se com o fazer. A verdade é que para quem pensa, o pensamento já é sua própria paga, para quem gosta da estética, estar envolvido com ela idem. Lembro-me, no passado, quando ia à praia em frente ao Sol-Ipanema (vulgo Posto 9). Dali, daquela turma, todos faziam algo, teatro, pintura, escreviam, etc. Isso ao mesmo tempo era uma riqueza e uma banalidade, pois em uma sociedade onde todos (ou muitos) são produtores de cultura, quem são os consumidores, e qual cultura vale a pena consumir?
O fato é que hoje todos estamos sempre caminhando na beirada do abismo da irrelevância, e tornar a produção relevante exige ganhar influência, como o texto aponta. Gostei muito do texto, fixa certos pontos e sugere janelas.
Ivan,
A presença de fotógrafos que não se dizem profissionais, mas fazem e pensam a boa fotografia, como você e outros comentaristas, só reafirma o que diz o artigo; a única diferença ainda reconhecÃvel é pagar ou não todas as suas contas com a fotografia; independe de localização geográfica, em que categoria(s) de fotografia se atue, que equipamento se use.
O mais óbvio é a aglutinação de fotógrafos, consumidores, clientes, amigos neste “não-lugar” que é a Internet.
Aliás, onde você mora? No “Fotografia em Palavras” ou no “ABC do Raw” ?
Grato pelo comentário!
Clicio, penso que esse paradigma profissional/amador na fotografia vai pelo mesmo caminho da tecnologia da escrita, todos tem acesso ao lápis, caneta, máquina de escrever e agora ao computador, com esses instrumentos, voce pode escrever um recado, uma ata, uma carta, um roteiro, um romance ou um bilhete de resgate, a cada um o poder de estravazar o seu talento ou a falta dele, acho um barato essas facilidades técnicas para se conseguir boas imagens. Sempre existirá o joio e o trigo, o que conta é o momento econômico, numa época de vacas magras, procura-se o preço mais baixo, no contrário, um cliente abonado sempre irá chamar o melhor, não importa o custo. Quem viver verá!
Clicio, neste artigo voce se superou, análise afiada, texto preciso, conciso, na mosca!
Parabéns!
De forma simples: natural esse questionamento.
Vimos isso na tipografia, no design, na publicidade, agora na fotografia e começando no cinema, com essas cameras de baixo custo e com boa qualidade.
Cada vez mais o “profissional” vai ser o que tem um bom trabalho, boas referências e que sabe o que está fazendo, independente se faturas $$ ou não com suas imagens, layouts, filmes.
EH! ClÃcio, é a pura verdade, mas temos diferenças entre os fotográfos dos grandes centros e os fotógrafos de menores regiões que mesmo especializados não conseguem viver apenas da sua especialidade, acabam tendo que ser generalistas e nem sempre “domina medianamente (mediocremente?)” fazem “fotografias melhores, entregando mais rápido, e cobrando menos” porque o mercado hoje é tudo isso que você relatou.
Belo texto Clicio.
Na verdade, sabemos que quem faz o mercado não é o fotógrafo e sim o cliente. E o cliente mudou. Ele ficou muito mais exigente. Isso é o que garante a vida de qualquer profissional. Os equipamentos estão aà para todos, como os computadores, os softwares, enfim, hoje em dia quase tudo é acessÃvel. A diferença está na maneira que você encara o que você faz. Sua filha fez fotos boas certo, mas experimente colocar sua filha pra vender as suas boas fotos. O amador é amador por várias razões. Isso não o diminui de forma alguma quando falamos da arte de fotografar.
Eu sou fotógrafo amador e diretor de arte. Eu consumo fotografia, mas não produzo para esse consumo. Eu sei o que eu procuro num fotógrafo. Quando vou contratar um, não pergunto qual equipamento ele usa, que lente ou outra coisa do gênero. Quero ver o que ele já fez e se esse trabalho se encaixa com o job que eu estou propondo. Eu ligo se o sujeito é profissional ou amador. Meu cliente liga. O tÃtulo não me interessa. Profissional pra mim é o cara que faz alguma tarefa por profissão. Só isso. A diferença entre o profissional e o Amador é que o Amador fotografa o que quer e o profissional fotografa o que precisa ser fotografado. Eu passo o dia na frente de um computador criando arte comercial. Não tem inspiração, tem produto ou serviço do meu cliente pra vender. Com a fotografia é a mesma coisa. Você Clicio, trabalhou no Natal, ralou em baixo da luz quente porque é profissional. Um amador (como eu sou, já falei) talvez deixasse pra depois das festas. No mundo da internet, a coisa pode até estar mais igual, mas no mundo das contas pra pagar a diferença existe sim.
