por clicio em 17 de janeiro, 2010
Haiti. Fotografar ou ajudar?
O recente terremoto no Haiti, considerado pela ONU a maior tragédia desde que a organização foi criada, levanta novamente a questão da função do fotojornalista de guerra e sua não-interferência com o “assunto”.
Quando os fotógrafos de guerra começam a agir como os paparazzi das revistas de fofoca, e cercam vítimas já estressadas como aves de rapina, as perguntas começam a surgir:
Até onde o profissionalismo, a vaidade, a vontade de ganhar prêmios ou a simples morbidez são defensáveis quando abaixar a câmera e ajudar pode ser mais eficiente? O que é ser profissional em uma situação extrema como essa que o Haiti está vivendo?
A foto ao lado, realizada na África do Sul pelo fotojornalista Kim Ludbrook, acabou sendo motivo de uma inflamada discussão no Festival de Perpignan em setembro de 2008, já que os jornalistas retratados admitiram que nem um deles presente se preocupou em perguntar ao gravemente ferido “assunto” se ele precisava de ajuda.
O que parece ser óbvio para todos, é motivo de reflexão para alguns.
Pois bem, o que aconteceu no Haiti é terrível, mas é hora de ajudar.
Sim, os fotojornalistas contratados, profissionais de jornais, revistas, sites e redes de televisão fazem o que tem que fazer, isto é, mostram o horror da situação e assim provocam uma reação positiva, estimulando doações e atitudes proativas por parte de governos, corporações e pessoas. O jornalismo desempenha um papel fundamental enquanto algo pode ser feito, e para mudar situações antes esquecidas.
O que assusta a todos, porém, é a quantidade de free-lancers, amadores, curiosos e aventureiros que estão indo, pretendem ir, ou já estão em Porto Príncipe, capital do Haiti.
O jornalista free-lancer pode ser aquele que, com a decadência do jornalismo impresso e consequentes demissões em massa, está fazendo o que os consultores indicaram; “se vira”, faz a reportagem, traz as fotos e reza para alguém comprar. Geralmente um profissional das antigas, experiente, que faz seu trabalho com competência; difícil é vender a matéria, com a concorrência predadora no Haiti.
Pode, por outro lado, ser um fotógrafo independente (ou um coletivo), profissional, sensível, que mostra o que tem que ser mostrado com decência, com respeito, e ainda assim tocando o coração das pessoas para que ajudem a mudar a situação; o Ig e a Lou, do Lost Art, fizeram exatamente isso com “After the Fire“, uma cobertura tocante do fogo que consumiu uma favela em São Paulo, no Dia das Crianças.
Mas também pode se auto-denominar free-lancer aquele “adrenalin freak” que quer trazer histórias de aventura para sua vida boring, e em seu fotoclube, ou fórum, ou Facebook, ou Twitter, manifestar sua pretensa coragem, seu egocentrismo, sua busca por fama. Não, não estou exagerando; conheço pessoalmente jovens brasileiros que nunca trabalharam na vida, de classe média alta, e que foram para zonas de conflito no oriente médio, devidamente paramentados, levando várias câmeras, lentes e coletes para justificar sua existência medíocre e entediante. Não trouxeram uma foto decente, mas quanta história…
Por outro lado, mesmo o mais experiente fotojornalista profissional geralmente tem consciência social, compaixão, e frequentemente deixa de fotografar para ajudar; um exemplo clássico é o do grupo formado por Timothy Fadek, Kai Wiedenhöfer; os fotógrafos Chris Anderson, Thomas Dworzak and Paolo Pellegrin da Magnum; Kevin Sites do Yahoo! News, Wael Ladki do Líbano, Lefteris Pitarakis da Associated Press, e vários jornalistas turcos que carregaram nas costas civis feridos e idosos nos bombardeios das cidades de Bint Jbeil e Aitaroun, em 2006, deixando de lado suas câmeras. Claro, é uma regra não-escrita do jornalismo não interferir nas cenas fotografadas, mas o limite é o da decência humana.
A discussão só cresce; “A pack of war paparazzi” (uma matilha de paparazzis de guerra) diz o site DVAFOTO sobre a quantidade de jornalistas em zonas de conflito; em outro post, mais recente, fala “Like moths in a flame” (como mariposas na lâmpada), especificamente sobre o Haiti; a jornalista Jay Newton-Small, que está trabalhando em Porto Principe, afirma no Twitter que os haitianos não precisam de mais jornalistas nem fotógrafos, querem sim médicos, água potável e comida.
Uma excelente forma de se entender o assunto é lendo o post de Dee Xtrovert que descreve o que ele passou em Sarajevo durante a guerra com a Sérvia; voluntários aos montes, sem treino, ocupando espaço em abrigos já escassos, se alimentando de comida e água não-existentes, sem falar o básico da língua do país em que estavam, e na realidade sendo uma pesada carga a mais para os que ali tentavam sobreviver.
Me parece lógico; se não puder ajudar, não atrapalhe; se não quer cavar com as mãos concreto despedaçado em meio a poeira e cheiro insuportável, e não tiver um contrato firme para publicar o material (ou seja, se não é um fotógrafo profissional de hard news), por favor; faça um cheque e o envie a qualquer uma das inúmeras organizações sérias de apoio e ajuda internacional ao Haiti, como a Cruz Vermelha.
Não tem dinheiro? Doe sangue.
Mas insisto: não leve sua câmera para passear em um país devastado pela tragédia.
Não é um show da Broadway; não é um filme de Hollywood; é a dura realidade do país mais pobre do hemisfério ocidental.
Por favor, deixe sua impressão abaixo; você iria para o Haiti? Para que?
Update 01: Não sei o que vocês vão achar, mas o fotojornalista Andy Levin está com um workshop marcado para dia 2 de fevereiro, no Haiti. Diz que “ainda há vagas”.
Valor da inscrição: U$ 1.500
O fotógrafo defende sua posição e insiste em que esta é uma “oportunidade” para seus alunos.
O link foi postado no Twitter pelo Ignacio, Lost.Art: http://duckrabbit.info/blog/2010/01/have-100-eyes-lost-the-plot/
Update 02: Nem todas são notícias ruins.
Jornalistas australianos param de gravar e salvam menina, cavando os escombros.
http://migre.me/h40b
Update 03: Mais um deixando a imparcialidade: Anderson Cooper, âncora da CNN, resgata um jovem haitiano ferido.
O Pictura Pixel também deu, e rola um filminho.
Link original: http://migre.me/h6O6
Update 04: O Ig, do Lost.Art, twittou uma foto que encheu a galera de alegria e confirmou o que muitos disseram; fotógrafos são fundamentais para mostrar ambos os lados. Tomo a liberdade da publicá-la aqui também.
© Matthew McDermott 2010





114 Comentários
Fotografar E ajudar. Uma coisa não precisa excluir a outra.
Ei iria ontem, sábado dia 16, pois já havia fechado contrato com O DIa Oline e ia junto com o Felipe Dana pela AP.
Porém o vôo da FAB furou devido a outros problemas.
Mas claro que ir para passear com máquinas não é uma boa e muito menos transformar o profisisonal em paparazzi em busca de algo que possa vender depois.
Não iria como quem não tem anda para fazer. Sometne iria para gerar imagens que pudessem, do meu modo, panorâmico, mostrar o tudo ao redor.
Mas acho o texto ótimo.
TEm muito maluco sempre na dúvida se quer aparecer ou realemnte dar sua parcela de fotojornalismo mesmo.
Abçs
Ayrton
Ótimo texto, Clicio. Eu iria, talvez numa outra fase da vida, pro Haiti, como voluntário de alguma instituição. E eu até tentaria usar a fotografia para ajudar também, mas apenas como uma segunda ferramenta. Um bom exemplo disso, envolvendo situaçao de pobreza e fotografia, é um pessoal que faz um trabalho bem legal na Nicarágua: http://lovelightandmelody.org/
Isso eu acho que vale a pena.
Acho que tudo isso foi muito bem debatido no filme “War Photographer”.
Excelente texto Clicio, no timing perfeito.
Enquanto trabalhava no fotojornalismo conheci varios profissionais que adoravam a dor dos outros.
No meu blog recentemente fiz um post sobre o filme em questao – http://raphaelgunther.com/blog/?p=934
É um fato da natureza: Carniça atrai urubús.
Abraços.
Não me considero uma fotógrafa profissional, mas apenas uma apaixonada por fotografia. Mesmo assim, não poderia deixar de opinar. Ainda ontem conversei com uns amigos sobre um post bem parecido com este. E depois de chegarmos a opiniões bem diversas, percebi que realmente a maioria dos “fotógrafos” estão mais focados em apresentar um bom trabalho, imagens chocantes e quem sabe até ganhar um “Prêmio Pulitzder”. Sempre tentei me colocar no lugar do outro, e tenho tentado entender como alguém pode ver uma pessoa precisando de ajuda e simplesmente não fazer o que poderia para ajudar. Sei que algumas destas fotos realmente “ajudaram” a chamar a atenção sobre a realidade em que vive o país. Mas, mesmo assim, vai além da minha da capacidade de compreensão. E não importa quantas explicações (coerentes ou não)sejam dadas, ainda assim, não consigo mudar minha opinião. E se você estivesse no lugar de alguma daquelas pessoas? E se precisasse de ajuda e estivesse cercado de fotógrafos sedentos por uma boa imagem e nem um pouco dispostos a ajudá-lo? Eu ajudaria, sem sombra de dúvidas.
Abraço, @lisiazeredo
Olá Clicio,
Primeiramente, parabéns pelo post.
Já faz um tempo que li uma matéria sobre a ética e a violência no fotojornalismo na revista Técnica e Prática (edição n° 4) que me fez ter uma opnião diferente do que eu vinha tendo.
A princípio eu sempre achei que havia um certo exagero por parte de coberturas assim. Mas a matéria me fez enxergar que a exibição é, muitas vezes, necessária para provocar uma reação positiva como você mesmo disse.
O que eu acho de suma importância é procurar não fazer sensacionalismo, não explorar a dor e, se for necessário, ajudar sim! Não consigo me imaginar num lugar desses e não fazer nada para ajudar!
Concordo com você, também, que esse trabalho deve ser feito por profissionais.
Um abraço
Denis
Sim, iria ao Haiti mas apenas se tivesse muito claro o papel que estaria desempenhando e se tivesse certeza que minhas habilidades/talentos iriam somar ao trabalho de resgate e/ou reconstrução.
A principal característica de um desastre natural é que é ‘pra valer’. Não tem negociação, não há possibilidade de escolha. Uma vez que vc está na área não tem como fugir da devastação, da destruição física e psicológica dos que perderam suas casas e seus familiares e amigos. A dor está nas faces, nos sons, nas paisagens, no ar e, lentamente, vai entrando dentro da cabeça e dos sonhos dos que chegam de fora para ajudar, observar, registrar ou, como alguns exemplos que você menciona, para explorar.
Se já é difícil conviver com as imagens devastadoras de sofrimento humano que ficam gravadas na mente quando se está fazendo um trabalho ‘útil’, imagine o peso dessas imagens para quem está ali pensando apenas em sua conta bancária e/ou fama e celebridade.
Que sentido essas pessoas podem dar à raiva que acompanha o sentimento de impotência que eventos de tal magnitude suscitam, o que vão fazer com o sentimento de culpa que se vive depois – sim, porque por mais que você faça e ajude a sensação é de que você podia/devia ter feito mais.
Ou como vão explicar as mudanças de humor, a depressão, a irritabilidade com o mundo de que sofrem todos os que trabalham em zonas de desastre natural e guerra. Quando sua presença é legitima você ainda pode contar com o apoio dos que passaram pelas mesmas situacões e encontrar consolo no compartilhamento. O estresse pós-traumático que todos experienciam em zonas de desastre natural é dificil de tratar mesmo você sabendo que havia um motivo maior para estar lá.
Quase sinto pena dos que contam apenas com seus egos para justificar presença em situações de extremo sofrimento humano, pois não têm idéia do peso das imagens que podem trazer consigo. E não falo apenas das que ficam registradas nos cartões de memória mas, principalmente, daquelas que, de tão fortes, te impedem de fazer o click. Essas não podem ser vendidas e/ou simplesmente esquecidas – e o preço que se paga por elas, em termos psiquicos, é altíssimo.
Só não entendi a insistência (inclusive nos comentários) de que os fotógrafos devem ser profissionais.”SE não tiver um contrato firme”?!
O seu texto deixa implícito que fotógrafos que tenham “um contrato firme” são, necessariamente, mas éticos que free-lancers. Para mim, isso é um absurdo que não se sustenta na realidade. É como dizer que jornalistas com diploma são mais éticos do que os sem.
Antes de pensar em viajar pra lá por conta própria, seja como voluntário ou fotógrafo, as pessoas deveriam refletir sobre o que já fizeram pelo lugar em que vivem. Cada cidade tem seu Haiti; sua região devastada pela pobreza, pela violência e pela falta de oportunidades. A galera ignora isso, conscientemente ou não, e acredita que está fazendo um bem maior com suas fotos ou roupas e medicamentos só porque a tragédia é em outro país.
Não há inocentes no Haiti.
Por um lado, a indústria forçando o fotógrafo a ”abrir as suas asas”, ”criar novos mercados” e ”não esperar o telefone tocar”. E lá vai o sujeito atrás da imagem, do ”produto para oferecer ao cliente”.
