por clicio em 6 de outubro, 2009
O pêndulo e a imagem
“O pêndulo e a imagem”, é um artigo originalmente publicado na Ed. n# 27 da revista Photo Magazine, sobre o uso exagerado do Photoshop.
Já há muito tempo se tem falado e discutido sobre o uso abusivo e exagerado do tratamento de imagens, suas consequências para a fotografia contemporânea, e seu óbvio distanciamento de uma suposta “realidade da captura”. O assunto é polêmico e merece uma reflexão mais apurada, sem levar em consideração apenas a diversão e comicidade dos absurdos postados em sites como o Photoshopdisasters, mas também discutindo a necessidade e as consequências éticas de se transformar radicalmente as fotos, sejam elas comerciais ou autorais.
O estranho é que o principal aplicativo para se processar fotografias acabou se tornando um verbo; “Vou photoshopar aquela, esta ainda não está photoshopada…” dizem os que dele se utilizam, mas a verdade é que o programa sozinho não faz nada, nem é capaz de modificar ou alterar realidade alguma. O problema está certamente com o operador, com o cliente e com quem consome estas imagens.
O que deveria ser apenas uma excelente ferramenta de ajustes tonais, cromáticos e de pequenos retoques, acabou se tornando, nas mãos de usuários inábeis, em vilã da modernidade. O Photoshop é certamente poderosíssimo, e possui mais de 5 mil comandos e menus, permitindo desde o processamento básico e necessário da imagem Raw (através do plugin Adobe Camera Raw), até fusões complexas envolvendo módulos de 3D e vídeo. Isso possibilita, caso assim se deseje, um completo distanciamento visual da imagem daquilo que pode-se considerar como a sua origem, que é a captura digital ou a digitalização de filmes. Muitas vezes este distanciamento é intencional, mas pode ser meramente acidental.
Este poder quase ilimitado de manipulação tem sido usado comercialmente pela publicidade, pelas editoras de revistas e pelo jornalismo, provocando uma mudança profunda no modo de se olhar fotografias, alterando nossa percepção visual e fazendo com que a imagem que era perfeitamente aceitável há dez anos em termos de qualidade, seja agora considerada “tosca”, mal acabada. Quanto mais jovem é o observador, mais este fenômeno se torna evidente, e exemplifico: Tenho duas filhas que praticamente nasceram com o mouse nas mãos, uma de doze e outra de quinze anos. Ambas cresceram vendo-me trabalhar com tratamento de imagens, e comprovando os resultados antes-depois, o que as permitiu desde cedo desenvolver um senso crítico em relação às fotos que observam nas revistas e nos anúncios de publicidade; pois bem, fotos que não sofreram nenhum tipo de tratamento além dos estritamente necessários (ajustes de contraste, balanço de brancos e cores) são por elas consideradas “não-acabadas”, e imediatamente chamam sua atenção. O difícil é explicar que aquilo que estão vendo é muito mais próximo da visão original do fotógrafo do que um excesso de manipulação, pois o seu modo de ver imagens já está contaminado, viciado na pós-produção digital.
O pior, porém, é o fato de percebermos a decadência progressiva da qualidade destes tratamentos; o ofício que já foi domínio absoluto de especialistas e fotógrafos, passou a ser disponível a todo e qualquer indivíduo que possua um computador e um aplicativo gráfico instalado, fazendo com que aberrações de todas espécies fossem aceitas, publicadas e muitas vezes elogiadas.
No caso de fotos de pessoas, é praticamente obrigatório o uso exagerado das ferramentas de suavização de peles, ou de ajustes estruturais tais como afinar cinturas, tirar celulites, eliminar as rugas e aumentar a estatura. E não apenas é exigência das publicações, mas também dos próprios fotografados! Porém, quando são feitos por quem não tem noção de luz e sombras, proporções, anatomia e texturas, os resultados tendem a ser catastróficos. Por outro lado, mesmo aqueles profissionais que possuem as habilidades técnicas para realizar o trabalho com perfeição, são muitas vezes levados ao exagero por imposição de quem os contrata, aqueles que assinam o cheque, que obviamente deveriam estar cuidando de outros assuntos e deixando o bom profissional decidir qual é o limite do verossímil, do ético e do estético.