Um grande abraço a todos!
voce está incorrendo em alguns cliches que nao sao verdadeiros. o tal do custo zero do digital é lenda: vá voce ver quanto custa manter um flickr ou um youtube funcionando. é uma fábula, e só se sustentam porque foram comprados por grandes players do mercado.
mais: nao confunda o sucesso de produtos de nicho (kindle, por exemplo) com as dimensoes massivas necessarias pra efetivamente mudar o mundo.
Parabéns Clicio, acho que o escreveu só vai ser entendido por alguns daqui uns 10 anos…. a ficha demora a cair.
Abs.
Abdo
Rene,
Bom ver você por aqui!
Clicio
Sim, concordo com o argumento que o custo zero digital é lenda; alguém paga a conta. Mas para o usuário, enquanto existirem, os serviçoss são transparentemente gratuitos. Se foram comprados pelos grandes players (que tem interesses financeiros definidos, claro) é porque tem valor do jeito que estão; não dá mais para cobrar pelo que já é de graça há anos, a não ser que se compute a perda e migração massiva de usuários para outros portais, e que ainda assim valha a pena.
Mais: não estou prevendo nada (não gosto de morder a lÃngua depois, rs) para o Kindle, em termos de números, que não esteja disponÃvel na Internet. Pode ser que seja um nicho, mas que nichão!
A informação que vazou da Apple (rumors, rumors…) fala em 10 milhões de iSlates no primeiro ano; como o Jobs fez do iTunes e do iPhone sucessos inquestionáveis, não quero duvidar.
Não quero mudar o mundo, René. Ele é quem está mudando, eu só tento acompanhar.
Obrigado por comentar!
Acho que sempre irá se salvar o que tem conteudo. E para se ter conteudo é preciso ter conhecimento. E é aà que o profissional deixa o amador para trás. Fato é que o “mundo digital” transformou a coisa como antes conhecÃamos. E tudo anda meio que bagunçado por isso. Muitos escritores, artistas plásticos, afins estão nesse mundo prático da era digital, com conteudo e sem conteudo também. Ganhando ou não dinheiro, adaptar se e fazer o melhor sempre, para mim, será a grande questão. Ótimo texto – como sempre – Clicio. Um abraço.
muito bom o texto, admiro a tua capacidade de questionar e analisar o presente , para tentar ver de onde vem a pedrada. hehehe
uma coisa que tenho pensado ultimamente, dentro da linha da quantidade de oferta. é a questão do outro lado , como o ” comprador” convive com ela, e penso muito como resolver a angustia da “sobreoferta”. isto é frente a uma consulta no google , quem chega ate a pagina 10 ?
Diego,
Pois muitos se preocupam; a resposta está nos filtros.
Quanto mais oferta exista, melhores e mais eficientes tem que ser os filtros, para que não haja página 10!
O pessoal do Google está ligado e aparentemente trabalhando para refinar as buscas.
Obrigado por comentar!
este assunto dá muito pano pra manga. sempre lembro de um professor meu que dizia: “jacaré parado vira bolsa de madame”. Acho que não podemos nunca pensar que já sabemos de tudo e que não temos nada a aprender com amadores. Conheço amadores que têm equipamentos muito melhores do que o meu, só trabalhando com lentes prime e fazendo imagens simplesmente incrÃveis e até melhores do que as minhas. Nem por causa disso, me sinto ameaçado. Acho que tem lugar pra todo mundo e que temos que estar preparados para todas as mudanças do mercado. Sempre foi assim e sempre será. Por fim, cito e Vincent LaForet, fotógrafo que migrou pro video com o incrÃvel Nocturne, feito com a 5D MKII (o video é incrÃvel!!!): don’t fight the future!
Boa questão!
E os contratantes, são bons profissionais?
