por clicio em 20 de junho, 2009
Fotógrafo bom? Fotógrafo morto.
Muito estranho o país em que hoje vivemos.

Donatella Versace
País que traz importada da América a cultura da juventude eterna, com todos os seus distorcidos corolários, porém sem os bons vícios. Que preza o obsessivo culto ao corpo, o fotoxópi físico, insaciável por liftings, botoxes, lipoaspirações e cirurgias plásticas tão desnecessárias quanto perigosas, que produzem fenômenos grotescos como Michael Jackson ou Donatella Versace (ver imagem ao lado), mas que ignoram o que realmente interessa. Arte, cultura, conteúdo.
E o que isso tem a ver com fotografia e fotógrafos?
Tudo.
A forma com que a maioria de nossos grandes artistas são ignorados, destratados, ridicularizados e, por fim, financeiramente levados à penúria é cruel para dizer o mínimo; o fato é que sem o respeito do mercado contemporâneo, e daqueles jovens que para com os mestres deveriam ter uma consideração especial (já que daquela fonte bebem, e muito), os grandes se tornam cada vez mais pequenos, até que desaparecem por completo.
E por fim morrem.
É a partir deste momento que a ironia se impõe, pois os que até ontem estavam esquecidos, subitamente se tornam grandes novamente. Homenagens póstumas acontecem de todos os lados, os preços das obras esquecidas num canto por falta de compradores repentinamente sobem às nuvens, textos, imagens, matérias, livros são produzidos as pressas, e o “nosso” fantástico artista vive enfim seu resgate de glória.
Inútil, posto que dela já não pode aproveitar nada…




35 Comentários
Pessoas (e a mídia) têm medo de reconhecer os verdadeiros vanguardistas enquanto estão vivos, porque eles questionam o senso comum =P
Excelente post!
Ontem, em uma roda de fotógrafos estávamos conversando exatamente sobre isso. Melhor valorizar o “último hype da semana” do que preocupar-se em entender ou apreciar quem desenvolve um corpo de trabalho sólido, (e com algo a dizer). Não há valorização alguma da expressão pessoal enquanto valoriza-se apenas o pseudo-novo.
“One must be a living man and a posthumous artist.” Jean Cocteau
[ ]s
ig
Clicio, muito pertinente seu texto! Vive-se hoje em dia como se ninguém mais fosse envelhecer, fenecer… a idade tornou-se uma coisa meio pornográfica, de mal gosto.. foge-se dela como o diabo da cruz, todo mundo tem que ser jovem, lindo, forte, feliz, resolvido, talentoso, mesmo que só na aparência… todos querem “causar”…Tenho pena dessa gente daqui a muitas luas; não haverá terapeutas suficientes. descobrirão a duras penas que não ficaram jovens, nem que tinham tanto talento e “genialidade” quanto pensavam. Precisamos urgentemente, sob pena de terríveis decepções, mudar nossa forma de ver as coisas, de encarar o próximo, devemos recuperar o antigo respeito que havia pelos que nos antecederam, pelos que antes de nós romperam barreiras, se feriram abrindo prá gente um mundo melhor e mais livre. Sermos mais gentis com nossos Mestres, cultuando-os pelo que fizeram e se por talento e persistência nos tornarmos melhores que eles, o mínimo que podemos fazer é ter uma eterna dívida de gratidão e uma admiração perene.
Esse é um tema vital e de global interesse, muita coisa terá que ser pensada, dita e escrita. As culturas só sobrevivem e evoluem pela transmissão de uma geração para outra, e isso sempre gerou um sentimento amoroso de gratidão aos mestres. Não podemos deixar isso morrer, foi a garantia da nossa sobrevivência e progresso até agora.
Ah! Gostei muito do título do post!
Parabéns!
Excelente, muito bom… parabéns!
[]s
Eu jamais irei acreditar que um discipulo determinado e talentoso ira superar seu mestre em conhecimento, tecnica e experiencia de vida. Alguns ateh podem dizer que um determinado artista teve um grande mestre, e a este hoje lhe eh atribuido mais talento, no minimo injusta a colocacao, ateh porque este mestre jah nao tem mais condicoes de atuar e competir no mercado, se defender das comparacoes que sempre irao existir. Aos grandes mestres que ainda atuam, esses que nunca se rendem, que nunca partilham nada de graca (nao me refiro a dinheiro), que nunca se deixam comparar, esses sim merecem no minimo um enterro decente, por terem continuado o trabalho de outro grande mestre…..
E a fila anda…..