A doença parece ter se tornado crônica, pois nos últimos meses uma enxurrada de absurdos tem sido publicados e criticados, desde a famosa “pele de plástico” das capas das revistas femininas, até o embelezamento vergonhoso de zonas de conflito pelo fotojornalismo, como recentemente aconteceu com as fotos do Irã.
Concluímos assim que recentemente o pêndulo do inaceitável atingiu seu ápice, e para voltar ao ponto de equilíbrio uma contra-proposta está se apresentando: o uso do “não-Photoshop”. Fotos sem maquiagem, sem processamento algum além daquele efetuado pela câmera, sem tratamento de nenhuma espécie. É uma tendência que toma corpo e tem se intensificado com o passar das últimas semanas, mas que tem encontrado forte resistência, pois apesar do entusiasmo dos fotógrafos e editores que a apóiam, o público não consegue mais enxergar beleza no que está próximo ao cotidiano. Pensa que a fotografia sempre tem que ser manipulada, glamurizada.
Minha opinião é que a própria inércia (e a gravidade) vão trazer de volta o equilíbrio desejado ao pêndulo; fotos processadas que exibam o olhar do autor, ou fotos tratadas que tenham um fim comercial definido, vão ser menos falsas e mais próximas de um dia a dia tangível, retomando a sensação de verdade que acompanha a fotografia mais direta, o “espelho com memória” que tanto nos tem fascinado; e o Photoshop, bem utilizado, vai continuar dominando as operações de processamento/ajustes/retoques, absolutamente necessárias e inevitáveis quando se trata de fotografia digital.
Update 01: Artigos relacionados: Fotoxópi, Phase One, Photoshop vilão, Gente Normal.
Update 02: Mario Amaya também colocou o assunto em xeque na Photoshop Creative, veja o blog.
Update 03: Este artigo está diretamente relacionado aos equívocos do ensino fotográfico.




39 Comentários
Clicio.
Parabens mais uma vez. O conceito do pêndulo é corretíssimo.
Todo o seu texto confirma outra máxima: A diferença entre o veneno e o remédio é apenas a dose.
A palavra mágica é o equilibrio, como você bem colocou ao final de seu texto bem elaborado.
Algo difícil de ser aceito em tempos modernos, mas que sem duvida é o caminho mais adequado.
Abs
Vale lembrar para o jornalismo e o fotojornalismo, ou até publicidade e demais vertentes da comunicação que questionar é necessário. Não tomemos como verdade absoluta tudo o que consumimos, pois teremos como resultado ações realizadas sobre a base do “irreal”.
Abs
Uma das consequências mais desagradáveis desse paradigma fotochopiano é quando voce consegue uma foto realmente insólita e inédita e tem que se defender aos que dizem ser truques do programa.
Francamente, a maior parte da foto de publicidade atual, bem como grande parte das fotos de moda, cansa minha vista. É muita punheta nas luzes e nos matizes, muita deformação geométrica, tanta mexeção sem parâmetro que a imagem perde todo o impacto expressivo, o frescor, a vida. Parecem demais aquelas pinturas academicistas e neoclássicas insossas do século 19, que os impressionistas e modernistas combateram com razão. Tem horas que folhear o primeiro caderno da Veja dá a impressão de um passeio no museu, de tanta foto manicurada que tem.
Como manipulador de imagens desde 1993 – a exata época em que o Photoshop começou a roubar a cena do Scitex na manipulação digital -, atesto que a qualidade estética e criativa das fotos comerciais veio decaindo na mesma proporção em que a qualidade técnica foi assegurada pela captura e tratamento digitais.
