por clicio em 23 de janeiro, 2010
Malditos publicitários!
O post sobre os fotógrafos em situações de tragédia ou guerra que chamou-se “Haiti: Fotografar ou Ajudar?” gerou uma quantidade bastante grande de comentários, reflexões e posicionamentos.
Claro que em meio a informação de 1º linha, houve também muito “hate mail” anônimo (que vai direto para o Spam e tem que ser manualmente filtrado), muita ofensa pessoal, e algumas revoltas. Na medida do possível não há a menor censura aos comentários, a não ser aqueles anônimos que obviamente são de trolls e que contenham linguagem realmente impossível de se publicar; o que interessa é que, entre tantos, alguns levantaram mais uma vez a antiga questão de categorizar a fotografia em compartimentos estanques, engessados, e dividi-la em “classes” mais ou menos éticas, ou conceitualmente decentes.
Primeiro gostaria de revelar um sentimento particular, que me acompanha há muitos anos, um sentimento de culpa por ouvir desde o começo da carreira que a “verdadeira” fotografia não é a publicitária/editorial. Outras formas de se usar a fotografia seriam mais “puras” (o que quer que isso queira dizer), ou mais honestas, ou mais decentes, ou menos comerciais (como se o fato de ser comercial ou não mudasse a ética de alguém).
Com o passar do tempo, estudando, conversando, experimentando, vi que não poderia pensar desta forma; há bons e maus fotógrafos em qualquer área, e quando se trata de honestidade, ética ou humanismo, cada indivíduo é como é. Pouco a pouco fui deixando o complexo de inferioridade de lado, passei a fotografar também outros assuntos além dos publicitários, e acabei sendo um dos fundadores da Associação de Fotógrafos Fototech, que procura não rotular nem categorizar os fotógrafos associados. Hoje acho que a fotografia é uma só, e e alguma forma tento unir outros fotógrafos que também pensam desta forma, para que todos ganhem com a troca de experiências.
Peço desculpas aos que certamente já viram esta discussão ad nauseum, mas correndo o risco de repetir o que já foi dito, as coisas não costumam ser bem assim. A fotografia, incluindo aquela chamada de jornalistica, vem servindo ao propósito de propaganda desde que existe. Alguns exemplos são clássicos, como o político; os grandes estadistas, vários presidentes europeus e norte-americanos, ditadores sul-americanos e totalitaristas asiáticos usam ou usaram comprovadamente o poder da fotografia a seu favor, manipulando, alterando, encomendando ou simplesmente comprando imagens icônicas benéficas aos seus interesses.
Fotógrafos, laboratoristas, editores, não importa o título nem o indivíduo; a proposta não é discutir ou julgar culpas, erros e acertos, mas sim perceber o conceito, a orientação; exemplos:
Yevgeny Khaldei (1917-1997), fotógrafo ucraniano, levou no bolso a bandeira russa que ajudou a costurar, e a usou para criar a sua famosa foto do Reichstag em 2 de maio de 1945, onde até os soldados que nela aparecem foram escolhidos para agradar a Stalin (ver aqui a história completa, com nomes); o mesmo Khaldei fez admitidamente uma montagem de renas, aviões e bombardeios para “enfatizar seu ponto de vista” (ver aqui a história); Joe Rosenthal e as duas bandeiras hasteadas em Iwo Jima, que ele admitiu e posteriormente negou a cena supostamente montada (o Pictura Pixel tem um post super interessante sobre os destinos da foto, que foi Pulitzer); Robert Capa e seu soldado caído, discussão eterna que até o New York Times continua publicando; por estética, as famosas pirâmides manipuladas da capa da National Geographic, edição de 1982 (sugiro a leitura do artigo “Ethics in the Age of Digital Photography”); o chinês Liu Weiqing, que produziu sua montagem do trem ligando China ao Tibet com raros antílopes tibetanos galopando e a mostrou convenientemente em 1 de Julho de 2006, em um evento mercado para coincidir com o 85º aniversário do Partido Comunista Chinês (ver matéria no Zone Zero); recentemente, o exemplo do espanhol José Luis Rodríguez, que ganhou um prêmio de U$16k (Veolia Environment Wildlife Photographer of the Year) sobre fotografia de animais selvagens, e depois vergonhosamente teve que devolver, pois o lobo fotografado era inquilino de um zoo em Madrid e tinha nome, Ossian (ver história aqui).
Exemplos não faltam. Mas gostaria de propor uma reflexão.
Por que será que a fotografia é considerada, em uma lista de 200 piores empregos, a de n# 189 (número negativo, só há 11 profissões piores, segundo o Wall Street Journal)?
Será que a fotografia publicitária, aquela que ajuda a promover bens, produtos e serviços; e a fotografia editorial, aquela que mostra tendências de moda, comportamento e decoração não são transparentes, honestas? Quem as produz não tem noção exata de que a maior parte do que fotografa é para servir ao comércio, assim como outros fotografam para servir aos políticos, e outros para servir às grandes corporações?
Será que a sua função não é, talvez, menos dissimulada do que outras supostas categorias de fotografia consideradas por alguns como mais “nobres’?
E a pergunta que não quer calar: por que será que quando vem lenha, ela vem sempre para cima dos publicitários, como se esses fossem a escória, os dalits da fotografia?
Talvez por fotografarem só o que sabem, ou o que podem?
Ah, malditos publicitários!
Update 01: O site A Photo Editor conta a história do lobo Ossian, o porque do conceito inicial ser, na opinião do editor do site, uma fraude (o fotógrafo José Luis começou a “preparar” a foto oferecendo iscas de carne do lado de cá da cerca ao lobo, para “treiná-lo”), e como o resultado é brega, com cara de filme new age. Mostram até uma montagem com três lobos e a lua cheia.
Vale a visita.
A dica é do Pepe Mélega, (http://pepemelega.wordpress.com/).
Update 02: O blog Câmera Obscura tem um post interessantíssimo sobre as alterações subversivas que o fotojornalista Ivars Gravlejs faz em suas fotos da “realidade”. A dica foi do amigo Wank, e vale a leitura!