Do outro a sociedade observa com reprovação QUEM registra as imagens para seu deleite. A praxis sem ethos, apenas pathos. Desde muito me questiono para que serve o jornalismo; se é uma ação para denunciar (odeio esse termo) as ”mazelas do mundo” e despertar ações que minorem ou mesmo reparem esses problemas. Sem o jornalismo, o Haiti continuaria na merda em que sempre esteve, ou melhor, estaria pior, imerso no caldo cultural primitivo religioso e paternalismo político. Não me causa espécie ver dezenas de pessoas com uma camera apontada para uma vítima, me incomoda é a crítica sobre o ato de quem se alimenta deste.
O mesmo na minha cidade, Rio de Janeiro. A presença de fotógrafos e equipes de tv internacionais nos morros, onde se concentra a parte visível do tráfico, é comum. Pode-se dizer que o profissional de imprensa vem mostrar como erradas as coisas são no Rio – e são tão ruins quanto SP, Salvador e Recife – ou o dito agente da mídia vem fazer um safári, como os turistas europeus ricos do fim do séc. 19, que visitavam a África e voltavam com algumas ”chapas” e uma cabeça de elefante pra pendurar no salão de chá. Esse media safári estaria, no decantar dos fatos, sublinhando um estilo de vida clean e confortável NY-London-Paris de quem consome tais notícias, algo como ”ainda bem que não estou lá e o meu Mocha latte decaf está garantido”. Perguntem a um cidadão de Port au Prince se ele gostaria de fica lá ajudando ou exilado em Paris, trabalhando para uma ONG. Em Paris, com visa de residência
A minha réles certeza é que não tenho certeza de nada. Ou muito pouco.
Clicio; antes de sermos qualuquer coisa, somos seres humanos. Meu critério é idêntico ao seu, penso que o compadecimento está acima da fotografia, e penso mais. Penso ser um engano achar que uma coisa impede a outra. O ser humano bem desenvolvido consegue fotografar sem deixar encostada em um canto, ou em casa, a sua humanidade. Por vezes é mais importante a ação do homem que a do fotógrafo, e em outras vezes a qualidade da fotografia é dependente da qualidade do homem. O fotojornalismo pode ser por vezes sublime dentro do trágico, mas nunca à custa da desmunanização do fotógrafo ou da pessoa retratada, que nunca é um objeto. O trabalho por você citado do Ig é um dos exemplos virtuosos que mostram como o compadecimento ao contrário de impedir o exercício da fotografia a melhora, pois a ORIENTA na direção correta.
Ja fui criticado por bombeiros por estar fotografando um tragico acidente: Vc fica ai fotografando pq não é da sua familia!. Estava a serviço de um jornal. Qjuando tem um ser humano numa cena, tem q ter outro atras da camera. Respeitando dor, decencia, risco. Primeira coisa a fazer é não atrapalhar. E muitos fotografos q so pensam em sua imagem, atrapalham mesmo. Segunda coisa a fazer: há socorro apropriado ou vc pode aliviar o sofrimento da vitima? E facil: coloque-se no lugar dela, ou imagine sua mãe, filha, irmão! Não é ser profissional? Ao menos é mais digno e humano. O fotógrafo não é um prolongamento da máquina, ou a parte da máquina q aperta o botão.
abraços
Beto, mas o bombeiro no dia seguinte ou na tv está vendo a cena do acidente, não? É por aí. Ou por ali.
É patética essa aglomeração de fotógrafos em cima do “assunto”.
Principalmente porque deve ser inseguro andar pelas ruas sem a proteção dos militares. Então imaginem a horda de novatos toda junta, sedenta por um corpo morimbundo enquanto é escoltada pelas ruas.
Isso me lembra os passeios do jardim da infancia no zoológico.
Com certeza os bons fotógrafos estão pulverizados e bem entrosados na multidão, ainda que sob um grande risco.
Mas por outro lado, qual o caminho para se destacar e conseguir uma vaga no competitivo mercado de fotojornalismo, senão se lançando a uma estupidez como essa em busca de um pequeno diferencial ?
Eu mesmo cheguei a cogitar a idéia, mas me dei conta da estupidez que seria. Além do que, só quem já sentiu o cheiro da morte humana sabe como ela impreguina os pulmões e a memória e age no estomago.
Não, isso não é para mim. Só traria mais problemas para quem já tem muitos, seja quem está sofrendo na esperança de uma verdadeira ajuda ou do outro lado, ajudando profissionalmente.
Prefiro focar a beleza da vida, a harmonia, a paz e o amor. Ainda que isso pareça estar caminhando para se tornar cada vez mais raro em meio a tantas agitações e mudanças que o planeta vem sofrendo.
Mas sem dúvida admiro muito os grandes profissionais de Hard News, que com muito profissionalismo e determinação, são responsaveis por uma importante parte da ajuda que essas vitímas tão necessitadas recebem. Minhas sinceras homenagens a eles.
Excelente post! Por coincidência escrevi um post com assunto relacionado em meu blog e o seu só tem a acrescentar. =] Não foi especificamente sobre o Haiti, mas sobre essa louca necessidade de se fotografar a miséria e a desgraça humana que você fala.
Fotografia: da obsessão à ética
http://www.tocadosfotografos.com.br/2010/01/17/fotografia-da-obsessao-a-etica/
Um fotojornalista, em geral, ajuda mais fotografando. Existem três variáveis importantes nessa frase curta. O que é um fotojornalista? Qual o trabalho que está desempenhando (“fotografando”)? A imprensa como um todo está bastante impregnada de sensasionalismo e a cobertura no Haiti não fica fora desta infeliz característica. Vários dias sem grandes novidades no cenário, porém muita repetição e equipes e mais equipes, com coberturas envolvendo super produções e chamadas apelativas.
Nós, fotógrafos e cidadãos, temos o direito de saber do que acontece ao redor do mundo. Precisamos fotografar (os fotógrafos) e tomar conhecimento (os leitores-espectadores) dos fatos. Sejam catástrofes “naturais” ou falcatruas humanas. Quanto maior o número de pessoas envolvidas, maior o interesse e a importância enquanto notícia. Um bom trabalho jornalístico pode ajudar mais do que doações ou voluntarismo. Mas estou falando de um bom trabalho. Não de uma infinidade de pseudo-trabalhos que, como foi dito no post, só atendem à necessidade individual de quem está fazendo um safari fotográfico numa situação extremamente dramática. A ética, esse terreno de fronteiras tão difíceis de demarcar, é que deve nortear as decisões.
Me interessam as entrelinhas. Tivemos uma perda nacional nesta tragédia. Muito espaço na imprensa, durante vários dias, foi dedicado à fatalidade ocorrida com a idealizadora da Pastoral da Criança, trabalho importantíssimo que tocou a vida de milhões de pessoas no Brasil. Crianças e famílias desamparadas, que, graças a ações da Pastoral, puderam ter um futuro diferente (ou simplesmente um futuro). Ela dedicou uma vida a tentar compensar esta balança tão desequilibrada onde uma parcela da população, através de suas práticas antiéticas ou simplesmente alienadas, age negativamente sobre a vida de milhões de outras pessoas. Me parece que falar dessa perda sem tocar na miséria em que vivemos é uma grande omissão, intencional ou não. Mais uma cortina de fumaça.
Bons filmes para se falar desse assunto: Abaixando a máquina e War photographer.
Será que os leitores merecem os jornalistas (ou os fotógrafos) que têm? A última variável da frase lá do começo é o “em geral”, ou seja, nem sempre.
Carlo,
É simples.
O free-lancer que *não tem um veículo definido* para aquele trabalho está arriscado a não mostrar/vender o trabalho.
E então a sua viagem foi em vão.
E não ajudou.
E atrapalhou.
Não tem absolutamente nada a ver com ética, profissionalismo, talento ou diploma.
Lembremos que sou fotógrafo, e free-lancer. Me considero ético e profissional.
Mas não iria para o Haiti, nem para a favela do Rio sem um trabalho encomendado.
Primeiro, porque me sentiria mal, explorador da miséria humana.
Segundo porque dificilmente as minhas imagens mudariam alguma coisa daquela realidade se não fossem publicadas.
Agora, fala sério; guerra ou terremotos são lugares para amadores?
Fotografar E ajudar. Uma coisa não precisa excluir a outra. //+1
Concordo plenamente.
Ótimo texto Clicio, e totalmente pertinente dado a esse acontecimento funesto no Haiti! Só ria para lá se fosse útil em algo que ajudasse a minorar quele sofrimento humano.
“É impossível passar os olhos por qualquer jornal, de qualquer dia, mês ou ano, sem descobrir em todas as linhas os traços mais pavorosos da perversidade humana [...] Qualquer jornal, da primeira à última linha, nada mais é do que um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, linchamentos, torturas, as façanhas malignas dos príncipes, das nações, de indivíduos particulares; uma orgia de atrocidade universal. E é com este aperitivo abominável que o homem civilizado rega o seu repasto matinal.” — Baudelaire, 1860
Fico aqui pensando se fotógrafos profissionais ou mesmo amadores são pessoas adequadas para ajudar pessoas tanto em situações de guerra como catástrofes como essa. Elas foram treinadas para ajudar também?
Claro que os fotógrafos não devem atrapalhar, mas não é melhor deixar que paramédicos, médicos, bombeiros, etc.. cuidem das pessoas e do resgate delas?
Uma coisa mais simples é tirar pedras do lugar, mas até nisso é preciso saber o que fazer, como fazer, para não enterrar de vez o sobrevivente.
É preciso tomar cuidado nessa análise.
Com certeza seria preciso deixar que somente profissionais credenciados cuidassem da cobertura para que os amadores não atrapalhassem.
E quero aqui dizer da suprema importãncia do trabalho profissional dos fotógrafos em situações como essa. O trabalho deles pode ajudar de outra forma, mostrar ao mundo o caos que está lá, nesse caso, e com isso criar força mobilizadora.
Sem imagens daquela triste realidade muita gente não iria ajudar com as doações e orações, absolutamente necessárias nesse momento.
Clício, realmente muito feia a cena da foto que postou!! Só faltou sairem no soco pra disputar um espacinho pra conseguir fazer a foto…
E louvável o case que descreveu dos outros fotojornalistas…
Olha, na faculdade de jornalismo existe muito aquela idéia da responsabilidade com o fato. Jornalistas são doidos pra andar na linha e mostrar a veracidade do que está acontecendo… MAS, acho que cada indivíduo deve ter seus princípios e isso está acima de qualquer prêmio, destaque, dinheiro, etc… se a gente não trabalha em cima de princípios nos quais acreditamos, o que será de nós?? seremos caras que fazem o que é melhor pra aquele momento?? aí, se não me convir noutra circunstância eu faço diferente??
Se até corporações são regidas por princípios, por que nós não??
Segue aí um link de um vídeo que me mandaram que aborda sobre esse tema… já o recebi já faz um tempo, mas gosto muito dele…
http://video.bugun.com.tr/bugunPlayer.swf?file=dagilfilm.flv
Abraço
Meu deus, agora fui surpreendido, ninguém citou o Clube do Bang Bang, formado por Kevin Carter, Greg Marinovich, Ken Oosterbroek, e Joao Silva?
Eles já debateram muito bem esse assunto. Acredito que devia ter sido citado aqui.
Concordo com a opinião deles sobre esse assunto.
Acredito que não devemos apontar o dedo a esses colegas profissionais (inclusive os free-lancers). Se fossemos um de nós ali, mergulhado nesse universo paralelo dia e noite, querendo registrar esses assuntos delicados de forma que tocassem a todo o mundo, para que todos estivessem mobilizados, fariamos diferente?
Ajudar…. Poderíamos fotografar em outras situações e não a tristeza do mundo….
Olá a todos. minha opinião pessoal e profissional. Em uma situação como essa do Haiti, assim como em guerras e conflitos, fazer os dois será fundamental. Mas sem antes considerar que há meios de se fazer os dois. Um coisa é fato. Qualquer pessoa envolvida numa situação tão drástica como a do Haiti – fotojornalista, médico, militares e afins – tem de ter plena noção da situação em que está. Acredito não ser um ambiente para despreparados amadores em busca de uma finalidade qualquer.
Conrado, bem lembraste o Clube do Bang Bang, é daquelas leituras obrigatórias,muito citadas e pouquíssimo lidas. Há também o Galeria Delcorso, romance baseado em fatos reais, texto ruím, grandiloquente mas vale o esforço. Sem falar em outros. Não gosto do video piegas que o Bernardo comentou; é uma fantasia de mau gosto e que põe o público contra o fotógrafo. De repente estão todos contra os fotógrafos e ninguém fala da televisão e do repórteres, que saem quase como santos dessa história.
acrescento algumas sugestões para leitura sobre o assunto:
- Sandstealers de Ben Brown
- The Secret Life of War, de Peter Beaumont
- Unreasonable Behaviour, de Don McCullim
todos os três excelentes, escritos por reporteres renomados e de grande integridade, relatos eloquentes dos dilemas éticos na cobertura de guerras e desastres naturais. obrigatórios para quem pensa em ir a campo nesse tipo de situação.
Clicio,
Comecei a escrever um texto sobre isso, quando me dei conta de que tudo o que eu queria falar, você falou. Concordo integralmente, inclusive com a resposta dada a um questionamento.
