por clicio em 28 de novembro, 2010
Crítica, curadoria e fotografia
Tive o prazer de ser convidado a assistir alguns debates e palestras na Semana de Fotografia de Recife, na semana passada.
No restaurado e belo Espaço Cultural dos Correios, a programação intensa com excelentes convidados me deu a certeza da qualidade e profundidade das discussões. Porém…
O teor da primeira palestra em que pude estar, denominada “Curadoria como mediação na fotografia contemporânea” me espantou. A jovem palestrante, Clarissa Diniz, começou traçando, com muita propriedade, um breve relato da crítica na arte e sua impossibilidade de existir na contemporaneidade, visto que aquela do Modernismo, pós-acontecimento, se tornara maniqueísta, reacionária e conservadora (minhas palavras) frente aos desafios da modernidade; e a evolução natural dos críticos seriam os atuais curadores, orientando e participando do processo criativo dos artistas.
Em seguida a mesma palestrante nos conta seu processo de imersão coletiva entre artistas isolados em casas escolhidas para esse fim específico, por períodos determinados, e todos fazendo arte. Apesar de me parecer uma experiência não-inédita, fortemente influenciada por aquelas acontecidas nas comunidades da Califórnia do final dos anos 60 e começo dos 70, o espanto maior foi ver que, matando o crítico e substituindo-o pelo curador/artista, a teoria de Clarissa (e sua experiência pessoal) nos leva a concluir que, tanto para o artista quanto para o “mercado” de artes, o arranjo é muito conveniente, pois sem crítica só pode haver consenso, justificativa; e quando o curador é o próprio artista, ou seja, aquele que é responsável por legitimar a obra e chamá-la de “arte”, o ciclo se completa e a crítica realmente se torna obsoleta, desnecessária.
Sem querer colocar aqui nenhuma conotação maliciosa (e muito menos me referindo à pessoa de Clarissa), o trinômio “crítica/curadora/artista” imediatamente me lembrou a tão criticada falta de foco daquelas meninas que não decidiram o que querem ser na vida e se auto-intitulam “manequim/modelo/atriz”. A minha infelicidade em relação a palestra foi o tempo de explanação, bastante longo, em que a linguagem acadêmica sempre presente pode se tornar quase barroca, impedindo que eu (ou qualquer outro) pudesse perguntar, contestar, questionar, já que a segunda palestrante da noite, Nadja Peregrino, precisava começar a sua conversa.
Ora, fica claro que não se discute suficientemente a necessidade da crítica tradicional na arte contemporânea, pois aquela vai contra as próprias leis do mercado neo-liberal que anaboliza os preços (não o valor) de obras discutíveis, com casos que beiram o ridículo; alguns críticos de aluguel, artistas, curadores, galeristas e marchands deram-se as mãos, numa cortina de silêncio, numa espiral de especulação, para servir a interesses próprios, criando e promovendo novos nomes da mesma forma que a publicidade faz com produtos de supermercado, transformando arte em mercadoria.
Consumíveis. Descartáveis.
O que me leva a conclusão que hoje não existe realmente fotografia de arte; existe marketing, mídia e showbusiness.
O artista, não-intencionalmente na maior parte das vezes, submete-se à influência do curador ou galerista para que seu trabalho seja visto; o curador que promove o artista (quando não é ele próprio o artista!) é, muitas vezes, colecionador ou galerista; o galerista que vai colocar o artista em evidência não fica nem corado ao pedir algumas das obras (geralmente as melhores) em “doação”; quanto aos grandes colecionadores, muitos ligados ao mercado financeiro ou grandes corporações globais, a esses interessa valorizar as aquisições para que possam revendê-las com lucro; e o círculo se fecha novamente com o artista, promovido a showman, celebridade, que passa então a ter credibilidade suficiente para afirmar que o que produz é arte.
E se todos assim falam, é porque deve ser arte.
E assim passa a ser arte.
Como diz o Ivan de Almeida, “O mesmo interesse, e todos sendo quase o mesmo, fica circular.” E eu acrescento: ” Uma dança de roda regida pelo grande maestro, o Mercado”.
É sintomático como os museus, mesmo os mais respeitáveis, passaram a ter lojinhas mais cheias de público que as próprias salas de exibição; abrem filiais em lugares como Las Vegas, vendem postais a turistas apressados, que não tem tempo para perder em museus, e substituem arte por papel pintado.
Por mais rotulado que possa ser o Modernismo, o artista fazia arte (não só dinheiro) e o crítico criticava (não apenas justificava).
Hoje vemos muitos dos trabalhos apresentados pelos fotógrafos mais modernos precisarem de longos e filigranados textos, vagos e oníricos, que o justificam. Sem o texto, não há trabalho, este não se sustenta por si próprio! Está na hora de adesivar os conceitos escritos em grandes metacrilatos, e a exposição então será dos textos, e não das fotografias, já dispensáveis.
Claro que há grandes artistas contemporâneos, claro que há trabalhos de excepcional qualidade (palavra totalmente ‘out’ nesse mundinho); de bate-pronto posso citar no Brasil três: Alexandre Sequeira, Rodrigo Braga e João Castilho, dentre outros. Mas por outro lado, a quantidade de manchas desfocadas sendo vendida como arte…
Encerro com uma citação de Luciano Trigo em seu livro sobre arte contemporânea “A Grande Feira”, que me foi recomendado pela Rosely Nakagawa (por quem tenho grande respeito), livro que também indico enfaticamente.
“Do artista não se espera técnica nem talento; do crítico não se espera mais julgamento, apenas testemunho. (Luciano Trigo)
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57 Comentários
Nada a acrescentar, afinal já falamos muito sobre isso trata-se somente de um constatação. Bem colocado mais um vez. Abs
Ou seja, quando me assumir artista não me denominarei como tal.
Excelente texto. Como disse o Pepe, muito bem colocado….
Ótimo texto. É Sempre bom questionar o “valor” da obra de arte.
É a mesma sensação que eu tenho e vem daí meu questionamento sobre a importância da critica e a alusão à mesma como um facilitador no mercado. Use-a de acordo com seus interesses ou seja usado de acordo com os interesses dela.
Esse texto tem nitroglicerina suficiente para a cabeça de muito picareta…
“o espanto maior foi ver que, matando o crítico e substituindo-o pelo curador/artista…”
É claro que o medíocre não quer jamais passar por um crivo de um Rosely ou Simonetta, porque ele se ferra! Ele não quer ouvir “…seu trabalho está fraco e precisa de um complexo vitamínico por um longo tempo; ou de preferência, mude de ramo…” Mais: conheço um cara que não fotografa mais essas coisas todas, mas por ter um razoável conhecimento de “fatos fotográficos” e passou a perder tempo arrotando “saberes múltiplos” em vez de criar e está esperando o tempo passar…
“…Ora, fica claro que não se discute suficientemente a necessidade da crítica tradicional na arte contemporânea, pois aquela vai contra as próprias leis do mercado neo-liberal que anaboliza os preços (não o valor) de obras discutíveis, com casos que beiram o ridículo; alguns críticos de aluguel, artistas, curadores, galeristas e marchands deram-se as mãos, numa cortina de silêncio, numa espiral de especulação, para servir a interesses próprios, criando e promovendo novos nomes da mesma forma que a publicidade faz com produtos de supermercado, transformando arte em mercadoria.