O que fisgou o René para comentar foi a menção ao iSlate, futuro sucesso da Apple. Eu recomendo não trazer a velha rixa de plataformas para dentro de um site sobre outro assunto, especialmente quando se é engajado profissionalmente com uma delas. Voltando à fotografia, é fato que as cidades grandes e as menores ainda têm mercados fotográficos bem diferentes, mas acho que isso vai se nivelar rapidamente. O cliente mudou, mas muitas vezes para pior, porque formou-se a mentalidade perigosa de que qualquer coisa é possÃvel e portanto qualquer coisa poderia ser desejável. Quanto mais o profissional assumir-se como executor das ordens do cliente, mais a qualidade criativa vai afundar. Isso nada tem a ver especificamente com o equipamento, é questão de cultura e atitude.
Mário,
CorretÃssimo; guerra de plataformas é algo bem antiguinho e não faz mais sentido. O que faz sentido é saber que antes mesmo de se confirmar o lançamento do tablet da Apple, já há fila de pretendentes com a grana na mão.
Ainda mais, cultura do cliente e banalização da fotografia são assuntos que considero encerrados; um por ser impossÃvel, outro por ser uma falácia.
Obrigado por comentar!
Clicio
Clicio,
caminhando por Olinda neste último final de semana, me impressionou a quantidade de turistas, a maioria jovens adolescentes com DSLR’s na mão, alguns até com flashes dedicados. Fiquei pensando no tempo que uma SLR era um sonho de consumo para mim e para muitos, e hoje com a queda dos preços e com as facilidades do “auto-tudo” muitas pessoas estão optando em comprar uma reflex ao invés de uma compacta. O digital estimulou que a indústria da fotografia focasse na grande massa consumidora, buscando adaptar o equipamento para a facilidade de uso desta massa, exemplo disso é o próprio Live View nas reflex, solicitação da grande massa que não gosta de ter que clicar olhando pelo visor.
Hoje as câmeras são computadores que quando solicitados no “auto-tudo” fazem a foto e deixa quem clica pensando que a produziu, mas até onde podemos dizer que de fato não produziu?
Para os apaixonados como eu, fica difÃcil acreditar que a fotografia se resumiu a colocar no automático e clicar, pois sabemos que este universo vai muito mais além, mas este valor só será dado pelos que se dedicam a ele, o cliente com certeza nunca dará, são raros aqueles que conseguem exergar além do preço.
Valeu pelo post.
Um abraço.
Clicio, você disse tudo: “cultura do cliente e banalização da fotografia são assuntos que considero encerrados; um por ser impossÃvel, outro por ser uma falácia.”
E viva a experiência do profissional!
Clicio,
Com certeza , as máquinas estão cada vez mais inteligentes e as pessoas, principalmente as mais jovens como o caso da sua filha enxergam o mundo baseado nessa “louca” convivencia com imagens que temos todos os dias na internet,tv, games etc. Exemplificando: na minha infancia, brincava com peão e carrinho, hj meu sobrinho com 7 anos de idade só quer saber de jogos em 3d no seu PS3. ou seja tudo é imagem hoje.
Mas para mim não é a qualidade das fotos que são produzidas que definem quem é amador ou profissional, mas a relação do fotógrafo com o que é produzido. Um amador fotografa por que quer o que quer e quando quer, sente prazer com isso e esse é o grande barato, o fotógrafo profissional, nem sempre tem o poder de escolha. Todos devemos ter um hobby, toco violão há anos, estudei erudito popular e nem por isso sou um violonista profissional, a minha relação com a música é puramente de amante. Ou seja por mais fácil que seja hj “fotografar”…. essas duas categorias sempre existirão… e parafraseando um profissional que deve amar o que faz: Quem se liga??!
Boa pergunta…
Atualmente, Clicio, moro mais no Fotografia em palavras. O ABC é um blog “para fora”, que partiu de uma identificação de uma necessidade que via nas pessoas de entenderem o RAW, basicamente respondendo… “RAW para que?”, pois as via entendendo o RAW como um “outro JPEG melhor”. Já o Fotografia em Palavras é um blog para dentro, que externa meus pensamentos, minhas sacações, aquilo que na hora tocou-me, e por isso o deixo parecer algo na primeira pessoa mesmo.