Ontem mesmo, conversava com o Ayrton e disse exatamente a mesma coisa: eu só iria para lá se fosse contratado, pois essa é minha profissão. Jamais iria na aventura. E, mesmo contratado, se visse alguém precisando de ajuda, sem dúvida nenhuma, guardaria a câmera e ajudaria.
Clicio,
parabens pelo post e pela excelente discussão.
Concordo 100% que quem vai ao Haiti deveria ter, obrigatoriamente, um veiculo legítimo para publicar suas imagens.
Em um país devastado onde falta energia, comida, e água potável, ser apenas mais uma boca para alimentar me parece uma estupidez.
Quem procurar um pouco tem uma extensa lista de assuntos underreported para escolher onde a competição é muito menor:
http://is.gd/6u4gh
Quem permanecer no Haiti após o media frenzy atual para fazer uma documentação extensa e comprometida da reconstrução do país merece muito mais respeito.
Concordo 100% com ambos os posts da Dulce, e também recomendo “Unreasonable Behaviour” do McCullin (tem na amazon.uk), assim com “War Junkie” (Jon Steele) e “My War Gone By, I miss it So” (Anthony Loyd).
Acredito também que quem não consegue produzir uma boa narrativa visual em seu backyard não o fará melhor um local mais distante.
Há mais problemas no mundo que fotógrafos, mas é comodismo e oportunismo demais dedicar-se apenas à crise du jour.
[ ]s
ig
Lembro-me também do Club do Bangue-Bangue. Kevin Karter, cometeu suicídio anos depois da sua foto ganhar o prêmio Pulitzer e consequentemente ter gerado uma das maiores discussões da história da fotografia de guerra: o que vc fez após ter batido esta foto? A questão não é exatamente essa, mas sim as que implicam em ser fotografo mediando a informação para agências e no mesmo momento ter envolvimento direto com condição humana. Fotografaram durante anos o regime do Apartheid na África do Sul, o livro também questiona a que ponto vale a pena ter envolvimento com a guerra e o porquê?
Há uma sitação do Greg Marinovich que junto ao João Silva, escreveram o livro após o fim do massacre e pós-apartheid que cabe um pouco ao post:
“Às vezes nos sentimos uns abutres. Pisamos em cadáveres, metaforica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém e, na verdade, até salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos tenha feito alguma diferença”.
Concordo com que a guerra não é lugar para amadores, fotógrafos que estão dispostos a montar portifólio com a situação. As pessoas que estão ali “por estar” sentirão a ida em vão quando forem descarregar as fotos em seus computadores e lembrar de toda a tragédia sem ter feito nada e estar no presente momento sentados de frente com a tela do computador impossibilitadas ainda mais de ajudar. E o respeito com o ser humano?
Fotógrafos do Clube do Bangue-Bangue que foram super competentes em registrar não só o Apartheid como outras guerras escreveram o livro como forma de algum aproveitamento do que passaram, arriscaram suas vidas e perderam amigos neste tipo de trabalho. Quero reforçar que é profissionalismo, amador conforme um post anterior é um amante da atividade.
Aliás, assim como o Conrado e André recomendo a leitura (obrigatória) deste livro, que além de tudo é também muito inspirador.
olá clicio, belo texto, como sempre seus textos tem uma visão bem imparcial dos assuntos, admiro isso, quando as pessoas conseguem dar uma perspectiva das coisas sem ser na base do drama, da puxada de sardinha.
Bom eu acho um exagero tremendo e sempre achei, a exploração da mídia em catástrofes, tragédias ou coisas do tipo.
Vejamos casos recentes divulgados na mídia, PAI MATA FILHO E SE MATA PARA ATINGIR A MÃE(diga-se, deixar a mãe sofrer pelo resto da vida), depois que essa matéria foi veiculada na tv, se sucederam mais 2 ou 3 casos em menos de um mês se não me engano, isso que foi divulgado.
O que quero dizer é que a mídia atira sempre para dois lados, ao mesmo tempo que informa e diz as pessoas que aquelas coisas são ruins e tristes, alimentam as mentes de pessoas sem escrúpulos ou simplesmente transtornadas mentalmente.
Também acho que cada cidade tem seu haiti, e a mídia nacional só se interessa por esses “haitis” quando vc liga e fala, OLHA AQUI NO MEU BAIRRO MATARAM 5, OU AQUI NO MEU BAIRRO CAIU UM MURO E MATOU 3…
A morte é sempre o foco, pq como outra pessoas falou o ser humano ao ver um acidente sua reação é sempre ver se tem alguém ferido, será que é pra ajudar?
Hoje mesmo teve um acidente na esquina da minha casa, minha primeira reação foi ligar para o socorro, logo depois que liguei minha esposa disse: VC NÃO VAI FOTOGRAFAR, foi então que lembrei que tinha uma camera e podia tirar uma foto, mas tirei aqui de casa mesmo, nem cheguei perto, haviam mais de 15 pessoas eu acho, em volta do motoqueiro, para que ir até lá?
Já fotografei alguns acidentes e sinceramente, fotojornalismo de tragédia não é pra mim.
Salve Clicio, excelente post.
Essa é uma das tragédias que faz a gente pensar (ao menos deveria) na solidariedade humana.
Eu não sou fotógrafo de guerra, fotojornalista e apesar de me emocionar com esse tipo de imagem, e, por vezes, querer ter feito algumas delas, pela informação contida, tecnica, e plasticidade, tenho a certeza que não iria fotografar em um desastre como estes, principalmente sem um veículo dando suporte.
Se a imagem não vai ser publicada não vejo a utilidade da mesma, pelo contrário, explorar a tragédia, tristeza e sofrimento daquelas pessoas não tem valor se a finalidade não é a mudança.
[ ]s
D.Gallo
Caro Clicio,
para variar, excelente nota e muito boa a discussão provocada por vc.
“Quando os fotógrafos de guerra começam a agir como os paparazzi das revistas de fofoca, e cercam vítimas já estressadas como aves de rapina, as perguntas começam a surgir:
Até onde o profissionalismo, a vaidade, a vontade de ganhar prêmios ou a simples morbidez são defensáveis quando abaixar a câmera e ajudar pode ser mais eficiente? O que é ser profissional em uma situação extrema como essa que o Haiti está vivendo?”
Fico muito feliz em ver aqui tantos comentários. A rede resiste. Muito legal vc abrir essas discussões e reflexões. Isso ajuda e muito a pensar um pouco sobre a nossa profissão de “retratistas”. Eu particularmente tenho interesse em fotojornalismo e documentarismo e acredito que se fotografa muito e se discute muito pouco. E se faz menos ainda.
Ainda bem que vc se lembrou do “After Fire” que foi das coisas mais emocionantes e bonitas que vi na rede ultimamente. É a tal da função social da fotografia que se discutia muito nos anos 70 e hoje anda um pouco esquecida.
Só para lembrar, a editoria de fotografia do Jornal do Commercio do Recife tem um belíssimo trabalho.
Bom, mais uma vez eu te agradeço por colocar essa nota na roda e muito legal que ela tenha gerado 32 comentários até aqui.
Os três melhores textos que eu li sobre a imagem e o Haiti eu coloquei numa nota lá no Pictura…
http://www.picturapixel.com/?p=18494
A sua nota eu vou jogar lá também.
E para quem se interessa sobre análise de imagem de imprensa o “Bag News Notes” é imperdível.
http://www.bagnewsnotes.com/
Gracias amigo.
Gde ab.
Clício,
Quando lí a chamada para o post no Twitter, tinha na mente o que escrever, pois ontem havia conversado bastaste a respeito desta situação e de outras semelhantes. Mas se mostrou desnecessário escrever algo a mais do que você já tinha escrito, pois é 100% do que penso. Um grande abraço,
Kevin Carter deve ter se perguntado isso durante as horas que antecederam seu suicídio. Afinal, fotografar ou ajudar?
Diante de seu questionamento, lhe digo: iria ao Haiti nesta situação para fotografar tão somente se contratada para fazê-lo. Tenho braços e pernas dispostos a ajudar, mas um francês que mal me permitiria não passar fome em um local com condições normais de atendimento. Em um lugar como o Haiti neste momento eu seria apenas um estorvo.
Excelente texto. Só achei que advoga muito a causa dos fotojornalistas profissas. Não temos fotografos (contratados e freelas) em excesso na área? Qual motivo para ir para lá, mesmo sendo contratado? Acho a ida justificável se o fotojornalista tiver diploma de medicina tb. Aí sim seria útil “para a humanidade”.
Clicio,
Acredito que este problema é grande parte derivado da (má) formação. Em todas as categorias, e em particular dos fotojornalistas. Há quase 10 anos que tento inserir o conceito da Linguagem Fotográfica no ensino da Fotografia (Canindé Soares pode te confirmar isto). Para quem já fotografa (e lê, se informa, discute, questiona, pratica, debate, relê, investe…) pode parecer óbvio. Mas não é.
Quem está começando, normalmente aprende a Fotografia técnica. Operar equipamento. E é aconselhado a se aperfeiçoar por conta própria. Ok, mas eu (e muitos outros, espero) defendo que a Fotografia não é apenas uma técnica, mas uma Linguagem. Comum ao video, ao cinema e por aí vai. Defendo que para aprender a fotografar é preciso (com igual importância a operar o equipo) aprender a ver.
E aprender a ver, como deve saber, é difícil. O olhar fotográfico é permeado de subjectividades, as quais deveriam sair do âmbito das pós-graduações e doutoramentos e vir para o dia-a-dia. Não tem nada a ver com discutir semiótica ou tornar o ensino da Fotografia teórico e abstrato. Mas a formação do próprio indivíduo conta na hora de soltar o obturador.
O problema das zonas de conflito é que não se pode impedir os mal formados de irem fotografar/videografar. O público também foi formado a esperar por conteúdos “freak”. Mas podemos, a curto prazo talvez, chamá-los de lado e “puxar-lhes” as orelhas. “Formação” no terreno. Ostracizar os abutres, já que não podemos simplesmente afastá-los.
Lembrei-me do seu artigo ao ler esta reportagem: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4211524-EI14687,00-Reporter+ouve+gritos+larga+a+camera+e+resgata+bebe+no+Haiti.html
Espero que a ajuda continue vindo sempre antes da notícia.
Cobrir uma guerra ou uma catástofe como essa é deve ser ambição de qualquer repórter fotográfico. Para o jornal, é poder informar melhor aos seus leitores. Vendo as imagens de um monte de fotógrafos ao redor de um homem estendido no chão choca ao primeiro momento e coloca em cheque nosso primeiro pensamento de poder revelar ao nosso leitor a situação do momento. Parece que estão sobrando por lá, mas diante de tamanho acontecimento, existe algum outro lugar no mundo neste momento onde as atenções estariam direcionadas? Os fotógrafos das agencias internacionais são extremamente competentes mas cada jornal busca uma relacão mais próxima com os seus. Os soldados brasileiros, ou as vítimas brasileiras, enfim histórias brasileiras. Não cabe todo mundo lá com certeza mas fomos influenciados por Robert Capa . No mais é torcer para aqueles que foram voltem sãos e salvos e de quebra salvem alguem por lá com suas imagens ou ações individuais.
Cada um deve fazer o que sabe fazer.Desta forma estará ajudando enormemente.
O que me lembra : “As grandes obras são sonhadas pelos loucos , realizadas pelos lutadores natos , desfrutadas pelos felizardos de bom senso e criticadas pelos inúteis de sempre ” ( Albert Einstein)
Reflexo da mídia e industria que a sociedade sustenta… Isso sem falar nas inumeras redes de tv querendo entrar la e fazer o drama. O pós-evento se tornou o refugio de bons trabalhos, pois nesse momento a grande mídia foi embora e discutir consequencias e causas se torna mais reflexivo do que o drama em si. Mas cada vez mais isso fica mais dificil porque enquanto tiver o que tirar de lá, vão estar lá. E mesmo assim trabalhos “dramaticos” do pós-acontecimento tem surgido cada vez mais. Ou seja a industria quer produzir o drama, para que quem não tem tempo (passam os dias enclausurados pensando em suas proprias vidas e trabalhos) consumir sua cota de drama diária, se sentir tocado e dormir confortado pois o mundo está se mobilizando para ajudar as pessoas. Bom, penso por aí… Essa mídia reflete a sociedade que a consome… Se ninguém quizesse saber das “estrelas” as revistas de fofoca e os paparazzi iriam para onde? Quanto mais audiencia há para o conteudo sensacionalista, mais ele aparece…
Obrigado Clicio e colegas pelo twitter.
A pauta Haiti , esta rendendendo boas conversas sobre nosso oficio e nossa arte.
A pauta é desgraca, infelizmente o mundo nao quer ver indícios de reconstruçao de um pais que esta no chao e, agora sim pode recomecar do zero.
O que me chateia em catatrosfes seja no Brasil, ou fora dela é a bananização da morte .
Muitas vezes, nos fotojornalistas nao queremos fechar plano num pedaco de alguma coisa que ja foi gente, mas … e se nao fecharmos ? Será que nosso cliente vai aceitar?
O que é inadimissivel é ver um fotojornalista virar , como descrito acima, um Paparazzi de guerra”.
Antes do clique, vem o respeito ao fotografado . Vivo ou nao.
Antes da puplicação , respeito ao publico.
Sucesso , ética e boas fotos a todos!
