por clicio em 4 de abril, 2009
Faking Death
Continuando com a minha viagem onÃrico-realista dos fins-de semana, tenho tido cada vez mais inquietudes a respeito do que posso/devo mostrar com a minha fotografia, sem que ela perca a sua personalidade. Personalidade esta que, como sabem, foi moldada pela publicidade e pela moda, carga penosa e da qual não vai ser fácil me livrar; o bom é que apenas revendo algumas das imagens produzidas ao longo do ano passado, começo a perceber uma mudança de intencionalidade tÃmida, mas presente, o que me leva a (ainda) ter esperanças.
A foto da Liange, uma princesa oriental morta sob a iluminação Matrix, me remeteu a imagem de uma replicante by Ridley Scott, na versão original de Blade Runner.
O que me levou a imaginar os porquês do meu fascÃnio pelos trabalhos que mostram uma forma de realidade crua (autoretrato de Nan Goldin depois de levar uma surra do marido, foto acima),
ou a morte totalmente desmistificada e ironizada (Joel Peter Witkins tendo que se isolar no México para fotografar os cadáveres que lhe serviam de modelos, foto acima),
ou uma poética atemporal e surrealista, com traços do renascimento italiano (Jan Saudek mostrando a passagem do tempo medida em décadas, foto acima), imagens visualmente cruéis (?) que nos fazem refletir sobre a constante decadência fÃsica, e na inevitável sombra da morte espreitando na próxima esquina.
O fato é que, como tenho dito nos últimos tempos, esta compulsão por querer fotografar o lado menos cosmético da estética contemporânea esbarra no meu eterno espanto frente a beleza feminina;

Kate Moss as Lady Godiva | © Nan Goldin
é como mostra esta foto acima, da Kate Moss abraçada ao cavalo, feita pela mesma Nan Goldin (balada da dependência sexual) ; uma Kate gordinha, nua, desmaquiada, jovem e espelhando uma Lady Godiva moderna.
E LINDA!
Irônico, não?








11 Comentários
Ola Clicio, e amigos
Vamos falar de beleza, acredito que ela so existe porque, nossos cerebros procuram organizar tudo, a beleza so existe porque podemos comparar com a falta de harmonia. Como a fecilidade so existe porque conhecemos a tristeza.
Existimos porque fazemos escolhas o tempo todo, não tem meio termo, precisamos vagar entre o belo e feio, para ”alimentar nossa criatividade”, precisamos ser contraditorio e constantemente inquietos, caso contrario não evoluimos.
Grande abraço a todos
Claudio Fett
Inquietudes constantes que movem desejos, por experimentações de criar, de inovar, dentro de um universo que bombardeia com velocidade espantosa inúmeras referencias que nos fazem pensar, repensar, e alimentam nosso desejo pelo novo que pode vir do antigo. Abs
O grande problema do adulto, aquilo que tolhe suas mudanças, é ele já conhecer um caminho eficiente. Esse caminho é como um vale cavado na planÃcie -ou, tá legal, não somos planÃcies, mas, de todo modo, é um vale cavado pelo fluxo no terreno.
Esse fluxo cavou o vale, e o tendo cavado, tende a ele, escorre por ele.
Há uma força da gravidade a atrair o fluxo para o leito cavado. Ou melhor, há duas gravidades. Uma delas é o hábito. Fazemos sempre parecido com o que já fizemos, isso é o chamado “estilo”, podendo ser chamado também de “prisão”. A segunda gravidade é o desejo de sucesso. Ela nos faz manter nossa produção consoante aos desejos dos demais, ela nos faz desejar confirmar para os demais nossa excelência. Hábito e desejo.
Nesse ponto, ClÃcio, mais cavado é o vale quanto maior o sucesso.
Aqui fica e termina uma parte da conversa.
Mas tem mais: A beleza.
