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Esta semana uma polêmica imensa agitou todos os principais blogs de fotografia americanos; o veterano fotojornalista James Nachtwey, especializado em conflitos e dono de uma infinita lista de prêmios e homenagens, ofereceu um posto de estagiário em seu estúdio.
As regras eram claras (ver o anúncio aqui); muito trabalho, alguns requisitos básicos, e o ponto nevrálgico, o fator de ruptura; o estágio oferecido não era pago.
A gritaria foi geral, ampla e irrestrita (ver aquiaquie aqui ).
Houvesse o redator do anúncio oferecido a vaga como “trabalho voluntário”, não haveria comoção. Houvesse o próprio Nachtwey dito que ele oferecia um workshop exclusivo, “real-life”, por qualquer valor que o interessado quisesse pagar, teriam chovido propostas.
Mas não, o que se viu foi uma imensa corrente de “hate mails” e comentários raivosos em todos os fórums que postaram o assunto, o que rendeu páginas e páginas de posts indignados dos aspirantes a fotógrafo (wannabes) revoltados contra o trabalho escravo. Alguns, como o fotógrafo Matt Brandon, fizeram uma defesa bem fundamentada sobre a oferta, em seu blog “The Digital Trekker”, perguntando: “James Nachtwey, um oportunista ou uma oportunidade?” . Outros, como o PetaPixel , afirmam que a discussão é apenas de retórica, e não um debate crucial. Por aqui, algumas opiniões foram emitidas no Twitter, geralmente em inglês, e destaco algumas:  “The only place that success comes before work is in the Dictionary.”  ou “You want to get good at your craft? You better take everything that comes your way; stop complaining.”
Fotógrafos conhecidos também acabaram deixando seus depooimentos, como Christopher Morris: “My start in the industry started with an unpaid internship at the Miami Herald in the early 80’s. Without this internship, I would not be where I am today in the industry.

Não, não pretendo entrar no mérito e defender este ou aquele ponto de vista, pois isso já está sendo feito à exaustão pela blogosfera afora; eu particularmente sempre pago qualquer trabalho que peça, mesmo de estagiários. Porém não é esse o assunto, o que me assusta (e a muitos outros) é a falta de senso generalizada de uma geração que imagina que se pode chegar ao topo *sem trabalho*.
Na verdade, o problema é muito mais de cultura e educação do que fotográfico.
A minha geração, nascida nas décadas de 50/60, cresceu nas ruas, jogando pião e indo pra escola a pé, com 10, 11 anos. Não havia a superproteção que há hoje dos condomínios fechados, a preocupação excessiva com a violência (que na verdade é geralmente distante da classe média, restrita as periferias) e começava-se a trabalhar cedo, algumas vezes de graça, para se ganhar experiência. Uma juventude com pais menos culpados, menos paranóicos, que pensavam no valor do trabalho como lição de vida, importante para o amadurecimento da prole. E aí o problema começa a tomar forma; essa geração na qual me incluo ficou adulta, sentiu que tinha passado pela adolescência tendo que fazer certa dose de sacrifício, apesar do sexo, drogas e rock’n roll dos anos 70, e se  tornou leniente, culpada; “não quero que meu filho passe pelo que eu passei” é a desculpa mais comum para a superproteção dos pimpolhos. Na verdade, não foi sacrifício nenhum, foi parte do aprendizado, e todos sobreviveram sem grandes traumas, trabalhadores e responsáveis.
Mas…
Apesar de ter noção das concessões necessárias para a sobrevivência da espécie neste século 21, algumas atitudes me espantam: marmanjos de 30 anos de idade vivendo as custas dos pais, “meninas” adultas  completamente infantilizadas, comportamentos idiotizados com justificativas abomináveis.
Alguns exemplos reais (e pagos): Assistente de 20 e poucos anos e quase dois metros de altura que “não pode carregar peso porque tem um problema nas costas”; outro que não sobe escadas pois “tem fobia a alturas, vertigem”; mais um que não pinta fundos pois “é pago para fazer serviço especializado, e não trabalhar como pedreiro”.
Um modelo, punk, chegou de moto grandona, todo tatuado, barbicha tipo bode, cheio de couro preto e correntes. Colocamos o cara no set com uma modelo nua. Ele fugiu do estúdio. Literalmente. Disse que estava “passando mal” e fugiu.
Frouxos.
Eu particularmente tive pelo menos quatro assistentes mulheres que eram muito menos fresquinhas que a maioria daqueles barbados que se candidatam às vagas que ofereço. Claro, tem a ilógica ideologia acadêmica que agrava o assunto; uma parte dos professores que formam o segundo escalão das faculdades de fotografia (aqueles que não se dedicam à pesquisa, e cumprem horas/aula nas salas lotadas de desinteressados alunos) pregam que “não há trabalho fotográfico sem pagamento justo”, mas não dizem como nem quanto é o tal pagamento justo, pois nunca foram ao mercado de trabalho; pregam que “o conhecimento acadêmico faz a diferença”, mas se esquecem de ensinar aos alunos como se fotografa; e o resultado é uma enxurrada de jovens que se frustram ao perceber que quando entram no mercado de fato, este não é como esperavam. Afinal, não estudaram tanto para pintar fundo infinito nem carregar equipamento dos outros.
Pois bem, tenho bad news: pinto fundo até hoje, e melhor que a maioria dos assistentes (afinal, tenho mais tempo de estrada…); carrego equipamento, descarrego carro e caminhão, faço gambiarra elétrica quando os cabos e geradores pifam, ajudo a fazer café quando se precisa, monto e desmonto iluminação e fundos, e assim o fazem todos os profissionais da minha geração. Se for necessário, maquio as modelos.
O que aqueles que só sabem reclamar e dar piti não percebem é que FAZ PARTE do trabalho. Aliás, como sempre disse, “trabalhar dá trabalho, senão não seria trabalho“.
Ficou revoltado?
Vestiu a carapuça?
Deixe seu comentário! (sujeito a moderação, lógico!)
Update01: Este post é diretamente relacionado aos “Equívocos do aprendizado fotográfico.
Update02: O PicturaPixel generosamente destacou este post em suas riquíssimas páginas; thanks!