Ah esqueci, muitos querem um prêmio por lá…
Uma pena…
Importante discussão. Obrigado!
Clício,
achoque é muito bem colocado o que disse. O ato de fotografar para mostrar ao mundo a necessidade que passa o povo de Haiti, ou que esteja sofrendo por qualquer outro fenômeno climático ou não, é parte do que a fotografia tem a contribuir com a situação.
Relatos não são tão impactantes e motivadores de mobilização se não houvessem imagens para embasá-los.
Por outro lado, quando muitos mandam profissionais, sem contar os freelas, para um local assim acaba ocorrendo um excesso de necessidade de assunto e a “obrigação” de também registrar aquele momento. Todas as fotos acabam se tornando iguais e perde-se o objeto maior que é a linguagem, ou melhor ainda, a marca pessoal e aa ajuda que o fotoógrafo poderia ter dado a situação.
Agora pelo lado oposto, se fui enviado apra lá para registrar, tem muitos mesmo fazendo o mesmo, não posso perder os momentos e situações, não entregar o que meu concorrente entregou… e isto acaba gerando esta situação. Se desconsiderar a catástrofe ocorrida, parece coletiva de imprensa.
Agora, ser fotógrafo de guerra num local de catástrofe é fácil… por isto tem tanto… numa zona de guerra em si pouco tem peito de encarar… por isto as fotos nunca se repetem…
Eu entendo perfeitamente seu pensamento Clicio, e concordo com ele mas, e se o free lancer acredita que seu trabalho possa mudar algo? As vezes a foto que você tirou hoje não ajuda imediatamente mas quem sabe num futuro com uma exposição ou algo do tipo? Somente uma dúvida….
“Pode, por outro lado, ser um fotógrafo independente (ou um coletivo), profissional, sensível, que mostra o que tem que ser mostrado com decência, com respeito, e ainda assim tocando o coração das pessoas para que ajudem a mudar a situação; o Ig e a Lou, do Lost Art, fizeram exatamente isso com “After the Fire“, uma cobertura tocante do fogo que consumiu uma favela em São Paulo, no Dia das Crianças.”
Esqueça a minha pergunta , já foi respondida. Desculpe
Assino um jornal e o leio tomando café da manhã.
Não estou lendo as matérias sobre o Haiti.
Acho feio o jornal publicar tanta desgraça.
Uma foto ou outra tudo bem, mas são muitas.
Ofusca o texto e a informação.
O “Grande Jornal” vira um “Espreme Sangue”.
Daqui a um tempo ninguém mais se lembra do Haiti nem das fotos.
Será que os editores se esqueceram de editar o material?
E no final acaba que todos os fotógrafos fazem a mesma foto.
O mesmo que acontece numa saída fotográfica de curso.
Meu amigo Clicio, vc ‘e uma pessoa inteligente e visionaria…tomara Deus que todos os pseudo fotojornalistas dete pais lessem e pelo menos refletissem com este texto tao bem escrito…
Ontem, vendo a tristeza desta gente, o sofrimento, desespero, nao tive como nao me emocionar, e juro, choro todas as vezes que ouco ou falo sobre o assunto.
Fiquei imaginando o que fazer para ajudar e realmente, no final do seu texto tem a resposta em apenas uma frase: se não puder ajudar, não atrapalhe…
Certamente meu deposito vai estar na conta da Cruz Vermelha…eles precisam reconstruir absolutamente tudoooooo…e por todos os motivos descritos no texto, a unica maneira de fazermos alguma coisa ‘e enviando dinheiro..
Agora, EU, tenho certeza que nao faria fotos, nao conseguiria nao ajudar primeiro…
Obrigada por vc ser a voz de todos nos que prezamos o ser humano acima de tudo.
Gustavo, a cota de patrocínios do Big Brother cobre as despesas operacionais da Globo durante o ano. Apenas o Big Brother.
Brilhante o seu post Clício.
Eu não iria para o Haiti nestas condições. Não vejo graça em fazer fama na desgraça dos outros. Ainda mais numa tragédia destas proporções.
Rescentemente fiz uma cobertura fotográfica de uma grande enchente aqui no ES, acompanhando a Defesa Civil. Fiquei mto orgulhoso de mim no momento em que larguei a câmera fui ajudar a resgatar as pessoas.
Se fosse o caso de ir para o Haiti, possivelmente não seria para fotografar. Como disse a jornalista Jay Newton-Small, já tem fotógrafos que chega lá.
Abraço
Semana passada a prefeita de São Luiz do Paraitinga deu uma entrevista no rádio pedindo pras pessoas não irem fazer turismo sobre a tragédia que a cidade passou. “-Os moradores estão tentando tocar suas vidas abaladas pela tragédia e muita gente tem vindo tirar fotos das ruínas, não venham atrapalhar nosso trabalho.”
Iria ajudar e fotografar. Nesta ordem e sem demagogia.
Como bem disse alguém lá em cima, uma coisa não anula a outra.
Mas que tem muitos que vão só para fotografar, tem.
Maldita inclusao digital/fotografica, as cams poderiam custar
muito caro,mais muito mesmo.
Sou jornalista formado e na faculdade sempre ouvia meu professor de fotojornalismo dizer: “Primeiro você fotografa, depois você ajuda. Você é fotógrafo, não bombeiro”.
Falar é fácil, mas independementemente de profissão somos seres humanos. Eu não iria pro Haiti a esmo. Se tivesse com um trabalho, proporia ao meu chefe uma abordagem diferente de tudo que vemos (embora tenha certeza que levaria um sonoro não, porque o que vende é sensacionalismo).
Sou da opinião que não dá pra se omitir em certos casos. Você pode até ganhar a foto, mas também pode ganhar boas noites de insônia. Que meu mestre me perdoe.
Agora com relação ao Haiti, não sei se é grande o número de freelances. Acredito que o que há é um grande número de veículos de mídia que se instalou lá, para fazer a boa e velha espetacularização da tragédia. Só do Brasil, quantas equipes de reportagem estão lá?
A foto que ilustra o tópico é de uma vítima norte-americana, imaginem quantos veículos de mídia gringos estão lá.
Me parece que hoje temos mídia demais pra ser ocupada por informação. Não duvido que um canal a cabo ainda faça um reality show de alguma tragédia, transmitindo 24 horas por dia em pay-per-view a morte fresquinha pra todos os lares.
o assunto tem um filme ótimo que serve como reflexão, até porque foi dirigido pelo Billy Wilder: A Montanha dos Sete Abutres. Data de 1951, mas é atual até o talo.
E há 2000 anos atrás, Sêneca já cunhava sua frase:
O homem deveria ser sagrado para o homem, e agora ao contrário é matado por brincadeira e deleite. Deveria ser crime ensinar o homem a dar e receber feridas, e ao contrário ele é apresentado nu e inerme, fazendo-se espetáculo de sua morte.”
arrepia só de pensar que não mudamos muito….
abraços
Se Evandro Teixeira, James Nacheway, Don MacCullin, Robert Capa, David Seymour não tivessem documentado as atrocidades em diferentes pontos do planeta, o mundo não teria ficado a par do crimes financiados por governos venais e pelos senhores das armas, petróleos, ouro, diamantes, nióbio, titânio, cassiterita, molibidênio, etc.
Estou atualmente debruçado sobre vários livros e destaco em especial, Do Roraima ao Orenoco – dividido em três volumes fenomenais – e vou mapeando através de cada página, que parte deste universo amazônico era povoado somente por índios e este se assustam quando vêem o primeiro branco, envolvido numa missão etnográfica, colhendo dialetos, objetos e fotografando. Refiro-me ao alemão Theodor Kock-grunberg, exímio fotógrafo e laboratorista, que se encarregava com sua equipe de revelar suas chapas de vidro e trazer à tona, detalhes culturais de vários povos e suas riquezas, já em processo de destruição pela mão cruel do branco insano e racista. Quem saberia das atrocidade republicanas e oliquarquicas num Estado moralmente deplorável, se Kock tivesse que se preocupar com cada pulmão que expelia bacilo de Kock. Esse era parte do universo real que cercava o alemão, determinado em trazer de dentro da selva para o resto do mundo, o belo e o trágico.
Tentaram crucificar Kevin Carter por que uns agente de uma ONG que decidiam quem ia morrer e quem ia viver, deixou uma criança sair de um acampamento destinado às que iam morrer. Mas foi Kevin Carter, João Silva e tantos outros que ajudaram acabar com um regime montado pelos ingleses, interessados na escravização de negros, obrigados a descerem mil e quinhentos metros de profundidade para abastecer os cofres de salteadores anglo saxões em várias partes do mundo. Hoje sabemos que o sionismo contribuiu para que aquele regime perenizasse, com somas vultosas e treinamentos militares, denunciados por fotógrafos gigantes de alma, que todo santo dia, estavam com seus blocos de notas pendurados no pescoço e registrando a história.
War Phtographer, mostra a indignação de um documentarista contra os autores das mazelas universais. James Nacheway, mostra seu trabalho e no bojo da obra, abre seu leque de lamentos e esmiúça a maldade política de governos e empresas, num tom de partir qualquer bom coração. Vale a pena ver esse documentário para percebermos que a atitude humanitária de Nacheway vem depois da execução do fracionamento dos caminhos da fome e sangue e que seu bloco de notas acumula.
Sebastião Salgado – em Êxodo e Trabalhadores -, parece que vai repalmilhando os antigos passos de Bresson e seus outros pares que tiveram a vida ceifada nos campos de batalha. Viu sua mata atlântica destruída e se envolveu na salvação do que sobrou no Espírito Santo com a ajuda de sua digníssima esposa e sua equipe.
Portanto, o fotógrafo pode ajudar, numa missão paralela, qualquer povo ou ser humano, mas antes de tudo isso, ele é um fotógrafo e sua missão suprema é fotografar o fato e jamais permitir que outros patrulhem sua nobre atividade que é o de registrar a história da humanidade. Para socorrer, existem os governos com deveres jamais cumpridos e ONGs que dizem faze-lo. Nada impede, porém, que um fotógrafo milite na salvação do ser humano e socorra alguém depois de seu trabalho executado. O que é inadmissível é querer cegar ideologicamente o fotógrafo ou culpa-lo por não ter podido socorrer alguém numa hora imprópria. Ou se fotografa ou entra-se numa entidade humanitária. Não dá para fazer as duas coisas juntas. Depois, sim!
Lembro-me que quando Sebastião Salgado inaugurou Êxodos com exposição e livros, não surgiram gente criticando seus debates, suas falas, que acompanhavam suas obras. Isso incomodou muita gente. Na FSP, várias matérias foram feitas antes do lançamento de suas obras – eu guardei algumas -, e percebe-se que Salgado se preocupa com o próximo, mas não permite que esta dor que ele carrega na alma, interfira na construção monumental dos instantes decisivos que alertaram o mundo de que a nossa Mãe África necessitava de ajuda ou que havia crianças refugiadas detidas, aprisionadas na Ásia.
Portanto, nenhum fotógrafo tem culpa se Washington vem tirando o pouco fôlego do haitiano… Mas isso é uma longa história e não nos interessa no momento…
Abaixo, está o registro incontestável de um homem que presenciou o trabalho árduo de quatro fotógrafos, com suas dores pessoais, mas belos de alma e trabalhando em prol, não de uma só pessoa, mas de milhões de seres humanos que passaram a ter, diariamente, quatro advogados em sua defesa, pois entendiam que era preciso documentar as dores daquela nação. (Recomendo que leiam o Clube do Bangüê Bangüê, escrito por dois dos que sobreviveram ao caos)
“Quase todo mundo fez as mais sinistras previsões sobre o rumo que a África do Sul tomaria. Acreditava-se que aquele belo país se veria imerso na mais terrível carnificina e que certamente uma catastrófica guerra racial devastaria a nação. E essas previsões pareciam prestes a se concretizar quando a violência irrompeu na época em que se negociava a transição da repressão para a liberdade, do governo totalitário para a democracia. No início da década de 90, o terrível derramamento de sangue parecia endêmico.
Nos trens ocorriam assassinatos aparentemente casuais; massacres aconteciam quando habitantes dos distritos negros eram instigados contra moradores dos albergues, que levavam uma existência antinatural em alojamentos exclusivos para homens, alienados da vida comunitária mais estável nas áreas urbanas negras. As pessoas estavam morrendo como moscas, e morrendo de uma maneira horrível, com o infame necklace – um pneu cheio de gasolina colocado no pescoço da vítima e depois incendiado. Estatísticas das baixas eram publicadas diariamente. Sempre que elas diziam que cinco ou seis pessoas tinham sido mortas nas últimas 24 horas, muitos de nós suspirávamos aliviados: “Só cinco”, ou “Só seis”, dizíamos. A situação estava nesse ponto.
Tudo indicava que a maior parte desse derramamento de sangue se devia à sangrenta rivalidade entre o Congresso Nacional Africano (CNA), de Nelson Mandela, e o Partido da Liberdade Inkatha (PLI), liderado por Mangosuthu Buthelezi, que disputavam espaço político para estabelecer uma supremacia inquestionável. Parecia uma explicação plausível, até que alguns aspectos estranhos dessa rivalidade sanguinolenta começaram a chamar a atenção. Os massacres pareciam quase sempre ocorrer quando as negociações para a transição haviam atingido um estágio delicado, e era uma curiosa coincidência as negociações serem colocadas em grande risco num ponto crítico das discussões.