Confira o artigo que escrevi no site Photoshop Creative sobre o projeto de lei na França que obrigará a anexar tarjas de advertência em fotografias comerciais alteradas: http://www.photoshopcreative.com.br/artigos/aq124-129-7270-1-cerco+contra+excesso+de+photoshop.html
Oi Clicio,
Interessante demais seu post,
Confesso que senti um bombardeio de diferentes emoções ao ler ele, parabéns.
Lembro nas aulas de história da arte e estética, quando faziam a comparação histórica da pintura antes e depois da fotografia. Antes da fotografia, a pintura caminhava ao realismo, à busca pela representação real da imagem através dos pincéis; já depois do surgimento da fotografia, que conseguirá de vez captar a realidade da imagem, a pintura ganhou asas e se desprendeu da realidade, buscando o lúdico, a fantasia, ficando assim somente a cargo da fotografia a representação totalmente capaz da real realidade. A fotografia foi naquela época uma ruptura importante para o conceito de arte na pintura de telas.
Hoje com esses softwares de edição como o photoshop, que a inicio eram para ser usados para calibração da imagem e retoques, a imagem se expandiu novamente do real ao lúdico. Mas dessa vez isso acontece na fotografia e não através da fotografia, a grande maioria das fotos comercializadas hoje nos books, ensaios de moda, revistas e até para o cliente comprador (cidadão normal), o tratamento é exigência e não um diferencial. Creio eu, na minha humilde opinião, que o problema seja essa padronização de ponto de vista, fazendo que o fantasioso seja considerado o básico, e não é.
Hoje vejo no mercado fotográfico, que é fundamental o fotógrafo vender sua imagem maquiada pelo photoshop em todos os sentidos, maquiada na iluminação, na cor na pele, nas formas. A imagem entregue é um sonho do que eles queriam que fosse o real, mas como todo sonho, uma fantasia.
Eu sou um profissional de edição de imagens, e digo que todos os fotógrafos com que já trabalhei, querem imagens assim, lógico que com variação, uns com tratamento leve, outros um pouco forçado, e alguns vendem bonecas. O trabalho é feito e oferecido conforme a necessidade dos clientes, enfim no final das contas a assinatura em baixo da foto é do fotógrafo, o ponto final é dele, a aprovação é dele.
É um ciclo vicioso esse, clicio, fotógrafos, clientes, operadores, mas principalmente o mercado.
O mundo hoje vive uma busca ao natural, em todos os aspectos desde a sustentabilidade comercial à humanização das pessoas, acho e sinceramente espero que isso chegue logo a fotografia, que volte a ser natural, que a imagem vendida seja a imagem captada, com leves retoques digitais, mas principalmente arquitetada em luzes, sombras, contratastes, posições e sobreposições. Até porque muitas vezes acontece uma coisa que me incomoda muito, a responsabilidade da qualidade final da fotografia tem sido dedicada ao famoso photoshopista, visto erroneamente como o homem dos milagres, sendo assim a fotografia deixaria de ser do fotógrafo para ser do manipulador.
Mas na verdade a fotografia é do modelo, ele sim é real.
Demais esse post!
ahh só não acabem com os retoques digitais, se não perco meu emprego! rsrs =].
mas total apoio ao equilibrio.
abraços
As fotografias podem estar mais ou menos próximas da ilusão de uma realidade tangível, mas nunca estarão mais ou menos próximas da realidade de fato. Daí, tanto faz muito ou pouco Photoshop.
Clicio;
A fotografia gozou, sem merecer totalmente, estatos de atestadora da realidade, quase uma instância metafísica sem ambiguidade capaz de atestar o que é real e o que não é.
O David Hockney deu uma entrevista há uns seis ou cinco anos na qual diz estar a fotografia aproximando-se da pintura, ou seja, assumindo os valores da pintura. Um pintor quando desenhava o Rei o fazia maior, mais alto, o fazia em um lugar de destaque da fotografia e acentuava sua fisionomia de serenidade, majestade, justiça. A fotografia atualmente tem uma tendência a isso também.
