por clicio em 1 de março, 2010
Fotógrafo egocêntrico
Dando sequência ao artigo anterior, “Terry Richardson & Tostines”, esta versão de 2010 traz um pouco mais de inquietude ao tema.
Este artigo foi originalmente publicado na edição 30 da revista Photo Magazine, da Editora Photos.
O fotógrafo egocêntrico
Muito me tem espantado a infinita profusão de autorretratos de fotógrafos; profissionais, amadores, adolescentes, todos querem aparecer em suas próprias fotos.
Vivemos uma época da espetacularização do cotidiano; como se não fosse suficiente a difusão constante de notícias bombásticas, desastres, assassinatos, escândalos, todas as fotografias e vídeos devidamente enfatizados com cores saturadas e objetivas super nítidas, a necessidade do espectador participar do espetáculo e o registro dessa presença se tornam agora obrigatórios, inevitáveis.
Uma busca simples pelo Flickr, um website de relacionamentos baseado em fotografias, mostra literalmente milhares de pessoas, em sua maioria jovens mulheres, que em seus perfis postam autorretratos; as situações podem ser de leve ou extrema sensualidade em frente a um espelho, de fantasias oníricas em montagens muitas vezes toscas no Photoshop, ou de pedaços de seu corpo interferindo em imagens; o importante é estar lá.
Uma pesquisa mais profunda mostra que, independente da conotação de “se mostrar”, em uma espécie de síndrome de Stephany Absoluta, os adolescentes precisam da comprovação de suas experiências em forma de imagem; não basta o evento ter acontecido, é necessário ter a foto para atestar que realmente aconteceu, e o mais importante é, mais uma vez, ter estado lá. O que me deixa curioso é ver esse comportamento, que deveria ser restrito a jovens que passam por um período de amadurecimento que vai da infância a idade adulta, quando a necessidade de auto-afirmação e auto-descoberta é explicável, estar permeando a fotografia como um todo, específicamente aquela mais experimental, por vezes editorial, certamente publicitária, e realizada por fotógrafos mais velhos.
Desde meados dos anos 90 o trabalho do fotógrafo americano Terry Richardson vem provocando discussões acaloradas, já que o seu estilo é no mínimo questionável, em termos comerciais; Terry declara publicamente o seu fascínio pelas imagens pornográficas feitas por amadores e prefere ver a interferência do autor na própria imagem, participando da ação, algumas vezes sendo o protagonista da fotografia realizada; afirma também que suas influências vão de Nan Goldin, que tem autorretratos fortíssimos, a Nobuyoshi Araki, o artista japonês que estarreceu o universo fotográfico ao lançar em 2005 o seu livro “Tokyo Lucky Hole” (Ed. Taschen, 2005), com imagens do submundo da prostituição no distrito de Shinjuky realizadas no período de 1983 a 1985, onde o próprio fotógrafo participava das cenas de sexo fotografadas em preto e branco.
Esse comportamento de presença física nas fotos, surpreeendentemente tem nome; fotografia gonzo.
Foi o leitor Rubens Barbosa Filho quem pesquisou e me alertou sobre a origem do termo. Explicou-me:
O termo “jornalismo gonzo” foi utilizado pela primeira vez para descrever o estilo do jornalista americano Hunter S. Thompson, que participando ativamente de suas reportagens ao invés de apenas descrevê-las, por vezes bêbado e drogado, acabou com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção; segundo a Wikipepia, “gonzo” seria uma gíria irlandesa do sul de Boston para designar o último homem de pé após uma maratona de bebedeira.
O que nos interessa é que o conceito foi incorporado a este estilo de fotografia onde o fotógrafo tem uma atuação decisiva em suas imagens, seja sendo o assunto das fotografias, seja introduzindo partes de seu corpo no campo visível.
A outra característica marcante do gonzo é técnica: as fotografias virtualmente não sofrem edição de qualquer espécie, as câmeras utilizadas são frequentemente compactas de qualidade discutível, com flashes incorporados que são usados sem cuidado algum em relação às sombras projetadas; o resultado é tosco, aparentemente amador.
O que importa porém é o sucesso que tais imagens acabam fazendo, tanto no âmbito da arte quanto no comercial.