Seria de se supor que os assassinatos nos trens fizessem parte de uma rivalidade entre inimigos políticos, mas esse ponto de vista se tornou insustentável diante do fato de que os assassinos alvejavam e matavam pessoas ao acaso. Não diziam nada, não pediam aos passageiros que declarassem sua filiação política. Como sabiam, portanto, que não estavam assassinando seus próprios correligionários?
Mais difícil ainda de aceitar era a rivalidade entre partidos políticos como explicação para os disparos feitos de carros em movimento, uma característica do instável período pré-eleitoral. Fazia mais sentido concluir que tudo se destinava a encher de pânico os moradores dos distritos negros, levá-los a dizer que o CNA era incapaz de proteger seus membros, erodindo, assim, o considerável apoio de que este partido gozava nas áreas negras. Tornou-se cada vez maior o número de pessoas que falavam de uma sinistra terceira força, de algum modo associada ao governo de apartheid e a suas forças de segurança, decidida a fomentar a chamada violência de negros contra negros e a permitir que o governo de apartheid e muitos brancos pudessem alegar, triunfantes, como era patente que os negros ainda não estavam prontos para a democracia e para o poder político. Essa obsessão pela violência de negros contra negros sempre me intrigou – como se a violência de negros contra brancos fosse mais aceitável. E por que nunca ninguém descreveu a brutalidade que ocorria na Irlanda do Norte ou na Bósnia, em Kosovo e em outras regiões, como exemplos de violência de brancos contra brancos? Nesses lugares era apenas violência. Então por que violência de negros contra negros?
O governo de apartheid e suas coortes negaram qualquer participação no incitamento a essa violência sangrenta e horrenda. Ficaria provado, através da Comissão Goldstone, por exemplo, que mentiram. As peças começaram a se encaixar, explicando, por exemplo, os assassinos silenciosos nos trens. Conforme seria revelado, a maioria deles veio de fora da África do Sul – de Angola, Namíbia etc. – e não sabia falar as línguas locais. Se abrissem a boca se trairiam. Na verdade, as mortes nada tinham a ver com rivalidade política, mas sim com pessoas que desejavam agarrar-se ao poder a qualquer preço, à custa do mais terrível derramamento de sangue.
Essa história precisava ser revelada ao mundo. Tivemos a grande bênção de contar com jornalistas dos mais talentosos e fotógrafos dos mais brilhantes. Eles ajudaram a tornar conhecida essa história. Registraram em filme alguns de seus momentos mais impressionantes, como a cena horrenda de um necklacing e uma multidão, de um lado ou outro do conflito, urrando e voltando-se barbaramente contra a vítima indefesa. Alguns desses profissionais receberam grandes homenagens por seu trabalho, como o Prêmio Pulitzer – um deles, pela foto de um abutre espreitando uma criança aparentemente moribunda no Sudão. A foto estarreceu um mundo um tanto complacente. Era freqüente nos surpreendermos quando víamos o trabalho deles. Como conseguiam capturar tais imagens em meio àquele caos? Deviam ser dotados de uma coragem extraordinária para trabalhar em zonas de morte com tamanha indiferença e profissionalismo. E deviam ter tido uma calma ímpar. Não, deviam ter tido mesmo é sangue-frio, para considerar tudo isso como parte de um dia de trabalho.
Agora que o véu se ergueu, sabemos um pouco mais sobre a maneira como essa gente notável trabalhava, e como freqüentemente precisava se mostrar insensível, a ponto de andar sobre cadáveres sem revelar muita emoção, de modo a capturar a imagem especial que garantiria o interesse das agências por seu trabalho. Agora sabemos um pouco mais sobre o preço pago, sobre o constante jogo com a morte, sobre a filiação ao que eles, com humor macabro, chamavam de Clube do Bangue-Bangue. E sabemos um pouco mais sobre o preço do trauma, que levou alguns ao suicídio. Sim, sabemos que essas pessoas eram seres humanos atuando sob as mais penosas condições. Este é um livro esplêndido, devastador quando revela a que ponto estamos dispostos a chegar para conquistar o poder ou a ele nos agarrar, e calorosamente honesto sobre o alto custo disso, pois traz à vista do público o que por muito tempo se manteve fora de alcance. Temos uma dívida imensa com eles por sua contribuição ao frágil processo de transição da repressão para a democracia, da injustiça para a liberdade.
Trata-se da obra de dois artistas notáveis. Não admira que um deles tenha ganhado o Prêmio Pulitzer pelas imagens fotográficas da Guerra dos Albergues, da qual este livro é o registro escrito.”
Desmond M. Tutu
arcebispo emérito da Cidade do Cabo, África do Sul
Bem, o fotógrafo em situações extremas deve ter consciência da sua função social imediata e a longo prazo. Isso me fez lembrar a história de Kim Phuc, a menina vietnamita nua de 9 anos queimada por napalm e fotografada por Nick Ut, da Associated Press. Nick após fazer a foto, tomou a menina nos braços e levou-a ao hospital mais próximo e acompanhou-a durante seu tratamento. Sua ajuda mudou a vida dela radicalmente e também ajudou a mudar o rumo da guerra.
O relato dessa história pode ser vista em http://ifgolfetto.multiply.com/journal/item/14/14
Algumas pessoas vendem a própria dignidade por muito pouco. No fim, a origem dos grandes problemas do mundo é a falta de sensibilidade ao sofrimento.
Fotografar é a profissão deles, eles estão lá pra isso, registrar o momento, porém tem coisas que devem ser respeitadas, em muitas vezes os fotografos não percebem a situação que está a sua volta, e retratam o sofrimento das pessoas que precisam de ajuda, de maneira fria.
Um momento como esse, uma situação que passou dos limites, onde pessoas estão tendo atitudes de animais pela falta de comida, água, estrutura e a perda de família devia ser vista com outros olhos ao invés de serem registrados para sempre.
A falta de respeito da midia de querer informar os que estão jantando em suas casa e cagando e andando pros que estão com o microfone na cara tendo que responder pq aquilo aconteceu, é bem cruel.
Perguntas como “esse foi seu pior reveillon?” para pessoas que perderam toda sua família devia ser tratada com punição.
O registro precisa ter, precisa existir, mas não nessa quantidade, há mais profissionais cobrindo os fatos do que ajudando.
acho que, 20%, talvez, da imprensa queiram ajudar, 80% só querem um furo de reportagem, e 100% os curiosos e turistas fotográficos precisam de uma pá e não uma camera.
Existe um excesso de ego.É realmente MUITO necessário registrar o ocorrido,pois essas imagens ajudam a repercutir,gerar doações e etc.Porém,não são necessarias TANTAS imagens.Ao redor desse homem da primeira foto tem no mínimo 20 fotografos,o que os faz pensar que o seu registro vai mudar mais a situação no pais que a dos outros?Não poderia um sequer “perder” o click e propor ajuda?
Afinal,estamos ou não em um mundo globalizado,a foto feita por um fotografo da Rep Dominicana (ali do lado) não poderia ser enviada para todos?Não,por causa do dinheiro.O quanto de comida,agua,medicamentos pode-se comprar com a estadia e transporte de um reporter no Haiti?
Eu não iria!
Clício,
Meu nome é Carla, prazer! Ao ler post em questão lembrei do livro da Susan Sontag, já citado aqui tb. Concordo em partes, mas imagino assim: cada fotógrafo um objetivo particular, seja quando vai ao Haiti, seja quando vai à Angra, ou à favela Pantanal, ou à Paraitinga como esta sendo o meu caso em: http://fotografias-antropologia.blogspot.com/2010/01/morte-vida-sao-luiz-do-paraitinga.html. Uma coisa é certa, a icongografia do sofrimento é antiga, a história da arte tem diversos exemplos. O picasso tava errado quando pintou a Guernica? Com toda essa discussão aprendi que a pergunta mais interessante seria: por que homens fotografam o sofrimento dos outros? é imanente que o homem queira retratar o outro, produzir imagens. Ser independente é um jeito de não ser proletáriado, no qual seu modo particular é o do veículo para o qual trabalha. Puxa Clício, se vivemos em um mundo veloz no qual fotografar é quase igual a escrever, e todos podem fotografar por que são livres. Qual o problema? Eu iria para o Haiti, para a África, para o Paquistão, seja lá pra onde quer que eu fosse, eu iria produzir imagens, iria buscar o pictorialismo no trágico ou no prosáico das coisas. Hoje temos câmera digital, avião, helicóptero, e o cara mais bem equipado tem mais vez no ocidente; fenomenos de toda sorte acontecem corriqueiramente, e assim será; e, não nos esqueçamos que viajantes e pintores dos séculos 19, 18, 17 e daí pra traz, foram testemunhas oculares de acontecimentos históricos, nos quais cada visão um ponto de vista específico e cada ponto de vista um retrato da história; posso citar por agora Rugendas, mas poderia citar Goya etc etc. Concordo com a questão ética, ela precisa ser sim questionada SEMPRE. Mas se estamos aqui discutindo a miséria e ética, o que nós seres humanos de fato estamos fazendo para muda-la?
Um abraço
Carla
Voce eh um cinico, meu caro.
Um hipocrita.
Quer dizer, para a catarse coletiva e lucro das grandes agencias noticias eh aceitavel e ateh mesmo recomendavel que fotografos da AP, reuters ou yahoo news vao pro Haiti fotografar a tragedia. Mas se o cidadao nao esta gerando dinheiro (sim, meu caro, a motivacao dos veiculos nao eh a denuncia da tragedia ou a percepcao de que eh possivel alavancar ajuda, eh o bom e velho DINHEIRO) para uma empresa Fortune 500, e sim tentando correr atras do proprio pra pagar o supermercado no fim do mes ou arriscar de repente levar um Pulitzer – esse cara nao pode ir? Quem eh voce para dizer quem pode ou quem nao pode? O cara tah fazendo o trabalho dele, e se ele nao tem emprego no Olimpo da fotografia ele pode muito bem conseguir um com uma foto do Haiti – e aih ele poderah ir pro proximo desatre?
Ah faça-me o bom favor.
Se voce julga desumano segundo os teus preceitos ir pro Haiti levar uma maquina de 10K USD passear e nao ajudar nenhum pobre coitado, eh um problema filosofico, humanitario e religioso teu. Concordo contigo, as pessoas poderiam ter mais compaixao jah que se deram ao trabalho de ir ateh lah – eu teria, mas quem eh voce, Madre Teresa, pra atirar a primeira pedra?
Quanto voce doou para o Haiti, by the way?
Doors
The Doors,
hehehehhe…nada como um bom recalque, dificuldade de leitura e compreensão de uma pergunta em um texto, além da inútil covardia, para ter seu momento de glória, não?
Olá Clicio, descobri seu blog através de informações sobre o Ligthroom, e venho acompanhando, sou fotógrafo amador e concordo que em locais de tragédias o lugar e pra profissional, com trabalho encomendado, isto é feito pelos grandes veículos e já basta como informação para retratar a situação caótica de um lugar nesta situação. E ainda assim como foi dito acima, a pergunta “o que você fez após a foto?” pra muitos será cruel como uma pancada seca no peito que ecoa na mente por muito tempo. Todos devem honrar suas profissões e principalmente honrar e respeitar a vida. Parabéns pelo post.
ESTOU GRITANDO SIM !
ME PERDOEM OS AMIGOS LEITORES,
MAS É PARA VER SE O CANASTRÃO E CÍNICO QUE ASSINOU APENAS COMO DOORS, OU SEJA, ELE SE CONSIDERA ALÉM DE TUDO UMA “PORTA” OU PORTAS (PARA NÃO CHAMAR DE MULA) CONSIGA LER BEM MEU TEXTO ABAIXO.
PORQUE OFENDER O CLICIO SE NÃO TEM PEITO, NEM CORAGEM, NEM HOMBRIDADE DE ASSINAR O PRÓPRIO NOME ?
MEDO DE ASSUMIR O QUE DISSE, ESCREVEU E FALOU ?
COM CERTEZA VC NÃO DEVE SER FOTÓGRAFO, MAS SIM UM PANACA CARREGANDO UMA CAMERA, MAS QUE ADORA LER OS OUTROS PARA PODER COLOCAR O SEU RECALQUE CRITICANDO TUDO, MAS COM MEDINHO DE ASSINAR.
SEJA FOTÓGRAFO, ALIÁS, ME DESCULPA,
SEJA H-O-M-E-M
E SE IDENTIFIQUE,
ASSUMA SUA OPINIAO,
PARA QUE POSSAMOS “PENSAR” EM RESPEITAR O LIXO QUE VC DIZ.
AYRTON CAMARGO
P/OS BONS,
BASTA AYRTON360
Eu fico meio “cabreira” com essa questão de vínculo firme porque, como você mesmo citou, Clício, há repórteres independentes que contam histórias mais relevantes que aqueles que estão atrelados a algumas politicas editoriais (vide Lost Art, Garapa, Pandora, entre outros já aqui citados). Não sou a favor que fotojornalista vire urubu e comece a fazer qualquer coisa por uma foto, mas também me incomoda essa postura de validar os discursos apenas por meio da grande imprensa – uma vez que é por causa do que boa parte dela prega e oferece, muitas vezes, que esses jovens fotógrafos que você critica saem à caça de situações como a do Haiti. Além disso, nós temos tantos exemplos de trabalhos free-lancers e independentes sérios que vão de encontro a isso e nos brindam com narrativas inquietantes. Acho que se o cara não tem nada a dizer, ele deve ficar quieto, mas se ele pode contar uma história séria e ajudar com um abraço amigo a quem precisa ele deve ir, sim!