Penso que cada um deve ter clareza do seu dogma interno. Tenho os meus, eles são conscientes, eleitos livremente e referem-se àquilo para mim importante. Eles não permitem a alteração da captura no que tange a acrescentar ou retirar objetos. Mas eles não são universais, são tão somente os dogmas que me definem condições criativas afins com minhas tendências.
A fotografia publicitária, por sua vez, trabalha com idealizações. Isso é necessário deixar claro, pois ela não trabalha com o Real, seja isso o que for, mas com idealizações. Ela participa do processo de gerar idealizações, as quais contrastadas com a vida experimentada pelo sujeito o mantém em um desejo-falta, no qual sofre por não ser ideal e tenta comprar o ideal. Assim, ferramentas capazes de aumentar o potencial de idealização, como o PS, são absolutamente afinadas com o propósito da publicidade.
Ivan,
Obrigado por comentar.
Isso (“…ferramentas capazes de aumentar o potencial de idealização, como o PS, são absolutamente afinadas com o propósito da publicidade.”) também são dogmas (da publicidade) que estão caindo por terra.
As mais recentes estatísticas mostram que é muito mais importante para as novas gerações a opinião de alguém a quem eles admirem (e que confiem) para a decisão das suas compras; ninguém mais acredita na publicidade, só os publicitários.
Com isso, o bordão da “imagem idealizada=desejo de compra” começa a ruir, e consequentemente esta pertinente discussão tenta entender os porquês.
Gostei do seu artigo na Fotografia em Palavras !
Clicio,
nem todos os publicitarios acham que o idealismo é o caminho hj da publicidade.
sou publicitario, e apesar de trabalhar com fotografia a algum tempo, nao abandono minha formação, gosto do mundo lúdico da publicidade.
hj a maior tendencia da propaganda é a comunicação “peer to peer” feita do usuário para o proprio usuário, quebrando o famoso cliclo de “emissor>mensagem>receptor” . Hoje o próprio receptor pode ser o emissor, não somos totalmente frutos da comunicação de massa. Voltamos a um aspecto da geração punk, faça vc mesmo! graças a tecnologia e a imensa possibilidade de vc repassar o que pensa.
idéias e diferenças, melhor assim.
Fotografia: sensaçao de verdade? não acredito que cunhou isso professor! ta melindroso com os “photoshopeiros” professor? Quem manda fazer tanta video aula e livro do lightroom… haha é serio, culpa sua e só sua!! hehehe
Isso é interessante. Em um ambiente saturado de idealizações, a confiança tornar-se importante.
Vamos ver como essa história se desenvolve na publicidade. Não sei…, suspeito que o naturalismo possa ser assimilado como mais uma idealização.
Obrigado pelo comentário lá.
William,
Exato.
Há publicitários e publicitários.
O problema é que o tweet (ou a ficha, como preferir) caiu para poucos; há de se pensar na eficácia de anúncios que custam o preço de um carro, veiculados nas revistas semanais (que ninguém mais lê pois já chegam nas bancas “velhas”), e quando *caso* sejam lidas, os anúncios são solenemente ignorados.
Absolutamente transparentes, páginas de anúncios aparentemente não existem.
Agora me diga; *quem* está (ainda) “criando” essas peças publicitárias?
Ah.
Sei.
Eu não sou nenhum dinossauro que trabalha desde 1500 com da vinci na fotografia, tenho apenas 10 anos de praça e muito que aprender, mas estou muito disposto a isso e procuro sempre aprender mais.
Mas a contraponto disso, gosto muito do que faço, amo essa dedicação a construção de imagens, isso me fascina desde crianca com meus lápis coloridos nas mãos.
