http://www.terryrichardson.com/

©Terry Richardson

Dando sequência ao artigo anterior, “Terry Richardson & Tostines”, esta versão de 2010 traz um pouco mais de inquietude ao tema.
Este artigo foi originalmente publicado na edição 30 da revista Photo Magazine, da Editora Photos.

O fotógrafo egocêntrico

Muito me tem espantado a infinita profusão de autorretratos de fotógrafos; profissionais, amadores, adolescentes, todos querem aparecer em suas próprias fotos.
Vivemos uma época da espetacularização do cotidiano; como se não fosse suficiente a difusão constante de notícias bombásticas, desastres, assassinatos, escândalos, todas as fotografias e vídeos devidamente enfatizados com cores saturadas e objetivas super nítidas, a necessidade do espectador participar do espetáculo e o registro dessa presença se tornam agora obrigatórios, inevitáveis.
Uma busca simples pelo Flickr, um website de relacionamentos baseado em fotografias, mostra literalmente milhares de pessoas, em sua maioria jovens mulheres, que em seus perfis postam autorretratos; as situações podem ser de leve ou extrema sensualidade em frente a um espelho, de fantasias oníricas em montagens muitas vezes toscas no Photoshop, ou de pedaços de seu corpo interferindo em imagens; o importante é estar lá.
Uma pesquisa mais profunda mostra que, independente da conotação de “se mostrar”, em uma espécie de síndrome de Stephany Absoluta, os adolescentes precisam da comprovação de suas experiências em forma de imagem; não basta o evento ter acontecido, é necessário ter a foto para atestar que realmente aconteceu, e o mais importante é, mais uma vez, ter estado lá. O que me deixa curioso é ver esse comportamento, que deveria ser restrito a jovens que passam por um período de amadurecimento que vai da infância a idade adulta, quando a necessidade de auto-afirmação e auto-descoberta é explicável, estar permeando a fotografia como um todo, específicamente aquela mais experimental, por vezes editorial, certamente publicitária, e realizada por fotógrafos mais velhos.
Desde meados dos anos 90 o trabalho do fotógrafo americano Terry Richardson vem provocando discussões acaloradas, já que o seu estilo é no mínimo questionável, em termos comerciais; Terry declara publicamente o seu fascínio pelas imagens pornográficas feitas por amadores e prefere ver a interferência do autor na própria imagem, participando da ação, algumas vezes sendo o protagonista da fotografia realizada; afirma também que suas influências vão de Nan Goldin, que tem autorretratos fortíssimos, a Nobuyoshi Araki, o artista japonês que estarreceu o universo fotográfico ao lançar em 2005 o seu livro “Tokyo Lucky Hole” (Ed. Taschen, 2005), com imagens do submundo da prostituição no distrito de Shinjuky realizadas no período de 1983 a 1985, onde o próprio fotógrafo participava das cenas de sexo fotografadas em preto e branco.

Tokyo Lucky Hole

Tokyo Lucky Hole, by Araki

Esse comportamento de presença física nas fotos, surpreeendentemente tem nome; fotografia gonzo.
Foi o leitor Rubens Barbosa Filho quem pesquisou e me alertou sobre a origem do termo. Explicou-me:
O termo “jornalismo gonzo” foi utilizado pela primeira vez para descrever o estilo do jornalista americano Hunter S. Thompson, que participando ativamente de suas reportagens ao invés de apenas descrevê-las, por vezes bêbado e drogado, acabou com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção; segundo a Wikipepia, “gonzo” seria uma gíria irlandesa do sul de Boston para designar o último homem de pé após uma maratona de bebedeira.

Hunter S. Thompson

Hunter S. Thompson

O que nos interessa é que o conceito foi incorporado a este estilo de fotografia onde o fotógrafo tem uma atuação decisiva em suas imagens, seja sendo o assunto das fotografias, seja introduzindo partes de seu corpo no campo visível.
A outra característica marcante do gonzo é técnica: as fotografias virtualmente não sofrem edição de qualquer espécie, as câmeras utilizadas são frequentemente compactas de qualidade discutível, com flashes incorporados que são usados sem cuidado algum em relação às sombras projetadas; o resultado é tosco, aparentemente amador.
O que importa porém é o sucesso que tais imagens acabam fazendo, tanto no âmbito da arte quanto no comercial.
Apesar de duramente criticadas por muitos, as fotos de Araki, Richardson e outros expoentes do estilo rendem milhares de dólares aos seus autores e são largamente utilizadas em campanhas publicitárias de marcas conhecidas globalmente. Isso só pode significar a assimilação do “padrão Internet” como uma estética contemporânea, perfeitamente dentro das expectativas de consumo imediato e capaz de influenciar profundamente aqueles jovens fotógrafos que compulsivamente se auto-fotografam.
Até que esse paradigma seja derrubado, superado por um comportamento talvez mais espetaculoso ainda.
Só o tempo dirá.

Update 01: Um leitor nos envia um link interessante; um acessório chamado “Pocket XShot” que permite o autorretrato sem muito esforço, para câmeras compactas. Tendência? Não, realidade!