50 Comentários
belo post.. para se pensar mais uma vez… para mim a fotografia é mais do que publicidade… para mim é expressão de ideias…
Clicio, sua paciência nessa conversa é admirável.
Não vou contribuir com a discussão (pra variar!) porque não sei nada sobre fotografia editorial. Mas sempre que alguém que nunca pisou num laboratório fotográfico (só pode ser esse o motivo) achar que fotografia não é uma imagem sempre manipulada, vou mandar o link desse post com os excelentes exemplos que você deu.
Mais uma vez, parabéns!
É,a publicidade gera muita rnda para os fotógrafos,dá espaço para que a arte de fotografar seja expressa comercialmente.
Fotografia Publicitaria ao meu ver muitas vezes é pura arte. Arte ao trabalhar a luz, arte do angulo certo, arte do foco preciso no local certo.
Arte é fotografar e não Clicar!
O problema como sempre é que tem gente que mesmo sabendo que não tem razão, defende seu ponto de vista como se aquilo fosse verdade e acaba levando essa idéia pra cabeça de muita gente…
Vide a questão que muita gente abomina uso de photoshop nas imagens, sendo que da mesma forma que existia tratamento nas fotos com filme, existe no digital, e se existe a possibilidade de melhorar a imagem, por que não ? Claro que desde que não seja usado pra enganar como nas fotos acima né…
Em qualquer tipo de fotografia o que vale é mesmo o olhar e a criatividade da pessoa, porque se alguém falar que fotografia publicitária é praticamente seguir uma receita, e tudo é fácil, é porque não sabe o que está falando…
muito bom o artigo, parabéns !
Quem está errado: o fotógrafo publicitário que faz a foto de acordo com o que foi pedido ou quem vende um produto totalmente diferente? Lanchonetes pedem que as fotos de seus sanduiches fiquem suculentos mas vendem pão murcho recheado. Como pode ser culpa do fotógrafo? No fotojornalismo se alguém fotografar o que realmente aconteceu outro pode alterar a foto para se adequar aos seus interesses. Se ele mesmo manipula a cena está deixando a ética de lado ou apenas está fazendo a foto de acordo com os interesses de quem o contratou? Seria o mesmo que acontece na foto publicitária, realizar o desejo do contratante. E fotógrafo de casamento então? Tem que deixar a noiva linda, fazer várias poses que nunca os noivos farão na vida normal, encenar cenas de romance que talvez nunca mais sejam vistas, só nos álbuns.
Sempre preferi retratar a realidade, odiava aquelas fotos de gente se cumprimentando e sorrindo olhando para a câmera, mas era isso que era pedido. Eu retratava a realidade que nada mais era que a falsidade das pessoas se cumprimentando de uma forma que não faziam normalmente. Não era eu o mentiroso, apenas retratava a mentira que seria usada como se verdade fosse por outras pessoas. Por outro lado também pedia para que pessoas fizessem alguma coisa de uma forma que eu pudesse retratar o que eu acreditava que deveria ser transmitido. Nessas horas a fotografia pode ser egoísta, naquele momento só eu estou vendo a cena pelo visor, só eu posso decidir o que vou mostrar. Acabarei mostrando a minha realidade que depois pode ser usada ou adulterada por outros.
Se um fotojornalista acredita nos ideais políticos e faz uma foto que representa o sentimento dele, essa foto seria falsa? Colocar uma bandeira nas mãos de soldados e todos, inclusive o fotógrafo, fazendo aquilo acreditando nos ideais, tentando passar o que sentem seria uma mentira ou uma tentativa de representar a realidade que eles sentem? Apesar de ser armada, seria uma foto mentirosa?
Muitos tentam transmitir o que sentem através da fotografia, às vezes até de forma inconsciente. Fazer uma foto de um sanduiche que deseje comer é falta de ética? Fotografar uma cena que acontece a todo momento numa guerra, mas por algum motivo não foi possível fazer e arma a cena como ela aconteceria é mentira? O que fazer: mostrar o que aconteceu ou deixar de contar uma história? Mentira é não contar que houve a manipulação, mas o fotógrafo pode até contar mas quem divulga acaba mentindo para dar mais veracidade à foto. Muitos fotógrafos acabam aceitando essa mentira por pressão ou aproveitam para se beneficiar dela. Seria ético? Aceitar essa pressão é um dos fatores que prejudica a imagem da profissão de fotógrafo.
Todas as “categorias” da fotografia tem o mesmo problema e a mesma responsabilidade. Todas tentam retratar uma realidade que não existe, a fotografia não tem capacidade de retratar a realidade verdadeira (desculpem a redundância), somente mostram um momento que pode ser interpretado de diversas formas. Fotografar um rosto chorando em meio à um terremoto no Haiti pode significar sofrimento, mas se em volta pessoas estiverem sendo salvas esse choro pode ser de alegria. Uma imagem, dois significados possíveis. Todas as “categorias” são vistas como mentirosas de alguma forma, portanto não é só a publicitária que deve levar a culpa.
Até quando todas as categorias serão chamadas de mentirosas, por um motivo ou outro, fazendo com que a fotografia seja uma “péssima” (para mim é excelente) profissão? Talvez só acabe quando as pessoas entenderem que realizamos sonhos, que muitas vezes somos pagos para retratar as mentiras que os outros estão contando mas no nosso visor ela é real. Como podemos mostrar que apenas fazemos o que nos pedem, ou no que acreditamos? Como podemos mostrar que acreditamos na imagem que vemos pelo visor mas muitas vezes não teremos controle sobre seu uso? Talvez quando os fotógrafos conseguirem explicar que fazemos o que nos pedem, ou no que acreditamos, nossa profissão será mais valorizada e respeitada, ou seja, provavelmente nunca. Nunca foi compreendida, desde sua invenção, não creio que algo possa ser feito para mudar, só se a fotografia conseguir retratar a realidade plena e sem possibilidades de ser adulterada.
Na verdade todas as “categorias” são publicitárias pois todas elas tentam vender algo, seja um sonho, um ideal ou um produto.
Acredito que somente o foto-jornalismo foi contemplado nessa lista. Não sei os critérios utilizados, mas acredito que seja uma equação do salário com os riscos da profissão.