Consumíveis. Descartáveis.”
Uaí, Clicio, você não descobriu a pólvora. Essa radiografia já foi feita por Luciano Trigo e isso é o que a maioria já percebeu, há séculos. Mais: e qual é a saída da turminha escrota? Cada um segura na cauda um do outro e passa a dançar a quadrilha dos elogios mútuos no ritmo de seus interesses para manter-se vivo nos encontros e galerias que envolvem a fotografia. Bem daí, pra frente, vale até tudo para agradar a gregos e troianos. Luciano Trigo diz que até sexo e droga rola na ciranda dos interesses. Isso me causa náuseas!!! Recomendo-lhe também a Privatização da Cultura. É soco na ponta do queixo!
Caro Wank; “Privatização da Cultura”, aqui vou eu!
Obrigado por comentar, você já tinha me alertado!
querido amigo Clicio,
existe de fato um vazio em lugar da crítica não só no Brasil ou na fotografia mas na arte em geral. qual é o papel de um crítico? apontar para um publico não tão bem informado quanto o próprio, não o que é ou o que não é arte mas sim o que há de melhor…
a arte e a fotografia contemporânea tiveram uma expansão horizontal absurda nos últimos anos, talvez muito mais rápida do que o estudo dos mestres em fotografia e arte. sacos de tecido cheios de isopor e pendurados no teto são arte? os museus dizem que é. é arte pra vc? pra mim? acho que cada um hoje tem uma resposta.
concordo que na maior parte da arte contemporanea o discurso é muito melhor que a obra. talvez em alguns casos na fotografia também…
a questão é: qual é, de fato, o papel da crítica hoje em dia? os museus já não decidem por todos o que é arte ou não? as galerias não decidem o que é ou o que não é? como ignorar o mercado? existe lugar para trabalhos bons que não agradam o mercado. eu acho que sim.
em parte vc tem toda razão mas em parte a arte entrou num outro nível muito mais sofisticado que a arte moderna, os artistas são muito mais sofisticados, mais preparados, mais informados que em qualquer época da história. isto os faz melhores artistas? às vezes sim, às vezes não. qual é o papel da arte? pra cada um hoje há uma resposta, muito mais expansiva que em qualquer época da história…
pra mim arte é filosofia, é antropologia, é psicologia, obriga a gente a pensar “fora da caixa” fora do rotina em que todos se envolveram até a ponta do fio de cabelo. o que é arte pra vc? onde é que entra o crítico nisso?
são ótimas questões para pensarmos. mas é bom tentar não jogar o bebê fora, junto com a água suja… tem muita coisa muito boa sendo feita tanto na arte contemporânea quanto (e especialmente) na fotografia, apesar do mercado, dos museus, das galerias… e isso é apenas o começo…
abração e muito obrigado por sempre levantar ótimas questões,
Claudio
Caro Cláudio;
Não, I will keep the baby!
Como eu disse, há muita coisa boa sendo produzida, e muita fumaça, isopor, o que queiramos chamar; bobageiras abalizadas por muitos como arte.
Obrigado por comentar, obrigado por fazer boa fotografia e por pensar em arte!
Arranjo conveniente? (poderia ser o título). Tornar o hábito da crítica algo popular é interessante? Truques fáceis como báscula tombada, LOMO digital, envelhecimento de cromos “esquecidos/perdidos, são válidos? Idéias criativas bastam? TANTAS QUESTÕES. Como me disse o Ivan, “vc estará preparado à conversar apenas superficialidades no Leblon…” Abraços, gostei do relato/texto. Nando.
Clicio;
Foi uma enorme coincidência nós nos preocuparmos com o mesmo tema quase ao mesmo tempo, ou, ao contrário, o tema é que se impõe quase inexorável? Talvez a última hipótese seja a verdadeira. Todos nós, envolvidos com a fotografia precisamos de uma resposta ante essa conjuntura. Provavelmente na cabeça de cada um de nós há uma pergunta: Que fazer? Pois, por certo aspecto, quando o sistema de curadoria participa da feitura da obra, orientando, sugerindo, selecionando, apontando direções obrigatórias, o artista passa a ser o curador, pois quem irá fazer diferente se aquele é o caminho para expor, vender, etc?
O fotógrafo, antes o sujeito criador, o foco humano da criação, hoje é como um artífice que faz seu trabalho em uma obra conforme o projeto do arquiteto/curador. Estou exagerando, é claro, mas o sentido é esse. O trabalho do criador é apenas um “raw material”. A arte está na seleção/validação mais que na produção.
Uma vez vi um video do Krajcberg onde ele andava pela praia e usava as ondulações que a água do mar fazia na areia da beira como molde para placas de gesso, capturando o relevo delicado. O curador/legitimador faz isso, e as ondulações que o mar fez na areia são os produtores, assim transformados em matéria prima.
Mas há aí um problema. A fotografia não é meramente uma idéia ou uma colagem de idéias. A fotografia é um artesanato estético e necessita um fotógrafo capaz de praticar esse artesanato, em determinações que muitas vezes nascem do próprio artesanato. Não é apenas uma idéia, idéias sem artesanato fotográfico competente são tão somente uma sopa rala. E idéias fotográficas são feitas de fotografia.
Por isso, porque os fotógrafos gostam desse artesanato e deram-se e dão-se a esse artesanato, fica algo aflitivo a eles (a nós), projetos fotográficos onde apenas uma idéia exista, onde a fotografia apenas realize um conceito. Aflitivo de fazer e de ver. Independentemente do valor do conceito, ao olharmos uma fotografia buscamos notar esse artesanato que começa no saber ver fotograficamente e termina em saber desenvolver uma fotografia. Não basta o conceito.
Mas, nesse sistema, como o curador pode dirigir, participar da produção se, sem ser fotógrafo, não conhece o artesanato? Dirigir o quê? Ora, dirigir outra coisa, não fotografia.
O problema é que o cimento solidifica na forma da forma. A forma faz a forma, e se a forma é demasiadamente descasada das permanentes preocupações fotográficas, será fotografia aquilo conformado?
Abraços
Ivan
PS: obrigadão pela citação, Clicio. Agradeço demais o diálogo com que me honra.
Sempre importante que se faça análise como esta.