É divino esse poder de criar, só nao é divino o mau profissionalismo, o que muitas vezes o ps é usado injustamente para corrigir aberrações nas fotografias. Já vi cada coisa…
Sou totalmente a favor desse uso de retoque digital, com equilibrio, isso é fundamental.
Claro que a culpa não é só minha!
Mas tenho minha parcela sim.
Ensino a ferramenta. Os outros fazem dela o que bem queiram…
é verdade clicio,
são muito poucos, o excesso de informação é tanto que nem da tempo de surpreender, ou se dá é instantaneo, quando viu já foi.
um colega meu uma vez usou um termo que achei incrivel, que esse fenomeno da internet, esse boom de informações e atualizações, é uma masturbação mental, nao é real, fantasioso e com uma variação enorme e rapida de emoções.
talves marcas muito bem formadas nao se preocupem em inovar e realmente navegar contra fluxo, dizer zig enquanto todo mundo diz zag, é preciso sair do quadrado.
é necessário que grandes assim como essas megaempresas, formadores de opiniao e filantrópicos adotem essa posição no mercado.
Mudar a si próprio para o mudar o todo.
Bingo!
“Sou totalmente a favor desse uso de retoque digital, com equilibrio, isso é fundamental.”
Boa, William, foi o que eu disse lá em cima!
O Ivan, por sua vez, faz um comentário interessante; pode ser que a fotografia passe realmente a ser como a pintura, livre do espelho, e se torne mais…pictórica.
O que pode ser ótimo; nada substitui a experiência, e já que a fotografia *nunca* vai ser a própria experiência, que se liberte!
Eu estou preferindo *viver* a experiência, ao invés de fotografá-la para torná-la uma substituta.
Como já disse antes,
viva a diferença!
isso mesmo clicio, a experiencia, a novidade, isso é arte amigo.
adorei o artigo =]
Bingo Clício.
Muito bom você retormar este tema. Nunca é demais. Acho que todos nós ainda estamos ora pendendo de um lado, ora de outro. Mas quando todos compreendermos melhor o processo, acho que tudo ficará mais claro. Afinal, o processo não tem problema. O problema está – como você bem disse – em quem o usa.
Não sei se concordo muito com o fato da fotografia aproximar-se da pintura. Nunca foi bom para ela quando isso aconteceu ao longo de sua ainda jovem história. Lembro sempre da frase do Alfred Stieglitz, um dos primeiros a querer reconhecer a fotografia como uma expressão autônoma: “os fotógrafos deveriam parar de se envergonhar por fazerem fotografia”.
Gostei do seu texto.
beijo
Simonetta
Simonetta,
É uma honra vê-la comentando meu artigo, e uma honra maior ainda o seu comentário final.
Concordo com você e com o Alfred; mas isso não impede que a fotografia seja abstrata, concreta, onírica, hardnews ou que que bem entender; o importante aqui é que se liberte definitivamente e, ademais, vejo este exagero de tratamento muito mais próximo a ilustração publicitária do que à pintura!
E isso sim, me incomoda…
beijo,
Clicio
MUITO BOM !
Gostei amigo Clício
Abçs
Ayrton
Meus amigos, estou confuso! Não sei se me apego ao meus sentimentos puristas ou meu lado prostituta de ter que me vender ao que o mercado pede. Porque somos o que o mercado determina. O mercado determinou que os puristas amantes da velha maneira de fazer fotografia com a luz bem feita, o cuidado na produção, a alfaiataria do click pensado, fossem marcados como dinossauros e que tem que desaparecer.. Hoje vejo que conversa de fotografo parece de engenheiro. Não escuto nada sobre a arte da fotografia. Não escuto nada sobre Avedon, Newton, Miro, Horst, muitos outros que sempre foram e serão fotografos, simplesmente fotografos.
Paulo,
Não fique confuso. Faça o que eu estou fazendo; saia do mercado e volte a viver!