Lembrando que reporter de jornal ficou na posição 184….. acho que as pessoas não gostam muito do que fazem lá no Wall Street Journal;
Clicio, só uma crítica, tá ficando difícil comentar seus posts. O que eu tinha pra dizer você já escreveu! Parabéns novamente meu velho e obrigado por compartilhar sua experiência com a gente.
Abraço a todos!
Concordo com o Clicio quando diz que todo tipo de fotografia é fotografia, acho que a manipulação da foto, da imagem é algo que cada vez irá mais acontecer e não sou contra ela, mas desde que ela seja explicita(que seja informado o que ocorreu).
Um exemplo é a foto do José Luis Rodríguez que tem o lobo Ossian pulando a cerca, a foto foi pensada e “montada”, e nem por isso deixa de ser uma ótima foto que poderia ganhar outros premios, mas o fotografos preferiu mentir e dizer que o lobo da foto era selvagem…. Tem as famosas fotos da época de Stalin em que Leon Trótski simplesmente sumiu delas…
clicio, clicio, sempre posts contundentes.
bom, eu acho que é o seguinte, cada um no seu galho, cada um deveria fazer o que gosta e ou o que sabe, e deixar de se preocupar, se o outro é mais honesto, se o do outro tem mais importancia de algum tipo…tudo balela, pague suas contas, não fique devendo pra ninguem e ja era, se vc conseguir fazer isso fazendo o que gosta, vc vai estar bem….
p.s. viaje muito se puder, conheça o mundo.
Este é o melhor blog de fotos… admiro seu trabalho e excelente post…abs
Flávio,
Não, não foi só o fotojornalismo.
A foto do trem na China é de um ensaísta, assim como a capa da National Geographic; a foto do lobo é de um fotógrafo de natureza selvagem.
Mas, sem categorizar, como disse o Oziel, fotógrafos de retratos, de casamentos, de books, todos de certa forma passam pelo mesmo processo.
Inclusive os fotojornalistas.
Seu texto, somado às observações super pertinentes do Oziel, fizeram meu domingo um dia mais consciente. Ainda há muito que se debater e aprender sobre “verdade”.
Fotografia é fotografia, todas tem seu grau de dificuldade e dão muito prazer quando são bem feitas, ponto. Há limites e temos que ter isso em mente quando desejamos uma carreira. As vezes analisar o que foi feito é mais proveitoso do que estar lá e nada fazer, nem sempre somos preparados para enfrentar qualquer situação fotografavel. Abs
Clicio, Adoro ler seus posts…cada dia aprendo mais com vc!
Um abraço
Andei trocando e-mails com o Sheikh Fazal, ele me falou da política que tem de não publicar mais em jornais e revistas por dissimular — segundo ele — mais ainda a compreensão das comunidades retratadas do que esclarecer algo sobre elas, principalmente no que se refere aos sistemas religiosos e políticos. A fotografia como um todo está ligada ao imaginário, não adianta achar que existe uma área mais nobre (comprometida com a verdade). É da natureza da imagem ser conotativa. Do mesmo jeito que boa parte de vocês, eu não sou nenhum Sheikh… Se queremos mesmo continuar fotografando profissionalmente, não ter pontos de vista é a melhor maneira de manter nossa sanidade no lugar. Por conflitos morais, abandonei uma carreira promissora como administrador em uma grande empresa e perdido comecei a fotografar. Faz dois anos que fotografo ainda sem área muito definida mas a experiência foi suficiente pra perceber que me tornar fotógrafo pra me livrar dos conflitos morais, foi uma grande tolice.
Jorge,
Obrigado pela sinceridade, é uma experiência interessante a sua decisão de troca, apesar de aparentemente inócua.
Por outro lado, sempre concordei em que a fotografia não tem absolutamente nada de denotativa, o conotativo rulez!
Obrigado por comentar.
Clicio
Belíssima discussão… fotografia em sí já é uma interpretação… é uma opinião… é a formação ou deformação de seus credos ou visão política… Para quem está pelo Rio, vale visitar a exposição “Um olhar sobre o Brasil na Segunda Guerra”, no Centro Cultural da Justiça Eleitoral, que mostra dois lados, americano e alemão… fica a dica [ http://blog.fredlee.org/passado/2010/01/15/brasil-carioca/ ]
Recentemente vi a exposição da qual a foto do Lobo foi a primeira colocada, e lá estava ela, destacada como tal. Realmente muito boa, feita inclusive com uma Hassel digital. Agora, se burlou as normas do concurso acredito que deveria ter sido retirada tbm da exposição, e terem promovido as outras classificadas.
Oi Clicio,
Engraçado, ainda não percebi descriminação de publicitarios e fotografos de moda, pelo contrario, na época que estudei na Panamericana, via uma supervalorização dessas áreas como se somente elas valiam a pena. Percebo descriminação sim, às vezes, entre os proprios fotografos desvalorizando a profissão do outro. Por que a maioria pensa que o melhor é o que faz? Não é porque especializo numa área que as outras são inferiores! Já vi muito fotografo desprezar a industria de fotografia de casamento e conheço fotografos dessa área talentosíssimos! Não sou assim, tenho respeito por todas as áreas (com excessão dos Paparazzi, rssss). O profissional tem valor quando têm excelência no que faz!
Muito bom o seu post e muito boa a discussão!
Um breve comentário sobre um trecho: “vários presidentes europeus e norte-americanos, ditadores sul-americanos e totalitaristas asiáticos usam ou usaram comprovadamente o poder da fotografia”
O que nosso presidente da república acabou de fazer lançando o filme: ” Lula, o filho do Brasil”
Simplesmente casa com um outro trecho:
“encomendou ou simplesmente comprou imagens icônicas benéficas ao interesse dele”
Concorda?
Beijo grande, Lucia
Olá Clicio,
Essa é a primeira vez que venho ao seu site com a intenção de escrever algum comentário. E festejo a coincidência de vir aqui no momento que finalizo a leitura do livro A fotografia – entre documento e arte contemporânea de André Rouillé… já leu? Se não, recomendo a leitura!
