Tive o prazer de ser convidado a assistir alguns debates e palestras na Semana de Fotografia de Recife, na semana passada.
No restaurado e belo Espaço Cultural dos Correios, a programação intensa com excelentes convidados me deu a certeza da qualidade e profundidade das discussões. Porém…
O teor da primeira palestra em que pude estar, denominada “Curadoria como mediação na fotografia contemporânea” me espantou. A jovem palestrante, Clarissa Diniz, começou traçando, com muita propriedade, um breve relato da crítica na arte e sua impossibilidade de existir na contemporaneidade, visto que aquela do Modernismo, pós-acontecimento, se tornara maniqueísta, reacionária e conservadora (minhas palavras) frente aos desafios da modernidade; e a evolução natural dos críticos seriam os atuais curadores, orientando e participando do processo criativo dos artistas.
Em seguida a mesma palestrante nos conta seu processo de imersão coletiva entre artistas isolados em casas escolhidas para esse fim específico, por períodos determinados, e todos fazendo arte. Apesar de me parecer uma experiência não-inédita, fortemente influenciada por aquelas acontecidas nas comunidades da Califórnia do final dos anos 60 e começo dos 70, o espanto maior foi ver que, matando o crítico e substituindo-o pelo curador/artista, a teoria de Clarissa (e sua experiência pessoal) nos leva a concluir que, tanto para o artista quanto para o “mercado” de artes, o arranjo é muito conveniente, pois sem crítica só pode haver consenso, justificativa;  e quando o curador é o próprio artista, ou seja, aquele que é responsável por legitimar a obra e chamá-la de “arte”, o ciclo se completa e a crítica realmente se torna obsoleta, desnecessária.
Sem querer colocar aqui nenhuma conotação maliciosa (e muito menos me referindo à pessoa de Clarissa), o trinômio “crítica/curadora/artista” imediatamente me lembrou a tão criticada falta de foco daquelas meninas que não decidiram o que querem ser na vida e se auto-intitulam “manequim/modelo/atriz”. A minha infelicidade em relação a palestra foi o tempo de explanação, bastante longo, em que a linguagem acadêmica sempre presente pode se tornar quase barroca, impedindo que eu (ou qualquer outro) pudesse perguntar, contestar, questionar,  já que a segunda palestrante da noite, Nadja Peregrino, precisava começar a sua conversa.
Ora, fica claro que não se discute suficientemente a necessidade da crítica tradicional na arte contemporânea, pois aquela vai contra as próprias leis do mercado neo-liberal que anaboliza os preços (não o valor) de obras discutíveis, com casos que beiram o ridículo; alguns críticos de aluguel, artistas, curadores, galeristas e marchands deram-se as mãos, numa cortina de silêncio, numa espiral de especulação, para servir a interesses próprios, criando e promovendo novos nomes da mesma forma que a publicidade faz com produtos de supermercado, transformando arte em mercadoria.
Consumíveis. Descartáveis.
O que me leva a conclusão que hoje não existe realmente fotografia de arte; existe marketing, mídia e showbusiness.
O artista, não-intencionalmente na maior parte das vezes, submete-se à influência do curador ou galerista para que seu trabalho seja visto; o curador que promove o artista (quando não é ele próprio o artista!) é, muitas vezes, colecionador ou galerista; o galerista que vai colocar o artista em evidência não fica nem corado ao pedir algumas das obras (geralmente as melhores) em “doação”; quanto aos grandes colecionadores, muitos ligados ao mercado financeiro ou grandes corporações globais, a esses interessa valorizar as aquisições para que possam revendê-las com lucro; e o círculo se fecha novamente com o artista, promovido a showman, celebridade, que passa então a ter credibilidade suficiente para afirmar que o que produz é arte.
E se todos assim falam, é porque deve ser arte.
E assim passa a ser arte.
Como diz o Ivan de Almeida, “O mesmo interesse, e todos sendo quase o mesmo, fica circular.” E eu acrescento: ” Uma dança de roda regida pelo grande maestro, o Mercado”.
É sintomático como os museus, mesmo os mais respeitáveis, passaram a ter lojinhas mais cheias de público que as próprias salas de exibição; abrem filiais em lugares como Las Vegas, vendem postais a turistas apressados, que não tem tempo para perder em museus, e substituem arte por papel pintado.
Por mais rotulado que possa ser o Modernismo, o artista fazia arte (não só dinheiro) e o crítico criticava (não apenas justificava).
Hoje vemos muitos dos trabalhos apresentados pelos fotógrafos mais modernos precisarem de longos e filigranados textos, vagos e oníricos, que o justificam. Sem o texto, não há trabalho, este não se sustenta por si próprio! Está na hora de adesivar os conceitos escritos em grandes metacrilatos, e a exposição então será dos textos, e não das fotografias, já dispensáveis.
Claro que há grandes artistas contemporâneos, claro que há trabalhos de excepcional qualidade (palavra totalmente ‘out’ nesse mundinho); de bate-pronto posso citar no Brasil três: Alexandre Sequeira, Rodrigo Braga e João Castilho, dentre outros. Mas por outro lado, a quantidade de manchas desfocadas sendo vendida como arte…
Encerro com uma citação de Luciano Trigo em seu livro sobre arte contemporânea “A Grande Feira”, que me foi recomendado pela Rosely Nakagawa (por quem tenho grande respeito), livro que também indico enfaticamente.

“Do artista não se espera técnica nem talento; do crítico não se espera mais julgamento, apenas testemunho. (Luciano Trigo)

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