por clicio em 23 de maio, 2010
A enxada e a lente.
Uma das melhores e mais sensatas decisões que tomei este ano, foi ter atrasado em alguns minutos a aula de sábado na Pós-Graduação da UEL, para ir ver a exposição de Haruo Ohara no Museu Histórico de Londrina.
O museu fica na antiga estação férrea construída pelos ingleses, um primor de arquitetura, e tem um espaço expositivo amplo e adequado para a obra de Ohara, um imigrante japonês nascido em Koshi em 1909 e falecido em Londrina, aos 89 bem vividos anos, em 1998.
Trabalhador do campo, Ohara veio do Japão em 1927 e construiu sua vida na lavoura, criando seus 9 filhos, netos, plantações de café, frutas e flores com uma dignidade e dedicação invejáveis; fotografou consistentemente desde 1938, quando ganhou uma câmera de um amigo fotógrafo em Londrina. Deixou um acervo de 20 mil negativos, doados pela família ao Instituto Moreira Sales, que os preserva e cataloga. Aliás, o coordenador da Reserva Técnica Fotográfica do Instituto Moreira Salles, Sérgio Burgi, é o curador desta magnífica exposição.
A obra fotográfica de Ohara pode ser facilmente apreciada, já que há livros como os do próprio IMS, que eu vi em São Paulo junto a algumas belas ampliações; filmes, como o curta de Rodrigo Grota “Haruo Ohara”, uma biografia intitulada “Lavrador de imagens”, escrita por Marcos Losnak e Rogério Ivano; muita informação espalhada pela Internet (é só dar uma googlada rápida), e excelentes artigos, como o belo e completo que o crítico Juan Esteves escreveu sobre Haruo no blog do Paraty em Foco).
O que me chamou a atenção, além da imensa beleza poética das fotografias de Ohara, foi a forma como uma vida se apresentou, integra, completa, rica. O lado documental e histórico descreve a evolução e progresso de uma cidade, Londrina, e seu entorno rural; as relações afetivas, por vezes emocionantes, com os registros esteticamente cheios de energia dos nascimentos, infâncias, adolescência e transformações por que passaram todos os integrantes da vasta família; os retratos, por vezes formais, por vezes dinâmicos, incluindo os autorretratos; os experimentos, com os jogos de luz, os grafismos, as composições inusitadas e a poesia das suas paisagens, todas em texturas e conotações surpreendentes.
E então, abstraído e envolvido pela atmosfera da exposição, a música do vídeo projetado continuamente mostrando fragmentos daquelas vidas, as câmeras impecavelmente preservadas (sim, duas Rolleiflex e uma Voigtlander Bessa II, com caixas e manuais originais), sou surpreendido pelo depoimento espontâneo do amigo de Haruo Ohara e meu gentil cicerone, o Prof. Dr. Paulo Cesar Boni, dizendo:
“Tenho a mais absoluta certeza que estas fotografias só são o que são porque Haruo nunca pensou em comercializá-las; fotografou pelo amor incondicional que tinha pela fotografia.”
Claro.
Lógico.
Diante dos meus olhos.
Incontestável.
Qualquer tipo de concessão teria modificado, contaminado, desviado o modo de fotografar e estragado aquele universo construído por Ohara; não há como não se influenciar pelos desejos e respostas de compradores, curadores, galerias, decoradores, arquitetos, representantes da alta burguesia (ou a ‘elite’, como gostam de ser chamados), ou simplesmente do observador casual; o próprio ato de se expor, de mostrar o que para uns é apenas o cotidiano mas que para outros é arte, já transformaria o gesto fotográfico de Ohara em algo menos transcendente, mais mundano, e certamente esta perda da inocência seria refletida nas futuras fotografias.
E esta revelação trouxe consigo a certeza, agora tatuada em meu interior, que essa vida-fotografia de Haruo Ohara era a única possível para aquele poeta honesto, coerente, e sábio.









34 Comentários
Apaixonante a fotografia de Haruo! Um dos livros mais bonitos que tenho.. sem dúvida! Fotografias cheias de verdade.. de sentimento.. faz bem pra alma!!
Queria muito ter visto essa exposição.. que bom que você trouxe um pouquinho dela pra gente! =)
Clicio,
Belo post sobre o belo trabalho deste fotógrafo. Sinto não poder apreciar esta exposição pessoalmente.
Abraços,
Denis
Clício, é sempre uma alegria enorme ver o trabalho do Haruo Ohara. Sou um apaixonado pela vida extraordinária do Mestre.