Por que festejo a coincidência do fim da leitura com a visita ao site? Porque alguns dos pontos que você solicita reflexões são discutidos durante o livro veja nesse trecho: “Talvez seja na publicidade, e sobretudo na moda, que a passagem do documento para a expressão tenha atingido sua maior expansão. Está longe o tempo em que a publicidade procurava informar sobre o produto, onde a fotografia de moda descrevia as roupas. A defasagem entre o produto e aquilo efetivamente apresentado é cada vez maior.” (ROUILLÉ, 2009, p. 165).
O que mais poderiam refletir com suas questões e essa afirmativa do autor?
… até breve!
Querida Lucia;
Temos aí dois fatores distintos; a Panamericana é uma escola fundada por publicitários, e sempre teve este viés, portanto não é surpresa a supervalorização da dupla pub/moda.
Por outro lado, a fotografia de publicidade sempre carregou consigo o mito de que era extremamente bem paga, enquanto a moda foi acompanhada de um senso de glamour meio desajeitado.
No caso da publicidade, a ilusão de estar no topo da pirâmide fotográfica sempre foi falso; verdade que alguns faturam alto, mas 90% dos fotógrafos de pub estariam melhor de vida se tivessem escolhido profissões menos charmosas (mas mais lucrativas), como vendedor de automóvel ou corretor de imóveis.
No caso da moda, e bom lembrar que estamos a serviço dos nobres, ricos e poderosos.
Não podemos nos iludir: se somos convidados à sua mesa, é para diverti-los. A mesa continua sendo deles.
Beijo,
Clicio
Paulo,
BINGO!
“Talvez seja na publicidade, e sobretudo na moda, que a passagem do documento para a expressão tenha atingido sua maior expansão. Está longe o tempo em que a publicidade procurava informar sobre o produto, onde a fotografia de moda descrevia as roupas. A defasagem entre o produto e aquilo efetivamente apresentado é cada vez maior.”
Sim, não há ilusões por aqui, esta é uma fotografia conotativa, e sem culpa de ser assim; não é a costura que vende a roupa, mas os sentimentos que esta roupa evoca, embutidos na imagem que a apresenta.
Obrigado por comentar, obrigado por indicar, vou comprar o livro do Rouillé !
Fred,
Obrigado pela visita e obrigado pela dica, precisosa.
Assim que for ao Rio vou ver a exposição.
http://blog.fredlee.org/passado/2010/01/15/brasil-carioca/
Clicio
Há alguns anos atrás, uma ponte de São Paulo se não me engano a ponte do limão que passa por cima do rio Tietê, ficou deteriorada uma parte dela foi separada da outra, uma distância de 40 cm mais ou menos… o assunto foi capa do estadão e de outros jornais folha entre outros… um fotógrafo pegou uma criança e a colocou em uma situação de risco sentada entre o deslocamento. Na época Marcelo Leite ombusmam da folha comentou isso em uma aula da nossa faculdade em Rio Preto. Criticando a posição do fotógrafo em manipular o assunto para ilustrar sua idéia. Entre esses muitos exemplos se seguiram pelo país. O que eu acredito é que nós fotógrafos de casamento ( que é meu caso ) possamos em um futuro bem próximo conseguir com cada vez menos cliques fotografar cada vez mais expontaneamente. E que cada vez menos acreditemos que a foto do lanche do Mc… é daquele tamanho e tão suculento , como os publicitarios do mal querem fazer com que a gente acredite … ahahahah
No conceito de onde vem a grana que teu cachê paga, todas vem do mesmo lugar: cliente. Se ele é fabricante de automóveis ou sócio de monopólio de comunicação nacional (ou internacional) tanto faz.
Todo dinheiro é farinha do mesmo saco, tudo honesto, com gotas de irregularidades aqui e ali. Não é de se estranhar que isso apareça na fotografia.
Mas acho importante descategorizar.
Quero que minha fotografia não fale sobre nada.
Como quando Barthes diz que a fotografia é idissociável do seu representativo, pois quando olhamos uma foto não estamos vendo aquela foto, mas seus referenciais em nós.
Quero então registrar a referência do outro e pra isso dou dois passos pra trás, deixo a fotografia respirar…
E assim não promovemos nada, nem marcas, nem comércio, nem jornalismo… nem fotografia!
Oi Clicio,
Poisé, quando comecei a achar que era fotógrafa, ainda na faculdade cursando Publicidade e Propaganda, fotografei muitos casamentos, aniversários de criança e book de meninas de 15 anos. Trabalhava 12 horas direto desde o making off da preparação da noiva as 5 hs da tarde até o seu último grito de felicidade com seu marido ( já bem embriagados) ás 5 hs da manhã, e ainda por cima as pessoas insistem em dizer que fotografia social qualquer um faz! Além de carregar uma câmera mais um 580 acoplado que no fim da madrugada pesava 30 kilos no pescoço, a maior frustração e prova da mentira era no dia seguinte quando eu tinha que colocar o photoshop em ação e deixar aquela noiva praticamente uma Angelina Jolie casando. Claro, a pedido da noiva…. e ai de mim se não fosse desta forma pois caso contrário a noiva diria que não sou uma boa fotógrafa por que não a deixei bonita o suficiente para que ela pudesse mostrar suas fotos de Angelina para suas amigas!
Me cansei deste trabalho árduo e comecei a fotografar publicidade, afinal de contas era pra isso que eu estava estudando. Percebi então a minha satisfação em deixar um prato de comida lindo na foto, demorar horas para fazê-lo e ainda por cima ele não reclamava do tempo que ficou esperando eu acertar a luz…. perfeito… é aqui que eu vou…..porém….acabei percebendo que muitas vezes a fotografia publicitária mais nos traz glória do que dinheiro.
Porque?
Simplesmente por que o cliente não está nem aí se você demorou horas para fazer aquela foto e acha um absurdo o que você está cobrando e ainda diz ao atendimento da agência que é quem você atende, que não acredita no absurdo que você está cobrando por uma única”fotinho”. Pois é, os fotógrafos de casamento fazem 1000 clics para vender muitas vezes 80 ou 100 fotos…a proporção não seria a mesma?
