livros sem qualidade

Burn, baby, burn | ©2010 Clicio Barroso

Semana passada, já prevendo um carnaval tranquilo e com algum tempo livre, fui fazer minha costumeira ronda pelas livrarias.
Eu adoro livrarias e bibliotecas, o cheiro de papel e tinta, as preciosidades que se escondem nas prateleiras, o silêncio respeitoso; é um prazer maior do que os antigos prazeres o foram.
Já não fumo cigarros. Já não fumo cachimbos. Evito carnes, gorduras e doces. Não dirijo tão rápido. Não tenho mais motocicletas.
Mas livros, esses nunca me deixaram desapontado, e tem o benefício adicional de não fazerem mal à saúde…
Ou sim?
Comprei um livro técnico, de conhecido e respeitado autor, e paguei por ele um valor considerável. O livro é uma tradução, já que foi escrito em língua inglesa, e eu poderia ter comprado o original, na Amazon, como costumo fazer com publicações específicas; na verdade, eu deveria ter feito exatamente isso.
Mas não o fiz.
Por estar com o livro nas mãos, por ser um assunto que me interessava, porque eu não queria esperar 10 dias, comprei e levei.
No prefácio, um susto; alguns errinhos ortográficos, algumas frases mal redigidas, mas de repente uma frase se torna um monstro:
“Você irá economizar mais dinheiro alterando o seu orçamento de marketing de oito ou oitenta mercado em massa para altamente almejado, marketing online com resultados mensuráveis.”
O que significa isso? Faz algum sentido? Será que preciso usar um escafandro para atingir tal profundidade?
Sigo lendo, e os sustos aumentam; “White Paper”, normalmente traduzido por relatório, é ali traduzido por…”papel em branco”!
Na Wikipedia, achamos na primeira googlada: “A white paper is an authoritative report or guide that often addresses issues and how to solve them. White papers are used to educate readers and help people make decisions. They are often used in politics and business, and technical subjects. In commercial use, the term “white paper” has also come to refer to documents used by businesses as a marketing or sales tool.”
(para uma melhor definição, procure no site “Techterms”).
Porém o termo “papel em branco” é utilizado em todo o livro.
Equivocadamente.
Logo adiante, surge um capítulo que fala de publicidade, e um dos subtítulos é sobre “Ad Copy”.  Qualquer estudante de primeiro semestre de faculdade de propaganda e marketing aprende que o termo significa “texto publicitário”; mas o livro, em todas as muitas instâncias em que “ad copy” nele aparece, o traduz por “cópia de anúncio”.
Vejamos a definição do termo no Businessdictionary:
“Ad Copy: Text of a print, radio, or television advertising message that aims at catching and holding the interest of the prospective buyer, and at persuading him or her to make a purchase all within a few short seconds…
…Also called advertisement copy, ad copy, or just copy.”
O que acaba me deixando inconformado, porém, é outra sentença, desta vez em destaque dentro de um box:
“Almejando altas frases KEI com um volume de pesquisa adequado da a você a melhor chance para rankear rapidamente em termos em particular por indo onde os outros não estão competindo muito, Sun Tzu.”
Obviamente há aqui um problema grave de tradução. De revisão ortográfica. De revisão técnica. De edição. De copy/paste. Não sabemos…
A impressão inicial é que um tradutor automático, eletrônico, foi utilizado para todo o livro, e algumas partes não foram alvo de revisão; em outras, como no exemplo acima, simplesmente parece a união de dois textos totalmente distintos em uma mesma sentença.
Mas esta não é a primeira vez que vejo isso. Há poucos meses, tive a oportunidade de ler um livro, desta vez sobre fotografia básica, onde o termo “telephoto lens” foi traduzido por “telefotografia” ao invés do correto, teleobjetiva; uma objetiva “wide-angle” foi traduzida por “ângulo-largo” ao invés de grande-angular, e assim por diante.
O remédio foi fazer uma engenharia reversa nos dois casos, traduzindo mentalmente os parágrafos incompreensíveis do português de volta para o inglês, para que tudo fizesse mais sentido, e então compreender o autor.
Triste.
O importante porém não são estes dois livros especificamente, pois eles poderiam ser acidentes isolados; deslizes compreensíveis, falhas das quais todos nós somos vítimas.
O importante é a frequência com que  essas falhas tem acontecido; na fotografia, onde a pós-produção se tornou mais importante que o ato de fotografar; na pesquisa, onde uma enciclopédia genérica e construída pelos usuários (a Wikipedia), e portanto sem o aval de especialistas para cada assunto, se torna a resposta conclusiva de muitas pesquisas, quando ela deveria ser apenas o ponto de partida; a superficialidade com que tratamos as nossas relações sociais, transformando ilustres desconhecidos no Twitter ou no Facebook em amigos e parentes virtuais, ao invés de dedicarmos mais tempo aos que nos cercam fisica e verdadeiramente; o jornalismo de manchetes, sem acompanhamento, sem aprofundamento, sem desfechos, frases soltas, sensacionalistas, econômicas, muitas vezes vazias. E livros em geral talvez não contem mais com o controle de qualidade que das editoras se espera.
Qualidade.
Palavra antiga, que foi substituída por termos mais contemporâneos como mídia das massas, custo-benefício, mercado de escala, varejo criativo. Trocar o excelente pelo mais ou menos. Trocar o profundo, que dá trabalho e exige competência, pelo raso, pelo imediato.
Não, não acho que pouco estudar seja algo de que devamos nos orgulhar; não, não acho que um livro “mais em conta” porém com tradução  incompreensível seja um bom custo-benefício; não, não quero deixar de ler a obra completa de meus autores escolhidos e substituí-la por apostilas, cópias xerográficas ilegais ou PDFs mal escaneados.
Quero pagar o preço justo por um produto cultural que me dá prazer, sem que haja ganância ou descaso por parte de quem o produz, e com a qualidade que espero.
Senão o prazer se acaba, e a vida fica chata, muito chata.

Update 01: Uma dica do comentarista Márcio Ramos nos levou a esse post de Luis Fernando Viana sobre os plágios: http://30porcento.com.br/blog/?p=31

Update 02: A editora do tal livro técnico entrou em contato comigo, admitindo as incorreções, dizendo que o livro poderia ser substituído, e mais importante, que o tradutor (que segundo a ficha técnica do livro se chama Arcanjo Gabriel – assim mesmo, Arcanjo nome, e Gabriel sobrenome) não faz mais parte de seu quadro de colaboradores. Vamos acompanhar e ver se melhora!

Update 03: Segundo o comentário do Luciano Gusmão, a pesquisadora e tradutora Denise Bottmann (http://naogostodeplagio.blogspot.com) já denunciou inúmeros casos de plágio em traduções. Seu blogue é uma referência no universo dos tradutores.

O que demonstra que a situação está ficando cada vez pior…

Update 04: A pesquisadora Denise Bottmann (http://naogostodeplagio.blogspot.com) agora está sendo processada e ameaçada de tirar seu blogue do ar, por uma editora. Manifeste-se e inclua seu nome no abaixo assinado de apoio a Denise Bottmann :: http://bit.ly/cWwgJG #Plágio_NÃO!