Qual o segmento que não está a sofrer deste mal?
Chame o ladrão!!
Bom, o mercado de arte não se diferencia em nada de qualquer mercado que envolva criatividade. Falo no sentido mais simples da palavra. “Coisas” que dependam da imaginação e mão de obra especializada de pessoas. “Coisas” que estão intimamente ligadas as particularidades da cada um. “Coisas” não mensuráveis por uma tabela do Excel. Aí acontecem os apadrinhamentos e as panelinhas, isso é no mercado de moda, publicidade, design etc etc etc.. e por aí vai… Infleizmente o nosso país ainda é bem provinciano quando se fala nesses assuntos. Como universitário estudante de artes visuais na udesc de florianópolis, posso dizer que a universidade tenta abrir nossa cabeça, mas qndo nos deparamos com a mediocridade do mercado de arte, é decepcionante, há os que cedem, e os que não cedem mas também não vão pra frente…
Qual a solução pra isso?
Eu vejo sim solução, são pessoas com credibilidade como você que podem fazer alguma coisa pelo nosso cenário da fotografia brasileira. Mostrar pra essas panelas que tem quem faça bem feito e receba reconhecimento por mérito não por apadrinhamento. Agitar este mercado trazendo novos e “velhos” nomes? Não, que tal uma galeria sem assinaturas, uma coletiva sem rótulos e nomes? Por que não promover através da fototech uma série de eventos com intenção justamente de trazer uma nova proposta para esse mercado?
Creio que o nosso cenário esteja mudando, mas, o que já está estabelecido não vai mudar, precisamos de um lado B, under ou seja lá qual nome vão querer dar pra isso.
Ótimo artigo que sugere reflexão sempre, tanto dos fotógrafos mais experientes como dos iniciantes. Curioso pensar nessa trama de pessoas que tendem a guiar o olhar, como se fossem visionários apontando para o melhor caminho não só da fotografia mas das artes em geral. Lendo esse texto, fico com a sensação de que, muitas vezes, o artista faz o trabalho adequado ao padrão que mais agrada. Isto acontece atualmente não só nesse sistema de curadorias, mas também em editais de criação de trabalho artísticos (dança, música, vídeo etc.) onde o tema deve estar adaptado à estrutura do edital, verba disponível, e, uma vez determinada a ideia (que está no papel), pouco espaço sobra para eventuais mudanças no caminho (ora, mas na pesquisa em arte não é importante a abertura a novas descobertas? ou o artista é tão bem treinado artisticamente que já pode prever o caminho preciso da criação?). E o principal, além do conceito a obra se satisfaz em ser um trabalho inacabado, em processo somente. Será por isso a necessidade de tantas referências, textos, notas para explicar a obra? Mas a obra não deve dizer por si só? Como explicar a obra e ainda assim estar à altura dela? Seria então um trabalho literário, talvez.
Aqui a importância se dá realmente no trinômio, conforme citado, crítica/curadoria/artista e não na obra/artista/público, como era de se esperar. Faz-se arte para quem faz arte e para quem compra arte.
Mas o mais interessante é que se pensarmos na própria análise da história, da arte, ou mesmo de uma época, esta somente será possível quando tivermos um distanciamento de anos, décadas, ou quem sabe, séculos. Talvez os artistas queridos por curadores não são os que realmente vão perdurar. Claro que a atual realidade deve ser refletida, pensar sobre o que está sendo produzido, porquê, mas ainda acredito na força de um trabalho consistente, que muitas vezes leva anos para se solidificar e não se desfaz por simples modismos. Ainda bem, estes trabalhos ainda existem.
Ótimo post. Como o nome do doc. do Banksy diz, “exit through the gift shop”. Perfeito.
Minha opinião é a fotografia assemelhar-se, no processo criativo, à pintura, e não à arte conceitual. A semelhança com a pintura provém do suporte plano, da ênfase na estética e em haver um artesanato contrutor da fotografia, indo desde o saber ver fotograficamente até saber desenvolver formalmente a fotografia.
Assim, a fotografia é uma ato criativo mais ou menos íntimo, realizando-se no tempo da intimidade criativa, e não se assemelha à arte conceitual. O viés da maioria das curadorias é ter na fotografia um veículo da arte conceitual, aliás, um viés muito conveniente.
Por que conveniente? Porque a arte conceitual é má mercadoria. Ela precisa de um financiamento prévio, institucional, mas raramente constitui objeto vendável. Então, fazendo da fotografia suporte para a arte conceitual consegue-se um produto, um produto definido, um OBJETO que pode ser vendido. A fotografia vira quase um souvenir da idéia. Um “recuerdo” da idéia, essa sim a coisa verdadeira.
Outro dia, esticando meu habitual passeio de bicicleta, fui parar no MAM onde nos pilotis acontecia uma Tarde Contemporânea, e essa Tarde Contemporânea consisitia em recitações de textos meio Dada nos microfones, e havia distribuição ao público de cigarras que fazem clic-clic quando apertadas, para o público participar do envento sonoro clicando, cigarras essas fornecidas pelo Cildo Meireles. As pessoas pegavam as cigarras e diziam: “é do Cildo Meireles!”. O evento, de fato, era as pessoas fazerem clic-clic-clic enquanto alguns declamavam, criando uma espacialidade sonora, mas o objeto termina virando um recuerdo, um atestado de ter havido. É apenas uma cigarra de metal de fazer clic. Aliás, uma mulher presente dirigiu-se a mim porque lhe impediram de usar o microfone e comentou “a interação é só com a cigarra, não pode usar o microfone”… É complicado isso, objetos que viram souvenir artístico, eventos fugazes que seriam a obra, etc. Nota-se, contudo, o desejo das pessoas por objetos.
A fotografia, em minha opinião, é a esperança mercadológica da arte conceitual, sem a qual ela permanecerá uma arte institucional, uma arte dependente de financiamentos prévios e que ocorre como eventos fugazes. A fotografia oferece o suporte tão necessário para haver uma mercadoria.
Ocorre que nesse jogo a fotografia deixa de ser para si, ela passa a ser serviçal de outro algo. Deixam de ser os valores fotográficos a coisa importante, deixa de ser o artesanato fotográfico a coisa importante, e ela reduz-se a um veículo onde os falores formais fotográficos ficam diminuídos. Apenas um veículo.
Porém a história não volta atrás, e não há solução fácil para isso. Pode haver solução individual, no máximo.
Clicio e demais colegas. Complementando e jogando um pouco de SOMBRA no assunto… Você fala do trinômio Crítica, Curadoria, Artista. ACRESCENTE(EM) nesse assunto tão “circular” a realidade (não a filosófica de Matrix) da “RENÚNCIA FISCAL” e a participação de um PATROCINADOR SOBERANO e terá a seguinte conclusão: Só se PRODUZ/SE CRIA o que foi previamente LIBERADO COM UM “OK” pelas leis de incentivo. Como assunto é “circular”, continuo: Sendo assim, só se CRITICA o que PREVIAMENTE teve um OK do patrocinador. NO FINAL, vende-se o que PREVIAMENTE teve um OK e principalmente, já foi pago.
