©2010 Clicio Barroso

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Nesta semana tive duas experiências reveladoras, ambas com fotógrafos de casamentos; na segunda-feira fui fazer uma consultoria de workflow para um casal de profissionais em Brasília, e no sábado fui ministrar um workshop (Lightroom) de um dia para profissionais que já chegam a São Paulo para o Wedding Brasil.
O workshop, em um estúdio de locação com três grandes salas, foi simultâneo com dois outros treinamentos, e as salas estavam lotadas; dentre os participantes de todas as partes do Brasil (uns setenta, segundo minhas contas extra-oficiais), profissionais já conhecidos, donos de empresas gigantes de fotografia, fotógrafos iniciantes, e wannabes.
Um elo porém os unia; a vontade não só de aprender, mas também de serem reconhecidos como mais um integrante daquela tribo, procurando o que os americanos chamam de “sense of belonging”. Apesar da patente discrepância de níveis de conhecimento, havia uma harmonia que se manifestava nas relações interpessoais que animaram os coffee-breaks.
A consultoria, por outro lado, foi no elegante home-office/estúdio do casal, e apesar de ser primordialmente técnica acabou permitindo uma troca bastante rica de informações, análises do mercado e da psicologia nas relações cliente/fotógrafos, incluindo o detalhe mais curioso; apesar do evidente sucesso financeiro e profissional de que desfrutam, o jovem casal, com apenas quatro anos de mercado e sem possibilidades de aumentar o número de clientes por já estarem absolutamente afogados em compromissos pré-agendados, não tem a menor idéia de como isso aconteceu. O porquê do sucesso, sem planejamento, sem grandes inovações técnicas, sem um investimento consciente em marketing de massa.
O que as duas experiências me mostraram com clareza, foi exatamente o que Seth Godin explica em seu livro “Linchpin”; a era da revolução industrial definitivamente acabou. Porém parece que a ficha ainda não caiu para os fotógrafos; não conheço tribo que reclame mais do “mercado” que o fotógrafo profissional, seja ele de que categoria for:
O marqueteiro procura fazer barulho online e offline, gastando seu tempo na obsessiva e autista ciranda: “Checar e-mail, responder e-mail, checar Twitter, postar um Twitt, checar o blog, ler os comentários, responder aos comentários, checar Google analytics, se desesperar pois o gráfico caiu dois pontos em relação a duas horas atrás, reclamar disso no Facebook, aproveitar para dar parabéns aos doze “amigos de Orkut” (friendlies) que nunca viu mais gordos mas que fazem aniversário hoje, checar e-mail, etc, etc, etc..” Um infinito círculo espiralado ascendente, desesperador, improdutivo. E ele só encontra tempo para se queixar.
O conformado faz o que “o mercado pede”, ou seja, nada de criativo, nada de novo, nada de interessante. Trabalha o tempo todo, não tem trégua, e por isso não precisa pensar. Pensar costuma ser doloroso… E ele reclama que não tem espaço para ser criativo.
O revoltado odeia o sistema, é talentoso, procura sempre fazer um trabalho diferente do que todos os outros estão fazendo, mas não consegue vendê-lo; acaba levando o trabalho para o patrão do conformado, que claro, é um dos que fazem o sistema, não entende nada de vanguarda, e não o compra. O revoltado fica sempre choramingando que o seu trabalho é bom, mas ninguém reconhece.
O moderninho faz faculdade, faz especialização, cita de Kant a Flusser sem pestanejar, indica curadores, frequenta todas as platéias de simpósios, seminários, palestras e encontros, acha que o seu trabalho vai mudar o mundo. Mas depois de alguns anos de estrada o seu trabalho revolucionário está nas agências de publicidade, nas grandes editoras nacionais e internacionais, nas revistas que acabam nos consultórios dentários. Digeridos. Assimilados. E não entendem como deixaram que sua fotografia chegasse aí.