Nossa!!!!!! Clicio!!!! Essa tua resposta foi incrível!!!! A conversa entre vc e o Ivan me fez perder o sono com a lembrança de um artigo que escrevi ainda em 2000 na faculdade de jornalismo sobre a ética na manipulação digital da imagem. Mal sabia eu que no mundo do trabalho que escolhi viver, ou “fui escolhida”, me depararia com estas realidades quase que diarimente.
Tantos anos sem ter autonomia pra decidir quanto a imagem pode ou deve ser manipulada, pois como disseram alguns: ” o mercado dita as regras do jogo”, muitas vezes me fizeram desanimar do ideal fotográfico que me fascinou em 1991, quando ainda se arquitetava cuidadosamente a foto. Ultimamente tenho dedicado algum tempo para um trabalho autoral que renove minha paixão pela fotografia. Uma espécie de protesto contra a plastificação da beleza, da qual também já fui vítima.
Fico extremamente feliz em ver que essa discussão está ganhando novo fôlego. É também muito gratificante ver a Simonetta com toda sua sabedoria acrescentar que a fotografia tem seu valor por si.
Parabéns por ter iniciado toda esta reflexão Clicio!!
Ainda queria só deixar claro que não sou contra o Photoshop, pelo contrário, sou a favor do seu uso equilibrado e coerente com cada realidade a que se presta a fotografia.
Abraço Clicio e parabéns novamente!
Joelma Scatambulo
Começando na fotografia, no tratamento de imagens, e na semiótica.
Tive que trabalhar com tratamento no meu último estágio, e aprendi um bocado de coisas. Mas o que eu mais tenho refletido é essa questão do “real” na fotografia.
Refletido tanto, que esse questionamento é uma das bases do meu TCC; até onde podemos chamar a fotografia de “retrato da realidade”.
Mas penso que o traço de realidade capturado pela fotografia não está necessariamente atrelado à suposta realidade da imagem manipulada em softwares. Penso que manipular uma cena para extrair dela o melhor ângulo e uma foto que transmita o que você queria mostrar é uma coisa; manipular uma foto de um corpo feminino até tirar todas as suas imperfeições características é outra coisa.
Pra mim, a manipulação é válida de acordo com o seu propósito. Uma peça publicitária de um perfume numa revista permite a manipulação em níveis extremos, até que a paisagem se apresente onírica. É parte da mensagem que a peça pretende passar.
Agora, transformar mulheres, por mais bonitas que sejam, em manequins plásticos, pra mim é exagero, e errado. Porque esse tipo de imagem é o que tem modificado o comportamento de muitas mulheres em busca de algo que elas nem se dão conta de que não existe. [me inclua fora dessa, obrigada! rsrsrs!]
Por outro lado, de volta à peça publicitária, a foto do hambúrguer lindão e suculento no cardápio aumenta exponencialmente a decepção no momento em que a gente recebe o sanduba na mesa.
É tudo uma questão de equilíbrio… e eu diria também de bom senso.
2º dia de debate desse tema! E que tema hein clicio!?
show de bola!
Isso ainda gera muita polêmica, manipular ou não manipular, e a realidade é que isso como disseram quando no seu cenário apropriado é necessário. A verdade é que a publicidade é lúdica, é fantasia, é um trabalho na mente do consumidor, a campanha total, muito além da foto já foi manipulada para que seja esse o resultado final, a fotografia é só mais um item manipulado, é um item dessa peça cheia de tramites que é uma campanha publicitária, sendo que os principais são o consumidor e o produto, a publicidade não impõe verdades, isso não, mas creio eu que ela mostra um ponto de vista estrategicamente planejado para o que o consumidor quer ver.
veja só como isso reflete no nosso mercado fotográfico, eu não sou fotografo, trabalho nesse backstage maluco.
No lugar certo, com o equilíbrio certo, é correto.
Para comercializar a foto nesse segmento ainda é preciso essa manipulação, pelo lado prostituido do mercado, como um produto ou serviço a ser vendido ainda é um mal necessário.