Juntamente com a sombra, deixo a seguinte pergunta: Seria o crítico, em boa parte dos casos, um “inocente” participando de um jogo de interesses de uma corporação (o patrocinador) – assim como é a nada inocente imprensa, que divulga os assuntos provenientes das assessorias?
p.s. Não levem tão a sério certas “afirmações” no meu texto, pois o texto escrito é mais pesado que um bate-papo. E, estou, batendo um papo.
Ops, voltarei às amenidades. Como o Sol está lindo na Vila Madalena, não? E no Leblon?
Mais uma vez li…
e estou digerindo…
mas não estou tão conformada qto vc pensa!
beijo
Pois é agora agora tudo é arte….. BRILHANTE ! Clicio
“”"”quantidade de manchas desfocadas sendo vendida como arte…”"”"”
Essa frase resume 90% do lixo que estamos vendo por ai….
Abraços.
Abdo
Meu caro Ivan, se me permite, gostaria de discordar de vc. Por que limitar o escopo da fotografia? A fotografia em parte se assemelha à pintura. Mas vai muito além disso.
Um sábio da India disse que Deus é como uma mãe que pra cada de seus filhos prepara o leite da forma que cada um mais gosta… pra uns vira queijo (e tem uma infinidade só aí) pra outros doces, pra outros coalhada, e assim por diante…
A fotografia é um pouco isso, afeta as pessoas de todas as formas possíveis. Por que tem que estar tudo em foco sempre? Por que tem que estar tudo sem foco, sempre? Por que tudo congelado? Por que em baixa velocidade? Por que lomografia não é bom? Por que é bom? Pra cada um funciona de um jeito.
Fechar todas as janelas, fazer um furo, criar uma camera obscura e fotografar isso (como faz o Abelardo Morell) é fotografia? Por que sim? Por que não? Passar um mes no photoshop pra fazer uma foto é fotografia (como faz a Loretta Lux)? Contratar uma equipe de cinema e montar uma foto é fotografia (como faz o Greg Crewdson)? Carregar uma máquina de grande formato, colocar numa armação de 5 metros de altura, montada na praia e fotografar (como faz o Massimo Vitali) é fotografia? Fazer projetos conceituais (como fazem a Claudia Jaguaribe, a Rochelle Costi e a Rosângela Rennó) é fotografia?
E que tal as invenções e intervenções do João Castilho, do Alfredo de Stefano (recentemente em Paraty)? E o uso do photoshop do Cia Da Foto e do Julio Bitencourt?
E os devaneios do Eustáquio Neves?
Esse conflito artificial de que arte não pode ser vendida, de que não pode e não deve ser um produto. Arte nunca vai ser um produto em minha opinião Ivan. Ela se transveste de produto mas sua força implícita vai funcionando nas paredes, nos livros, vai afetando as pessoas porque pra mim arte é isso, obriga as pessoas a sairem da zona de conforto, a se perguntarem qual a razão disso tudo, qual o sentido disso tudo.
Se são sacos de pano com bolinhas de isopor (Ernesto Netto) ou se são muros de ferro enferrujado gigantes (Richard Serra) ou fotografias de mulheres nuas amarradas, penduradas no teto (Araki) ou fotos da ultima vaga de carro (Martin Parr) – por que limitar o impacto e a força da fotografia e por assim dizer, da arte contemporânea?
Então tudo é arte? Esse é o x da questão né? Acho que tudo que afeta qualquer pessoa intima e deliberadamente, através da intenção ou auto-descoberta do autor, pode ser arte…
Quanto a conseguir mais fundo pros artistas, esse fundos sempre virão com condições, condições que agradam ou não quem está dando o dinheiro. Quer um exemplo?
Eu apliquei prum edital da cidade de São Paulo para a ocupação de espaços públicos. Pessoalmente eu acho que não se cuida da questão dos sem teto como se deveria quis fazer uma intervenção usando fotos gigantes (já que para mim os sem teto viraram seres invisíveis). Pela razão que for, meu projeto não foi aceito. Não foi aceito por que a cidade não quer mostrar seus podres? Não sei? Não foi aceito por que tinham projetos melhores? — (e, pronto, só aí tem pano pra muita manga, quem decide o que é melhro pra todos??). Não sei, gostaria de saber a razão mas ninguém me disse.
É muito bom conversar sobre tudo isso. Se vc acha que fotografia é um ato criativo íntimo, eu concordo — que arte não é? O que o Vik Muniz faz não é íntimo? Depende pra quem vc pergunta né, eu acho que é muito íntimo… É fotografia o que ele faz?
É e não é, questão de se argumentar a favor ou contra…. Não é pois a foto que faz poderia ser feita por uma menina de sete anos com qq máquina automática — é só fotografar suas montagens… E é porque o suporte é fotografico… Ficou tudo bastante complexo mas conversar sobre tudo isso é muito saudável e todos sentimos muita falta desse papo… Eu pelo menos sinto.
abraços,
Claudio
clicio, seu blog deveria ter a opção curtir nos posts e comentários, rsrs para aqueles que estão curtindo mas com preguiça de comentar. abraço
Claudio, se dei a impressão de considerar só um tipo de fazer, então expressei-me mal. Não citei a pintura como um romantismo do fazer, mesmo porque há fazeres na pintura que nisso não se encaixam, como o Pollock há mais de meio século já mostrou. Para mim, as semelhanças não são por aí, mas sim porque a fotografia, seja como for, parece-me casada com o seu artesanato, assim como a pintura o é.
Chamo aqui de artesanato uma série de procedimentos, procedimentos técnicos relacionados a resultados estéticos. Pode ser qualquer um. Faça de um quarto uma câmera escura, e fotografe a projeção. Use báscula. Use uma compacta digital, uma Lomo, e em qualquer dessas maneiras acontecerá uma relação entre um modo de fazer e um resultado. Esse modo de fazer chamei de artesnato, o resultado derivado desse artesanato é a estética do processo. Normalmente na criação fotográfica -até onde entendo- há um casamento entre estética e método, e essa escolha parece-me um ato fundamental do fotógrafo.
Não acho que as coisas devem estar em foco sempre, não penso haver nenhum parâmetro fixo. Mas penso sim que no resultado deve haver uma produção de forma através de um pensamento fotográfico, pensamento esse não abstrato, puramente baseado em idéias abstratas, conceitos, mas em grande parte baseado no artesanato fotográfico, como quer que se queira defini-lo ou praticá-lo.