Apesar de duramente criticadas por muitos, as fotos de Araki, Richardson e outros expoentes do estilo rendem milhares de dólares aos seus autores e são largamente utilizadas em campanhas publicitárias de marcas conhecidas globalmente. Isso só pode significar a assimilação do “padrão Internet” como uma estética contemporânea, perfeitamente dentro das expectativas de consumo imediato e capaz de influenciar profundamente aqueles jovens fotógrafos que compulsivamente se auto-fotografam.
Até que esse paradigma seja derrubado, superado por um comportamento talvez mais espetaculoso ainda.
Só o tempo dirá.
Update 01: Um leitor nos envia um link interessante; um acessório chamado “Pocket XShot” que permite o autorretrato sem muito esforço, para câmeras compactas. Tendência? Não, realidade!







38 Comentários
Clicio, adoro me fotografar!
mas não faço isso sem pensar… aliás, pensar é o que mais faço na minha fotografia!
egocêntrica?
autêntica?
uma adulta-adolescente buscando auto-afirmação?
posso ser tudo isso e mais um pouco…nem ue sei!
mas acho que não vou parar de me fotografar tão cedo! rs
é mais um texto para reflexão…
bjão
Cacá
Cacá;
Tem um monte de gente autêntica que detesta se fotografar, ou ser fotografada…
Este egocentrismo fotográfico parece ser comportamento padrão dos anos 2000.
Obrigado por comentar!
bj,
Clicio
Bom… Eu acredito que tudo isso seja uma fase que todos passam. Alguns realmente não estão preocupados com técnicas e nem beleza nas fotos, apenas interessados em aparecer e ver o resultado que vai dar.
Independente da fase de se auto afirmar com fotos, eu também acho que a pessoa que clica tem que pensar em, no mínimo, que a foto seja bem tirada. Mas todos sabemos que não vivemos em um mundo onde todos se preocupam com o resultado final, mas sim na “polemica” que a fotografia vai gerar.
Isso é ruim para quem se importa, pois degrada a imagem. É trabalho nosso, fotógrafos preocupados na boa foto, em sempre mostrar o melhor! ^^
Abraços!
Olá Clicio,
As questões que você levanta no artigo já tomaram bastante tempo de meus neurônios.
De um lado temos uma sociedade cada vez mais conectada e interligada, ferramentas não faltam para isso, mas de outro observo uma atitude cada vez mais individualista. As pessoas querem estar cercadas por seguidores, leitores, audiência de todo tipo, é uma necessidade de massagear o ego nem que para receber essa massagem de ego seja necessário se expor de todas as formas.
É como a publicidade, num mundo de produtos e marcas iguais, é necessário inventar a novidade, por mais bizarra que seja, para então ganhar o consumidor, esse raciocínio chegou às pessoas, o indivíduo virou uma marca e quer consumidores, pelo menos é isso que me parece.
Ainda nas questões que você levanta, o “padrão internet” como estética, em outras áreas há movimentos semelhantes, no design vemos o picho sendo elevado à tipografia, sendo estudado e aceito dentro da academia, é a linguagem das ruas, marginal, indo parar na sala de aula.
Duchamp deve ter previsto isso de alguma forma ao conseguir inserir um mictório em museus, então talvez o que temos hoje seja apenas a expansão natural disso, tudo é arte, tudo é aceito, tudo é válido desde que gere números, desde que gere audiência.
Fotógrafos fazem de tudo para gerar visitação em seus sites ou acumular seguidores no twiter, mas poucos se preocupam que audiência não é nada se não fechar negócio, e essas pessoas fazem algo parecido com essa atitude de querer ser pop a todo custo, ganham audiência, mas é uma audiência vazia, como a de alguns programas da TV.
Parabéns pelo artigo, tenho certeza de que renderá ótimas reflexões para muita gente.
[]‘s
Armando Vernaglia Jt
Caro Armando;
Obrigado por comentar. Como viu, o assunto me preocupa há alguns anos, e vejo que não só a mim…
Obrigado por ajudar na reflexão!