Como londrinense agradeço o afeto.
walter ney
Clicio, vi uma reportagem na TV sobre a exposição deste fotógrafo. O que mais me chamou a atenção sobre esse brilhante trabalho foi os filhos na inauguração da exposição relembrando momentos da infância da família. Realmente nota-se claramente a vida rica, íntegra do fotógrafo e que você bem expressou em seus comentários. Belo post! Fiquei impressionado com essa exposição! Abs!
Só pelo pouco de fotos q pude olhar, já deu pra se emocionar. Genial! Obrigado por compartilhar esse momento seu. Vou correr atrás do que perdi agora (rs). Abs!
Clício, caríssimo…
Você vem tocando umas notas diferentes, vem pensando -nota-se isso no que escreve- sobre essa relação entre a verdade do depoimento do fotógrafo, aqui entendida não como “verdade da fotografia”, coisa sabidamente inexistente, mas como uma sinceridade fundamental, e é sobre ela que fala neste artigo.
Não é o primeiro texto seu que leio onde esse sujeito está, mesmo que por vezes oculto. Como alguém percorrendo um caminho perfeitamente circular, mesmo sem querer está se relacionando com o centro do círculo.
Penso, e aqui vão meus dois tostões, não ser necessário esse total desvínculo com o observador, com o mundo, etc. Neste caso mostrado foi assim, e é um caso extraordinário, então encanta, sugere ser preciso ser assim. Mas esse é o Yoga do ermitão. O caminho do ermitão não é o melhor caminho, ou pelo menos não é o único. Retirar-se do mundo não é solução, e nesse caso foi solução porque o fotógrafo estava no mundo através da lavoura, etc.
É no Karma Yoga, o “Yoga do açougueiro”, o Yoga da vida diária, do homem dentro do mundo que estão as nossas possibilidades (“incluí-me dentro” na maior cara-de-pau -risos). Penso ser possível igual sinceridade desde que a atitude seja como prescreve o Don Juan: “estar no mundo sem acreditar nele”, incluindo isso haver-se muito bem com as coisas do mundo.
É possível ser sincero. Creio nisso, busco isso, persigo isso. E é possível ser sincero e ao mesmo tempo ardiloso em relação ao mundo, assim o operando como deve ser operado. Não digo que saiba fazer isso, mas creio ser possível aprender.
Bacanérrimo o artigo. Adorei ler e adorei o pouco que dá para ver das fotos.
Grande abraço,
Ivan
Ivan,
Fico, por vezes, grato por sua perspicácia e assustado com sua astúcia.
O caminho sincero me parece bem atraente; o que me incomoda é a relação com o “tem que ser assim”, a praxis do mundano.
O sujeito oculto está pretendendo se ocultar de fato, e imergir em pensamentos eremitas é um meio de ser-não-sendo; o exemplo do Ohara me emocionou e abriu novamente uma porta que eu já considerava trancada há tempos… E você teve a habilidade de sacar isso.
Bom.
Ou ruim, não sei; não acreditar nesse mundo que me obriga a nele navegar é negar a minha própria existência, assustador. Mas libertador ao mesmo tempo.
Para ver muito mais fotos, dá uma olhada no artigo do Juan no blog do Paraty em Foco, é bem bacana:
http://www.paratyemfoco.com/blog/2010/01/haruo-ohara-por-juan-esteves/
Obrigado por comentar e me ajudar a pensar com mais clareza!
O trabalho de Haruo Ohara é uma das maiores marcas que tenho de Londrina e do período em que cursei a pós-graduacão na UEL. Fenomenal mesmo. Motivo de orgulho. Legal que tenhas puxado o tema.
Clicio , como nosso amigo Tulio tambem vi a materia na TV que falava sobre o lancamento dessa exposicão sobre o trabalho do Haruo Ohara , e tambem achei incrivel a surpresa dos filhos vendo fotos em que reviviam momentos tão inocentes e retratados de forma tão maravilhosa na sua simplicidade, é uma exposição que gostaria muito de ver e vou torcer para que venha a Sampa, para podermos aprender e desfrutar um pouco mais sobre beleza e simplicidade que Haruo com tanto amor deixou registrado.
abs
Tomy
Clicio,
Gostei…muito !
Haruo Ohara é fantástico, sem dúvida alguma e merece toda a atenção, principalmente por sua leveza ao expressar a vida da maneira como ele a percebeu.
