por clicio em 27 de junho, 2010
Emerson e o naturalismo
Artigo escrito por André Spinola e Castro
Em 1889 comemorava-se os 50 anos do anúncio oficial da criação da fotografia.
O Daguerreótipo, invenção que marcou o aparecimento público do processo na França e no mundo, já era obsoleto e pouco utilizado. A fotografia ocupava espaço entre as ferramentas mais utilizadas em áreas tão diferentes quanto a pesquisa astronômica e a produção comercial de retratos. É também em 1889 que George Eastman abre os portões para uma multidão de amadores que antes não tinha acesso a câmeras e filmes; os processos fotográficos até então eram de difícil manuseio e muito caros para serem usados pelo público em geral. Nos campos da filosofia e das artes os movimentos naturalistas, de negação e repúdio ao fazer científico, de ressentimento com a incapacidade do progresso industrial de acabar com as diferenças entre ricos e pobres estão “pegando fogo”.
Justo nessa época, em 1889, P.H. Emerson (1856-1936), um ex-cirurgião que abandonara a medicina para se dedicar à fotografia publica um trabalho de título “Fotografia Naturalística para Estudantes da Arte”, um dos mais lidos e controversos de seu tempo.
Ao que parece, Emerson tinha objetivos bastante claros ao escrever a obra: questionar tanto o conteúdo quanto a forma utilizados pelo fotógrafos mais influentes da época, além de propor o seu método fotográfico a fim de elevar a fotografia ao status de arte. Por um lado, Emerson criticava o trabalho de expoentes como Henry Peach Robinson e O.G. Rejlander, acusando-os de praticar uma fotografia que quando muito copiava estilos da pintura. Seu livro pode mesmo ser considerado uma resposta ácida e afiada, ainda que indireta, ao escrito por Robinson em 1869 : “Efeito Pictórico em Fotografia.” Por duas décadas esse foi o livro mais influente compêndio sobre prática e estética fotográficas na Inglaterra. Emerson era radicalmente contra recriações de pinturas com a câmera fotográfica e afirmava: “Fotografem as pessoas como elas realmente são – parem de travestí-las com fantasias. (…) A técnica fotográfica é perfeita e não precisa desse tipo de (…) incompetência.” Além disso, Emerson também detestava os retoques de negativos e cópias, dizendo que era “o processo através do qual uma fotografia boa, má ou medíocre é convertida em um desenho ou pintura ruins.”
Ele também afirmava que o fotógrafo deveria imitar o funcionamento do olho humano em suas fotografias. Citando o trabalho de médicos e notando que os olhos não vêem uma cena toda em foco ao mesmo tempo, mas que focalizam seletivamente a cena que está diante deles, Emerson aconselhava o uso de foco seletivo, difusão periférica, escala tonal de baixo contraste e a subordinação de detalhes supérfluos. Tudo de maneira a mimicar a percepção visual humana nas fotografias. Em suas palavras: “Nada na natureza tem contornos duros, pelo contrário, todas as coisas são vistas sobre outras, e todos os contornos desaparecem gentilmente uns nos outros, muitas vezes tão sutilmente que você não consegue distinguir onde um termina e o outro começa. Nessa decisão e indecisão misturadas, nesse achar e perder está todo o charme e mistério da natureza.”
Curiosamente, apenas um ano após a primeira edição de seu livro, Emerson mudou de idéia quanto ao status da fotografia como arte. De fato, seu propósito inicial e maior sempre foi defender o processo fotográfico como uma das grandes artes, mas somente se todo e qualquer controle técnico estivesse à disposição do fotógrafo. Infelizmente, pesquisas feitas por cientistas e testadas pelo próprio Emerson mostraram que a escala tonal do negativo não podia ser ajustada de acordo com a vontade de fotógrafo após a exposição. Essa (im)possibilidade de ajuste na revelação era um de seus argumentos para defender o processo fotográfico como artístico. Sem ele, toda sua argumentação caía por terra. No fim do ano de 1890, Emerson publica um panfleto entitulado “A Morte da Fotografia Naturalista”. Em um dos trechos do panfleto lê-se: “As limitações da fotografia são tantas que, apesar dos resultados serem capazes de e às vezes realmente dão um certo prazer estético, o meio deverá sempre ser graduada com a mais baixa das artes.”
Mesmo assim, Emerson prosseguiu fotografando e publicando livros fotográficos, apesar de retirar qualquer referência à fotografia como arte quando da terceira edição de seu livro. De um modo e não de outros, Emerson influenciou em muito o movimento pictorialista fotográfico – grande parte das convenções adotadas por eles estão de acordo com seus métodos e pontos de vista – e certos autores dizem que seu livro marca a inauguração do movimento. Mesmo assim, os fotógrafos pictorialistas formavam um movimento de defesa da fotografia como arte, e usavam pesadas manipulações e retoques como forma de caracterizar cada cópia como única, da mesma forma como ocorre com outras obras de arte. Essas manipulações eram também uma maneira de protestar contra a padronização dos processos fotográficos causada pela industrialização da fabricação de filmes e papéis.
Uma coincidência: o primeiro prêmio ganho por uma fotografia de Alfred Stieglitz em um concurso foi dado por Emerson. Stieglitz viria a se tornar o presidente do mais influente grupo pictorialista americano, o PhotoSecession, responsável inclusive pelos avanços e modificações nos métodos e assuntos pictorilistas, que acabaram ajudando a por fim no movimento por volta de 1920.
Estamos em 2010 e a fotografia como nós conhecemos, em muitas instâncias já não é mais.