A ironia está no fato que se consegue mais informações exatamente através de quem cobre esse tipo de notícia “por fora” do que o pessoal que já vai com trabalho encomendado.
Além do mais algumas referências do texto são de gente que ao meu ver trabalha da mesma maneira que estão criticando, é só observar a propaganda que fazem de si com o material depois de produzido.
E para arrematar, fotógrafo de guerra pode explorar “assistente”, que é o vagabundo que não quer nada da vida (alguns podem ser assim mesmo, mas tem fotógrafo patrão vagabundo também), mas se ele corre atrás, ele também atrapalha. Depois tem texto sobre se reinventar na Fotografia e que não há concorrência no mundo de hoje quando o fotógrafo é bom…
E a questão do dia, quem atrapalha mais, o cara que ajuda a criar um valor ridículo e inexistente a um produto e fica sentado na cadeira escrevendo sobre Fotografia ou o fotógrafo que vai retratar com os próprios olhos esse tipo de catástrofe e tentar vender um material livre dos VALORES que ele não julga corretos e ajudam a criar Haitis ao redor do mundo?
Ana,
Eu concordo parcialmente com o que você diz; como eu disse lá em cima, e você citou em seu comentário, claro que free-lancers são tão profissionais (e por vezes mais criativos, tem mais liberdade para atuar) que os contratados.
Os dois pontos que enfatizei, porém, são:
1-) Se não for profissional, vai atrapalhar mais do que ajudar.
2-) Se não tiver onde publicar, o trabalho terá sido em vão, e possivelmente com consequências ruins em termos psicológicos para o próprio fotógrafo; nestes casos, eu não iria.
Mas claro que é a minha opinião, e cada um faz o que mandar a sua consciência…
Obrigado a todos por comentarem.
Clicio
Anisio,
Se você for retratar com os próprios olhos essa catástrofe, por favor, nos conte na volta a sua experiência.
Clicio
Escrevendo no blog (assim como eu) não estamos nem ajudando nem fotografando. Apenas estamos com o bumbum na cadeira.
Abrazos!
Simplesmente necessária essa discussão aqui no Brasil, muitos bons profissionais fora daqui já se conscientizaram de que ajudar é melhor do que atrapalhar, e condenam tais fotos apelativas e fora do que se considera fotojornalismo decente e profissional! Parabens pelo post, pela pesquisa historica e pelas informações valiosíssimas sobre fotografia em campos de guerra ou de desastres!!
Agora, fala sério; guerra ou terremotos são lugares para amadores? (Clicio Barroso)
A frase de Clicio é lapidar e reforça que um campo de batalha não é lugar para pequeno burguês, para um flâneur que quer voltar para sua turma e dizer envolto na vaidade: “eu estive no Haiti!”
Para entender o que se passa na cabeça dos grandes fotojornalistas de guerra ou não, basta entrar na estrutura de viiphoto (www.viiphoto.com). Trata-se de uma estrutura empresarial onde amador não passa nem na porta. Se verificarmos atentamente em http://www.picturapixel , editado por Cláudio Versiani que já esteve na Somália e tem anos de fotojornalismo, perceberemos pelas imagens que lá estão postadas, que foram feitas por quem ama a fotografia, e, poucos, não mantêm vínculo certo com empresas compradoras de imagem.
Estou perto do Haiti, os aviões saem pra lá, passando quase em cima de minha casa, mas devo admitir que não é uma tarefa que eu possa executar porque estou sem base econômico e contatos que pudessem me dar a oportunidade de usar meus conhecimentos em favor da fotografia e do Haiti. Tem gente lá demais…
Mais: o fotógrafo deve fotografar tudo que ele encontrar num campo de batalha. Aliás, não sobra mais nada num campo de caos além do caos. Qualquer crítica ou questionamento a ação do fotógrafo na zona do caos, tomo como censura prévia a uma atividade que ajudou e ajuda a mostrar muito lixo que se encontra sob o tapete, colocado por governos e transnacionais. É para esfregar sim, na cara do planeta hipócrita e omisso, a fome, os assassinatos, os estupros, os copos mutilados por bombas e balas. Agora no caso do Haiti, é necessário mostrar a situação caótica, de forma fracionada pela visão do fotógrafo que sente na pele as dores do próximo, pois acima de tudo ele é humano. Não há jardins floridos onde o caos foi plantado em seu lugar e a única saída fotografar impunemente, pois, quem deve ser julgado é quem levou o Haiti, Iraque, Palestina, Afeganistão e outros povos a situação que se encontram no momento.
“Fotografamos o que vemos e o que vemos depende de quem somos.”
José Medeiros)
Barroso, você tá chato pra caramba.
A pergunta deveria ser “Julgar ou não julgar?”
Você se considera profissional, prega a “especialização” do fotógrafo (como se não aceitasse qq trabalho que lhe oferecerem, desde que bem remunerado) e agora está julgando quem vai ou não, ainda por cima pondo pressão que só deve ir “profissional” com contrato “firme” rs…
Nem fotógrafo você é, pois dá aula – virou professor. Para com isso, vai me dizer que não fotografa uma modelo bem magra e manda ela deixar a profissão e se “nutrir” corretamente com boa alimentação? Tire a trave do teu olho, pare de julgar enquanto dá tempo.
Sobre a movimentação de fotografos e midia para cobrir pautas = HIPOCRISIA. Temos nosso proprio Haiti.
Sobre a relaçao do fotógrafo com o fato ocorrido e o uso de suas imagens, aliado ao propósito de estar lá, acredito que a fotografia/fotojornalismo é um reino de consciencia.
Ótimo, agora que eu tenho a atenção de todos: não só o nosso colega blogueiro frustrado é hipócrita, mas também são hipócritas todos o pessoal do confete aí, que parece não ter opinião pessoal e só faz mesmo é louvar qualquer coisa que vê escrito.
O que vocês, criticando o cidadão que resolveu meter as caras pra conseguir pagar as contas no fim do mês e ir lá pro Haiti tentar conseguir uma foto, fizeram pela tragédia?
O que vocês fazem pela pobreza que cerca vocês aqui mesmo no Brasil? Quantos de vocês não fecham a janela quando chega um moleque no semáforo?
E quantos de vocês perdem o sono ou escrevem ou comentam em blogs de fotógrafros frustrados por causa dos 20 milhões de miseráveis do Brasil? Quem daqui já deu aula de graça em escola?
Ou quantos estão realmente preocupados com o fato de que 40mil pessoas morrem por arma de fogo no Brasil por ano, e que mais de 90% dessas armas estão associdadas ao tráfego de drogas?
E quantos não fumam um pra relaxar?
Enquanto sei que a resposta pras perguntas acima vai ser um “não” coletivo, pergunto: quantos aqui compraram alguma lente nova pra sua máquina nos últimos 12 meses?
Isso, pra mim, essa tapação de sol com a peneira, não tem outro nome senão HIPOCRISIA. Quem são vocês pra julgarem o comportamento dos outros? Pra dizer quem é humano e quem não?
Quem daqui é reencarnação da Madre Teresa? hu? uh? foto pra provar?
Façam me o favor.
Doors
ps. Não assinei o meu nome porque ninguem me conhece mesmo.
ps2. Se eu assinar o meu nome, der meu endereço e telefone você var fazer o que, Ayrton? Virar tirar uma foto minha com o dedo no nariz e publicar na folha?
com tantas fotografias, ainda recaimos que duas revistas semanais no Brasil, escolheram as mesmas imagens, e mais algumas no exterior.
http://2salgueiros.wordpress.com/
será que o “vc reporter” vai começar a ser profissional?
Por favor, leiam novamente o artigo.
Não julguei ninguém, apenas penso que ir passear por lá atrapalha.
Tem gente especializada em situações de risco, e não são os aventureiros.
São os profissionais.
Nossa, quantos comentários! Será que cabe mais um?
- Não acho que ter o job encomendado faça de ninguém uma presença indispensável, muito pelo contrário. Quem encomenda em geral só quer vender, vender e vender. Fotógrafos das agências estão mais preocupados em não levar furo do que em dar o furo. Por isso cenas grotescas como o bando de urubus-fotógrafos em torno da criança-carniça.
- O fotojornalismo, mais do que trazer informações, deve buscar emoções. Mas quais emoções? Precisamos ver mais uma foto de uma criança negra chorando, toda suja de poeira? Em geral ao ver as “notícias” tenho a sensação de nada novo se apresenta. Será a saturação das informações? Acho que sim. Sou fotojornalista e já vivi situações muito duras e tristes. Mas tenho dúvidas se minhas fotos não serviram apenas para vender revistas e jornais. Mas ainda acredito no fotojornalismo, especialmente quando vejo trabalhos como aquele do Ig e da Lou, citados acima.
- Até agora não vi nenhuma foto importante vinda do Haiti. Recomendo o texto do Eduardo Galeano, para compreendermos a miséria do primeiro país das Américas a se tornar idependente.
(http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/eduardo-galeano-a-historia-do-haiti-e-a-historia-do-racismo/)
Abs e valeu a discussão!
http://www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/album/p_20100114-vitimas05.shtml
Vejam o trabalho do fotógrafo da Folha. Todas as fotos feitas no hospital, e ainda sobrou tempo para brincar com (d)efeitos especiais, desaturando cores e mantendo outras…Isto é fotojornalismo?
Para complementar estou enviando os links de um vídeo e de um site português comentando sobre algo ocorrido no Haiti, totalmente pertinente ao debate:
http://www.youtube.com/watch?v=7Unh4v1lFU0
http://www.ionline.pt/conteudo/42866-haiti-reporter-da-cnn-anderson-cooper-salva-crianca-atingida-com-um-bloco-cimento
Abraços.
Como há todo tipo de pintor, escritor, músico, também de fotógrafo.
O que gosta de fotografar plantinha, bicho, gente, mulher nua, etc.
Quando ocorre uma tragédia assim, é um ‘prato cheio’ para o fotógrafo ‘urubu’. Ele adora jogar no terço de ouro o olhar lacrimejado, a boca em grito, a perna seca, a mão pedindo comida, etc.
Porque ele existe? Pq alguém ‘consome’ esse tipo de foto. Pq tem fotógrafo de casamento? De festa infantil? De jogo de futebol?
Não deixa de ser um ‘safari’ fotográfico. Fotografar nas piores condições, no perigo (o que é ‘bom’, pois algo inusitado pode acontecer!).
Acho que ele não é obrigado a ajudar. Ele está indo trabalhar ou fazer ‘estudo de campo’.
E vc, em que perdendo 1 segundo para olhar uma foto da desgraça do Haiti, já está ‘consumindo’ seu trabalho.
Não condeno, não julgo. A mídia televisiva é assim também. Enquanto a pessoa não chorar perante à câmera, não ‘valeu’.
E vamos ‘aguardar’ a próxima tragédia…
amador ou profissional, experiente ou inexperiente,? é engraçado o rótulo, seria shakespeare? ser ou não ser, eis a questão? brincadeira…
Pessoal, uma vez li a respeito de uma entrevista de emprego, quando perguntado ao candidato se era ou não experiente, ele respondeu se trocar as fraldas da irmã durante anos contava como experiência, se arrumar tudo da casa, da torneira a tomada de luz contava, se ajudar o mano a fazer os temas de casa e estudar para prova contava, se … bem tudo é muito relativo… clicio, o texto, me desculpe, não quero te ofender, teu texto esta dúbio e deixa margem a interpretações diversas, obviamente o assunto é polêmico, o número de comentários falam por si só, mas “doors” , respeito é bom e todos gostam, se não percebeste, te afirmo, ultrapassaste a linha (tênue) do bom senso para comentar, não o critico pela questão da identidade, cada um cada um e internet, todos nós conhecemos, mas teus comentários, mesmo que pertinentes, na forma são completamente dispensáveis… enfim, quanto a resposta a pergunta, eu iria (sim, sou amador) , gostaria muito de poder colaborar, fotografando ou cavando nos escombros, mas como disse, cada um, cada um.
clicio, tenho acompanhando teu blog e acho ótmo, as videoaulas “tabajara” (por favor , leve na brincadeira) , sensacionais… parabéns…
otima reflexao, mas vindo de um mero fotografo de publicidade, fica parecendo mais o sujo falando da bunda mal lavada
e vc clicio ? oq faz no dia a dia com sua fotografia para ajudar o mundo ?
propagar o consumo e a moda está longe de ajudar a humanidade… na verdade é exatamente o oposto.
enquanto vc aponta o dedo para os outros… existem 3 voltados para voce
Sei que não é da área da maioria aqui, mas na Psicologia esse comportamento é conhecido há muitos anos. Denomina-se “Paralisia Coletiva”. Isso faz parte da psiquê humana. Não são necessariamente “urubus”. Prefiro dizer que essas pessoas não percebem o que estão fazendo (ficar inertes ao ver o sofrimento de um semelhante). Tem um bom texto, bastante esclarecedor sobre o assunto, neste link: http://bit.ly/6rhvlf
Ricardo,
Obrigado pelo link, e pela perspectiva psicológica sobre o assunto em questão.
abraços,
Clicio
UMA boa foto não gasta mais de um segundo para ser realizada. Acho que sobra tempo também para ajudar.