Enfim, acredito que todo fotógrafo deveria ter passado por um laboratório analógico como eu fiz e sair de lá fedendo a fixador como ter fotografado e tratado casamentos e trabalhar horas numa foto de cerveja ou objeto reflexivo ou um lightpainting de alimento para escutar de seu cliente que aquilo é só uma “fotinho” para de fato respeitar todas as categorias de fotógrafos.
Fotografar não é fácil, e mesmo tendo passado por muitas esperiências deixo aqui meu grito de liberdade, acho que ainda não sou fotógrafa, tenho muuuito que aprender e fotografar, não é fácil!
Clicio , tenho muitas saudades do carinho com que você sempre tratou dos meus sonhos, quero que você venha para Santa Catarina o quanto antes, preciso me atualizar rsrsrs!
Neste link abaixo tem o comercial que a Abap e Aba fizeram para defender o mercado dos “publicitários malditos” no Brasil. Achei o máximo… até me senti um pouco ressarcida da culpa rsrsrsr!
http://www.youtube.com/watch?v=Xy1NIdjVksA
Estarei sempre por aqui agora!
Um forte abraço para um grande amigo e um grande fotógrafo!
Amanda,
Fico feliz com a sua visita, e obrigado por compartilhar conosco sua experiência na fotografia.
É fácil pensar que fazer fotografia não requer especialização em nada; pelo contrário, qualquer fotografia que seja cobrada implica em responsabilidade e muito esforço.
Como disse o Leo, sem categorizar!
Volte sempre!, Clicio
Está demais esse papo… Voce é fogo… hahaha Amanhã eu volto, Clicio e com um frangélico a base de avelã. Vou ler com calma budista. Está 10! Gd abs
Apesar de acreditar que você não precisa de mais palavras por aqui, vou deixar mais algumas. Porque respeito e admiro a sua postura de tomar uma posição frente a tantos obstáculos que os fotógrafos são obrigados a enfrentarem.
Antes de mais gostaria de comentar o post, sobre o Haiti… pois talvez uma outra visão te ajude a entender tantas ofensas.
As pessoas não precisam ouvir sobre profissionalismo, ou amadorismo, e como isso dificulta ou não determinadas situações, parta do principio que os profissionais, entendem o seu ponto de vista, e provavelmente se colocam da mesma forma frente à questão. E os amadores, sempre tentarão te atingir, é uma guerra em vão.
Talvez se você usasse no seu post, mais um enfoque que visasse à consciência do cidadão e não tanto a competência dele para esta ou aquela ação, isso tocasse mais pessoas, com mais profundidade e você não precisaria se desgastar tentando ensinar, que tudo nessa vida exige um certo nível de conhecimento e experiência.
Não estou sabendo colocar claramente, mas em resumo é: concordo e assino em baixo de quase tudo que você disse no post sobre o Haiti, e principalmente o fato de que essas são as situações em que as pessoas devem ser o mais humanas possível. Mas a maneira como você expressou isso pode ter soado a muitos, rude e um tanto quanto prepotente.
Não porque tenha sido assim, mas pela sua posição, por quem você é publicamente. Talvez as mesmas palavras vindas da boca de um anônimo, não causassem tanta balburdia, e nem surgissem tantas ofensas, e muitos dos tais amadores, provavelmente leriam e se identificariam como tais, e provavelmente refletissem melhor a questão. O que quero dizer é, que enquanto escreve você deve pensar sobre quem é socialmente, e tudo que representa, sinto dizer isso, porque sinto que seja uma podação do livre arbítrio, não acho que seja justo, mas não sei como seria se não fosse assim.
Desejo sinceramente que muitos que o lêem sejam tocados pelas suas palavras, senão para respeitarem o trabalho dos profissionais, ao menos que seja para procurarem algum tipo de “especialização” não sei, uma formação fotográfica séria. Sinto que talvez muitos desses potenciais fotógrafos sejam intimidados pela sua postura, mais uma vez necessito pontuar, você está corretissimo, mas pode ajudar a muitos mais se conseguir se colocar de maneira mais sutil, talvez seja essa a palavra; muitas das pessoas que lêem o seu blog, provavelmente não o conhecem pessoalmente, ou nunca tiveram oportunidade para conversar com você, muitas dessas julgam, porque isso é um tanto quanto humano, e você estará sempre sobre esses holofotes dos julgamentos alheios, não sobre quem você é, mas sobre quem acham que você é… Você não precisa se proteger disso, nenhum homem deveria, mas há uma maneira melhor de fazer a mesma coisa, sempre existem muitas formas de resolver o mesmo problema, e volto a dizer, que escrevo porque sei que a sua causa é justa, e entendo que quantos mais você conseguir esclarecer sobre a situação dos profissionais, e dos que ainda não estão lá, melhor será para todos nós.
Seu modo curto e reto de escrever, talvez possa ser pontuado de uma maneira mais sutil, não precisa ser um ataque direto aos que não exercem o oficio, com a dignidade que lhe condiz, acredito que um simples ataque as consciências, leve-nos mais longe, um ataque mais profundo a essa tal humanidade do ser humano. Porque acredito que o que incomodou a muitos, não é o fato de você ter citado a questão fotógrafos profissionais, mas o fato de ter sido uma citação incessante ao longo do texto. (As pessoas traduzem isso não como uma forma de abrir os olhos delas pra realidade, mas como uma constante auto-afirmação de que você é um profissional e ele não, é sempre bom lembrar, que um leitor está só ele e o seu texto, e não num debate publico onde quando as idéias são mal interpretadas terão chance de se esclarecer, o blog, por mais que contenha foruns ainda é uma ferramente de mão única, a interpretação daquele que lê, e que as vezes interpreta mal o que é dito, não pelo teor do que se diz, mas pela forma como se coloca)
Talvez se você tivesse focado na questão humanos profissionais e humanos. Quem sabe houvessem menos criticas, e mais cliques dentro de cabeças sem grandes auto-críticas.