Contudo, coisas muito mais convencionais, aparentemente, podem não ser fotografia, da maneira como entendo. Que coisas são essas? São coisas acidentalmente fotográficas, ou seja, coisas que foram feitas através da fotografia, mas a fotografia foi meio, foi embalagem. Cito uma exemplo. Há muitos e muitos anos, provavelmente uns 40 anos, havia no MAM-RJ algo chamado Salão de Verão. Fui lá e vi uma foto. Era, sobre um fundo preto, duas mãos em mármore em concha, e sobre essas mãos uma gema de ovo. Uma foto, aliás, convencionalmente bem feita. Mas, veja, a idéia ali contida não era fotografica, era de outra espécie. Era uma idéa que lidava com símbolos, que os articulava em associações do branco-clara, da proteção das mãos versus a fragiliade da gema, e a fotografia era tão somente a forma como o produtor pôde mostrá-la. Poderia, contudo, ser uma mão de resina branca com uma gema falsa em cima, dentro de uma caixa de acrílico, ou poderia ser uma ilustração. Nada disso modificaria o jogo dos símbolos, e era esse o interesse do objeto-foto. Não era essencialmente fotografia, embora a foto fosse convencionalmente fotografia. Não era uma idéia fotográfica, era uma idéia usando a fotografia para mostrar-se. Não era necessariamente fotografia, e sim acidentalmente fotografia. O mesmo jogo poderia ser jogado em outro campo.
Minha mensagem imediatamente anterior fala disso, desse perigo do descasamento entre o artesanato e a finalidade. Perigo para quem? Bom, pode até ser eu a correr este perigo, porque dá-me prazer olhar fotografias onde leio mensagem e artesanato imbricados. Nessas coisas terminamos sempre falando na primeira pessoa do singular, ou seja, a partir de nossas preferências, tendências, etc.
Muito obrigado pelo comentário à minha postagem, há muito mais coisa a ler e pensar a partir da sua resposta, tentei apenas dar mais precisão ao que dissera antes.
Um grande abraço,
Ivan
Bom ver toda essa discussão. Olhar algumas coisas por outras perspectivas. Por exemplo, da palestra de Clarissa, o que ficou para mim foi um questionamento ao modelo de distanciamento que é defendido por uma determinada escola de crítica. Um distanciamento que acontece em busca de uma pseudo neutralidade (tenho que me manter distante do artista para poder julgá-lo) e pior, aquele que acontece por falta de tempo, de contato, de oportunidades de relacionamento com a obra. Vi na fala dela uma defesa da importância uma experiência estética como algo necessário à função crítica. Experiência essa que não pode funcionar com distanciamento. Como poder conhecer (e falar sobre) uma obra quando se tem tão pouco tempo para isso? Caso de comissões julgadoras, que precisam analisar centenas de obras/projetos em poucos dias. Como podemos substituir uma imagem de Win Wenders de 4 metros de comprimento por uma tela de computador? Você pode até não gostar, mas não vale dizer que a experiência é a mesma.
Edinger com seus ensinamentos. Obrigado pelo Deus-mãe-preparadora-de leite. Muito boa. A fotografia é mesmo isso: toca e funciona diferentemente em cada pessoa. Aos vários exemplos que citou, lembraria também, saindo do campo da Arte, a fotografia que transforma (Rippper), que informa, que ensina, que denuncia etc. Sim, a fotografia é algo tão grande, não podemos deixá-la dentro de caixas estanques. Nem na forma, nem no conteúdo, nem na técnica, nem no produto final. O pensamento, a reflexão também deve ser estimulada, mesmo que não tenha valor de venda. Como fazer isso?
Queiroga;
Verdade verdadeira.

Concordo (com você e com Clarissa) 100% quanto a questão das comissões julgadoras, da pressa, da superficialidade destas.
Mas a minha crítica é pelo fato de já não existir…Crítica.
A pluralidade e a polissemia da fotografia não justificam o vale-tudo, o ti-ti-ti. Críticos que escrevem prefácios de catálogos e apenas elogiam pelo valor da lauda, em nada contribuem para o aprimoramento do artista.
Mas a discussão tá boa demais, e gosto de ouvir opiniões.
E críticas.
Abração,
Clicio
Podemos supor que exista um (pequeno, porém bem financiado) grupo para o qual a existência de uma crítica mais ampla (maior quantidade de críticos, maior incentivo à crítica, maior divulgação da crítica) seja algo considerado “não adequado” ou até mesmo “perigoso” para a própria manetenção de tal grupo/ordem?
Se sim, se existe tal grupo, até certo ponto “hermético” aos “não iniciados ou não membros do mesmo” pergunto:
Qual a “posição” ou qual a “atitude” de tal grupo, diante de propostas como esta aqui, do Blog do Clicio, QUESTIONANDO a inesistência de uma crítica (mais ampla) ?
Provavelmente, tenho a resposta à essa pergunta.
E a resposta É O SILÊNCIO.
Seja um Artista, um Curador ou até mesmo um Crítico, quando “criticados” ou questionados – como proteção – costumam calar-se.
Calar, é um tipo de desdenho, um método de tentar “desqualificar” o questionador. Sempre houve esta conduta, sempre haverá. Antes, uma Filosofia. Atualmente, Engenharia Social.
Portanto Clicio e demais amigos, não esperem encontrar neste fantástico debate, RESPOSTAS.
Acredito que o que está ao alcance é fazer PROPOSTAS (principalmente aos não iniciados) ao grupo/ordem/meio – denominem como for de vossa conveniência.
ACREDITEM: Esbarrarão no SILÊNCIO. #fato
Abraços.
Clicio,
estou sentadinha aqui na janelinha lendo tudinho….
pensando, pensando, pensando!
quero te dizer que amei a sua inciativa de tocar num ponto tão delicado qto esse!
continuarei lendo!
beijo
Nando;
Para ser sincero, também fiquei surpreso.
Fui olhar as estatísticas (que podem ser vistas aqui: http://www.clicio.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/11/stats.jpg ) e constatei mais de 1.2 mil visualizações nesse post nos últimos três dias; curioso tão poucos comentarem, realmente.
Talvez desinteresse, talvez política de boa vizinhança.
Vai saber…
.
“Que falta a arte?… Verdade.
Que mais por sua desonra?… Honra.
Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa arte onde falta
Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs no retrocesso?… Negócio.
Quem causa tal vicio?… Ambição.
E no meio desta loucura?… Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.
Quais são seus doces objetos?… as obras.
Tem outros bens mais maciços?… a critica.
Quais destes lhe são mais gratos?… artistas.
Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
artistas, critica, obras.
Quem faz os círios mesquinhos?… temores.
Quem faz as farinhas tardas?…mentiras.
Quem as tem nos aposentos?… os homens.
Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Temores, mentiras, homens.
E que justiça a resguarda?… Bastarda.