Mas como arte, como desenvolvimento experimental, como projeto pessoal ai sim, acho necessário a fotografia como fotografia, a busca pelo auge da técnica, do feeling, do novo.
Assim com isso talvez ajude a modificar esses padrões do mercado.
Bom dia para vcs!
William
A manipulação sempre existiu, mas dependendo da finalidade é legal. O exagero, a fim de deixar algo perfeito demais, acaba caindo no ridículo.
As revistas masculinas e ensaios com mulheres trazem isso à tona.
E as campanhas publicitárias, então? O concorridíssimo prêmio Wessel traz tanta manipulação que a foto em si se esconde atrás de um grande retocador de imagens. Não desmerecendo a competência de muitos fotógrafos que fazem um trabalho ótimo, mas que no fim das contas tampouco reconhecem o próprio clique.
Enfim, cada um sabe o que faz ou deve fazer!
Mais lenha na fogueira:
http://www.photoshopcreative.com.br/artigos/noticias/aq124-129-7299-1-novos+rounds+na+luta+contra+o+photoshop+abusivo.html
Olá Clicio e Simonetta
Que bom ver esses comentários. Sobre essa questão da fotografia/pintura, na cabeça de muita gente acho que primeiro virou fotografia x pintura, depois fotografia&pintura e agora caminha para fotografia=ou>pintura. Não entendo porque. Ou melhor, temo que a motivação maior não seja estética e sim mercadológica e pior, com ares de que a fotografia tem que “salvar a arte contemporânea” (seja lá o que isso signifique) da sua estagnação. Nesse caso as potencialidades do PS estão substituindo as horas e horas dedicadas sobre uma chapa de gravura por por pessoas como Picasso, Matisse, etc.
Mas “só os publicitários acreditam na publicidade” é perfeita. O que acho engraçado é que não faz muito tempo, o Salgado foi acusado de ganhar dinheiro com a miséria dos outros e de estetizar a miséria. Como o PS anda substituindo “a experiência”, essa discussão sumiu…. Acho que a fotografia já se libertou. Bresson prova isso. E PShopar (da forma como está se usando o PS) é sim amarrá-la. Por fim quero dizer que, quando eu descobri que com o PS eu poderia fazer no computador aquilo para o qual eu nunca tive talento para fazer no laboratório, eu me tornei a pessoa mais feliz do mundo pois passei a não depender de mais ninguém para fazer uma coisa simples, uma cópia final do meu negativo (filme ou raw).
abraço grande em vocês dois!
Modismo até um americano voltar a nao exagerar e publicar fotos reais. Ai o mundo se renderá a verdade e esses efeitos ridiculos cairão de moda. Sempre fui contra o tratamento abusivo nas fotografias, principalmente de pessoas, tornando-as plásticas, Barbies e até feias. Como imagem, pode agradar aos olhares, mas sabemos serem contos de fadas, meras ilustrações. Há casos e casos, claro, para tudo, mas estamos sofrendo um ataque a apenas isso. Como você disse Clicio, existem os ruins retocadores e os bons. Os ruins fotografos e os bons, mas se está acontecendo esse boom de imagens falsas, é principalemte culpa dos quem as faz, independente de rótulos de cargos. Se tem demanda é porque existe público e também industria que faz.
Sempre, em tudo prevalece o bom senso, nos retoques, não poderia fugir a regra.
Abraços
“A palavra mágica é equilíbrio…” Pepe falou legal. Obrigado Clicio!
Depois da exposição “A invenção de um mundo” exposta no itaú cultural (http://is.gd/4magw) tenho a impressão que o debate pode se tornar ainda mais interessante.E pode ajudar a compreender melhor a fotografia e essa realidade que ajudamos a construir. “toda a fotografia é uma ficção que se apresenta como verdade. O que vai contra o que nos foi ensinado, contra tudo o que o que sabemos, a fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não permite fazer outra coisa. O que é realmente importante não é a mentira invitável. O que importa, em suma, é o controle exercído pelo fotógrafo para impor uma direção ética da sua mentira”. Joan Fontcuberta, El beso del Judas.
photoshopar ou não photoshopar? essa nunca foi a questão.
