por clicio em 6 de julho, 2009
Nas sombras de um sonho
NELLE OMBRE DI UN SOGNO
NAS SOMBRAS DE UM SONHO: HISTORIA E LINGUAGENS DA FOTOGRAFIA DE MODA
Claudio Marra, 2008, Ed.Senac
Introdução: Márcio Scavone
Tradução: Renato Ambrosio
Prefácio: Simonetta Persichetti
“Nas Sombras de um Sonho”, livro de Claudio Marra sobre a história da fotografia de moda, foi uma providencial indicação da Simonetta, pois como diz a Georgia Quintas, logo abaixo, exorcizou totalmente os meus mais antigos fantasmas.
Explico.
Desde sempre, o fotógrafo de moda foi considerado, dentre as diversas categorias fotográficas, a ovelha negra. O fútil. O vendido. A prostituta barata, cega pelo glitter e pelo luxo de gosto duvidoso. Dinheiro fácil. Passei a minha vida profissional carregando nos ombros este sentimento de culpa, por ter feito a escolha errada, o traidor do santo ofício.
E de repente não é nada disso!
Claudio inicia o seu caminho histórico e redentor indicando o contraponto que existe entre “a fotografia de moda” versus “a moda da fotografia”, um estranho e pertinente ponto de vista, embasado no fato de “moda fotografada=moda usada”, uma óbvia alusão ao análogon, a transposição física do evento que é a roupa vestida. Continua com a lembrança que a fotografia denotativa pode ser considerada um espelho com memória, e logo entra na história da fotografia de moda, lembrando que o dilema mais perturbador sempre foi do fotógrafo: posicionar a sua fotografia de modo a ser um objetivo espelho da roupa vestida, ou ser um subjetivo e envolvente meio de nos apresentar uma atmosfera onírica, irreal, de sonhos.
Desta forma, a dualidade imagem X imaginário na moda se inicia com o barão Adolf de Meyer e suas fotos suaves, flou, carregadas de imaginário conotativo, em oposição ao seu sucessor na Vogue, Edward Steichen, criador de imagens denotativas, simples e diretas, sem alusões nem preocupações que não fossem a roupa. Passa por todos os fotógrafos mais importantes de todas as décadas subsequentes, incluindo os coletivos (como a dupla Lamsweerde-Matadin), para terminar na contemporaneidade dos instantâneos de Jurgen Teller e o pornô-chic de Terry Richardson.
O livro é de fácil leitura e muito agradável, com citações importantes e teoricamente bem embasado; a única ressalva que faço é ao fato, compreensível, do autor dar um certo destaque ufanista à alguns fotógrafos italianos que não o mereceriam, mas certamente sem exageros e sem comprometer a obra.
O que mais me alegrou na leitura foi ver como Marra destaca não só a importância, já amplamente reconhecida, da fotografia de moda como documento histórico, fundamental no estudo dos comportamentos da sociedade, mas também a coloca como fator de provocação do desejo erótico, sensorial, que influencia largamente tanto a publicidade quanto o cinema contemporâneo.
Claro que tudo isso que escrevo é terrivelmente suspeito, já que a obra elevou meu espírito de fotógrafo estigmatizado e passei a ter mais respeito por mim mesmo; por isso pedi a generosa colaboração de quem sabe muito mais que eu, a pesquisadora e professora acadêmica Georgia Quintas, autora do excelente livro “Man Ray e a Imagem da Mulher”.
A pertinente análise de Georgia segue abaixo.
Clicio Barroso, Julho de 2009
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por Georgia Quintas
Sempre há uma satisfação, quando podemos ter em nossa biblioteca um livro que fale sobre fotografia. As edições teóricas sobre fotografia são discretas. Desse modo, Nas Sombras de um Sonho, de Claudio Marra é uma obra a se desfrutar por vários motivos.
Em primeiro lugar, porque trata da temática da moda na fotografia (ou poderia ser o inverso, a fotografia na moda). E é nesse aspecto que o autor estrutura a linha imaginária de condução de suas análises, pesquisas e formulações teóricas. Claudio Marra desmistifica e emerge para o plano da ponderação o quão à moda fora e é significativa para a linguagem e expressão fotográfica.
Podemos acompanhar a “aula” que o autor nos proporciona, através do texto de estilo leve e bastante claro, desvelando as várias maneiras que grandes fotógrafos conduziram suas carreiras ao trabalharem com fotografias de moda.
Claudio Marra elenca alguns dos baluartes que travaram com esse universo imagético possibilidades de autenticidade no âmbito da criação artística. Ou seja, o livro ratifica uma questão instigante, que para muitos é observada de soslaio, sobre o valor da fotografia de moda. Nesse ponto, Marra aborda questões fundamentais sobre a história da fotografia por esse viés.