Abs,
clicio
Clício,
Realmente não vejo problema no fotógrafo ser o motivo principal da foto, ou fazer parte da sua composição, principalmente se a foto for amadora.
O gosto por retratar momentos e situações cotidianas para atestar seu acontecimento sempre houve. Porém com a popularização do formato digital e o limite do número de fotos ser praticamente infinito devido aos cartões digitais, esse gosto foi levado ao limite. Claro que a internet nos ajuda a tornar isso popular, ou seja, muitas dessas fotos sejam elas cotidianas, eventuais ou sensuais não são mais pessoais no momento em que estão na rede. As fotos que antes eram tiradas, passadas para o papel e guardadas em armários, agora forram uma estante digital em sites de relacionamento como o flickr.
A Internet apenas potencializou o exibicionista que existe em todo ser humano.
Para profissionais, creio que essa seja uma técnica válida apenas para trabalhos autorais, pois como o próprio nome diz, refletem o gosto, ou sentimento do autor. Se ele gosta de aparecer em suas fotos, e quer mostrar isso ao mundo, não há problema algum.
O que relmente me deixa incomodado nessa história é o fato de fotógrafos profissionais utilizarem essa estética amadora em trabalhos, publicitários ou editoriais.
Pensando como as empresas que utilizam essas fotos na publicidade, algo faz sentido. Nos últimos tempos, com a evolução dos softwares de edição, houve um abuso no uso de tratamentos nas imagens, tornando-as muitas vezes irreais. Não estou falando de imagens bem tratadas ou manipuladas para simplesmente refletirem a realidade, mas sim imagens exageradas, tão manipuladas que chegam a ser artificiais. Creio que as empresas que compram esse tipo de trabalho para publicidade estão buscando um contato mais próximo com o seu consumidor, ou seja, para os olhos de quem está vendo, aquela imagem é real, não foi manipulada digitalmente.
Ainda assim não acho válido um trabalho desses para publicidade. O fotógrafo profissional existe e sempre existirá para produzir imagens de qualidade, que tenham um diferencial em relação ao tipo de imagem que “qualquer um pode fazer”. Creio que esse tipo de trabalho nunca se tornará regra.
Isso tudo ocorre pela velha lei da oferta e da procura. Enquanto houver demanda para esse trabalho, existirão profissionais para produzir esse tipo de imagem.
Abraço,
É quase uma discussão sobre “Vejo uma pessoa se afogando: Tiro a foto ou vou ajudar?” (Peter Parker faria os 2 =P).
Mas falando sério. Isso me lembra o vídeo “One hundredth of a second”
http://www.youtube.com/watch?v=q_l8WkMA1uA
Bem, não sei se isso é bom ou ruim, só entendo como caracteristica da facilidade e rapidez do digital. Discutível ou não isso trás resultados interessantes a serem analizados.
Deixo para reflexão um ensaio artístico que fiz de mim mesma:
http://www.flickr.com/photos/marianabeltrame/sets/72157623348934972/
Abraço, Clício
Ja vi um livro do Terry Richardson que foi todo fotografado no Rio de Janeiro. Ele aparece em muitas das fotos e participa da suruba continua. Claro que eh mais que egocentrismo, eh um negocio muito trash e vulgar que liga a imagem dele a isso. Mas enfim, tem mercado para isso, o livro deve ser comprado por varias pessoas.
A auto exposição é cada vez mais presente quer no virtual ou real.
Lembro-me do parto da minha primeira filha – que aliás foi de cócoras e no sistema de escambo quando eu documentava para o Dr Paciornik os partos à moda indígena -, que cheguei a levar equipamento para fotografar meu próprio parto.
Na hora, a despeito da tranquilidade do processo e condições fisicas minhas acompanhada pelo meu guru médico, quando perto da expulsão ele perguntou se eu queria a câmera, é claro que disse não.
Eu pensei em fotografar por paixão, por êxtase pelo momento. Mas na hora declinei de qualquer coisa que não a emoção de ver chegar aquela pessoinha que já saiu me encarando nos olhos .
Essa própria menininha, hoje jornalista e cada vez mais se enveredando para a fotografia, enche seu blog com auto fotos.
Essa coisa que era charmosa em Hitchcock , ficou banal, como quase tudo.