Esse post me chamou a atenção em particular, justamente por estar reavaliando minha postura de sinceridade e pureza diante das minhas escolhas diárias (hoje foi realmente o dia das coincidências…ou não, já que tudo tem uma razão para acontecer). Você tocou em um ponto que mais cedo ou mais tarde atinge a vida de todo profissional e por que não dizer, de todo ser humano…qual medida usar entre você e o mundo.
Para mim, a vida só tem sentido se tiver mão dupla e também se tiver equilíbrio entre as duas partes. Fiquei pensando, que talvez Haruo tenha sido tão suave por ter encontrado…
Talvez, ele tenha aprendido a se distanciar o suficiente de si mesmo e do mundo para encontrar um caminho seguro para a sua fotografia.
Lindo post, este é para muita reflexão!!
Beijo
Graça,
É exatamente isso; leveza, suavidade e verdade (que o Ivan chamou de sinceridade).
Estou quase convencido que o distanciamento é necessário para que a sinceridade seja…
Sincera.
Tão bom ver você por aqui!
Homenagens a Haruo nunca são demais.
Parabéns, Clicio.
Lindíssima exposição pelo o que se viu por aqui e pelo link indicado.
Excelente texto e grato por compartilhar conosco Clicio
Há simplicidade, há cumplicidade, está claro na forma de Ohara tratar o assunto fotografado. Parabéns pelo texto e pela oportunidade de ter apreciado as imagens. Abs
Clicio, muito boa matéria! É preciso mesmo cultuar estes raridades brasileiras, sempre! Obrigado pelos links! Viva Ohara!
Clicio,
Somos seres fragmentados, compostos por diversas faces e estas, por comodidade criam representações que interagem com o mundo a nossa volta. Encaro o distanciamento do mundo, conseqüência natural do distanciamento de nós mesmos, ou seja, do afastamento de nossas faces até o ponto em que possamos visualizá-las como um Todo.
Ao encará-las a uma distância razoável, podemos perceber com clareza seu funcionamento, vícios e utilidade. O problema é que muitas vezes ficamos presos a uma ou a algumas delas que nos sejam mais confortáveis e convenientes. Feito isso, perdemos a noção de plenitude, assim como o poder de manipular, ligar, interligar e transformar nossa relação com o mundo. Nosso centro fica prejudicado, pois se desloca para um dos pilares que o sustenta.
A“sinceridade…sincera” nasce, acredito eu, da consciência como Ser Integral e seu domínio sobre ele, ou seja, ser conhecedor das potencialidades de si mesmo. Na teoria até parece fácil, mas a prática…dificílima…pelo menos para mim é.
Se você quiser “viajar” sobre esse tema, leia sobre as histórias por detrás da história na Lenda do Graal e os Cavaleiros da Távola Redonda linkados à alquimia. Outra leitura muito legal são os Os 12 Trabalhos de Hércules da Mitologia Grega. Os escritos psicológicos de Emma Jung sobre o tema acho cansativo, mas fica a sugestão.
Fui dormir e acordei pensando no seu post. Foi a primeira vez que encarei o assunto com uma aplicação prática através da arte, como a de Haruo Ohara. Consciente? Inconsciente? Só ele poderia nos contar como foi sua jornada, mas que vale um olhar atento sobre sua obra…ah!…isso vale. Grande sacada a sua !!
Tempos atrás, conheci o sobrinho de um fotógrafo (não por profissão, mas por amor a arte), que viveu em uma cidadezinha chamada Monte Aprazível SP. Ele, Francisco de Assis Rodrigues, farmacêutico por profissão, registrou um trabalho documental da cidade, entre as décadas de 30 e 60, sem nenhuma pretensão … Digo isto, porque foi a primeira coisa que lembrei ao ler o comentário do Prof. Dr. Paulo Cesar Boni “Tenho a mais absoluta certeza que estas fotografias só são o que são porque Haruo nunca pensou em comercializá-las; fotografou pelo amor incondicional que tinha pela fotografia.”
Acredito que pessoas como eles (o farmacêutico Francisco e, o fotógrafo Haruo Ohara, entre tantos outros) fizeram e ainda fazem muita diferença. Pois, através destas pessoas aprendemos o que é o “amor incondicional pela fotografia”.
Abço.
Edvaldo Santos
Ps: Cada dia que passa visiti mais este blog
Clicio,
mas uma vez fico feliz em poder ler as palavras escritas por você.
Acredito na sinceridade das coisas.
Em ser sincero e honesto em todas as relações que temos.
Acho que devemos que ser coerentes e verdadeiros em tudo que fazemos, e só poderemos mostrar a verdadeira essência do nosso trabalho fotográfico se seguirmos estes valores.