Ia abrir um novo comentário sobre esse post, mas acho que as muitas palavras anteriores servem de respaldo a ele também. É legal essa postura de mostrar que o conhecimento é a chave do sucesso de qualquer um em qualquer área, mas volto a pensar se você colocasse isso de uma forma mais amigável será que não seria mais bem recebido? Rs
Tomei a liberdade Clicio, pois assisti uma palestra sua uma vez, não o conhecia, e nem sabia quem você era até o final da palestra. Fiquei muito feliz e empolgada nesse dia, por ver que na fotografia ainda existiam bons homens lutando pela profissão. Não sei se as suas palavras junto aos seus amigos ali aquele dia significaram para todos o que significou pra mim. Mas foi um ponto de esperança dentro de uma área, que já tinha dada por perdida, “e ainda de um publicitário”! rs. Gostaria que todos ou muitos, fossem tão tocados pela maneira com que você coloca a fotografia quanto fui aquele dia.
Não acredito na propaganda ou em qualquer outro meio de manipulação que a imagem exerça, acredito na ignorância humana, acredito que nós temos muito o que aprender e que não temos nem parcialmente consciência de como nossas ações afetam aos outros.
Se os homens não fossem analfabetos imagéticos, ninguém levantaria a bandeira de malditos publicitários, ou malditos qualquer outro que usasse de imagem. Mas os homens são analbetos imagéticos ainda, surge uma nova geração que é criada com a imagem desde o berço, tem a vida inteira registrada, e sabe lidar com isso melhor do que muitos de nós. Mas mesmo estes que talvez entendam melhor imageticamente falando precisam de consciência sobre o como e o porque, o pra que e aonde isso nos leva, mas só quem pode ajudá-los nessa tarefa, são aqueles que precisaram aprender essas questões, e lidar com elas antes de começar a multiplicar imagens.
Será que esses homens tem essa disposição? Será que esses homens entendem esse legado? Será que esses homens estão dispostos? Eu não sei, mas definitivamente, se existe uma classe de pessoas que fotografa, pra sair de uma rotina, ou sentir-se mais vivo, essa é uma classe desesperada, que perdeu não agora, mas na base, a noção do que é ter princípios. Como resgatar isso? Eu não sei, mas acredito que você como professor já está dando o primeiro passo pra isso. Acredito que o que se faz por bem, é sempre um bem. E que as criticas destrutivas sirvam de alimento para os homens que preservam as virtudes. Preciso confessar agora, que nunca tinha entrado no seu blog e cai de pára-quedas aqui lendo um post no blog de Paraty… então se disse muitas besteiras sobre a sua forma de escrever ignore-me, só li esses dois últimos posts.
Desculpe a extensão não pretendia me alongar tanto.
(Não há necessidade de publicar isso, escrevi-o a você, mas não conhecia outra forma de enviar, então usei desse meio)
Sucesso pra você Clicio!
Ass: Priscila Monteiro Santos
Priscila,

Em primeiro lugar, obrigado por se preocupar.
Fiquei refletindo sobre suas palavras, e de como sempre fui considerado agressivo, não só escrevendo, mas também falando; é uma característica que, depois de tantos anos, vai ser difícil mudar.
Opto por ser direto e redundante para tentar fazer meu ponto de vista ser compreendido de forma rápida e inequívoca; nem sempre tenho sucesso.
Sim, vou pensar bem sobre o que me escreveu, e talvez ser mais sutil em meus próximos posts. A maior dificuldade é imaginar que, sendo sutil, talvez o entendimento dos assuntos aos quais me proponho a comentar seja para alguns ainda mais ambíguo, provocando discussões desnecessárias e fora de contexto.
Mas prometo que vou tentar.
Obrigado por comentar, por visitar, e volte sempre!
Clicio
Parabéns pela posição e abordagens perfeitas sobre o tema.
Eu mesmo vivi estas criticas sobre manipulação de fotos a partir do advento da fotografia digital em 1996, ao produzir fotos documentais sobre as queimadas na amazonia para uso do IEF Instituto Estadual de Florestas de Rondonia. Depois recebi severas criticas por produzir uma foto de um indio Cinta Larga para catálogo de artesanato indigena do Sebrae, em que usei um modelo com traços indigenas, melhorando o aspecto geral e dentro do conceito de beleza que eram pedidos pela agencia.
Fui rotulado de todas as formas, e agora me rotulam de documentarista ambiental, o que realmente não sou.
Perdi inumeras chances profissionais por não aceitar produção de factóides politicos. Tive portas fechadas por não aceitar copiar fotos de bancos de imagens para publicidade. Perdi campo na moda e editorial por não aceitar modelos impostas por padrinhos.
Na procura por um bom trabalho fiz o melhor que podia, sendo ético e atendendo às expectativas dos meus contratantes. Mesmo assim as brigas nunca param, e hoje são contra a plastificação de modelos em editoriais.
Na época do cromo, passavamos horas numa sala escura manipulando uma cópia e ninguém dizia nada contra. Hoje usamos os mesmos recursos no Photo-shop ou outro programa de edição e somos rotulados disso ou daquilo.
Uma boa foto envolve bem mais que um clic. Uma boa produção, maquiagem, cenário, equipe entrosada, modelos, edição, e muitas outras variantes. São muitos os profissionais envolvidos, e no entanto, só os fotógrafos recebem as criticas.
Isso é, no mínimo, preconceituoso.
Queria ver se alguém compraria um produto, um jornal ou revista sem imagens, sem as tais fotos, nos moldes dos antigos reclames de décadas passadas.
Seja qual for o rótulo ou as criticas ao profissional de imagem, o fato é imagem é tudo.
Como esperar que qualquer fotografia não seja manipulada se o próprio ato de enquadrar já é uma edição, uma seleção do que se quer mostrar sobre algum assunto???
Olá Clício, sou nova no mundo da fotografia, e estou na fase amador/profissional, tenho acompanhado teu trabalho e tem me ajudado muito em minha dúvidas.Abraços querido.
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Clicio, li seu texto impresso, lá pelas 03:00 da madruga. Bom assunto… Vi que você se preocupou muito em colocar em foco casos venais de manipulação praticados por paises totalitários de esquerda mas se esqueceste dos paises de direita, assassinos como os USA.