Abracos!!
Clicio;
Creio que é um dos seus textos mais contundentes e verdadeiros.
Somos um país sem memória e continuaremos sendo por muito tempo.
Resta-nos aproveitar cada momento com aqueles que ainda estão vivos, tive uma excelente demonstração disto no dia em que conversei com Otto Stupakoff, foi uma hora de almoço que valeu por uma vida inteira.
Este podemos dizer que é um exemplo do que disse, sua obra foi valorizada economicamente semanas antes de sua morte.
Abraços.
Wilian
Realmente Clício, concordo que esse tema foi contundente no entanto não concordo com o fato de sermos um país sem memória, a memória está aí e nós (tenho que me incluir) é que a ignoramos.
Sempre discuto com amigos o fato de importarmos a cultura estadunidense, mas só o lixo, o patriotismo e outras qualidades não chegam aqui.
Vejam o exemplo das universidades lá e do nosso sistema arcaico de admissão aqui.
Mas voltando à fotografia….o erro é totalmente nosso que sempre valorizamos o que vem de fora e não damos espaço aos que nos são vizinhos, se vier um zeninguem da Ìndia dar uma palestra, as cadeiras se enchem, mas quando temos aqui grandes nomes (e não vou citar nenhum para não incorrer no erro de esquecer outros) o pessoal torce o nariz.
Isso porque nos habituamos a aceitar imposições, o Brasil não é um país pacífico, é um país PASSIVO, e nós, o povo, não fazemos nada para mudar isso.
Tomemos como exemplo exposições fotográficas, pouco espaço para isso, muita burocracia, muito QI (quem indica) e muita informação de massa que constrói “heróis” do dia pra noite, sem nenhum embasamento real para tanto.
Falta oportunidade para novos talentos, eu os vejo diariamente desperdiçados, reais talentos que poderiam trazer um olhar diferenciado, iniciar uma nova escola, um novo estilo etc.
Felizmente em alguns poucos, mirrados lugares, ainda existem pessoas que acreditam e abrem espaço para esses ainda em vida.
Cabe a nós valorizarmos nosso trabalho e nossos colegas, homenageando-os em vida, porque esperar um reconhecimento da “sociedade”…só se a Globo disser que pode…
Abraços a todos.
Vicente,
Enquanto escrevia este texto acima, pensava em você.
Em seu belo e poético trabalho fotográfico. Em seu persistente e delicado trabalho com Mário Cravo. Em sua admiração eterna pela boa fotografia.
Obrigado, Vicente; você é fonte de inspiração, exemplo de humildade e sabedoria. Me sinto honrado por ser seu amigo.
Obrigado também por postar aqui, enriquecendo a conversa.
Wilian,
É também um problema midiático.
A velocidade com que a notícia chega e é distribuida, a ansia voraz por novas (e contundentes) notícias, a forma com que estas são consumidas, fazem com que as “novidades” tenham que acontecer a um ritmo crescente.
Não há novidades? Criamo-las.
Não há fatos? Factóides resolvem.
Império do efêmero.
Padrão Globo de qualidade.
A gostosa da vez na Playboy já não é a “girl next door”; tem que ser a “famosinha da semana”, criada pela mídia televisiva, senão a revista não vende.
A fotografia sofre com isso, pois mesmo no jornalismo, “novas formas de olhar” para o fato jornalístico são impostas e cobradas pelos donos dos meios de comunicação. O fotógrafo que se vire para interpretar isso, seja lá o que for.
Cruel.
Eder,
Gostei desta definição “país passivo”.
Gado passivo é gado confinado.
Lobotomia da sociedade.
O que me espanta é ouvir, de duas estudantes de fotografia do Senac (que não tinham mais que 20 anos de idade), em um grande evento de fotografia (falavam uma com a outra, sentadas na fileira exatamente atrás do meu assento):
” Sabe, cansei da Cia de Foto. Também do Garapa. Já está na hora de darem oportunidade a quem realmente faz algo novo, diferente.”
Deviam estar falando, supostamente, delas mesmas.
O problema é que tanto o Garapa quanto a Cia estão no início de sua brilhante jornada, já mostraram ao que vieram, já sinalizaram uma nova linguagem, participam ativamente da convergência dos meios de difusão, mas principalmente *são muito jovens*! Tem muito pela frente!
E quando ouvi o comentário das meninas, juro, me senti no paleozóico da fotografia.
Se eles já “precisam dar lugar”, eu então…
Sete palmos, vendo a grama crescer pela raiz!