“Uma coisa não precisa excluir a outra”. Embora concorde com o texto, principalmente na questão da falta de experiência. É como já diz a sabedoria popular: “muito ajuda quem não atrapalha”.
Esta realmente é uma questão meio polêmica, porque muitas pessoas criticam os fotógrafos! Eu, sinceramente, acho que os fotógrafos são essenciais para nos trazer informações como do HAITI! Claro que existe fotógrafos que excedem um pouco, mas acredito que é a sua minoria! Fotografar é um DOM, é comunicação!
Polemica a parte, minha opinião.
Para ir a situações de risco em qualquer possibilidade fotografável é preciso acima de tudo estar preparado para tal. Psicologicamente, espiritualmente, materialmente senão nada se traz e só se atrapalha a quem está presente para trazer ajuda e conforto. Abs
cada mer… que tem escrita aqui em clicio, não sei pq as pessoas se doem tanto com esse tipo de conversa (discussão), parece que esses que se doem, são aqueles que estaõ dispostos a tudo por um dinheiro facil, parece até que se a mãe dele tivesse sobre a mira de uma arma ele estaria atras da camera e não atras de negociar uma maneira de solta-la das mãos de um possivel assassino.
é a velha história, ganhar dinheiro com a tragédia dos outros é fácil pois PIMENTA NO OLHO DOS OUTROS É REFRESCO.
mais um acidente na porta da minha casa, moto e carro ficaram destruidos e o motoqueiro todo arrebentado, vc acha que eu tirei fotos ou liguei pro resgate?
não me interessa uma pessoa machucada, existem outras formas de se ganhar dinheiro fazendo o que gosto que é fotografar, e existem pessoas com mais sangre frio ou mesmo dispostas a isso…
o texto do clicio no meu ponto de vista não ofendeu ninguem, alguns ai perguntaram se a fotografia do clicio ajuda o mundo de alguma maneira, pode ser que não, mas que o clicio ajuda muitos fotografos e de graça isso ele faz…
a fotografia tem parte muito importante, diria até primordial na historia do homem, mas não é e nem nunca foi a salvação pra nenhum problema, pois a fotografia ja esta ai a bastante tempo e o mundo ainda não é um mar de rosas.
continuo sempre com a idéia de que cada um deve fazer aquilo que gosta e que se sente bem fazendo, se o cara gosta de fotografar mulheres lindas para grandes grifes ok, se o cara gosta de fotografar casais celebrando seu amor ok, se o cara gosta de esportes radicais ok, e se gosta de pessoas sofrendo, cidade destruidas ok tambem…tudo trara resultado se for feito com paixão e com a verdade naquilo que se faz, querendo sempre tirar o resultado mais positivo possivel do inesperado.
eu acho que fotos como a do fotografo que fotografou um menino sendo tirado dos escombros e logo deposi abre os braços, tras esperança a quem se importa com as pessoas, agora fotos de cidadãos feridos, mortos e ou algo parecido so tras angustia e dor…fotos das ruinas trazer a solidariedade junto a dor isso tambem pode ser positivo, agora as fotos de cidadãos sofrendo…eu ñao faria.
Certa vez em 2006, estava fazendo um registro no centro de Curitiba e presenciei um suicídio a 50mts de onde eu estava. Enquanto eu olhava para o céu, analizando as nuvens, e o tempo que eu teria com cada tipo de luz, vi um corpo caindo de um edifício. Quando ele caiu fez um barulho que consigo lembrar até hoje. Fiquei parado por um tempo sem entender, com a câmera no peito e um vazio na cabeça, não precisava de mais nada, era só puxar a câmera e registrar. Não havia choro, desespero, nada que pudesse me travar, apenas o corpo estendido na primeira faixa da Avenida. Não consegui. Não quis. Não entendi nada, e pela primeira vez me deparei com uma situação em que não quis fotografar. Não concordo com o “clickar a qualquer custo”, não concordo em mandar o assistente salvar a vida da mãe e do filho que estão se afogando em um bueiro, enquanto eu fotografo. Não concordo em transformar o sofrimento humano em “arte”. Fico revoltado, muito revoltado quando vejo uma imagem, como a postada aqui, em que temos dúzias de paparazzis da dor e do sofrimento. Tenho família, conheço muita gente, e sei que seria como uma faca em meu peito se algum “colega de profissão” registrasse um momento como esse em que alguém do meu convívio fosse exposto em seu pior momento. Troco de profissão, mas não faço.
Nossa! que dilema . Claro que o correto é fotografar. Qualquer manual de ética jornalística recomendaria : Fotografe. O mundo precisa de fotografias. Veja o quanto o Haiti já ganhou com fotografias. O cadaver de hoje pode ser prêmio jornalístico de amanhã.
Como dizia Millor Fernandes: uma imagem vale mais do que mil palavras. Difícil é dizer isto usando só imagens.
Eu gostaria de ir para fotografar e ajudar muito, carregar peso, tirar escombros, no que for possível. Achei o texto magnífico! Concordo com tudo o que foi exposto no texto. Acho que muitas vezes falta humanidade, as pessoas são muito individualistas e não enxergam a situação triste que as pessoas estão passando.
Como eu não tenho “know how” suficiente para mostrar bem a realidade do haiti, o melhor é ajudar a distância e não atrapalhar que a ajuda chegue aos necessitados.
Que Deus possa olhar por aquelas pessoas que tanto sofrem e que possa tocar o coração dos fotógrafos que estão lá.
Fotojornalismo não é arte, é denúncia. Alguns fotógrafos tratam miséria, fome, guerra e catástrofes com essa estética artística e de beleza, e geralmente são esses que tornam-se “urubus”.Quando souberem diferenciar o que é trabalho de denúncia das imagens para galeria de arte, não estarão mais em zonas de conflito.
Abraços,
Tanda
Acho que não são exclusivos – fotojornalismo pode ser denúncia e arte ao mesmo tempo. E aqui se faz necessário não confundir mecanismos do mercado de arte com o conteúdo das obras em si.
O fato de ser colocada nas paredes de uma galeria e ser objeto de campanhas de marketing não significa que certa fotografia, tirada em zona de conflito ou desastre natural, represente os valores desse mercado específico. Esse tipo de raciocínio invalidaria obras da maior importância como, por exemplo, os mestres da pintura cujos quadros atingem preços estratosféricos devido à especulação do mercado. É preciso separar as coisas.
Ao invés de tomar como sagrado o gosto e tino comercial dos galeristas, devíamos confiar mais no poder transformador da arte, naquela qualidade intrínseca da obra que te faz não ser o mesmo depois de exposto a ela.
Não acredito que um fotografo que não tenha sensibilidade com relação às situações que está fotografando possa obter imagens icônicas que mobilizem o imaginário e o emocional do público, como fazem as obras de arte. Pelo menos ainda não conheci nenhum, muito pelo contrário: os que vejo se sobressaindo são aqueles que captam a complexidade dessas situações e têm certa empatia com seus diversos atores. Repare, por exemplo, como muitos dos fotojornalistas de renome retornam inúmeras vezes a algumas áreas e situações.
Existem sim, os que se aproveitam da vulnerabilidade das pessoas para invadir sua privacidade e sua dor ou colocar no currículo que já foram para zona de conflito e desastre natural. Mas não me lembro de nenhuma foto deles.
-Todos nós, seres humanos, somos “dotados” de uma coisa que eu denomino “uma besta” interior. Besta esta, instintual, selvagem, fora de todos os parâmetros tidos como socialmente aceitos.
Exemplos desta besta à solta, nem é preciso; eles estão aí, em comportamentos individuais ou coletivos.
-A cultura e a socialização (via família, religião, escola, etc) domesticam a besta. Ou seja, não “devo” matar, roubar, cometer crueldades. Somos “estimulados” à compaixão, ao amor, à fraternidade, e uma série de coisas “bonitas”. Sim, até o belo nos é passado como que normatizado. Não é de se estranhar o impacto diante de obras de arte que fogem aos nossos “conceitos”.
Vivemos inexoravelmente divididos: a besta ou o bem.
-No Haiti a tragédia, assim como nos campos de concentração hitlerianos, no Oriente, na Àfrica faminta, mesmo nas ruas de grandes centros urbanos, temos a visão contínua da besta à solta, que já foi amplamente divulgada, via imagens jornalísticas.
-O jornalismo passa por normatizações, é claro. Não muito bem explícitas, já que determinadas linhas de conduta estão intimamente ligadas à política dos dirigentes de jornais, revistas, televisão, etc. A ética é “variável”, como em outros setores da mídia e de todos os segmentos profissionais.
A presença de um fotógrafo ali, pode significar o momento mais glorioso de sua profissão, sem hipocrisias. Tudo vai depender do que ele documentar. E é idiota ou muito inocente pensar que vai ser diferente.
Eu acredito na visão do humanitário, do horror e da dimensão da tragédia de qualquer um profissional que ali estiver.
Mas o julgamento de determinados comportamentos é muito complicado, pois passa por uma ética, neste momento, absolutamente individual, de acordo com a “elasticidade” da divisão de cada um.
Boa discussão. Como aspirante a fotojornalista, ou fotojornalista iniciante, claro que gostaria de ter a oportunidade de fotografar em zonas de conflito. Mas concordo plenamente em antes de qualquer coisa, se fazer as perguntas “como e para quê (com que FIM) fotografar?”. Isso vem antes de ser fotógrafo ou qualquer outra coisa (pois uma zona devastada por guerra ou desastre natural é uma oportunidade para todos os profissionais). Não se pode confundir os fins com os meios. E concordo que se não for para um fim decente (sendo você freelancer ou fixo de alguma agência), vale mais fazer algo produtivo na sua vizinhança do que fotografar no Haiti prá postar no blog e suprir sua vaidade, se promovendo em cima de anônimos que parecem iguais – todos ferrados, feridos, soterrados e desgraçados.
Sei lá, opinião pessoal: antes de pensar nisso (me mandar pro olho do furacão), eu prefiro refletir decentemente escorado em referências como Sérgio Vieira de Mello e pessoas similares, prá depois me propor a fazer algo.
Fiquei sabendo da “discussão” e vim olhar, agora que meu PC está formatado….
Concordo com o Marcos Issa e gostei em parte do texto do Clicio.
Vou contar minha experiencia.
Fotografo há mais de 15 anos as comunidades quilombolas no Brasil, porque morei perto de algumas e tenho muitos amigos por la – mais precisamente litoral norte de São Paulo e Paraty no RJ.
Fotografo há anos a periferia de São Paulo – diversos bairros porque tenho amigos por lá… Fotografo o pessoal de rua há anos porque sou militante, neto de avó militante, sobrinho de tio militante e filho de pais que sempre pararam na estrada para conversar com as pessoas dos assentamentos dos sem terra. Ah e fotografo há muito tempo diversos assentamentos.
Bem, acho que pela minha historia pessoal estou mais preparado que muitos fotografos “profissionais” para fotografar e me envolver com as causas sociais, porque é isso que tenho feito a vida interia. Já conheci muitos fotografos “profissionais” que so fazem fotos em favelas, em lugares em que houve alguma tragedia, etc se forem contratados e estiverem ganhando uma grana!!!! A maioria dos que conheci – e não vou citar nomes – são pessoas legais com pouca cultura e nunca se envolveram de verdade com uma causa social. Insisto, a maioria so vai fotografar por causa da grana e depois somem… tudo bem, se isso é ser “profissional”, deve ser… mas profissional de quê?
Trabalho de graça para uma serie de ONGs e desenvolvo projetos sociais sem fazer alarde ou auto promoção… minhas grana vem do meu trabalho, eu me banco.
Sou amador. Fotógrafo amador – ou nem isso – e não mostro por ai as fotos de meus retratados, porque acho que isso não vai ajudá-los em nada. Deixo as fotos com os meus retratados pois tenho com eles uma cumplicidade com relação a nossa luta em conjunto para melhorar – ou pelo menos tentar melhorar – as condições de vida deles e a minha. Quando apresento as fotos é porque estas fazem parte de alguma estrategia para angariar fundos para alguma causa humanitaria.
Reitero, sou fotografo amador e não tenho duvidas de que estou em melhores condições fisicas e psiquicas para registrar lugares como o Haiti, do . A ONU é uma Instituição estadunidense, embora o discurso seja ao contrario e os estadunidenses só ajudam quando ali eles sentem que podem ter uma visibilidade positiva na midia, isso se estende tambem aos grandes grupos midiaticos e a muitos fotografos “profissionais”.
Eu nunca fui assaltado em uma favela, sou respeitado em diversos lugares em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, etc… pois gosto mesmo é de transitar no “gueto”, como chamamos de forma carinhosa os lugares onde vivem os milhares de excluidos deste País, e onde eu nunca trombei com a turminha elitista da fotografia brasileira, diga-se que vivem no MAM, no MAC, na Pinacoteca, no Paraty em Foco, nas galerias, etc… É uma pena, mas estes quando sobem o morro, ou vão fotografar um forró a noite na beira da estrada – convidei alguns no Paraty em Foco de 2009 mas eles (as) estavam com medo – levam seus seguranças ou a equipe do jornalsão toda e morrem de medo que o “pior” possa acontecer…
Eu não iria para o Haiti porque la tem muita gente, e detesto este espetaculo de tragedia com fotografos e cinegrafistas, mas não acho que HOJE o “profissional” seja aquele que trabalha para a midia gorda.