Como dizia Livio Rangan “todo fotógrafo de moda tem que ser meio tarado”.
Será, Clicio?
Olha clicio, bem abordado o assunto… Eu acho irado o lance tosco, fotografar pessoas famosas com compactas é um luxo… Não é pra qualquer um não… tem de ter mto moral, personalidade e deu no que deu… Os caras inventaram um estilo e ficaram milhonarios com a fotografia… Esso novo estilo é feio, ridiculo, mas é o que o povão gosta, a linguagem da massa… Ótimo post,
abs
Clicio e trupe,
Não faz muito tempo visitei uma exposicao no masp , aqui em São Paulo que trata de Retratos. Uma das grandes “fases” do retrato na história e quando o artista ( pintor ) , passa a se auto retratar.
Imagino que a fotografia esteja passando pelo mesmo processo. Porém , como dito acima, sem controle.
Desta vez nao falarei muito , acessem o site abaixo ( e comparecam ao MASP ) e reflitam sobre seus retratos. Auto- retratos…
http://www.masp.art.br/masp2010/exposicoes_integra.php?id=12&periodo_menu=
Abraco a todos!!
Clicio, desde o século XV, com o surgimento do espelho, os artistas começaram a se representar em obras de arte – os fotógrafos não inovaram…muito menos é um privilégio da geração Y. Falamos bastante sobre isso e provocamos os alunos durante o curso de fotografia autoral na Riguardare. Recomendo a todos (pelo menos para aqueles que entendem o inglês) que invistam alguns minutos lendo http://userpages.umbc.edu/~ivy/selfportrait/intro.html . Lá terão bons subsídios para entender o auto-retrato sob os mais variados pontos de vista: como uma assinatura, como projeção, como fantasia, o uso de metáforas e muito mais. Boa Leitura.
A Samsung já perceu e até lançou umas compactas com dois monitores. Um monitor na frente para facilitar a vida dos fotógrafos mais egoceêntricos.
Muito legal, para variar né
Eu vinha notando isso também, especialmente em sites e flircksssargh da vida aonde muitas jovens, mulheres especialmente se autoretratam o tempo todo, como se tirassem proveito de si mesmas para atrair público para verem seus “outros talentos”.
Não sei se isso ajuda ou derruba, pois muitas vezes faz parecer meio ridículo essa tentativa de atrair visitas se expondo apenas para gerar tititi.
Mas como o Mundo gira o tempo todo, só depois, daqui a alguns anos é que veremos qual o resultado e o que ficará para a história sobre esse comportamento.
Abçs mil e valeu pelo post.
AYRTON
Clicio primeiro parabenizar pelo post.
Segundo que este post me fez pensar no ato fotográfico!
Particularmente não gosto de participar nem por pedaço nas fotografias nas quais executo e em primeira mão o meu objetivo é pensar e refletir sobre fotografia.
Vamos Lá;
De uma forma reflexiva, todo registro que um fotografo executa, de forma inconsciente o executor explora ângulos, luz, sombra, contraste, velocidade, abertura e toda a via sacra de procedimentos para a foto ideal. Quero expor de forma clara que muitas das capturas “toscas”que vemos pela rede de internet, não tem preocupação alguma em capturar a boa fotografia. Mesmo se tratando do auto-retrato ou self portrait como queira!
Neste cado, Philippe Dubóis em “O ato fotográfico” narra em seu primeiro capítulo, a fotografia apenas como espelho do real, ou seja, ( O HOMEM É O ASSISTENTE DA MÁQUINA ). Vemos a semelhança desta frase através dos resultados na rede. Fotografias com nenhuma proposta. Apenas com aspectos do início do século XX. A síndrome Narcisista. Hoje fica meio que obrigado perante a rede, uma pessoa ir ao show do Metallica, ACDC entre outros e bater uma foto de costas para o palco fazendo chifrinhos entre outros gestos que não vem ao caso.
Fica aqui o meu pensamento reflexivo: “Estamos vivendo como fotógrafos ou meros pictorialistas assistentes de câmera?
Um abraço a todos os seguidores de clicio
Muito bom o texto!