é Clício, também to me sentindo um pré diluviano…..
”Se eles já “precisam dar lugar”, eu então…
Sete palmos, vendo a grama crescer pela raiz!”
Ah Ah
É engraçado se não fosse tétrico. Ótimo texto.
Certa vez fui numa exposição de arte.
Um professor/artista plástico e amigo meu estava expondo o quadrinho dele.
Era pequeno, porém bem trabalhado, toms de cores certos e caprichados. Sombra bem definida e capricho que merecia nota dez. Passava a mensagem de um velho pescador depois de um dia de trabalho. O valor era de 800,00.
Outro artista que estava em outra sala mais adiante, definiu o quadro dele como “A vida de Pollock”. Valor do quadro era 3.000,00.
O quadro não tinha nada de interessante (pelo menos aos meus olhos), não representava nada e não passava mensagem alguma. Por incrível que pareça, ele conseguiu vender.
Só foi o cara declarar que era homenagem ao Pollock, e conseguiu atrair um cabeça-de-vento. Aposto que o cara saiu rindo da pessoa, porque o quadro era algo que até eu poderia fazer.
Foi aí que me dei conta, a arte está quase morta para muitas pessoas, o que vem de fora é melhor. Não interessa se o cara era um pedófilo (Egon Schiele), louco e fazia quadros com aberrações. Ele é de fora, se abaixe e babe as bolas dele, deixe que ele te dê um chute no meio da cara.
Ele é um “artista”.
Assim é a fotografia, cinema e qualquer outra coisa.
Abraços
O texto é pertinente ao momento atual de um país doutrinado ao comodismo, onde a informação “último hype da semana” (como menciona o Ig) é a escrita repetida nos barzinhos frequentados por gente “cool”, onde o “new” é a tônica (não a água, por favor).
Hoje o mercado é sedento de juventude por pensar que isso pode ser renovação de idéias, mas não, na realidade não passa de “enlatado” acompanhando o padrão global já conhecido. Os exemplos se espalham, a velocidade com que querem divulgar a informação implica em imprecisão. Há exceções, a renovação é importante e deve existir, mas só a morte termina com a experiência adquirida em anos de prática e esta é cedida aos que compõe o bloco da renovação em vida. Por não pensarem assim o conteúdo deixa de existir, e a estética do exótico de leitura fácil se sustenta em uma geração aculturada no modismo. Abs
Clicio
Alguns bons trabalhos são alimentados por imagens que só podem existir quando um espírito jovem tem muuuiiiitos anos de estrada…
um trunfo inestimável !!!
Até a próxima
Roberto
muito bom seu post, muito bom mesmo…faço minhas as suas palavras.
Acho que entendo esse tipo de desabafo, e desconfio que devemos um mea culpa aí. Quantos minutos e centímetros gastamos falando das novidades –que não são um mal em si– e quanto nos dedicamos ao novo, à linguagem, à pesquisa, ao projeto? Às perguntas, às provocações, às proposições? Logo, quando surge gente nova os promotores e produtores culturais caem em cima supervalorizando os meninos, chamando-os pra tudo que é lado pra piarem e chuparem cana mais do que a boca; inevitável o cansaço da platéia com esta onipresença, mas ela não acontece por marketing pessoal deles, acredito. Como se eles fossem a “resposta” pra tudo…
Gente, eles são o resultado das dúvidas, das ansiedades, das amarguras; às vezes até das desilusões, dos desencantos… da utopia! Mas é um movimento pra frente, em diagonal, não pisa em ninguém. Os conceitos, a ideologia, o repensar irá surgir adiante, não agora, não atropelemos um momentum em que muitas curvas (até espirais) ainda surgirão.
Falem mal, sim, mas façam melhor.
É lamentável que alguns de nossos artistas e grandes mestres passem necessidade financeira. Infelizmente esse tipo de coisa acontece apenas em nosso país, você está coberto de razão! Vivemos em um país que tem uma diversidade imensa de cultura, mas ao mesmo tempo é um país tão sem cultura! Enquanto não houver investimento nesse sentido será assim… Esse tipo de coisa nos revolta e faz sentirmos impotentes!
Muito bom esse seu post e merece uma grande discussão!
Beijo grande, Lucia
Ah! Adorei também o título!
THE END
Fotografo bom tambem tambem usava Kodachrome…que dó…
Meu caro, Clicio
A Kodak acaba de informar que tirou da sua linha de producao o Kodachrome. Ele representava 1% do faturamento da empresa. A era digital passando por cima !
