por clicio em 10 de julho, 2010
Latinoamericanidade

© 2010 Clicio Barroso
No final dos anos setenta, não um novato em viagens internacionais, já tendo vivido em Nova Iorque e conhecido algumas capitais sul americanas, fui a Argentina pela segunda vez; lembro-me bem, era final de julho, fazia muito frio, Buenos Aires era uma cidade elegante e européia, e fomos esquiar em San Carlos de Bariloche.
A cidade comemorava na primeira semana de agosto a “Fiesta Nacional de la Nieve“, evento cultural tradicional onde todos participavam; peruanos, chilenos, mexicanos, uruguaios, colombianos, misturados aos anfitriões argentinos, formavam um só grande grupo, unÃssono, divertido, colorido e alegre.
Mas os brasileiros não.

© 2010 Clicio Barroso
Fiquei perplexo, chocado! Completamente estrangeiros em nosso próprio continente, isolados por vontade própria, éramos os outsiders.
Obviamente não pela lÃngua, já que sendo a similaridade tão patente, só não se entende quem realmente não quer; não pelos costumes, que são bastante distintos entre os povos e culturas americanas, mas sim por soberba, por falta de interesse nos vizinhos mais próximos, por desconhecimento da maravilhosa mescla de culturas que nos cercava.

© 2010 Clicio Barroso
Depois disso voltei várias vezes, e pouco a pouco o cenário mudou. Exilados daqui e dali pelo autoritarismo dos anos de ditadura militar, sofrimentos e mazelas semelhantes em toda a América do Sul nos aproximaram, e a distância encurtou com voos mais constantes, Internet, celulares; o Mercosul aconteceu (uma idéia óbvia, não?).

© 2010 Clicio Barroso
Hoje volto a uma Argentina menos glamurizada, mas muito mais próxima. Brasileiros de monte vivendo por lá, uma integração de fato. E na fotografia, devemos prestar atenção aos que realmente promovem essa integração, quer convidando fotógrafos latinoamericanos para exposições, palestras e eventos, quer promovendo festivais e fórums, editando livros, ou fotografando as gentes e lugares do nosso continente.

© 2010 Clicio Barroso
O Iatã Cannabrava é um desses; seu excelente livro “Uma Outra Cidade” retrata as periferias das cidades latinoamericanas, suas semelhanças e diferenças; o festival de fotografia Paraty em Foco, do qual é um dos organizadores, convida consistentemente fotógrafos dos paÃses sul americanos para palestras, mesas-redondas e workshops; e o Fórum Latinoamericano de Fotografia de São Paulo, também por ele organizado e que terá a sua 2º edição em outubro de 2010, é o instrumento de interação mais visÃvel desta intensa troca de cultura fotográfica que vem acontecendo nos últimos anos. A presença forte de brasileiros e outros latinoamericanos no festival E-CO – Encontro de Coletivos Fotográficos Euroamericanos acontecido em Madrid e que tem curadoria do espanhol Claudi Carreras (Laberinto de Miradas), mostra um interesse cada vez mais maior dos europeus pela nossa criativa e pulsante fotografia.
É, vamos ter que entender que, apesar de básicos e fundamentais, os fotógrafos Martin Chambi e Manuel Alvarez Bravo não são exceção; são apenas a base de uma enorme malha de jovens fotógrafos latino americanos que emergem com seu olhar caliente e visceral, e que pouco a pouco conquistam seu espaço na arte contemporânea.
Update 01: Manu Melo Franco nos manda o link do Fórum 2010; obrigado!
Update 02: Não deixem de ver o incrÃvel trabalho do argentino Alejandro Chaskielberg, que participará do Paraty em Foco 2010!