Cai assim por terra o estigma de superficialidade e banalidade que ronda (às vezes veladamente, outras vezes nem tanto) a produção dos fotógrafos de moda. Para os profissionais que passam por esta crise, o livro exorciza tais fantasmas e serve como terapia intensiva de como o olhar de cada um pode conduzir as relações entre realidade e aparência, moda enquanto expressão social e cultural e construção de identidade.
Ao conjugar semiótica e fundamentações teóricas de grandes autores que refletiram sobre a fotografia, Marra revela a complexidade do fazer fotográfico. Por mais que seja fruto de uma demanda, de uma linha editorial, de um costureiro, das “linhas” e formas de um simples vestido, o fotógrafo detém o ofício e sua idiossincrasia. O mecanismo resolutivo entre esses dois pontos pode vir a constituir rupturas, deslocamentos e soluções poéticas contundentes.
O que dizer de grandes mestres que escreveram seus nomes na história da fotografia: Richard Avedon, Edward Steichen, Man Ray, Muncaksi? Em Nas Sombras de um Sonho, encontramos a história e as considerações oportunas e didáticas para além do gostar aparente.
O livro de Claudio Marra é mais uma prova que a fotografia de moda é respeitável, vívida, simbólica e profunda.





9 Comentários
Pronto, viu … se liberou da culpa
Abçs e sucesso
AYRTON
Grande Clício !!! além das suas honestas considerações ainda nos reforça com a palavra sempre bem ponderada de Georgia.
Magnífico texto que, sem dúvida, me instiga à aquisição do livro a fim de melhorar as ideias nessa velha carcaça (a minha) hehehe.
Excelente recomendação.
Abraços
Clicio;
Há um ou dois meses escrevi um email a você no qual falo de um processo passado comigo. Nele lhe dizia ter ocorrido, em certa época, uma aceitação da racionalidade como parte inerente de minha maneira de fazer qualquer coisa, e daí a compreensão de que tudo o que eu fizesse seria usando isso como ferramenta. A ainda reconhecer ser, a racionalidade, uma boa serva, se mantida como ferramenta.
E, nesse email, fazia uma analogia com sua maneira de fotografar, tão definida, clássica, lhe sugerindo que isso também se introjetara de tal forma em você que qualquer coisa a ser feita deveria tomá-la como plataforma.
Este texto citado agora por você vai no mesmo caminho. Implica em uma reconciliação consigo. Nossa maneira de ser pode ser senhora ou serva de nossos rumos. O problema é quando é senhora. Mas quando a usamos para nossos desígnios, tudo bem.
Ivan
PS: como não sou do ramo fotográfico profissionalmente, não sabia da existência desse preconceito contra os fotógrafos de moda. Nem supunha haver, e não me soa ter sentido.
Ivan,
Desculpe a grosseria; seu e-mail foi fundamental para que eu enfim aceitasse o que você me deixou óbvio; disto vai sair uma exposição, em agosto. A grosseria foi não ter respondido, tampouco comentado no seu blog; perdão.
De qualquer forma, como bem disse, reconciliação é a palavra-chave.
Obrigado por comentar!
Clicio,
É sempre um prazer trazer discussões a partir de ótimos livros. Obrigada pela alusão e pelo espaço. A escrita faz parte deste processo de reflexão.
Abraços,
Georgia.
Meu amigo Clício;
Não houve grosseria alguma! O que há é uma flutuação normal das conversas, que não são obrigadas mas flutuam normalmente conforme os momentos-interesses, e não percebi nisto nenhum sinal negativo ou falta por sua parte.
Falei aqui daquele email -que você respondeu, aliás- porque percebi que algumas das questões deste tópico tinham paralelismo nele. Eu lhe contei um momento assim, no qual me reconciliei comigo (ou aceitei-me), e então deixei de lado a imaginação de uma produção espontânea, entendendo que a razão sempre me será companheira.
E cada um de nós tem um modo. Sua fotografia de moda é incrivelmente elegante, mal comparando, é “um Chanel”, com uma linguagem precisa, clara, luminosa, refinada, e se isso sai assim parecendo uma segunda natureza, que maravilha -risos.
Grande abraço,
Ivan
moda,moda moda!!
Tenho o livro e posso dizer que a melhor parte é o dilema filme x digital…
Tem um outro livro que o autor cita constantemente sobre pintura no Quattrocento que tb deveria ter uma edição para o Brasil.
Clicio, preconceitos são produtos de ignorância.
Existem bons e maus fotógrafos. Isto acontece em todas as áreas, com todas as profissões.
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[...] Texto publicado originalmente no blog de Clicio Barroso = http://clicio.wordpress.com/2009/07/06/nas-sombras-de-um-sonho/ [...]
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