Que saudade vai deixar. Saudade de um tempo passado, banhado com outros coloridos…lembra-se das cores dele, a falta de grao e etc…?
Filme reverenciado até na música de Paul Simon.
http://www.google.com.br/search?q=Paul+Simon+Kodacrome&ie=utf-8&oe=utf-8&aq=t&rls=org.mozilla:en-US:official&client=firefox-a
TEMPUS FUGIT …
Aquele abraco
Roberto
Ahhh…em tempo !
http://en.wikipedia.org/wiki/Kodachrome
Engracado.Quando vejo as tuas fotos com a lente Zeiss+Sony penso no Kodachrome !?
Filme bom! Filme morto.
http://www.google.com.br/search?q=fim+do+kodakrome&ie=utf-8&oe=utf-8&aq=t&rls=org.mozilla:en-US:official&client=firefox-a
Sem rodeios: Clicio, seu trabalho está perfeito e não aceito discordâncias…hahaha É, não dá para ignorar o trabalho acima. Vai rolar imersão no teu curso. Parabéns!
Clício
Sua matéria é tudo que penso e sinto.
Acredito que uma forma de mudar essa realidade seria talvez os próprios artistas valorizarem seu trabalho, ja vi muitos deixarem suas obras apodrecerem em vida, que pena…não temos a cultura de guardar o passado né mesmo!
Trabalho com conservação de fotografias e sinto muito pelo Brasil ser desmemoriado, principalmente em relação aos seus grandes artistas.
Um grande abraço
é um prazer te ler
Só um add, faltou créditos da foto da Donatella.
Post bacana. Abraços.
Marco Aurélio,
Não consegui descobrir. A foto estava em um site de fofocas e claro, tinha como crédito “divulgação”. Divulgação do que não me pergunte, certamente não é uma boa publicidade para ela…
Há dias atrás vi uma resposta sua sobre um retuíte de uma pessoa que precisava de um “bom” fotógrafo em SP. Quando vi o tíulo achei que era uma menção a esse pedido. No entanto, o seu conteúdo fora tão surpreendente quanto a sua resposta no twitter. Seu posicionamento, nos dois, foi irrepreensível.. me fez pensar bastante! Abraço e sucesso!
Nunca entendi o que quer dizer “DIVULGAÇÃO” como crédito de uma foto…
Curto, direto e infelizmente uma realidade muito real. Geralmente só fica famoso em vida se fotografar mulher pelada, o resto só depois que morre é que descobrem o quanto era valioso o trabalho.
Clicio,
Sobre o tema que você propôs, acho que tudo foi dito, por você e pelos colegas.
Por outro lado, eu percebo que a internet é uma aliada importante na divulgação de fotógrafos, sejam eles iniciantes ou veteranos. Graças aos blogs eu tive acesso ao trabalho de caras como você, como o Vicente, a Cia, Garapa e tantos outros.
E uma coisa bacana que acontece com a internet é que quando você navega por fotos maravilhosas, não passa pela sua cabeça a idade do fotógrafo. O que vale é a qualidade, a beleza e a energia que o trabalho transmite. Portanto, cabem aos fotógrafos montarem seus blogs, seus sites e assim divulgarem seu trabalho.
Hoje em dia, não basta ser um mestre, você tem que botar a cara na janela.
Abraço a todos!
Impressionante a sua sensibilidade das coisas e coragem e coerência em as expor!!! Mais uma vez PARABÉNS!
O respeito e a admiração parecem não fazer parte da vida dessa geração, não só na fotografia. Uma pena.
Ótimo texto! Abraço.
“os preços das obras esquecidas num canto por falta de compradores repentinamente sobem às nuvens, textos, imagens, matérias, livros são produzidos as pressas, e o “nosso” fantástico artista vive enfim seu resgate de glória.
Inútil, posto que dela já não pode aproveitar nada…”
O que está descrito neste post Clício é bem esteito com o que foi realizado no filme “LUST FOR LIFE” 1956 (Sede de Viver,no Brasil) dirigido por Vincente Minnelli e distribuído pela Warner Home Vídeo.
Vicent Van Gogh só foi reconhecido após falecer,hoje o que temos das obras valiosas de Van Gogh,já foram motivos de frustrações e conflito na vida do mesmo pelo fato de não a reconhecerem como arte.Muitos se sentem como Eugène-Henri-Paul Gauguin,ilustres e impacientes…
Abraço e você foi muito feliz neste post.
Impressionante Clício! texto perfeito, infelizmente essa é nossa realidade.