É grátis distribuída?… Vendida.
Que tem, que a todos assusta?… Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.”
* Talvez a constatação do obvio, sem nenhuma palavra de esperança a ser depositada na discussão, fazem anos que os homens dizem o mesmo, e continuam a fazer o mesmo.
Enquanto formos homens sem escrúpulos, não temos chance de mudar nada.
A “Arte nunca vai ser um produto”. Para quem vê arte assim, ela simplesmente não existe, o tal mercado é parte do nosso sistema, somos capitalistas, o mercado engloba todos os setores na nossa vida. Inclusive o que fabrica o artista. Mas não é por isso que ele determina o que vai ser feito, ele coloca na prateleira da oferta, mas aquela marca que a sua avó comprava continua ali na prateleira, só que é mais cara ou as vezes está mais escondida, não importa, está ali e continuara, porque o que é bom perdura.
Grata Clicio, por proporcionar tal discussão, ficaria mais feliz ainda, se daqui sair algumas soluções.
A lista que Claudio faz me lembrou um fato que bato em cima: todos que o amigo cita são praticamente dentro do eixo. O resto do país também faz arte e da boa, e isso necessita ser observado por curadores, galeristas, etc.
Outra coisa, meu caro Claudio: percebi nos últimos três anos que muitas nulidades fermentadas por fora estão dentro da “tribo do eixo”. E venho apreciando isso com muita atenção.
Quando você fala que “Pra cada um funciona de um jeito.” Eu diria que não funciona. Pois, o inexplicável não se explica.
As apelações são fermentações de um nicho mafioso que está em sintonia com o efêmero que não emociona ninguém. Nem mesmo um analfabeto. E para isso farei uma experiência em plena praça pública: colocarei esculturas, fotografias e pinturas, duas de cada e farei uma votação. Verei o resultado e depois lhe falo.
Para meditação sobre o que é arte ou não. Acabo de ver no Blog da Josefina uma fotografia produzida dentro do novo JB, captada por Urbano Erbiste – http://blogdajosefina.wordpress.com/2010/12/04/viva-o-rio-de-janeiro/#comments Na minha opinião, ela é totalmente demais! Emociona-me porque me faz rir, me informa e ao mesmo tempo mostra-me o lado dantesco e cínico do carioca que se acostumou a viver no inferno de macunaimica. O que é bem diferente de se pegar um arquivo raw e começar a melecar e a fazer barulho em cima desta imagem ultra manipulada e que não dá o mínimo tesão. A não ser naqueles que inventam o tesão para serem simpáticos. Para mim, merda é merda; fotografia boa é fotografia boa. Eu como não sou político e não sou Jesus – mas me amarro no cara cheio de preparo físico, filósofo e garanhão que ele foi – que o diga Maria Madalena – repugno essas escaramuças contemporâneas, inclusive as de Loretta Lux, com seus retratos super brancos e sem vidas. Diferente da fotografia de Urbano que tem calor humano e olha lá se não entrará na fila do Esso…
Clicio, quanto aos olheiros, talvez, seja preguiça ou falta de coragem de aprender contigo, Claudio, e tantos outros que por aqui passam. Obrigado Clicio pela oportunidade e abraço grande para todos.
Profunda e caudalosa discussão. Parece ser sobre arte. Pode ser sobre fotografia. Mas se pode discutir arte? Se fotografia é arte, se pode discutir fotografia?
Para mim muita asneira, com todo o respeito por todos quanto aqui “discutiram” a arte e fotografia.
A arte, e a fotografia com uma desta artes, transcende a discussão lógica. É psicológica. É profundamente emocional. Não precisa de palavras para explicar nem para criticar. Simplesmente deve ser arte. Forma de expressão do subconsciente do “artista”. Será esta arte reconhecida? Pouco importa. A verdadeira arte só importa realmente para quem a produz. Pois é do prazer de produzi-la a sua essência.
Com discutir o subconsciente do individuo A é melhor ou pior que o subconsciente do indivíduo B? Isto somente no racionalismo dos que não se sentindo inspirados a produzir um suspiro de arte, se contentam e tentar criticá-lo. Por favor deixem a arte passar.
Reflitam sobre o que aqui é levantamos.
Se existe arte nos hospícios, porque não haverá arte nos incultos da arte?
Não se deixem atrair por esta discussão estéril. Arte não se discute. Se admira ou não. Simplesmente isso.
Onde cabe discussão?
Bem, não exatamente na arte, mas nos conceitos de “belo”, de “beleza”. Nos conceitos de “estética”.
Ao final, será o julgamento do que realmente é belo, e portanto atraente, que se fará importante. Quer queira ou não queiram os críticos e “entendidos” da arte.
A atração, por admiração ou por compra, é o medidor mais eficaz da arte. Se é admirado ou comprado, então tem seu valor. Alguma dúvida sobre isto?
Bem, se acharem que esta abordagem filosófica é sem sentido, me perdoem. Não pretendo ser senhor da verdade. Mas o tempo, este sim, é o senhor da razão. Vamos dar tempo ao tempo.
Clicio
Texto “Pau na Muleira” Esclarece e aborrece muita gente… . um deleite pra uma mente pensante e não passante… Gostaria de publicar o teu artigo num jornal de arte que estamos lançando aqui no Recife, no final de dezembro. o “arteUrbana”.
abração
Um texto, talvez oportuno:
http://adrianodeaquino.blogspot.com/2010/12/avancados-reacionarios-convergencia-dos.html
O problema também não está naquilo que o artista está disposto a fazer para ter sucesso? Talvez seja muita ingenuidade minha, mas, como wannabe, eu percebo em meus semelhantes uma preocupação exagerada e cega com o valor que suas obras terão no mercado e com quais pessoas vale a pena conversar e ser simpático. Que galerista bajular? Que artista seguir no Twitter? Eu vejo uma preocupação absurda com tudo isso e pouco valor dado ao que se produz de fato, à arte em si. Pq isso realmente não importa, desde que vc esteja dentro do círculo poderoso certo. É o jeito “contemporâneo”.
No final das contas, a arte contemporânea parece a arte moderna regurgitada. O discurso supõe uma transgressão, mas a obra tem patrocínio do Estado e está numa galeria “família”. Tem como transgredir de fato nessas condições?
Um abraço a todos.
Em geral não faço comentários em nenhum post, mas os seus estão merecendo, em primeiro lugar pela qualidade do texto, mas acima de tudo pela qualidade da discussão (até te daria a idéia de compilar alguns comentários e fazer um livro, poderia se chamar “café dos fotógrafos”..rsrs)
Quanto ao texto está excelente, se permite até cito o Bento XVI (que apesar de Papa é um ótimo filósofo) que disse que “vivemos na ditadura do relativismo”. A crítica não cabe na atualidade porque já não cabem os conceitos de bom ou ruim. Estamos vivendo um tempo onde a subjetividade virou arma para classificar críticas como reacionárias.