Já tinha visto todos os casos que colocaste no blog e acrescento os casos dos fotojornalistas americanos que perderam prêmios por manipularem fotos realizadas no Iraque como é o caso de Brian Walski do Los Angeles Time, principal jornal californiano segundo o link que segue http://www.picarelli.com.br/clipping/clip030403b.htm
Existe também o caso que o fotógrafo libanês que atuou no oriente médio, Adnan Hajj, free-lancer da agência Reuters, “é autor de não uma, mas pelo menos duas fotografias comprovadamente manipuladas”. O link está aí também… http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=393MON001
Tem o caso do camaradinha lá dos USA que andou escurecendo imagens digitais de bombeiros num incêndio, tem o caso, do fulano, do beltrano, etc. Ta cheio de aberrações praticadas por norte americanos, ingleses, italianos, franceses, etc. Chega!
Creio que você já fulmina a questão com um pensamento curto: “…há bons e maus fotógrafos em qualquer área, e quando se trata de honestidade, ética ou humanismo, cada indivíduo é como é.”
O problema não está na fotografia publicitária, mas no produto que o fotógrafo fotografa. Por exemplo: conheces algum refrigerante que faça bem para a saúde? Conheces alguma empresa telefônica que não seja campeão de queixa no procon? Conheces algum servidor de internet perfeito no atendimento de seus clientes? Conheces algum carro produzido por alguma multinacional neste país colonizados que tenha qualidade e não coloque me risco a segurança do passageiro e tenha longa durablidade? Conheces algum enlatado produzido por venais empresas alimentícias que tenha colocado em letras graúdas os venenos que te matam lentamente – isto se não pegares botulismo na primeira – que constam no rótulo de seus produtos? Então Clicio, o problema está com a, pasteurização, a plastificação da filosofia da empresa para a qual o fotógrafo trabalho. A agência enfeita o layout e o fotógrafo executa muito bem sim o seu trabalho. E ele vai morrer de fome por que as empresas são moralmente porcas, como é ocaso dos bancos que enriquecem seus acionistas e ferram os pobres cobrando taxas exorbitantes? Não! Fotografem, sim e ganhem dinheiro desta escumalha que eu e milhões não suportam.
Quer mais? É dentro de um estúdio fotográfico que se aprende a dominar luzes sofisticadas, fundos, direção de modelos, enquadrar, fazer báscula, distância focal, programas, etc, etc, etc. Portanto, particularmente, não morrerei com a culpa de ter discriminado um colega fotógrafo que faz uma puta foto de calcinhas ou biquinis com é o caso de Ella; ou, belos retratos tratados com moderção para bons livros que tiram tantas pessoas da escuridão digital, técnica rela e que não dá mais para ignora-la – se até Cristiano Mascaro já abdicou do sistema anterior a estes…- Estou falando de você, Clicio. Não dá também para deixar de tirar o chapéu para Miro, Bob, para um culto Mascaro ou um meticuloso Scavone… São tantos…
Fotojornalismo. Minha paixão é a rua. A fotografia bressoniana. Por que trabalho só? Porque não me submeto a imposição de uma linha editorial porca. Sei, reconheço que meus colegas que fazer fotojornalismo são 10, maravilhosamente competentes, mas eles trabalham porque querem e não irei condená-los por isso. Poderia citar vários motivos que me levaram a tomar uma decisão e viver de patrocínio e vendas de fotografias para uso exclusivo para decoração, mas irei citar um só. O grupo abril se aliou a uma empresa sul africana, envolvida na morte de milhões de negros, no período Kevin Carter. Sempre ele…O mestre… O mártir… Que esteja nos braços de Alá.
Só fala mal de A ou de B quem não conhece nenhuma das duas áreas. Hasta la vista!
Caro amigo Wank,
Não, não foi intencional; falei de “vários presidentes norte-americanos e europeus” justamente para tentar uma neutralidade política.
E sim, os casos citados por você (e tantos, tantos outros…) são exemplos perfeitos que por si só justificam este texto.
Na verdade quero agradecer seus comentários, ricos e valiosos, e convidá-lo a passar por este blog quantqs vezes quiser!
grande abraço,
Clicio
Clício, eu entendi que você não quis caracterizar, e também acho que somos todos fotógrafos, independente da área.
Talvez o WSJ tenha estereotipado demais, achando que há uma carga de estresse físico e emocional muito alta para a recompensa salarial. Pelo menos foi essa, aproximadamente, a metodologia utilizada, segundo o site.
Quanto às fotos publicitárias e a discussão do Oziel, gosto da frase do Richard Avedon ” All photographs are accurate. None of them is the truth”.
Talvez os restaurantes devessem aproximar seus pratos às fotos, e não o contrário.
Flávio diz:
“Talvez os restaurantes devessem aproximar seus pratos às fotos, e não o contrário.”
Exato.
Talvez a fotografia cuidadosa e elaborada de produtos faça com que os fabricantes desejem a qualidade tanto quanto os consumidores!
Ahh…
Deixa pra lá.
Estou delirando novamente…
Podes crê , Clicio. Me esqueci de incluir na lista dos fotógrafos publicitários de ótima cepa, o mestre Andreas Heiniger. Esse homem entende de tudo. Eu trabalharia de graça no estudio dele também por dois meses e ainda lhe daria uma cópia fotografica como agradecimento. Ele é pura ciências exatas. Culto prá cassete. Obrigado, Clicio! Gd abs
como sempre clicio na frente e me sinto grato quando leio qualquer assunto seu sobre fotografia e nesta epoca de mudanças na fotografia, vc colabora,ajuda ,acrescenta e abre margens a muitas discussões entre nós fotografos .
e sou contra rotulos e só de olhar no buraquinho magico da camera ja filtramos informções ,no que focamos e mostraremos posterior na imagens retratadas,o que temos que ter é etica profissional e seguir principios …claro que um seguem outros não e para outros principios são valores que diferem de pessoa para pessoa.
abs clicio e sempre avante estimulando reflexões em nossas mentes
Quando penso que já vi quase tudo, me certifico que não vi foi nada.
http://camaraobscura.fot.br/2010/01/14/o-fotojornalismo-subersivo-de-ivars-gravlejs/
E agora? Estou mudo!
Caro Wank,
Interessantíssimo o seu link; vou colocar como update no meu post original, obrigado por enviá-lo!