A gente dificilmente se verá por ai… mas como o mundo esta cada vez menor, quem sabe? Agora vou até ali, fotografar a garotada que insiste em tocar tambor mesmo com a iminencia de um alagamento dentro de poucas horas e o meu joelho recém operado.
Márcio Ramos, membro do Grupo Luminous de fotografia.
Fiquei sabendo da “discussão” e vim olhar, agora que meu PC está formatado….
Concordo com o Marcos Issa e gostei em parte do texto do Clicio.
Vou contar minha experiencia.
Fotografo há mais de 15 anos as comunidades quilombolas no Brasil, porque morei perto de algumas e tenho muitos amigos por la – mais precisamente litoral norte de São Paulo e Paraty no RJ.
Fotografo há anos a periferia de São Paulo – diversos bairros porque tenho amigos por lá… Fotografo o pessoal de rua há anos porque sou militante, neto de avó militante, sobrinho de tio militante e filho de pais que sempre pararam na estrada para conversar com as pessoas dos assentamentos dos sem terra. Ah e fotografo há muito tempo diversos assentamentos. E alguns paises: India, Bangladesh, Paraguai, etc…
Bem, acho que pela minha historia pessoal estou mais preparado que muitos fotografos “profissionais” para fotografar e me envolver com as causas sociais, porque é isso que tenho feito a vida interia. Já conheci muitos fotografos “profissionais” que so fazem fotos em favelas, em lugares em que houve alguma tragedia, etc se forem contratados e estiverem ganhando uma grana!!!! A maioria dos que conheci – e não vou citar nomes – são pessoas legais com pouca cultura e nunca se envolveram de verdade com uma causa social. Insisto, a maioria so vai fotografar por causa da grana e depois somem… tudo bem, se isso é ser “profissional”, deve ser… mas profissional de quê?
Trabalho para uma serie de ONGs e desenvolvo projetos sociais sem fazer alarde ou auto promoção… minhas grana vem do meu trabalho. Um pequeno comercio.
Sou amador. Fotógrafo amador – ou nem isso – e não mostro por ai as fotos de meus retratados, porque acho que isso não vai ajudá-los em nada. Deixo as fotos com os meus retratados pois tenho com eles uma cumplicidade com relação a nossa luta em conjunto para melhorar – ou pelo menos tentar melhorar – as condições de vida deles e a minha. Quando apresento as fotos é porque estas fazem parte de alguma estrategia para angariar fundos para alguma causa humanitaria.
Reitero, sou fotografo amador e não tenho duvidas de que estou em melhores condições fisicas e psiquicas para registrar lugares como o Haiti. Ja andei este País a pé, sei escalar uma montanha, nadar bem, conheço primeiros socorros, sei atirar, enfim…. mas jamais faria fotos denuncia, não sei, não me sentiria bem… mas admiro quem faça bem feito.
A ONU é uma Instituição estadunidense, embora o discurso seja ao contrario e os estadunidenses só ajudam quando ali eles sentem que podem ter uma visibilidade positiva na midia, isso se estende tambem aos grandes grupos midiaticos e a muitos fotografos “profissionais”, que em sua maioria não tem comprometimento com as grandes causas sociais… muito menos com as pequenas. Se comprometem apenas com os seus salarios e seus lucros…
Eu não iria para o Haiti – mas fui convidado a ir para construir casas de emergencia, talvez vá daqui a 90 dias… – porque la tem muita gente, e detesto este espetaculo de tragedia com fotografos e cinegrafistas, mas não acho que HOJE o “profissional”, o “bom fotografo” seja somente aquele que trabalha para a mídia gorda. O problema é que tem muita gente fotografando sem o minimo de competencia, muito “amador” que realmente só atrapalha, isso é verdade, mas não podemos generalizar, tem muito “amador” que da de 10 em muitos “profissionais”, quer apostar?
Agora vou até ali, fotografar a garotada que insiste em tocar tambor mesmo com a iminencia de um alagamento dentro de poucas horas e o meu joelho recém operado…
A gente dificilmente se verá por ai… mas como o mundo esta cada vez menor, quem sabe…
Seus textos são bons, e quando colocam as pessoas para virem aqui se manisfestar é porque o mérito é seu e se surtiu efeito é que o texto cumpriu com sua “obrigação” de se fazer refletir. Este tema é espinhoso, estamos em uma época bem complicada.
Axé.
Márcio Ramos, membro do Grupo Luminous de Fotografia.
Olá Clício! chego meio tarde para dar meu recado aqui, o que vou falar é uma opinião muito pessoal, quero evitar julgamentos pré-concebidos…se eu fosse realmente um fotógrafo especializado em guerras e/ou catástrofes, ou estivesse empregado em um órgão de imprensa e não tivesse outra alternativa, faria esse trabalho como seria de se esperar. Mas a realidade é que tenho opção de escolha, detestaria sentir-me com um abutre, como mostram as fotos acima, espreitando vítimas inocentes de uma tragédia sem precedentes, creio ser desnecessário ter que alavancar a minha carreira profissional em cima de situações como essa, sentiria-me um oportunista da pior espécie…forte abraço
Izan,
Obrigado pela gentil visita e por deixar a sua posição, honesta e sincera.
Foi isso que eu queria dizer quando falei em “profissionais”; se o fotógrafo faz este trabalho; óbvio que tem que ir e trabalhar. Seja ele contratado, freela ou independente.
Se é um curioso ou um aventureiro, atrapalha mais do que ajuda…
Abraços
Márcio,
Obrigado por passar por aqui.
Interessante a sua trajetória na fotografia, e o seu envolvimento com as causas sociais.
Só curiosidade, não é “isca” para polêmica nem provocação, é apenas interesse mesmo: Não há demasiadas “comunidades quilombolas” das quais nunca se ouviu falar e que surgem de repente por todos os cantos?
Como é essa história? O que distingue uma autêntica de uma “maquiada”?
Abraços e volte sempre,
Clicio
Dulce,
Sempre comedida, ponderada, justa.
Adorei o final:
“Existem sim, os que se aproveitam da vulnerabilidade das pessoas para invadir sua privacidade e sua dor ou colocar no currículo que já foram para zona de conflito e desastre natural.
Mas não me lembro de nenhuma foto deles.”
beijo!
Oi Clicio,
a respeito de sua pergunta uma comunidade para ser considerada quilombola basta que seus moradores se considerem quilombolas verbalmente. Acho que não existem comunidades “maquiadas” e sim uma manipulação da informação.
Acontece que a partir de novos estudos historicos, antropologicos, etc. sabe-se hoje que existiram centenas de refugios onde os escravos se “aquilombavam” isso no tempo da escravidão. Após a abolição da escravidão, muitos negros se reuniram em comunidades quilombolas para poderem sobreviver e nem todas ficavam isoladas do resto da população. Muitas destas comunidades comviviam homens e mulheres de diversas etnias europeias, indios, com aquela miscigenação toda caracteristica de nosso País. O que tinham em comum é que eram pobres.
Nas comunidades que eu fotografo em Ubatuba e Paraty conheço familias em que existem a miscigenação de brancos, indios e negros, por ai você vê a complexidade do tema.
Procuro com minhas fotos desmistificar o que é um quilombo, por exemplo no quilombo do Camburi em Ubatuba temos aulas de surf, igreja protestante e danças regionais (congada, catira, etc), hip hop, forró. Musicas folcloricas, instrumentos como tambor e rabeca e outros. As pessoas não se vestem como negros africanos salvo em determinadas festas. As casas são de taipa, outras de blocos e algumas de madeira. A culinaria é da mais exotica: peixe com banana é um dos pratos prediletos entro outros…
Um bom site para saber mais é este aqui: http://www.cpisp.org.br/comunidades/html/i_oque.html
O que acontece é que ja se registraram mais de duas mil comunidades quilombolas ou comunidades onde sabe-se que existem resquicios de antigos quilombos. O numero não é tão grande assim visto que o Brasil é enorme e muitos negros para ca foram trazidos, este numero “cresceu” em todos os paises cujos novos estudos foram realizados a partis da segunda metade do seculo XX.
O Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) diz que:
“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.”
Como a Lei admite que as terras das comunidades devem ser repassadas aos seus moradores você pode dai imaginar os diversos interesses que esta lei suscita nas comunidades, nas imobiliarias, fazendeiros, etc, etc. A briga muitas vezes é feia. Eu como não sei e nem sou capaz de fazer trabalhos de denuncia – ja tentei mas não sirvo pra este trabalho – fico ali com minha camera procurando levar conhecimento aos quilombolas, articulo sempre que posso os quilombos com os orgãos dos direitos humanos, cursos de fotografia, etc e é através da fotografia que faço amigos procuro incentiva-los a luta assim como deles vem o incentivo para que eu não esmoreça, e aprender em conjunto que as utopias ainda existem, que podemos mudar o mundo e que nem tudo tem um preço.
Existem valores que não tem preço.
Fiquei surpreso com o seu interesse.
Obrigado pela possibilidade de diálogo.
Márcio Ramos, membro do Grupo Luminous de Fotografia, onde aprendo fotografia com paixão.
Ps. poderia deletar o meu primeiro comentario? Errei e acabei postando o rascunho.
Oi, Dulce, obrigada por responder ao meu comentário!
Concordo com seu pensamento. O que eu queria ressaltar é a insensibilidade de alguns fotógrafos. Alguns trabalhos são exclusivamente para exposições sem a devida importância social, humana e de denúncia. São aquelas imagens de sofrimento que aparecem como se fossem de uma viagem de férias.
abraços
Tanda
Oi Clício parabéns pelo seu site e quanto a sua pergunta, eu estive lá para registrar os estragos do terremoto e muitas vezes eu pensava sobre isso… Ajudar ou Fotografar?
Porém acho que o fotógrafo tem um trabalho importante no registro histórico dos fatos e é através dele que a história fica guardada para sempre. Porém deixo uma ressalva… Se só houver uma alternativa entre fazer a grande foto ou salvar de imediato a vida de uma pessoa fico com a segunda pois a vida não tem preço e poder ajudar alguém também não.
Abraços
Breno,
Puxa, que bom uma resposta de um fotógrafo que realmente esteve lá!
Foi excelente ouvir a sua opinião, já que logicamente a sua perspectiva deve ser totalmente diferente daquela dos que não sabem como é, eu inclusive!
Volte sempre e obrigado por compartilhar sua experiência.
Abraços,
Clicio
Fotografar para ajudar. Sou amador – no sentido de amar a fotografia – e, provavelmente tentaria fazer isso.
Segundo dados do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas divulgados neste domingo, Gisele ofertou US$ 1,5 milhão, enquanto Sandra Bullock deu US$ 1 milhão em ajuda. Madonna prometeu US$ 250 mil. Os atores Angelina Jolie e Brad Pitt estiveram entre os primeiros, doando US$ 1 milhão da sua fundação para a entidade Médicos Sem Fronteiras, que atua em Porto Príncipe.
No Brasil, usuários das redes sociais têm manifestado apoio às vítimas do terremoto no Haiti. Para fazer doações, os brasileiros podem fazer doações à Embaixada do Haiti no país ou a ONGs que atuam em território haitiano.
Veja abaixo o número das contas abertas para doar recursos para o Haiti:
Embaixada do Haiti no Brasil
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
Conta Corrente: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71
Assoc. De Educação Para Não Violência
Banco: Itaú
Agência: 0139
Conta Corrente: 75883-3
CNPJ:11.193.625/0001-33
Care Internacional Brasil
Banco: ABN Amro Real
Agência: 0373
Conta corrente: 5756365-0
CNPJ: 04180646/0001-59
entao nos temos que observar que o fotojornalista ele relata onde e quando aquele acontecimento esta ocorrendo ,o fotojornalista tem na sua mente uma descriçao do lugar a semente esta brotada agora ele agi , sendo que aquela informaçao possa vim ate ele de forma positiva e negativa ” ambos os trabalhos sao bem feitos qualidades de imagens bem elaboradas e descritas.
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[...] Haiti. Fotografar ou ajudar? (via Marco Gomes) 0 Comments [...]
[...] Clicio pergunta e responde… Quando os fotógrafos de guerra começam a agir como os paparazzi das revistas de fofoca, e cercam vítimas já estressadas como aves de rapina, as perguntas começam a surgir: Até onde o profissionalismo, a vaidade, a vontade de ganhar prêmios ou a simples morbidez são defensáveis quando abaixar a câmera e ajudar pode ser mais eficiente? O que é ser profissional em uma situação extrema como essa que o Haiti está vivendo? © AP [...]
[...] de tragédia, entram outras questões. Clicio Barroso, em seu blog, lança a pergunta: “Haiti: fotografar ou ajudar?“. No post, Clicio defende que é necessário, sim, o envio de fotojornalistas a Porto [...]
[...] diversos outros assuntos que foram levantados por conta disso, um deles foi ética do fotojornalismo, leitura [...]
[...] inesgotável mesmo e, contraditoriamente, parece assunto exaustivamente batido. Mas, andando pelo blog de Clicio, dei de cara com essa foto de Matthew McDermott que, pessoalmente falando, vale mais que qualquer [...]
[...] Eis a história da foto acima e reflexões sobre ela, no excelente blog do Clicio Barroso: http://www.clicio.com.br/blog/2010/haiti-fotografar-ou-ajudar/ [...]