Querido Clicio,
Por que será que cada vez mais ouvimos tantos casos de meninas morrendo de anorexia?
Realmente está havendo um exagero de valorização da magreza pelos jovens. A mídia acaba colaborando com esses exemplos como o da Ralph Lauren que conforme você mesmo mostrou na semana passada o caso da modelo Filippa Hamilton que ficou com os quadris menor do que a cabeça. Uma aberração! Essa semana, a Veja noticiou mais um caso de reincidência dessa grife, agora com a modelo Valentina Zelyaeva, reduzida a um formato Barbie, incluindo o espaço entre as coxas. No mês passado também andei falando sobre o assunto no meu blog:
http://luciaadverse.wordpress.com/2009/09/27/retocar-ou-nao-retocar-eis-a-questao/
Em seguida coloco um post sobre o belíssimo trabalho do fotógrafo Peter Lindbergh em que fotografa as modelos de cara limpa, na minha opinião elas ainda estão mais belas ao natural.
Também coloco uma reportagem sobre a lei que os políticos franceses querem implantar para evitarem o uso excessivo de Photoshop, veja:
http://luciaadverse.wordpress.com/2009/09/26/politicos-franceses-sugerem-lei-para-combater-e-regular-tratamento-de-imagens-da-midia-e-na-industria/
Aonde vamos parar desse jeito?
No parágrafo aonde você menciona que os próprios clientes pedem os retoques, lembrei-me de algo engraçado que ouvi de um amigo fotógrafo uma vez:
_Quando meus clientes pedem tantas modificações através do Photoshop, explico à eles:
_Sou fotógrafo, não cirurgião plástico!
Rsssss
Parabéns pelo post!
Beijo grande, Lucia
O fotojornalista só deve usar o photoshop (ou similar) para pouco mais de acertar níveis ou correcções básicas de cor.
O fotógrafo de “fine art” não está restringido por nada a não ser a sua criatividade (com resultados variáveis).
O fotógrafo de moda e publicidade é aquele a que se apresentam maiores dificuldades, porque não tem as restrições draconianas do primeiro e não pode gozar da liberdade absoluta do segundo.
Entre uma ética pessoal e a dependência do pagamento do cliente cada um reage conforme as circunstâncias, os melhores clientes sabem ouvir a palavra experiente do fotógrafo e em conjunto criarão imagem que poderão ser memoráveis ou pelo menos de boa qualidade. Todos os outros estarão à mercê de modas e clientes ditadores. Só o tempo nos dirá a evolução desta questão.
Incrível Clicio parabéns
Confesso que passei mais de 2 anos pra instalar o photoshop no meu pc, por achar que não se encaixava na minha fotografia, mais quando começou a aparecer as exposições comecei a usar, mais mesmo assim não sou a favor da manipulação abusiva do photoshop.
Sou a favor do ajuste em balanço de branco e cores
Fica a pergunta aonde esta o limite do uso de photoshop ????
Oi Clicio, ótimo o seu artigo. Penso da mesma maneira. Há um enorme desrespeito pelo Photoshop como ferramenta. Aquilo que devia ser um valioso meio de ajuste nas mãos do fotografo, uma espécie de laboratório digital, transformou-se numa ferramenta de manipulação por vezes ridícula.
Grandes fotógrafos, grandes artistas, para mim, são aqueles que sabem trabalhar com a luz e extraem da natureza seus melhores efeitos, expressando a magia que existe na realidade mais simples.
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[...] de muito estranho me aconteceu na semana passada; recebi pelo Twitter a notícia de que um de meus artigos aqui postados, escrito originalmente para a revista PhotoMagazine e intitulado “O pêndulo e a [...]