Cachorro

©2010 Clicio Barroso

Nada mais revoltante que pressupostos enganosos, pré concepções idiotas e rótulos genéricos.
Estou falando daqueles que julgam classes profissionais inteiras pelo comportamento individual de alguns, ou pior, por mera crendice popular. Afirmar que “trabalho de modelo é fácil”, por exemplo; ou “quem não sabe o que fazer da vida, se torna fotógrafo”. O problema é que preconceito pega, e é assim que passamos a ser tratados; como indivíduos sem opção, condenados a fazer do hobby profissão, na falta de competências para outros ofícios.
O equívoco aumenta quando, por amor à fotografia (I Love my Job! ama a fotografia, mas cobra por ela), fotógrafos se deixam envolver na conversa mole de que “fazer de graça é uma oportunidade de aprendizado”, “ter seu nome nos créditos é publicidade gratuita para seu trabalho”, ou “cobrar para fazer a capa da revista Fashion? Mas deveria ser uma honra para você!”.
Falácias, mentiras, papo pra boi dormir. Coisa de empresário esperto. A década da Internet-Google, onde tudo é de todos e o preço é grátis, abriu as portas da sem-vergonhice explícita, da exploração do trabalho alheio, do império dos sem-talento.
Exemplos não faltam; ontem mesmo, piada ou não, recebo um link de um suposto e-mail de protesto; um “empresário” fulo da vida por conta de um fotógrafo que, ao retirar do ar seu portfólio online, quebrou os links das fotos que o empresário ilegalmente usava para promover o seu (dele) negócio. O mais engraçado é ver o empresário injuriado ameaçando o fotógrafo judicialmente, pois este estava “prejudicando os seus negócios” ao tirar as fotos da Internet. Não importa se é apenas uma brincadeira, a preocupação é concernente, pois cria-se uma cultura perniciosa e as posições acusador/acusado se invertem com extrema facilidade.
Esta longa introdução serve apenas para acalmar minha indignação, posto que semana passada, mais uma vez (já perdi a conta) uma agência de publicidade me liga e, na maior cara de pau me pede uma foto de graça. “A gente manda a modelo maquiada, você não vai ter gasto…” diz o art buyer. “Nós nem vamos usar para anúncio”, continua, e emenda: “sabe, o seu olhar é importante, e queremos que esta foto tenha a mesma linguagem daquela campanha que você já fez, lembra?”
Lembro.
Lembro-me muito bem, a campanha ficou linda, mas me deu um trabalho do cão, um mês initerrupto de loucura, pouco sono, e apesar de bem orçada, sobrou pouco dinheiro no final. E agora, uma foto nova, de graça.
“Por que na parceria?” pergunto eu (“parceria” é um eufemismo usado por clientes que não querem pagar por fotos).
“Porque a agência se esqueceu de incluir a foto no orçamento aprovado pelo cliente”.
Fui pesquisar que orçamento era esse, e o fato é que uma produtora de cinema estava fazendo o comercial do produto, e precisava da foto em cena. Ninguém se tocou que a foto precisava ser feita por um fotógrafo, portanto ninguém orçou. E por isso, como a produtora errou e a agência errou, e nenhuma das duas queriam tirar dos bolsos recheados uma porcentagem mínima para pagar o fotógrafo, o telefonema gentil pedindo de graça aconteceu. E puxando pelo ego (só você pode fazer como queremos). Como se eu não tivesse 35 anos de experiência no mercado.
Ora, o elo mais fraco é sempre o fornecedor.
Em Português claro, o profissional mais pobre de toda essa cadeia produtiva cliente>agência>mídia>gráfica>fotógrafo é o…
Fotógrafo.
E é justamente para esse que os outros profissionais pedem trabalho de graça.
Falta de respeito! A minha resposta foi a única possível…
NÃO.
Dane-se que a agência nunca mais vai trabalhar comigo. O importante é que da próxima vez, com outro fotógrafo, eles vão prestar mais atenção na hora de cometer erros básicos, tais como esquecer de orçar as fotografias.

E você, que atitude tomaria?

PS: Ahh, o cachorro da foto está bem vivo, cochilando na porta do buteco. É preguiçoso, só isso! :-)

Update 01: O Afonso, do blog AF, tem um post genial sobre os 10 passos para se fugir de uma roubada. Leitura obrigatória!