©2009 Clicio Barroso

Alertado pelo valioso link do Ricardo Mendes na lista da Rede [RPCFB], baixei imediatamente o PDF da publicação O Dilema Digital – Questões estratégicas na guarda e no acesso a materiais cinematográficos digitais, disponível gratuitamente no site da Cinemateca Brasileira.
Por coincidência, logo na semana seguinte, em uma reunião de trabalho na Cinemateca, tive a rara oportunidade de passar uma agradável e produtiva tarde com o Millard Schisler (Coordenador de Preservação da Cinemateca) e o Iatã Cannabrava, e juntos visitamos e exploramos todos os prédios com os acervos e máquinas que permitem a realização do importante trabalho técnico e científico de preservação e memória do cinema nacional realizado pela equipe comandada por Schisler.
Ao final da visita, fomos presenteados com uma versão impressa do livro O Dilema Digital, que li, reli e recomendo enfaticamente. A publicação é uma excelente tradução do original em inglês produzido pelo Conselho de Ciência e Tecnologia da Academia – The Science and Technology Council of the Academy of Motion Picture Arts and Sciences. (Para a versão original em inglês, pode ser feito download diretamente no site da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA.).
Pois não é que o mais interessante é que o cinema de Hollywood passa exatamente pelos mesmos sintomas de digitalite aguda pelos quais a fotografia tem tanto sofrido? Excesso de material na captura, excesso de informação digital não-filtrada/editada na origem, Petabytes de pixels a serem guardados, mídias não-confiáveis, migração total de dados a cada 5 anos, alto custo operacional e de treinamento, padrões não-definidos, pressão da indústria por formatos de arquivo proprietários…
Com o perdão do trocadilho infame, já vimos esse filme.
As preocupações na Fotografia são exatamente as mesmas, com a ressalva da Fotografia ter “ficado totalmente digital” mais cedo, e do volume de dados digitais em 4K gerados pelo cinema ser incomensuravelmente superior ao volume de fotografias a ser preservado.
Vamos aos fatos, alguns extraídos do livro, outros de conhecimento comum na fotografia profissional:

  • O custo em tempo, equipamento, pessoal e migração exigido para a preservação de conteúdo digital é cerca de 11 vezes maior que do analógico; filmes, negativos, positivos e cópias fotográficas, mesmo com os necessários cuidados com temperatura, umidade e catalogação, podem ser preservados por longos períodos, com custo inicial alto, porém diluído ao longo do tempo de armazenagem.
  • O tempo de armazenagem do material analógico é de pelo menos 100 anos; o digital depende de mídias, tecnologias que se tornam obsoletas, hardware e software que se tornam incompatíveis em menos de 5 anos, perdas por erro humano ou de transmissão. Sem uma migração constante e evolutiva, não se pode garantir mais do que 5 anos para um arquivo digital armazenado.
  • O material analógico é imediatamente visualizável, enquanto o digital vai para um enorme buraco negro; sem a constante e initerrupta injeção de dinheiro, rapidamente os arquivos digitais podem se tornar inacessíveis, engolidos pelo mesmo buraco negro que deveria facilitar sua busca. “O buraco negro digital aprisiona o projeto”, diz Jonas Palm, do Arquivo Nacional da Suécia.
  • Um original em película, positivo ou negativo, é um original pronto, onde as principais decisões de tons, cores e contrastes foram tomadas na captura. Um original em digital (Raw ou DNG) tem que ser processado e interpretado na pós-produção, o que implica em uma série de decisões muitas vezes longe do controle do produtor da imagem (o fotógrafo).
  • O mercado de películas vive um momento crepuscular. Vai desaparecer sem que padrões digitais de formato, catalogação, preservação, interoperabilidade e armazenamento tenham sido definidos. Quem deve tomar as decisões sobre esses necessários padrões *não é a indústria* produtora de hardware, software ou equipamentos, e sim os usuários e especialistas da academia. A Rede [RPCFB] e as associações tem a obrigação de se fazerem ouvir; obsolescência programada visando o lucro é conveniente só para a indústria e possivelmente a cultura perderá uma boa parte de sua memória se os padrões não forem logo estabelecidos.
  • A Rede, associações, organizações, a academia e o estado, juntos, tem que “construir e apoiar uma rede de parceiros trabalhando para preservar conteúdos digitais. A tarefa de salvar bens digitais é grande demais para esforços isolados. Identificar e coletar conteúdo nativo digital em perigo, criado apenas de forma digital, antes que esse conteúdo seja perdido, extraviado, se torne obsoleto ou se corrompa.” A indústria fotográfica tem que ser uníssona ao falar e discutir presevação digital.
  • Metadados devem ser criados e conferidos *antes* da captura digital, simultaneamente ou imediatamente após a sua ingestão, sob pena do conteúdo se perder em meio a Petabytes de pixels desorganizados. A importância dos metadados para posterior recuperação das imagens digitais não pode ser minimizada.
  • Fluxo, armazenamento e preservação: três cópias de cada imagem digital, em lugares físicos diferentes. A primeira, arquivo online, disponível a qualquer momento; a segunda “near-line”, em servidor remoto ou em fitas LTO4; a terceira backup de HD externo, em prédio separado, com migração programada a cada 3 anos.
  • Guardar três formatos de arquivo de imagem diferentes:
  1. Captura ->RAW (original)
  2. Edição ->DNG (com metadados e processamento)
  3. Distribuição -> TIFF e cópias nos formatos requisitados (JPEG, PNG)

O paradoxo é gerar cada vez mais imagens digitais, a um custo de armazenamento cada vez mais barato, para perdê-las por obsolescência de hardware e software; ou não achá-las no buraco negro dos petabytes por excesso de informação não-catalogável e falta de metadados.

O Dilema Digital – Questões estratégicas na guarda e no acesso a
materiais cinematográficos digitais
pode também ser adquirido impresso na bilheteria das salas de exibição da Cinemateca Brasileira, por R$ 30,00.

Update 01: O José AFonso fez uma tese de doutorado sobre o assunto, muito pertinente. Uma parte relevante de sua pesquisa pode ser encontrada em seu blog, o “AF, de autofoco”.