Olá ClÃcio
Fiquei triste ao terminar de ler o texto. Triste por saber que é verdade e ao mesmo tempo uma dura realidade, que de certa forma joga fora a própria necessidade do conhecimento e ao mesmo tempo banaliza a fotografia, ou melhor, o trabalho do fotógrafo. E é isso que me incomoda, não o fato de que, com a tecnologia, qualquer um consegue produzir uma boa imagem, mas o fato do trabalho ser desconsiderado.
Pode até parecer grotesco, mas costumo comparar o trabalho do fotógrafo com um restaurante. E creio que com essa nova realidade a analogia tem ainda mais força.
Você pode cozinhar em casa e a comida terá um custo ¨X¨, provavelmente sairá mais barata do que em um restaurante. Justamente pelo fato de que no restaurante não é você que faz a comida, além deles usarem as panelas deles, etc e tal…
Você pode pedir um arroz e feijão ou um PF em qualquer lugar por um preço baixo….
Pode comer o mesmo arroz e feijão com preços mais altos se for num restaurante com mais conforto e mais conceituado…
E pode comer um prato sofisticado em um restaurante com um chef francês…
Em outras palavras, posso fazer uma foto simples e vender por ¨X¨, posso vender essa mesma foto por 5¨X¨ se o meu contexto e conceito contribuÃrem para isso…
E posso também, se eu tiver um diferencial (e público consumidor para tal) ser o ¨Chef¨ de um estúdio que vende imagens de alto valor, ou, como você disse, ser o ¨fotógrafo-estrela¨ de algum nicho (que estão cada vez mais limitados e competitivos).
Ao meu ver, amanhã… somente trabalhos muito diferenciados continuarão sendo valorizados.
Abração!
Lucio,
Fica triste não.
O mundo anda para frente. E a qualidade vai continuar a ser o diferencial !
O que muda é a maior concorrência…
ClÃcio,
Conhecimento da técnica e aprofundamento nos conteúdos são indiscutiveis para o aprimoramento de quem fotografa, acredito que a onda digital estimulou um número significativo de curiosos a comprarem equipamentos, buscarem cursos, comprarem livros, consultarem algum conhecido a fim de também aprenderem e ficarem satisfeitos com suas produções.
Substituiria a comparação para analisar as possibilidades, não seria o caso de perceber essa demanda e produzir cursos fixos e intinerantes, produzir encontros tira-dúvidas, observar o número de pessoas interessadas e promover um conhecimento coletivo?
Como amante da fotografia penso que trocar informações, apreender, entender e fixar novos conhecimentos são essenciais!
Para concluir se o fotógrafo profissional esta incomodado pela perda de algum cliente ou trabalho, minha sugestão é adequar-se ao mercado, acredito que todas as profissões estão passando por essa fase com sabedoria e com saÃdas bem criativas!!
Um forte abraço,
Lúcia Cavalcanti
Snif, vou ter que me reinventar novamente. Gostei do texto era tudo que já pensava, mas nao com tantos detalhes.. a certeza é uma só, temos que nos reinventar.
Obg pelo texto.
Pois então, até quando a fotografia vai pagar contas de verdade? Amantes se divertem e ainda podem pagar contas de mentirinha usando Flickr. Eu mesmo comprei 220 imagens nesta infovia para publicar um livro. Agora, os “profissionais” podem viver de “migalhinhas”?
Clicio
Dizer que achei a matéria excelente seria somente repetir o que já foi dito acima.
A meu ver, o que difere o PROFISSIONAL do “profissional” e do “amador” é o SABER TRABALHAR.
Muito mais do que uma boa foto, o fotógrafo tem que saber coordenar uma equipe, tomar decisões, estabelecer prazos (e cumprÃ-los), firmar contratos, saber cobrar e, entre outros inúmeros requisitos mais, passar confiança ao cliente, que é aquele que paga a conta disso tudo. Mais do que fotógrafos, hoje temos que ser managers de um trabalho. E fotógrafos também, é claro.
Particularmente, tenho uma opinião contrária à maioria dos que reclamam que os “profissionais” e os “amadores” estão destruindo o mercado. Acho que todos são bem vindos – os “amadores” por amarem a profissão que escolhi seguir e os “profissionais” por a valorizarem ainda mais. Porém, confesso que vez ou outra ainda me irrito por perder “trabalho” para os “profissionais”.
Os bons clientes continuarão existindo e contratando os bons fotógrafos PROFISSIONAIS.
Obrigado pelo ótimo texto, e mais ainda pelo excelente espaço para discussão que este blog se tornou.