Para mim, são duas coisas. Assim como o Photoshop tem seu uso valioso no retoque de imagens para minimizar pequenos defeitos e seu uso exagerado para distorcer a realidade, acredito que essa fotografia de auto-retrato sem preocupações técnicas reflete uma necessidade de um nicho específico.
Se algumas grandes marcas adotaram essa linguagem em seus anúncios, milhares de outras continuam pagando para ter seus produtos representados com a luz perfeita.
Claro que há os disparadores de câmeras, que saem fotografando loucamente e publicando de qualquer jeito para chamar a atenção [vide álbuns do orkut com 60 autorretratos praticamente idênticos...]. Mas não acho que, por causa deles, se deve invalidar um trabalho que tenha intencionalmente cara de amador. Essa pode ser apenas mais uma linguagem, não pode?
Quanto aos autorretratos, fiz milhares quando ganhei minha primeira digital, uma Canon compacta. Eu fazia fotos minhas por falta de modelo, e aprendi muito sobre iluminação, enquadramento e composição nas sessões que fiz sozinha, hehe… mas muito poucas delas foram publicadas na internet, apenas as mais interessantes.
Olá Clicio, olá todos…
Bom, invariavelmente auto-retrato não é algo novo. Faz parte do egocentrismo humano desde os grandes pintores.
O fato é onde a fotografia atual – 10 15 anos – criou personagens como Terry que transborda auto-retratos egocêntricos a todos, muitas vezes misturado com pornografia e cenas fortes… é o mais puro estilo!
Seria o estilo Terry Richardson de fotografar. Sua estétiica pobre de técnica, mas rica de comunicação. Outro dia ví o making off do calendário 2010 da Pirelle… e fica claro a técnica dele para mim!
O cara é simplista. Apela para o gênero da extravagância e abusa do choque visual na comunicação.
Isso tudo é muito complexo para ser levado como simplesmente egoismo, moda, autos retratos e afins.
Para Terry é uma técnica, uma forma, um conteúdo.
Para milhões de pessoas do Orkut ao Flickr são demonstrações de presença em auto retratos…
Cada um na sua, cada um da sua maneira.
um abr.
ps: não sou figura presente em fotografias. as que apareço são amigos com minha camera na mão, curtindo o momento fotografo deles.
Olá, que belo assunto para discussão heim Clício hehe.
Eu como marinheiro de primeira viagem na fotografia, nem sabia que tais fotos eram um estilo e rendiam valores ($$$) assim.
Bem, meu gosto pessoal pela fotografia bem elaborada e pensada (de bela iluminação) me levou a comprar equipamentos para tal, e, apesar de não gostar do estilo Gonzo (que me dá a entender que o fotografo é o ponto de atenção, não a fotografia) entendo que ele tenha sua fatia de mercado, pois é “diferente”, fora do padrão profissional, é mais “povão”, simplista, uma imagem desse estilo em um outdoor chama a atenção, não por ser bonita, mas por ser diferente, extravagante, e isso acaba funcionando na publicidade.
Acho que tem uma frase que se encaixaria bem, não sei, mas penso que o doce sem o amargo não seria tão doce.
Abraço para todos que comentam e fazem a fotografia não ser só imagens.
Ei, sobre auto-retrato,
não dá prá esquecer de Velasquez nAs Meninas.
Olá Clicio, olá pessoal,
Gostaria de colocar um pitaco extra, como muitos falaram dos autorretratos do período renascentista, que de fato foram feitos e fazem parte de nossa história, mas o ponto que quero destacar são as motivações.
Um pintor renascentista faz parte de um contexto histórico no qual o teocentrismo estava deixando de ser a máxima social e artística dando espaço ao antropocentrismo. O mundo não era mais plano e a ciência se desenvolvia. A arte desse período foi um reflexo disso e o autorretrato é uma maneira de retratar o homem, o ser humano, e isso está muito além de um simples egocentrismo. Naquela época não havia fotografia para que a própria imagem fosse eternizada, só havia a pintura.
Podemos citar muito mais recentemente um Hitchcock que aprece em todos os seus filmes, mas ali mais como uma brincadeira, uma assinatura e não uma atitude egocêntrica.