É tão fácil se perder pelo caminho! Ainda bem que Ohara não se perdeu, né?
bjo
Cacá
Caramba, Clício…
Este é bem o tipo de fotografia que me mantém na arte.
Outra coisa que me pegou… nasci em Londrina e as memórias mais intensas da minha infância são as viagens que fazia de trem, saindo e voltando para aquela estação. Morria de curiosidade pra saber o que tinha dentro daquela bilheteria-totem cercada de filas-raio. Grande abraço!
fotos que transmitem grandes emoções. as pessoas muitas vezes não percebem que a beleza esta nas coisas mais simples…
beijos Clicio e espero fazer um curso com você.
Arte e talento são fundamentais, porém Haruo Ohara nos mostrou que para ter resultados brilhantes é imprescindível o amor pelo que se faz, pela natureza, pela família e amigos, enfim nos deixou uma obra que vale a pena conhecer. Eu fui e recomendo! Parabéns pelo blog!
O Haruo Ohara é o meu fotógrafo de cabeceira. Que satisfação vê-lo aqui! : )
Nossa estou surpreso em ver as imagens do haruo aqui também ainda apouco tempo fiz um trabalho junto com Walter Ney sobre os 100 anos deste fotografo incrível e tive o prazer de ver as imagens que são fantásticas …
Soube do Haruo no início da década de noventa.
Em 93, acho que na segunda Bienal de Fotografia de Curitiba, fez-se uma bela individual dele.
Eu que nasci naquela região, revi todo o imaginário da minha infância entre os japoneses de Nova Esperança naquela mostra.
É a melhor síntese da saga japonesa que veio ao Brasil pra ganhar terras e foi tratada como escravos na plantação de café que requeria muita mão de obra.
Londrina foi erguida, não pelos ingleses, mas sim pelo café plantado e colhido pelos japoneses.
Mas o que vale aqui, realmente, Clicio, é a resignação.
É o conceito Zen, em sua mais perfeita tradução:
As coisas existem, independente de serem vistas.
Quando em sua “grata satisfação” ele fez as fotos, entre um roçado e outro, não foi para ele ver, mas sim para a humanidade acreditar que há poesia, mesmo na adversidade.
O Haruo nos deixa um belo diário de uma gente delicada, sábia e paciente.
Belas tuas palavras pra decifrá-lo, Clicio,
Lina,
Belas as tuas palavras.
E me deixa tão feliz saber que você, poeta das lentes e das letras, entende o Haruo como eu o entendo.
Sinergia.
Clicio
Ola Clicio…Impressionante as fotos….como elas remetem o sentimento do fotografo…É com aconteceu algo comigo….estava fazendo o meu curso de fotografia e o professor de estudio falou…Fotografia tem que estar na veia….O engraçado que eu ja tinha marcado para a outra semana a minha tatuagem no ante braço…que é uma camera fotográfica e os rolos de filme etc…é assim fotografia tem que estar na veia, nos olhos no coração, na respiração…lindas fotos…lindo sentimento…lindo momento…
Obrigada!
Realmente um maravilhoso, importante e histórico trabalho! Não o conhecia. Clicio, obrigado por divulgar!
Me tocou muito o que o Prof. Dr. Paulo Cesar Boni disse… muito
Clicio,
Teu texto ilustra de maneira magnífica fotos que nos transportam a este Brasil rural que me encanta e impregna a alma sem nem mesmo eu saber porque.Obrigado por me apresentar H.Ohara.
Eu achei 10 e depois volto aqui para comentar com calma. É justamente essa fotografia que me emociona. Essa fotografia é magnifíca!
Meu pé vermelho ficou ainda mais vermelho. Orgulho !
Sabe?! Emocionante isso tudo. Demais.
Clício, emocionante e perturbador ao mesmo tempo, principalmente para aqueles que vivem da fotografia, como eu. O que estamos fazendo com o nosso olhar? Haverá uma maneira de “descontaminar” nosso olhar, sendo pagos para isso? De uma forma ou de outra, o exemplo desse roceirofotografopoeta é inspirador. Obrigado por nos fazer pensar, de novo!
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[...]Denis Monteiro said: Post sobre o trabalho de Haruo Ohara! RT @clicio: O link direto: "A enxada e a lente." Haruo Ohara, por @clicio . :: http://bit.ly/bVsIZy [...]
[...] Clício Barroso escreveu um artigo muito legal sobre Haruo Ohara em seu blog, intitulado “A Enxada e a Lente”. [...]
[...] http://www.clicio.com.br/blog/2010/a-enxada-e-a-lente/ [...]