A choradeira, o desespero, tem endereço certo:
1-) O fotógrafo antigo que encarou erradamente sua profissão como sendo um ofício, almejando a perfeição, em pleno auge do “pensamento fábrica”, que é: ter produtos bons o suficiente (mas não perfeitos!) para serem consumidos, ao menor custo possível, na maior quantidade possível, e usando os trabalhadores como autômatos acéfalos e baratos, substituíveis como peças de engrenagem; o ofício artesanal é que passou a ser dispensável…
2-) O fotógrafo novo, automatizado, consciente da necessidade de ainda ser aceito como peça nesta moribunda grande fábrica em que se tornou o mundo industrializado, não se aprimora o suficiente (pois a fábrica não exige isso), se vende para o sistem estabelecido (pois desta forma se encaixa em uma das engrenagens sem chamar muita atenção, para assim se perpetuar na mediocridade) e tem consciência que o produto de seu trabalho é uma commodity, onde preço e aparência são suficientes para manter a máquina funcionando; o lucro e a felicidade são privilégios apenas dos industriais. O trabalhador versus o capital, como tem sido nos últimos dois séculos.
3-) O fotógrafo-acadêmico, instruído, teórico, dogmático, que chega ao mercado com a arrogância dos pretensiosos, imaginando que o mundo é uma sala de aula e que os clientes são os amigos, com os quais pode resolver o mais cabeludo dos problemas tomando um porre no bar da esquina, e que tudo vai ficar bem na ressaca do dia seguinte. Acaba geralmente engolido pela “mentalidade operário”, e frustrado se torna crítico, professor ou curador, deixando o mercado da fotografia para os conformados. Costuma ser uma decisão sábia.
O fato é que, como Godin afirma, estamos na era pós-industrial, e esta mentalidade patrão-operário, capital-trabalho, mercado-academia, simplesmente morreu. Não existe mais espaço. A cauda agora é longa demais, como demonstra Chris Anderson. Os preços das commodities estão tão baixos (obrigado, China!) e tão equilibrados, que não faz mais diferença comprar desta ou daquela marca.
O que nos leva ao fotógrafo; a única forma possível de se adaptar à morte do sistema-fábrica, onde jornais simplesmente não podem mais contratar fotógrafos pois estão afundando, onde fotografar casamentos e eventos sociais para “ter o registro” é se condenar à guerra suicida de preços, onde fotografar de graça para agências de propaganda parece ter se tornado uma constante, é com arte.
Fazer arte, ter paciência artesanal, ser honesto, se relacionar positivamente com as pessoas sem segundas intenções, e dar presentes.
O presente de ser alegre.
O presente de ensinar sem querer nada em troca.
O presente de fotografar sem pensar em lucro, só por gostar de fotografar, e dar as fotos de presente para quem as aprecia ou vai ficar mais feliz ao exibi-las.
Ajudar a quem precisa, informar com honestidade, pesquisar para resolver problemas. Dos outros.
Só pelo prazer.
A arte de ser diferente. De se tornar indispensável.
Quem se destaca hoje é quem produz muito, sem distrações, cumprindo os seus prazos, dentro dos seus orçamentos, dando o melhor de si e sem esperar retribuição. Mostrando sua arte, se entusiasmando com ela, sendo fiel a ela.
Foi isso que o casal de Brasília não conseguiu explicar:
Por que fazem tanto sucesso?
Porque são o futuro. Porque não pensam nem como patrões, nem como operários.
Por que simplesmente fazem o que amam, se entregam sem restrições, ficam até o final da festa com os noivos, não mandam assistentes para o casamento “só porque está no contrato”, são artistas.
O mundo não precisa mais de fábricas, nem de operários autômatos, nem de patrões gananciosos.
O mundo precisa de pessoas indispensáveis.

Update 01: O casal ao qual me refiro em meu texto, Lorena e Rafael, gentilmente postou um breve artigo em seu blog, relacionado com o que falo acima.