Voltando à renascença, o antropocentrismo não é individualista nem egocentrico, ao contrário, ele se volta ao ser humano como um todo, como raça, como espécie digna e criadora.
Já essa tendência atual, como o Clicio bem apontou, é mais egocêntrica mesmo, e tem origem na nossa sociedade, no que somos e fazemos, assim como a renascença teve sua arte como reflexo da época, hoje é o mesmo.
Então precisamos ler nossa época para entender essa arte, ou essa tentativa de arte conforme o caso e o gosto de cada um. Nossa sociedade é cada vez mais individualista apesar de toda a conectividade, e nossa sociedade é cada vez mais voltada ao espetáculo. O jornalismo virou entretenimento e vice versa, é só abrir um grande jornal e ver que BBB divide espaço com terremoto e escândalo de político, mas num mundo onde tudo é entretenimento, este só existe se houver público, audiência. E é isso que essas pessoas parecem estar buscando: audiência.
Agora, audiência pode se conquistar por conteúdo, numa certa elitização da informação, ou por banalidade, como um BBB da vida, e daí o Terry Richardson e tanto auto retrato pseudo sexy que tem por aí.
Acho que isso se relaciona menos com a técnica, o conhecimento do ato fotográfico, e sim com o comportamento da sociedade mesmo, a falta de técnica é só mais um reflexo, a galera hoje estuda pouco, quem já deu aula para turmas de faculdade recentemente já deve ter percebido a infantilização e pouca profundidade no conhecimento da maioria.
Esse é nosso mundo, e aí, o que fazer com ele? E nós fotógrafos, o que fazer com isso tudo?
[]‘s
Armando Vernaglia Jr
ps.: Clicio, desculpe o comentário extra longo, é que o assunto rende.
“nenhuma obra [de arte] é contemplada tão atentamente em nosso tempo quanto a imagem fotográfica de nós mesmos [de nossos parentes próximos, de nossos seres amados]“. já dizia walter benjamin em 1931.
não que tudo seja obra-de-arte, mas fica pelo menos uma tentativa de justificar, uma última esperança.
Galera,
Não sei se vocês se tocaram, mas para mim é absolutamente diferente o ver/saber/justificar um autorretrato de Rembrandt, quando comparado à autoexposição gratuita, selfcentered, adolescente, dos milhares de Flickeristas.
Não, não é só a questão de serem amadores ou não, é a qualidade horrorosa das fotos, a falta de pensar a fotografia, a ânsia de aparecer por aparecer.
Tenho certeza que aquelas revistas de R$ 1,50 ajudaram a impulsionar a sofreguidão pela fama rápida e inconsequente.
Senão, como se justifica toda esta falta de vergonha? Andy Warhol estava certíssimo; “no futuro todos terão seus 15 minutos de fama”…
O futuro chegou!
Clício excelente citar Andy Warhol – “Os 15 minutos de fama”
Oi Clício,
Em 1940, Weegee não deve ter criado a mesma celeuma? Terry Richardson não é, também, “mais do mesmo”?
abração
Isso não é Terry Richardson?
http://www.bjp-online.com/img/show.html?img=339688
abração
Cameras deveriam vir com um bloqueio defaut para self portrait ou se autodestruirem quando fossem apontadas para o próprio rosto… eita véio mal humorado!!!
Gonzo me deprime, é muito %$%$#@@#$% deixa pra la. Se bem que tem umas coisas legais… mas eu não faço, tenho bom gosto…
Em tempos de fotografia digital, BBB, Blogs, Facebooks, etc e tal todo mundo quer aparecer – ate eu, ó eu aqui – e de preferencia virar celebridade. O que é “de qualidade” hoje quem dita são os especuladores, acabaram-se os criticos ou estes estão comprometidos com as grandes corporações midiaticas pois precisam- esta é a desculpa sempre – ganhar uma graninha. No meio “fotojornalistico” falou em “profissional” eu corro. Todo mundo atras do dinheirinho, e pra isso todo mundo tem que virar estrela, celebridade pra aparecer, ou fazer algo “provocativo”, ou dar “piti”, sei la… é muita enganação.
