Haruo Ohara  |  IMS

Haruo Ohara - Autorretrato | IMS

Uma das melhores e mais sensatas decisões que tomei este ano, foi ter atrasado em alguns minutos a aula de sábado na Pós-Graduação da UEL, para ir ver a exposição de Haruo Ohara no Museu Histórico de Londrina.

Museu Histórico de Londrina

Museu Histórico de Londrina - Lindo!

O museu fica na antiga estação férrea construída pelos ingleses, um primor de arquitetura, e tem um espaço expositivo amplo e adequado para a obra de Ohara, um imigrante japonês nascido em Koshi em 1909 e falecido em Londrina, aos 89 bem vividos anos, em 1998.
Trabalhador do campo, Ohara veio do Japão em 1927 e construiu sua vida na lavoura, criando seus 9 filhos, netos, plantações de café, frutas e flores com uma dignidade e dedicação invejáveis;  fotografou consistentemente desde 1938, quando ganhou uma câmera de um amigo fotógrafo em Londrina. Deixou um acervo de 20 mil negativos, doados pela família ao Instituto Moreira Sales, que os preserva e cataloga. Aliás, o coordenador da Reserva Técnica Fotográfica do Instituto Moreira Salles, Sérgio Burgi, é o curador desta magnífica exposição.

A belissima montagem das fotos de Ohara

A obra fotográfica de Ohara pode ser facilmente apreciada, já que há livros como os do próprio IMS, que eu vi em São Paulo junto a algumas belas ampliações; filmes, como o curta de Rodrigo Grota “Haruo Ohara”, uma biografia intitulada “Lavrador de imagens”, escrita por Marcos Losnak e Rogério Ivano; muita informação espalhada pela Internet (é só dar uma googlada rápida), e excelentes artigos, como o belo e completo que o crítico Juan Esteves escreveu sobre Haruo no blog do Paraty em Foco).

haruo Ohara

Ampliações de alta qualidade e beleza

O que me chamou a atenção, além da imensa beleza poética das fotografias de Ohara, foi a forma como uma vida se apresentou, integra, completa, rica. O lado documental e histórico descreve a evolução e progresso de uma cidade, Londrina, e seu entorno rural; as relações afetivas, por vezes emocionantes, com os registros esteticamente cheios de energia dos nascimentos, infâncias, adolescência e transformações por que passaram todos os integrantes da vasta família; os retratos, por vezes formais, por vezes dinâmicos, incluindo os autorretratos; os experimentos, com os jogos de luz, os grafismos, as composições inusitadas e a poesia das suas paisagens, todas em texturas e conotações surpreendentes.
E então, abstraído e envolvido pela atmosfera da exposição, a música do vídeo projetado continuamente mostrando fragmentos daquelas vidas, as câmeras impecavelmente preservadas (sim, duas Rolleiflex e uma Voigtlander Bessa II, com caixas e manuais originais), sou surpreendido pelo depoimento espontâneo do amigo de Haruo Ohara e meu gentil cicerone, o Prof. Dr. Paulo Cesar Boni, dizendo:
“Tenho a mais absoluta certeza que estas fotografias só são o que são porque Haruo nunca pensou em comercializá-las; fotografou pelo amor incondicional que tinha pela fotografia.”
Claro.
Lógico.
Diante dos meus olhos.
Incontestável.

Haruo Ohara
Haruo Ohara

Qualquer tipo de concessão teria modificado, contaminado, desviado o modo de fotografar e estragado aquele universo construído por Ohara; não há como não se influenciar pelos desejos e respostas de compradores, curadores, galerias, decoradores, arquitetos, representantes da alta burguesia (ou a ‘elite’, como gostam de ser chamados), ou simplesmente do observador casual; o próprio ato de se expor, de mostrar o que para uns é apenas o cotidiano mas que para outros é arte, já transformaria o gesto fotográfico de Ohara em algo menos transcendente, mais mundano, e certamente esta perda da inocência seria refletida nas futuras fotografias.
E esta revelação trouxe consigo a certeza, agora tatuada em meu interior, que essa vida-fotografia de Haruo Ohara era a única possível para aquele poeta honesto, coerente, e sábio.