Clicio
Clicio. Lá no antigamente, você lembra, pois somos mais ou menos da mesma idade, abriamos as Seleções de Reader’s Digest e lá havia uma ilustração da Rural Willys com uma família feliz em volta, ilustrados como em um passeio ideal. Creio que a ninguém ocorreu culpar o desenho ou o guache por nada. Por que, então, a fotografia parece culpável? Talvez porque se espere dela verdade, enquanto do desenho, por mais que tente ser realista, não esperamos dele que seja fiel a algo acontecido.
A qualidade de representação é no desenho evidente, mas na fotografia menos.
Como disse a você em email, há muitas formas da fotografia “embalar o sonho”. Alguns tipos de fotografia, como a fotografia de moda por você praticada, não existem sem o sonho, e todos os que lidam com ela, desde as consumidoras, os homens que vêem as belezas femininas, os que consomem moda, os que produzem, todos sabem da dose de fantasia ali contida, e deixam-se inebriar por ela consentidamente, como quem toma duas taças de vinho em um fim de dia e curte a onda.
Em outros casos, porém, não é uma fantasia, mas alguém tenta passar por verdade o que não é. O problema não é a fotografia, como não seria se fosse uma ilustração feita com lápis e tinta. O problema é a tentativa de mentir usando a fotografia.
Contudo, mesmo nesse caso acho que há um espaço narrativo. Nas duas primeiras fotos desse seu post, há uma narrativa que descreve algo que se não ocorreu assim, exatamente assim, ocorreu de forma semelhante, ou com espírito semelhante. É verdade? É mentira? A fotografia pode não ser verdadeira (isto é, feita no único click), mas a coisa descrita pode ser verdadeira. Os russos de fato tormaram Berlim e o trem de fato passa por estepes onde vivem tais animais. Do mesmo modo, a fotografia pode ser uma verdade fotográfica, isto é, feita em um único click, e mostrar uma mentira, como a foto do Obama olhando a moça.
Como já lhe disse, este é um assunto interminárvel. Porque mesmo a publicidade precisa ou merece ser inquirida no papel que ele tem no nosso mundo, de geração de desejos, de geração de falsas necessidades, como dizia o Marcuse, que mantém a máquina industrial girando e estragando o mundo. Mas isso são outros quinhentos mil-réis.
Grande abraço,
Ivan
Ivan,
Curioso que você cite o anúncio do Aero-Willys; fui (pasme!) modelo quando adolescente justamente deste anúncio da “família feliz”; uma foto em que eu estava cavalgando (eu montava na Hípica, na época).
Thanks por comentar!
Mas era já uma fotografia.
Mas concordo em geral com sua breve análise; não se discute muito a abstração e fantasia presentes na fotografia editorial e publicitária, mas errôneamente se discute o mesmo no fotojornalismo.
Robert Capa declarou ao ser questionado sobre a “autenticidade” da famosa foto do espanhol caindo: “Cumpriu o seu papel”.
Sintomático, não?
Pasmei!
Mas havia alguns que eram desenhos.
Apenas uma observação meio Off Topic.
É que sempre incomoda um pouco toda a vez que vejo Iwo Jima Raising Flag e a Bandeira Sovietica sobre o Reichstag, como exemplos de “manipulação”, de certa forma reduzindo o valor dessas imagens, pois elas não seriam “autênticos” “registros” de “momentos decisivos” a la HCB.
Acho que algumas coisas passam meio batidas, são esquecidas todas as circunstãncias envolvidas. Como por exemplo o fato de que a tomada de Berlin custou aos sovieticos, cerca de 200 mil homens. Sem falar dos mais de 23 milhões de mortos entre 1941-45, 14% da população de antes da guerra. É como se a cidade de São Paulo visse desaparecer mais de 1.900.000 pessoas em 5 anos. Em algumas partes da URSS a população masculina só voltou aos niveis pré-guerra em meados dos anos 1970.
Então eu acho meio ridículo, sessenta e quatro anos depois, ficar discutindo se a foto do Kaldei foi “autêntica”, ou não porque ele fez a bandeira para a ocasião e retocaram uns relógios saqueados pelos soldados (especialmente quando sabemos hoje que todo o mundo, estadunidenses, ingleses, franceses, etc. tiveram a sua cota de butim de guerra).
O mesmo se aplica à foto de Rosenthal. Os estadunidenses tomaram a maldita ilha depois de 36 dias de luta sangrenta, a um custo de quase 7 mil mortos, e 19 mil feridos. Dos seis homens que aparecem na foto de Rosenthal, o mais novo com 18 e o mais velho com 26 (acho importante declarar as idades para que fique claro o que a palavra ‘homem’ significa no contexto), só 1 (um) saiu andando da ilha, e 3 nunca voltaram para casa.
Além do mais, pessoalmente acho a foto de Rosenthal muito forte. Já a vi estilizada em toda a sorte de ilustrações, desde cartazes do MST até posteres GLBT. E acho que isso é o que realmente importa.
Clicio,
Só fazendo uma observação pelo citado do Wall Street Journal, há duas referências do meio fotográfico e não apenas uma. Segundo a lista, a profissão “Fotógrafo” está colocada em n#126, já a de “Fotojornalista”, como mencionou, está em n#189.
Pela extensão dos comentários não puder conferir se a nota já fora mencionada. Acredito ter sobressaído à posição mais negativa dada na lista, o que obviamente foi mais oportuno pra discussão.
Matheus Galvão Alencar, jovem, moreno, rico e baiano, o melhor publicitário de todos os tempos, sou fã n° 0, muito competente.
Belo post, sabias palavras… agora isso e novo pra mim lol,…
Por que será que a fotografia é considerada, em uma lista de 200 piores empregos, a de n# 189 (número negativo, só há 11 profissões piores, segundo o Wall Street Journal)?
Clicio,
Acho que este é um tema para se pensar sim. Sempre que a fotografia servir a uma causa justa é um bom propósito. Eu não posso me considerar um profissiona da fotografia por que fotografo por prazer, não pretendo ganhar dinheiro com as minhas fotos. Entretanto, também não as dou para publicações gratuitas, posso presentear a um amigo que goste.