Novas câmeras de uso simples e de baixo custo, incluindo aí telefones celulares, espalham o gosto de fotografar para milhões de pessoas. A internet abre a possibilidade de que essas imagens sejam compartilhadas publicamente. Todo o processo fotográfico de manipulação, antes restrito a profissionais e laboratoristas, passa a estar disponível aos amadores que tenham um computador. Não é preciso ser um mago do Photoshop; há programas simples e acessíveis onde pode-se ajustar e manipular imagens; algumas câmeras já vêm com certos recursos de manipulação e ajustes. Fotografa-se mais hoje do que em qualquer outra época. Os profissionais se sentem algo acuados com essa invasão, reclamando de uma visualidade medíocre e do fato de que hoje em dia qualquer um se diz fotógrafo. Esses mesmos profissionais pesquisam a fundo métodos de manipulação de imagem cada vez mais complexos, que por um lado permitem produzir imagens mais sofisticadas do que qualquer amador jamais poderia imaginar, e por outro acabam por redefinir parâmetros técnicos, de produção e estéticos. Essas imagens ficam cada vez mais parecidas umas com as outras, a ênfase muito mais na técnica de manipulação utilizada do que no conteúdo e na forma do registro. Imita-se talvez uma estética baseada nas imagens publicitárias, de alto impacto superficial, mas com conteúdo aprofundado pobre.
Em algum lugar, é provável que um descendente indireto de P.H. Emerson esteja preparando um texto seminal para orientar esse povo todo. Em algum lugar, os pictorialistas do passado estão observando isso tudo e sorrindo, ou não. Afinal, de dentro das trincheiras pictorialistas americanas surgiram os fotógrafos reponsáveis pelo fim do movimento; os fotógrafos que transformaram a estética e o assunto dos pictorialistas em outra coisa influenciados pela não estética e os não assuntos dos amadores de sua época.
Estamos em 2010? Ou novamente em 2010? : )
Visualize e baixe o livro de Emerson na íntegra aqui:
http://www.archive.org/stream/naturalisticphot00emerrich#page/n11/mode/2up
Links interessantes sobre Emerson:
http://www.luminous-lint.com/app/photographer/Peter_Henry__Emerson
http://people.netcom.co.uk/j.stringe/page3.html
http://www.rleggat.com/photohistory/history/emerson.htm
©André Spinola e Castro é fotógrafo e professor de fotografia.







14 Comentários
Sempre inovando, comentando, escrevendo, dissertando.
Avante meu caro. É isso aí. O futuro é dos que se mexem e não dos que ficam parados, estagnados no tempo apenas esperando cair do céu.
360 abçs
A
Ayrton,
Desta vez, um grande convidado; o fotógrafo e professor André Spinola e Castro, carioca e profissional de primeira!

Clicio
Muito bom…engraçado como a fotografia é debatida desde sua criação… É assim ou assado, antes pouco acesso, hoje acesso em demasia…antes limitada a alguns e hoje ilimitada a todos…por isso amo fotografar…vai-se do inferno ao céu em poucous cliques…e vice-versa também…ótimo post…obrigado mais uma vez Clício por esse espaço e parabéns André Spinola pelo texto.
Muito bom, a fotografia sempre dando o que falar.
Obrigada Clicio……..Adorei
A história se repete em um escala muito maior, mas se repete.
Logo, temos que ir a frente.
Abs
A historia se repete sempre. Belo texto e que a fotografia seja sempre a realidade de seu fazedor
Muito legal o artigo. Estou baixando o PDF do livro para ler. Obrigado.
A popularização da fotografia veio para ficar.
Que bom!
Desejo que fotógrafos de camera de celular, ou nao, se revelem grandes fotógrafos de Hasselblad no futuro.
Para a jóia da humanidade.
Muito bom ver um texto assim, revendo os caminhos da fotografia!
Eu não desejo que virem fotógrafos de Hasselblad, mas os melhores fotógrafos com as ferramentas que puderem usar, independentemente da marca.
“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”…
com resposta prevista a comparação é oportuna.
André e Castro, obrigado pela aula e por explicitar algumas verdades sobre as apelações que as novas tecnologias estão sendo usadas de forma abusiva, levando muitos a verdadeiras “artistadas” forçando a barra para serem fotógrafos contemporâneos.
Há anos que coleciono livros e revista de fotografia. Então tenho material do início dos anos 80. E uma coisa me chamou atenção: os fotógrafos com embasamento histórico sobre a fotografia e com bagagem cultural encorpada, tratam as novas tecnologias com equilíbrio. Basta ver a fotografias que estão publicadas nos 10 Mandamentos do Photoshop – recomendo ler e estudar a exaustão – do Clicio, que perceberemos que ele usou recursos de manipulação, mas eles não gritam, não fazem alarde. Eu consigo ver a textura da pele da modelo que ele fotografa. Acho que tudo não passa de uma mistura de muito estudo com equilíbrio, como já falei certa ocasião. Obrigado e um forte abraço.
Clício, obrigado pela publicação!
Pessoal, agradeço os comentários!
As tecnologias avançam rapidamente (através do progresso alavancado pelo homem e suas pesquisas) mas a mente e a atitude humanas frente à tecnologia demora para avançar … daí a história se repetindo, mas em outras circunstâncias, gerando uma outra história. Excessos acontecem mesmo hoje em dia, como o Wank falou. Oxalá desses excessos e da experiência dos amadores e profissionais venham novos assuntos, novas maneiras e de tratar esses assuntos, novas atitudes.
abraços a todos!
andre
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