Esta gente – muita gente – quer virar produto de consumo para serem consumidas. Consciente ou inconscientemente. Vivemos na economia de consumos de bens simbolicos, narcisista ao extremo. As inovações tecnologicas servem como infra-estrutura material e principais motores e divulgadores destes bens, incluindo seus “autores” de forma menos ou mais – e é sempre mais me parece – explicitas. Para muitos este “aparecer” faz parte de seu processo de socialização, caracteristica do individuo contemporâneo. O contexto sociocultural e economico que vivemos legitimiza isso: a fetichização das mercadorias que no caso dos “artistas”, eles proprios, como fetiches, fazem parte deste processo e de seus espectadores e\ou teles que os imitam e o sistema diz que é legal e simbora meu povo…
Temos muita “informação” destituida de formação e de capacidade de reflexão critica. Cada vez mais o individuo, me parece, perde sua capacidade de construção simbolica atraves de relações interpessoais ou intergrupais; cada vez mais a realidade é elaborada por materiais externos produzidos pelos meios de comunicação e ai deve passar pela tela da televisão e do PC, do celular e etc…
Como eu nunca tive televisão, radio, não assino periodicos e mantenho uma distancia saudavel da net tenho percepções que uma pessoa envolvida nisso tudo não tem. E a percepção que eu tenho é que as sociedades tecnologicamente desenvolvidas fomentam uma nova cultura em que predominam as soluções particularistas, em detrimento das coletivas, como estrategias de sobrevivencia. Estas estrategias implicam em “enaltecer” o individuo, cultivando a expansão da consciencia, da saude, da beleza, o poder pessoal, da vontade poderosa de cada determinar seu destino, etc. e toda sorte de bobagens. É isso.
Atualmente fazendo trabalhos nas “baladas” e conversando com muita gente – jovens principalmente como eu – fico de bobeira em saber que ninguem tem um sonho alem de ser “aquilo que eu posso comprar”, por que “aquilo que eu posso comprar” é o que vai me tornar vamp, dark, hype, dj, do funk, do pagode, da fotografia, da tv, descolado, entendido, lesbica, etc… é “aquilo que eu posso mostrar” é o que se é… affff…
“Sociedade alternativa”… que cada um faça a sua… phoda!!!#$%#$@
Para leitura:
Consumo, narcisismo e identidades contemporaneas.
Maria de fatima Vieira Severiano \ José Luis Alvaro Estramiana
Ed. UERJ
As inovações tecnologicas e as novas “midias” cumprem com seu papel
Ótimo texto Márcio, parabéns. As pessoas realmente se esquecem que existe algo a mais do que possuir, do que o “olha o … novo que eu comprei, faz isso, isso, isso, e ainda tira foto, muito legal neh, você gostou??!”… a necessidade de consumo se exagerou tanto que a falta de qualidade nem faz diferença para alguns, isso reflete as fotos de Terry Richardson… que não se preocupa nem um pouco com a qualidade e está em suas fotos, talvez, para sanar uma necessidade de se popularizar.
Questãozinha delicada esta do auto retrato.
Mas com relação ao Terry, eu sei exatamente porque eu odeio o trabalho dele: ele não teve trabalho!
Quantas horas foram gastas com planejamento, escolha de equipamento, direção de modelo e manipulação nas fotos dele? heim?!
: )
beijos,
Taty
Oi Clicio, nessa linha ego do Terry Richardson tem também as famosas e polêmicas campanhas do Juergen Teller feitas para o Marc Jacobs cheias de nus, auto-retratos e celebridades como Charlotte Rampling e até o mestre William Eggleston. Virou um livro. Para quem gosta vale a pena fazer uma busca de imagens. Parabéns pelo texto e obrigado novamente. Abraço
“Não, não é só a questão de serem amadores ou não, é a qualidade horrorosa das fotos, a falta de pensar a fotografia, a ânsia de aparecer por aparecer.” Clicio Barroso
E a tal da abobrinha que falo. Deveriam fazer um teste vocional.
Quanto ao fotografar-se não poderá ser fruto de uma crise existencial travestida de uma peudo autoestima? Tem alguma coisa errada…
Clicio, gostei muito da matéria.