14 Comentários
Há uma cumplicidade entre fotógrafos e a fotografia fala uma lÃngua mais abrangente. Abs
Oi, Clicio, grande fotografo. Comentários bem pertinentes sobre nós, brasileiros, perante os outros sul-americanos.
Talvez tenha sido a lÃngua que, embora semelhante, tenha causado as dificuldades de aproximação.
Você vê que espanhóis e portugueses não são lá muito chegados na própria penÃnsula ibérica.
Mas é bacana que tenha ocorrido a integração registrada por vc.
Buenos Aires é uma cidade chique, sim, com um clima meio misterioso. Vc deve ter ficado fascinado
Ei, Clicio!
Aqui vai o link do Fórum Latino-Americano deste ano:
Bjo!
http://www.forumfoto.org.br/
muito legal teu post, sempre acho bom algo que une.
acho eu, como alguém “do outro lado”, que talvez falte um pouco baixar a guarda, ou seja, se deixar atingir mais pelo outro. as vezes os tapas na cara nos acordam, e as vezes em lugar de tapas podemos receber beijos…
Estarei em Buenos Aires no começo de agosto. Me inspirei.
Valeu ClÃcio!
É um fato, fomos (nós brasileiros) seguidores do modelo francês por muitos anos e depois passamos a nos espelhar em Miami e/ou NY, nada contra essas referências, mas abaixo do Equador também há vida inteligente, e muita!
abs
Tá vendo, conheço pouco a fotografia dos nossos “amigos” latino americanos…
TaÃ, vou procurar conhecê-la!!
Obrigada pela dica!
Pra que esse isolamento, né?
beijos
Acho que aos argentinos sim faltou olhar para os lados. Só olham o umbigo. Eles que sempre seguiram e fizeram questão de serem europeus.
Sinto no Rio Grande do Sul grande influência espanhola na politização, costumes, belicosidade.
Brasileiro é ‘bonzinho’, sempre com aquele complexo de vira lata, como dizia Nelson Rodrigues.
Conheço bem o lado oriental da Bolivia e tenho a dizer que é outo mundo. Talvez o milésimo mundo seja ali.
Bacana as fotos, Clicio.
Continuo achando boi nos ares muito chic.
Beleza de publicação Clicio!!!
Estive na Colombia e Venezuela tempos atrás, não mais que quatro anos, e senti uma diferença muito grande de cultura. Pelo menos por onde andei, me pareceu que nossos irmãos latinos são mais educados em todos os sentidos, possuem uma cultura voltada para arte muito maior que a da maioria de nós.
Ainda bem que pela sua experiência recente, conseguiu perceber uma maior troca cultural, pelo menos na área da arte.
Existe, e presenciei isso, uma grande troca cultural entre os paÃses vizinhos e nós com as costas viradas para eles. O que é interessante é que somos muito bem recebidos por eles. Parece que sentem vontade aumentarem essa troca e nós, o maior da América do Sul, o mais desenvolvido, com cabeça de menino mimado.
Que seja pela ARTE essa mudança, mas que aconteça logo.
Abraços.
Lina Faria, acho que vc conhece pouco sobre a argentina, toda minha epoca de fotoclube estive em contato com o resto de latinoamerica, as revistas colombianas de fotografia, entre outras; a Sr Sara Facio curadora da fotogaleria do teatro San Martin e do acervo permanente do museu de Belas Artes, sempre nos trouxe em BsAs o melhor e o mais relevante da fotografia de mexico, peru, colombia, venezuela, e até do brasil. visite a editora “La Azotea” para ver o que é publicado na arg sobre fotografia latinoamericana; porem não so se limita a fotografia, veja na musica o canal MTV latino e o canal Much music, que transmitem musica para toda america latina menos para o brasil…incluem muita musica do sul do continente. que canal de musica no brasil coloca na sua programação musica latina, que loja de discos tem variedade de discos das milhares de bandas latinas? na livraria cultura as bandas latinas estão na area “etnica” e não superam os 100 titulos.
é facil repetir os bordões de galvao bueno , ne…
agora na questão de argentino ser europeu, é verdade, é uma questão historica, no ano de 1900 90% da população da arg. tinha um ancestral europeu, a maioria do pais é feita pela imigração, isso não é uma decisão, querer ser… eles eram. isso é um pecado? isso é uma realidade, agora é melhor criticar do que tentar entender as realidades historicas.
Hehehe…calma, Diego, moço de nome invocado. Jogou pesado, hem?
Bordões de Galvão bueno é o hilário!
Bem, não conheço mesmo a Argentina se não de minhas experiências curtas por lá. Minha impressão foi despretensiosa. Falava mesmo de experiência social imediata. Só isso.
A Venezuela conheço melhor no aspecto de politicas culturais. Já expus no Museu Celarg de Carácas.
Mas minha leitura é sempre mais ampla e social. Eu não falava da fotografia em especÃfico.
Na Venezuela tinham um movimento consistente (não sei agora).
O Centro Nacional de La Fotografia, orgão estatal, tinha publicações interessantes.
Diego, não sou nenhuma agitadora cultural. Sou apenas uma atleticana curiosa. hehehe…
Olá, ClÃcio. Sempre acompanho o seu blog, mas é a primeira vez que me manifesto aqui, pois achei bem interessante este post. Vivo em São Paulo, mas estou neste momento em Córdoba, na Argentina, e na semana que vem sigo para Buenos Aires. O que tenho para falar é que, convivendo com alguns argentinos, pude perceber que somos muitos parecidos sim, apesar da cultura entre a gente ser diferente. Tem uma casa aqui em Cordoba que se chama Casa Brasil Intercultural e em um dos eventos que aconteceu por lá tinha mais argentinos do que brasileiros, o que mostra o interesse deles pela cultura brasileira. A propósito, eu expus algumas fotografias nesta casa
e os argentinos se mostraram bastante curiosos pelo povo brasileiro!
Um grande abraço!!
Preconceitos a parte – conscientes ou não – não devemos nos deixar levar pelas politicas racistas e que tem por objetivo desestabilizar toda uma região.
Diego Rosseux mandou bem aqui: “agora na questão de argentino ser europeu, é verdade, é uma questão historica, no ano de 1900 90% da população da arg. tinha um ancestral europeu, a maioria do pais é feita pela imigração, isso não é uma decisão, querer ser… eles eram. isso é um pecado? isso é uma realidade, agora é melhor criticar do que tentar entender as realidades historicas.”
Não são do interesse econômico europeu ou estadunidense a união (do povo) da América Latina, muito menos de determinados setores polÃticos aqui do Brasil.
Fundamental a união da America Latina em todos os setores para sairmos da situação de “continente rico com um povo pobre” ( o Veias Abertas da America Latina do Galeano ainda é uma boa leitura).
Ser “artista” hoje mais do que nunca é ter determinada posição social que interessa ao “mercado”.
Já a Arte deve emocionar e se emociona contesta e se contesta reflete e se reflete se volta as suas raizes culturais sem negar as influencias do mundo. Cabe aos artistas latinoamericanos aprofundar laços de amizade, de diálogo e de boa vizinhança derrubando aos poucos preconceitos históricos que interiorizamos. Infelizmente muitos destes (fotografos) ainda contribuem escandalosamente com uma midia cujos interesses não são os interesses da maioria da população latinoamericana.
Parabéns a todos que trabalham pela união saudável dos povos latinoamericanos e que já conseguiram discernir a “fofoca midiática” da refelexão responsável.
Marcia concordo plenamente com vc, eu sempre brinco falando que no unico pais latinoamericano onde a MTV latina não passa é aqui no brasil , e shaquira (gostos aparte ) so começo a tocar aqui quando cantou em ingles… meu sonho é ver o brasil acordar e se transformar no carro chefe , na locomotiva do continente, mais para isso ainda falta muito calabocagalvao…rsrs
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