Acredito que essa visão atual das coisas vá mudar porque a postura relativista se autodestrói, enquanto isso não acontece vamos continuar a procurar artistas entre exposições de texto em placas de acrílico.
Clicio meu amor… Há tempos meu sofrimento frente à obra /discurso me afasta da arte.
Não queremos algo vazio e sem conteúdo, mas não podemos querer uma obra visual falada.
A imposição da palavra frente à imagem está se tornando irritante. E mais irritante ainda é a inversão de valores que o sistema nos impõe dizendo que não há obra sem curadoria. Ora!
Depois que o curador matou o crítico, nos resta matar o curador e libertar a arte.
No ponto.
O mercadão matou o critico e a critica… isso não interessa.
O individuo na sociedade de consumo tem razão… igualdade?
Já ouviram falar no padrão Globo de qualidade? Todo mundo acredita…
Lu Renata no ponto também. Rafael Toshio disse que disse legal.
… fui pro mato! inventar a VIDA!
Olá Clicio… parabéns p/ assunto importantíssimo. ( Não sei se vai lembrar-se de mim ). Não tenho o “don “da escrita como os demais. Mas essa invasão do mercado : de works, cursos, curadorias, etc e criando nomes ainda não preparados… apesar da importancia p/ a fotografia, em certos momentos, naõ estaria incentivando a invasão de ” analfabetos fotográficos ” e por conseguencia fotos ridiculas, o que não é nada saudavel p/ o mercado…. Apesar de dizerem que os picaretas não sobrevivem e coisa assim, podem não sobrevier, mas na realidade atrapalham sim, especialmente no interior onde virou praga ( perde-se o emprego… então compra uma digital e como num passe de magica …se diz fotógrafo ) fora a inversão de valores ” os fotógrafos de qualidades são os careiros ” e as pessõas acabam acostumando com o baratinho e a qualidade acaba passando lamentavelmente p/ 2° plano, não diferenciando nem o básico
” gastos de Investimento ” e pelo que parece chegando infelismente até as galerias. Gostaria de citarei 2 exemplos que me deixaram muito triste : 1°) um fotógrafo errou a foto, fhash não acendeu, etc … então encheu de ruido, passou p/ p&b, entortou a foto, que virou mania nacional e disse ” que maravilha…ganhou até !?!?!? 2°) Sua mulher esta desempregada? vc tem uma velha garagem, então monte um House Studio !!!!! ( novamente como um simples passe de magica ) E onde entra a fotografia, a arte, o olhar apurado, o estudo constante, a técnica, a iluminação, o enquadramento a auto crítica, a arte…. enfim o FOTÓGRAFO !!!!! Um gde ab. e obrigado pelo que faz para nossa fotografia de qualidade.
Deixem de ser ingênuos. O dinheiro move todas as coisas, ponto final. Ficam discutindo arte, mas se pintar uma crise e vocês perderem seus empregos como fotógrafos/editores/escritores, não vão mais se preocupar com o que é arte ou não.
Renato;
Eu não tenho emprego.
Há mais de 30 anos.
Abraços,
Clicio
é cada um que aparece…..
olá clício conheci seu trabalho pela internet e gostei muito.Sou estudante de computação gráfica faz alguns meses.Tenho um blog com alguns de mesu trabalhos,gostatio se vc pudesse dar uma olhada e fazer comentários dando dicas de como posso melhorar.
Caro Cliccio, sou de BH e sou músico profissional a 22 anos. Faco um trabalho fotográfico a tres anos por puro gosto a arte. Realmente voce tem toda razao… sou evangélico de família e de conciencia desde quando era adolecente, e te falo que a deturpacao de valores estao por todo lado. No evangélio esta acontecento um tremendo engano de pastores querendo ganhar em cima do povo, montando igrejas e preagando um evangélio triufalista e enganoso, diferente do verdadeiro da Bílibia, estao se tornando cafetoes da prosperidade enganando a muitos. Mas sabemos que existe um verdadeiro evangélio limpo de Cristo Jesus. Na música a mesma coisa… coitados apertam play, a bateria eletornica toca sozinha, e eles gravam porcaria e vendem para o povo descriminando o crítico valorozo, como Nelson Motta por exemplo. Com isso muitos jovens nao sabem mais o que é Tom Jobim, o que Bossa Nova, o que é Jazz e o que música Brasileira ( a melhor do mundo). Mas existe uma verdade, verdadde que nao se ve. Mas pessoas indgnadas com as prostuituicoes de coisas belas podem fazer diferenca. Fico com uma frase sua que eu li numa resvista – se for fazer faca direito – isso é tudo, se tentarem ganhar em cima, pelo menos ta bem feito. Quem sabe um dia o rosto dos deturpadores de artes vao corar??? Abracos!!!
Caro Clicio, muito boa a reflexão!
O mundo contemporâneo, “pós-pós-pós guerra fria” e toda essa velocidade e horizontalidade (como bem disse o Claudio) (pra mim cabe tb aí a velha e desgastada palavra “banalização”) com que passamos a lidar com a informação estreitou muito os limites entre a “crítica”, a curadoria e os Negócios. Esse papo dá muito pano pra manga, parabéns por tocar no assunto e explorá-lo de forma tão honesta.
Um abraço
Excelente artigo, parabéns Clicio…
O livro “A Grande Feira” de Luciano Trigo, que tive a oportunidade de conhecer também por indicação do @clicio, já começa a provocar o pensamento crítico pela sua capa, quer reproduz a “obra” The Physical Impossibilty of Death in the Mind of Living, de Damiens Hirst – Um tubarão mergulhado em formol e vendido por 12 milhões de dólares em 2004 (mais informações … lendo o livro), traz uma série de informações que nos leva a refletir a este “vale tudo” na arte contemporânea.
E vale também ressaltar, mencionando um dos comentários acima que, há muito tempo o “emprego” já está condenado, interpretando “emprego” como a capacidade de estar empregado e fazer/saber somente as funções inerentes ao seu cargo. Quem “tem” e quem “conquista” trabalho possui a capacidade de encontrar oportunidades interligadas ao seu constante desenvolvimento do conhecimento. É uma diferença importante nessas duas interpretações.
Olá Pessoal, é muito bom ver essa agitação ou falta de acomodação com um tema tão importante em nossas vidas, sejam elas como profissionais ou como apreciadores do que é bom.
Como observador do momento histórico pelo qual o Brasil passa e me vem à cabeça os tempos do sec XVI e XVII quando as monarquias estavam no final e a estrutura de alguns grupos estavam por acabar e esses grupos tentavam de alguma forma dominar a massa atravás do corte do acesso a cultura e privação do pensar.
