©2006 Liu Weiqing. Suposta montagem na China.

O post sobre os fotógrafos em situações de tragédia ou guerra que chamou-se “Haiti: Fotografar ou Ajudar?” gerou uma quantidade bastante grande de comentários, reflexões e posicionamentos.
Claro que em meio a informação de 1º linha, houve também muito “hate mail” anônimo (que vai direto para o Spam e tem que ser manualmente filtrado), muita ofensa pessoal, e algumas revoltas. Na medida do possível não há a menor censura aos comentários, a não ser aqueles anônimos que obviamente são de trolls e que contenham linguagem realmente impossível de se publicar; o que interessa é que, entre tantos, alguns levantaram mais uma vez a antiga questão de categorizar a fotografia em compartimentos estanques, engessados, e dividi-la em “classes” mais ou menos éticas, ou conceitualmente decentes.

© Yevgeny Khaldei, cena criada em 1945

Primeiro gostaria de revelar um sentimento particular, que me acompanha há muitos anos, um sentimento de culpa por ouvir desde o começo da carreira que a “verdadeira” fotografia não é a publicitária/editorial. Outras formas de se usar a fotografia seriam mais “puras” (o que quer que isso queira dizer), ou mais honestas, ou mais decentes, ou menos comerciais (como se o fato de ser comercial ou não mudasse a ética de alguém).
Com o passar do tempo, estudando, conversando, experimentando, vi que não poderia pensar desta forma; há bons e maus fotógrafos em qualquer área, e quando se trata de honestidade, ética ou humanismo, cada indivíduo é como é. Pouco a pouco fui deixando o complexo de inferioridade de lado, passei a fotografar também outros assuntos além dos publicitários, e acabei sendo um dos fundadores da Associação de Fotógrafos Fototech, que procura não rotular nem categorizar os fotógrafos associados. Hoje acho que a fotografia é uma só, e e alguma forma tento unir outros fotógrafos que também pensam desta forma, para que todos ganhem com a troca de experiências.

© Gorden Gahen | Pirâmides movidas 1982

Peço desculpas aos que certamente já viram esta discussão ad nauseum, mas correndo o risco de repetir o que já foi dito, as coisas não costumam ser bem assim. A fotografia, incluindo aquela chamada de jornalistica, vem servindo ao propósito de propaganda desde que existe. Alguns exemplos são clássicos, como o político; os grandes estadistas, vários presidentes europeus e norte-americanos, ditadores sul-americanos e totalitaristas asiáticos usam ou usaram comprovadamente o poder da fotografia a seu favor, manipulando, alterando, encomendando ou simplesmente comprando imagens icônicas benéficas aos seus interesses.

© Yevgeny Khaldei | Aviões e bombas acrescentados

Fotógrafos, laboratoristas, editores, não importa o título nem o indivíduo; a proposta não é discutir ou julgar culpas, erros e acertos, mas sim perceber o conceito, a orientação; exemplos:
Yevgeny Khaldei (1917-1997), fotógrafo ucraniano, levou no bolso a bandeira russa que ajudou a costurar, e a usou para criar a sua famosa foto do Reichstag em 2 de maio de 1945, onde até os soldados que nela aparecem foram escolhidos para agradar a Stalin (ver aqui a história completa, com nomes); o mesmo Khaldei fez admitidamente uma montagem de renas, aviões e bombardeios para “enfatizar seu ponto de vista” (ver aqui a história); Joe Rosenthal e as duas bandeiras hasteadas em Iwo Jima, que ele admitiu e posteriormente negou a cena supostamente montada (o Pictura Pixel tem um post super interessante sobre os destinos da foto, que foi Pulitzer); Robert Capa e seu soldado caído, discussão eterna que até o New York Times continua publicando; por estética, as famosas pirâmides manipuladas da capa da National Geographic, edição de 1982 (sugiro a leitura do artigo “Ethics in the Age of Digital Photography”); o chinês Liu Weiqing, que produziu sua montagem do trem ligando China ao Tibet com raros antílopes tibetanos galopando e a mostrou convenientemente em 1 de Julho de 2006, em um evento mercado para coincidir com o 85º aniversário do Partido Comunista Chinês (ver matéria no Zone Zero); recentemente, o exemplo do espanhol José Luis Rodríguez, que ganhou um prêmio de U$16k (Veolia Environment Wildlife Photographer of the Year) sobre fotografia de animais selvagens, e depois vergonhosamente teve que devolver, pois o lobo fotografado era inquilino de um zoo em Madrid e tinha nome, Ossian (ver história aqui).

© 2009 José Luis Rodríguez | Ossian pulando a cerca

Exemplos não faltam. Mas gostaria de propor uma reflexão.
Por que será que a fotografia é considerada, em uma lista de 200 piores empregos, a de n# 189 (número negativo, só há 11 profissões piores, segundo o Wall Street Journal)?
Será que a fotografia publicitária, aquela que ajuda a promover bens, produtos e serviços; e a fotografia editorial, aquela que mostra tendências de moda, comportamento e decoração não são transparentes, honestas? Quem as produz não tem noção exata de que a maior parte do que fotografa é para servir ao comércio, assim como outros fotografam para servir aos políticos, e outros para servir às grandes corporações?
Será que a sua função não é, talvez, menos dissimulada do que outras supostas categorias de fotografia consideradas por alguns como mais “nobres’?
E a pergunta que não quer calar: por que será que quando vem lenha, ela vem sempre para cima dos publicitários, como se esses fossem a escória, os dalits da fotografia?
Talvez por  fotografarem só o que sabem, ou o que podem?
Ah, malditos publicitários!

Update 01: O site A Photo Editor conta a história do lobo Ossian, o porque do conceito inicial ser, na opinião do editor do site, uma fraude (o fotógrafo José Luis começou a “preparar” a foto oferecendo iscas de carne do lado de cá da cerca ao lobo, para “treiná-lo”), e como o resultado é brega, com cara de filme new age. Mostram até uma montagem com três lobos e a lua cheia.
Vale a visita.
A dica é do Pepe Mélega, (http://pepemelega.wordpress.com/).

Update 02: O blog Câmera Obscura tem um post interessantíssimo sobre as alterações subversivas que o fotojornalista Ivars Gravlejs faz em suas fotos da “realidade”. A dica foi do amigo Wank, e vale a leitura!