Forte abraço,
Daniel Farias
Fotógrafos de hoje fotografam como fotógrafos de 1920, senão pior…!
A relação que se faz hoje de “bater uma foto” e “produzir uma imagem”, ou melhor uma boa imagem, esbarra no velho jargão de Barthes: Para que fotografar uma montanha sendo que já existem milhares de fotos desta montanha. Dentro do aspecto estético, existe uma virtude (que poucos encontram, que é o aspecto semântico), e o simbólico. Que faz com q a imagem passe a ser agente comunicador da ideia, do fenômeno ou ainda pode ser agente estimulador da cognição. Sempre haverá fotógrafos de montanhas e FOTÓGRAFOS.
Ha pessoas que gostam de carne moÃda e outros de filé mignon, isso não muda…!
A readequação sempre fez parte da vida dos fotógrafos – nos primórdios era o grande formato,depois veio o médio,passamos pelo 35mm até os dias digitais de hoje. Até aà tudo bem,mas o que pega é ter de disputar mercado com fotógrafo eventual,que compra uma câmera qualquer que troca lente (e que muitas vezes trabalha com a “kit lens”), não paga imposto,não é estabelecido e não sabe cobrar. A concorrência é desleal e espúria. Todos os anos o mercado é inundado com pessoas que almejam um lugar ao sol (louvável e que é direito de todos),mas que em sua caminhada se presta a cobrir evento social por R$ 100,00 a noite inteira (à s vezes disparando mais de 2000 fotos),estimulando os que só querem ter mão-de-obra barata e que no final das contas não tem comprometimento em estabelecer uma relação saudável, que vise um crescimento de mercado ou do profissional em si.
Mesmo que ele não esteja no teu nicho de mercado ou de experiência profissional, algumas pessoas (por ignorância ou má fé) podem tender a o tomar por referencial de mercado. O que tende a “respingar” em você (para os que vão dizer isso não é para mim, estou acima dessa categoria).
O grande problema me parece ser que uma grande parcela do mercado está disposto a ter pouco (material médio no máximo,sem qualquer tipo de atributo especial ou diferenciado),desde pague pouco. O cara aceita uma produção meia-boca (que deve ser do nÃvel do que ele vende ou produz, deduz-se, por analogia) desde que custe barato – e isso é lamentável,só gera mais frustação para quem pretende se profissionalizar e vai prostituindo cada vez mais o mercado.
Tem gente que diz que o mercado vai se auto-regular,tenho minhas dúvidas, para ser bem sincero.
Oi Clicio:
Muito bacana esse texto, de grande lucidez e clareza. Recentemente, li uma crÃtica à fotografia onde o autor diz que a mesma passou de arte a “doença mental” e termina o texto a classificando como “distúrbio social”. Para mim, um absurdo por completo, veja aqui:
http://gravache.tumblr.com/post/323404612/fotografia-de-arte-a-doenca-mental
Sei que o que escrevo foge um pouquinho da temática do seu texto, mas está dentro do contexto da revolução digital. Penso que a mudança de paradigma desnorteou muita gente da área, mas como vc diz muito bem, para a frente é que se anda.
Tenho a convicção que aqueles(as) fotógrafos(as) talentosos(as) nada devem temer em meio a essa mudança, mas devem sempre estar razoavelmente sincronizados com os acontecimentos.
Abraços,
–PrÃamo.
Sou dos “amadores” e confesso que adorei mais esse seu texto ClÃcio.
Parabéns novamente!!!
Caro ClÃcio, me identifiquei muito com “Alguns amadores, com recursos próprios e sem a necessidade do ganho financeiro, já que não fizeram da fotografia a sua profissão, acabaram se tornando especialistas bem informados e possuidores de equipamentos e conhecimento mais relevantes e especÃficos que aqueles dos próprios profissionais” (tirando a parte do equipamento, por falta de grana). Excelente texto, pra variar.
2 Trackbacks/Pings
[...] que fotografa por hobby fazer fotos com qualidade equivalente a um profissional. O Clicio fez um post muito interessante sobre como essa democratização da fotografia afeta e está afetando os fotógrafos. Com essa [...]
[...] 03: Este post tem tudo a ver com aquele intitulado “Profissionais & Amadores; quem liga para isso?”. É de certa forma um complemento daquele [...]