Eu pessoalmente acho que a crítica é super importante para o desenvolvimento do nosso trabalho pois é atraves dela que vemos as nossas coisas com olhos dos outros e nos faz refletir não apenas no nosso modo de ver o mundo e sim como esse mundo se mostra para os outros.
Tenho saudades dos tempos de escola em que eram encorajados os debates na turma de Educação Moral e Cívica e onde cada um de nós podia deixar o pensamento realmente livre.
Hoje, apesar de se falar em democracia, temos cada vez mais gente pensando menos e falando muito. Nos falta conhecimento, nos falta crítica e nos falta uma forma de separar o que presta num monte de informação que somos bombardeados a todo momento.
Vamos ver menos TV e debater mais.
Ah! Parabens mais uma vez Clicio pela Provocação e pelo excelente texto.
Agradeço tudo o que li e aprendo à cada, principalmente com a diversidade das idéias, argumentos e linhas de expressão do que seja arte fotográfica ou não.
Betânia Miranda
Clicio é uma bênçao ler esse texto. Onde está a liberdade de se criar, ousar, questionar, pesquisar. Há muito que observo esse circulo curador/critico/artista, este ultimo é o que menos importa. Sua obra menos ainda. Eu mesmo já me de parei na hora de tirar uma foto se ela atendia a alguns parametros academicos e mercadologicos…já me esbarrei com a autoridade de curadores e criticos que na verdade é ´so uma posição de mercado.
vc en Natal ha 6 anos atras antes de me mudar para os EUA durante um curso de iluminacao.Sempre fui admirador do seu trabalho
CS en Natal ha 6 anos atras antes de me mudar para os EUA durante um curso de iluminacao.Sempre fui admirador do seu trabalho
Sou fotógrafo fine art com maior apreço por fotos conceituais, (há 10 anos uso Reflex); Gostaria de convidá-los a conhecer o meu trabalho
GRAFIAS DE LUZ fátos gráficos
http://ordileicaldeira.photoshelter.com/gallery/Grafias-de-Luz-fatos-graficos-Spellings-of-Light-graphic-facts/G0000MTHRpBX4tRI/
Clício agradeço o texto.
Grande abs!
http://www.ordileicaldeira.photoshelter.com
22 8139 2800
As vezes fico pensando na frase:”uma imagem vale mais que mil palavras” mas tão logo vou dar uma olhada em arte fotografica ou nos ditadores que tem o poder de dizer o que é arte e me deparo com o que passei a chamar de “foto com bula”, uma imagem que sem o seu texto explicativo não é nada.
Em minha humilde observação acho que o artista fotografico deve produzir imagens e deixar os textos guardados para si mesmo, já seria um grande favor…
Olá Clício, antes de mais nada parabéns pelo ótimo texto, somente hoje o li, a riqueza de sua colocação suscitou tantas opiniões interessantes.
Embora atrasado gostaria de colocar meu ponto de vista. Sou da opinião de que artista é artista, curador é curador, e crítico é crítico. O primeiro é a razão da existência dos outros dois. O segundo é o que trabalha com o artista na organização do pensamento artístico visando a apresentação pública da obra. Não faz muito tempo, vimos a confusão gerada na exposição comemorativa do acervo do Itaú Cultural quando curador e cenógrafo se puseram acima dos artistas. Finalmente, o crítico de arte deveria ser, a meu ver, aquele que propõe reflexões a respeito da relevância de uma dada obra de arte ou de um artista no contexto social, político, econômico e cultural dado, faz contrapontos com o passado,com o futuro e com o presente artístico etc., e o mais importante, é aquele que pensa criticamente e com autonomia. Concordo que o artista precisa do mercado para viver, por outro lado ele não pode e não deve se submeter ao mercado com o risco de perder sua autonomia. O atual mercado da arte se assemelha ao mercado do futebol, muita grana circurlando, pouca qualidade e pouca ou quase nada de emoção: assim como no futebol contemporâneo, vejo também uma arte de resultados.
Saudações.
Clício é interessante o trecho de um livro espiritualista de 1940, que transcrevo a seguir, só para uma reflexão, sem críticas.
Sobre a ARTE:
“Ponderemos contudo, que , existe hoje grande número de talentos com a preocupação excessiva de originalidade, dando curso às expressões mais extravagantes de primitivismo, esses são os cortejadores irrequietos da glória mundana que, mais distanciados da arte legítima, nada mais conseguem refletir a perturbação dos tempos que passam, apoiando o domínio transitório da futilidade e da força. Eles, ……….. em vez de espiritualizarem a Natureza, buscam deprimí-la com as suas concepções extravagantes e doentias.”
Caro Clício, este é um assunto muito sério que precisaríamos avançar para poder inclusive interferir na realidade que hoje nos está posta.
Tenho pensado muito sobre a questão da crítica e da curadoria, mas principalmente sobre curadoria.
Cada dia mais o curador/crítico tem sido a chancela para qualificar um trabalho, como se o trabalho não tivesse valor caso alguém não diga isso. Alguém em quem se possa acreditar…mas quem é este alguém?
A história da Cultura e da Arte nos encaminhou para este labirintos..
Há questões e questionamentos sobre este modelo que engessa e exlclui muitos talentos e bons trabalhos.
Bom, era só um desabafo, o assunto é mais profundo…
Muito legal sua postagem e você levantar esta bola!
Continuemos o jogo e as discussões!!!
abcs
Rinaldo Morelli
Caramba, quanta informação em um ano de comentários. Fico muito feliz. Vejo uma luz no fim do tunel só de ler estes ricos comentários. São um verdadeiro “workshop”.
Nãooderia deixar de comentar que existem um antes, um durante e um depois da fotografia. Tanto para o fotógrafo quanto para quem a ve. ˙Não se pode deixar de lado a “impressão no olhar de quem quer que seja. Todos são críticos dentro de seus próprios universos de conhecimento. É muito pessoal, porém se faz necessário o papel do crítico numa comunidade onde há artistas verdadeiros sedentos desta crítica.
Obrigado a todos pelos comentários que são muito ricos.
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[...] This post was mentioned on Twitter by clicio barroso filho, Nemetscek, Gabriel Andrade dP., Chico Peixoto, Cibele Rossi and others. Cibele Rossi said: RT @paratyemfoco: RT @clicio: Crítica, curadoria e fotografia :: http://bit.ly/gv4eg6 [...]
[...] O Clicio desenvolve um artigo sobre curadoria, critica e fotografia que gera uma extensa discussão. Vale a pena pra se atualizar e entender esse universo da crítica a fotografia e arte. O Link direto é esse: http://www.clicio.com.br/blog/2010/critica-curadoria-e-fotografia/ [...]
[...] ótimo texto de Clicio Barroso, dica de Tiago Lima, na integra aqui: [...]