Estou fazendo um projeto para meu curso de fotografia, e meu tema é: Autorretrato, esta sendo um desafio para mim, pois não gosto de me fotografar, estou buscando alternativas, para fugir dessa epidemia de autorretrato que toma conta das redes sociais.
abraço
Olá Clicio. Acho curiosa essa tendência, ou mania, de se querer aparecer nas próprias fotos. Nunca apareço nas minhas e as pessoas me dizem isso, perguntam por que não tenho fotos minhas. Mas respondo que, ao contrário, eu sou o único que estou em todas as fotos.
Clicio, recentemente postei no twitter que não consigo ver arte nas fotos do Terry R. pra Pirelli por exemplo…
A modelo lambendo uma galinha foi horrivel, zero de sensualidade, zero de bom gosto…ainda que seja a forma dele se expressar, acho que existem profissionais muito, mas muito melhores inclusive aqui no Brasil.
E viva o Duran, o Jairo Goldflus, o Jorge Bispo e os Bob Wolfenson´s da vida!
E os Clicio´s é claro!!
De qualquer forma, adoro seu blog!
abração
Como bem citado pelo Paulo Trevisan, em tempos de exagero no uso da manipulação de imagens, acredito que as mais cruas geram um tipo de proximidade maior com determinado público. Ainda mais em tempos de Twitter, Facebook, Orkut, Flickr e fotografia digital. Todo mundo é “fotógrafo”, todo mundo fotografa/se fotografa, o acesso está mais fácil e rápido. Se antes era necessário pintar um auto-retrato em dias/meses, hoje isso é possível com apenas um clique e em imagens seqüenciais. O cartão é o limite.
Quanto ao fotógrafo Terry Richardson, tive contato com o trabalho dele recentemente, inclusive com o livro citado pelo Paulo Goeta sobre o Rio de Janeiro, e confesso que fiquei bem dividido. As suas imagens são realmente chocantes, mas, no fim, não deixam de retratar uma realidade (ou pelo menos a visão dele sobre a realidade carioca e brasileira). É o olhar gringo sobre o Brasil. Acho interessante o trabalho dele, de uma crueza e “falta de produção” que refletem essa nova realidade, cada vez mais veloz, efêmera e, como disse o Clício, selfcentered. É, ao mesmo tempo, uma critica e um autoretrato dessa massa jovem com câmeras sempre a postos, que nunca perdem um momento, sempre registram tudo para comprovar que aquilo existiu, como citou o Clício.
Acredito que auto-retratos, quando bem pensados, são até uma forma de terapia, de auto conhecimento, de revelar-se pra si mesmo e pra os outros. Mas concordo com o Clício; anda havendo exagero na exposição – efêmera e exagerada – das pessoas ultimamente.
Um ótimo texto, Clício. Gerou um debate interessantíssimo que, inclusive, me atrasou no planejamento do sono de hoje. Rsrsrsrsrs.
adorei o texto.
outro dia estava numa discussão calorosa com o “chefe” sobre o richardson. eu acho um trabalho tosco, nada aprimorado. a necessidade de chocar acaba sendo exagerada, e a falta de técnica me incomoda muito. e é realmente curioso q venda tanto e existam pessoas q achem genial.
tem coisas q realmente não entendo.
Por que pagam tão bem para o Terry Richardson quando diversos fotógrafos amadores fazem retratos similares aos dele? Porque ele sabe fotografar,ao contrário do que muitos pensam ele sabe MUITO de técnica fotográfica.Dessa forma suas fotos gonzo ganham um respaldo , uma base que dá crédito e prestígio a Richardson. Os grandes mestres da pintura , do cinema, da fotografia e da música tem essa liberdade criativa porque todos já conhecem sua qualidade.Isso é bom?é ruim? é apenas uma fase? …Questões impossíveis de serem respondidas.
3 Trackbacks/Pings
[...] pela facilidade de publicar as imagens em mídias na internet. Clicio Barroso a tempo escreveu um artigo atualizado recentemente que vale a leitura. Dentro dessa produção global vão surgindo imagens [...]
[...] artigo também originou o meu próximo, que já está disponível, e se chama “O fotógrafo egocêntrico”. [...]
[...] O Fotografo egocentrico [...]