A beleza é uma coisa. A comodidade ao olhar algo, outra. A beleza pode ser cômoda ou incômoda, e pode ser incômoda sendo ainda beleza. Penso que a dicotomia insinuada por você no texto não é bem essa, belezaX feiura como você apontou. Aliás, acho impossÃvel alguém dedicar-se à arte, ou à atividade de sentido artÃstico e perseguir a feiura. O que se faz é, ao contrário, revelar a beleza que não sabemos ver, que não é cômoda, mas em uma dinâmica de trazer ao território do belo aquilo não visto como.
De todo modo, é preciso, e isso é minha fé inabalável, haver um espaço no qual o incompleto, o interessante mas não cabal, o meio mal feito mas cheio de idéias, o croquis, enfim, possa existir. E esta é a dificuldade do adulto, pois ao mesmo tempo seria desejával mostrar o tosco libertador, conversar abertamente sobre os fiapos de interesse dele, as idéias ainda embrionárias, as garatujas, mas nosso mundo não aceita que mostremos o tosco e se o fizermos seremos julgados toscos. Nosso mundo não é um bom espaço criativo, pois só gosta daquilo que está completo, enquanto as oficinas e os ateliers são bagunçados e com manchas de tinta, e eles assim sendo são o espaço da liberdade.
Grande abraço, achei bacanérrima sua inquietação. Desculpe-me o tamanho da resposta.
Ivan
a explicação desse fascÃnio não estará na liberdade de expressão que esses trabalhos implicam, na sua espontaneidade, na presumida ausência de auto-censura?
trabalhos de pessoas que deixam fluir livremente o que passa em seu inconsciente são, quase sempre, bastante instigantes. Mostram uma coragem em assumir desafios estéticos, em lidar com algumas crenças infundadas da ‘cultura’.
essa contravenção, fugir das regras do chamado bom gosto, unir-se ao fluxo da ‘contracultura’, pode ser extrema e gostosamente liberador, além de fascinante. Como uma droga. A Nan foi dependente quÃmica por um bom tempo. Chegou no fundo do poço e depois deu a volta por cima. Durante a viagem deixou registrados, numa coleção incrÃvel de fotos, os aspectos mais viscerais – e honestos – da convivência humana.
admiro sua busca ClÃcio. E, sim, como você mesmo já sentiu, esse não é um caminho fácil de trilhar. Mas vale a pena tentar.
grande abraço
O maniqueÃsmo proposto pelo Fett, o otimismo dinâmico demonstrado pelo Pepe, o “ser criança” do Ivan, e o “se livrar da auto-censura” da Dulce são apenas partes do problema; o crucial aqui é o “se livrar da necessidade de sucesso” (Ivan novamente). Depois de 30 anos de trabalho bem aceito, a expectativa do observador é também feita de hábitos, de confortos, de linguagens conhecidas. É isso que tenho sentido, ao afirmar que gosto de trabalhos que “a maioria” detesta, a rejeição (por parte destes) é imediata.
E de que vale uma imagem sem observador?
Não se completa. Não existe.
Do not surrender!
Inquietacao e questionamento e o que mantem the work in progress whatever the course you choose.
ah, the search for truth and beauty…
ClÃcio, existem vários públicos, várias audiências, várias tribos.
Se não fosse assim Nan Goldin nunca teria chegado ao lugar que chegou em popularidade. E os meninos do rock’n'roll ficariam brincando de guitarra em suas garagens, sem ir a lugar algum.
Não sei se feliz ou infelizmente (talvez ambos), as pessoas são bastante influenciáveis, com o ‘papo’ certo aceitam praticamente qualquer coisa.
Acho que o problema maior aqui é vc largar uma fonte de renda estável pela incerteza dos caminhos a que podem levar suas inquietações.
Numa nota otimista, começa a despontar o mercado dos prints de arte no Brasil, estava falando com o Ig e a Lou sobre isso outro dia.
Quem sabe não está aà o veÃculo que te permitirá unir, de um lado, a satisfação pessoal da busca por novas imagens e, de outro, o público que saiba apreciar essa busca.
bom domingo….
Quando estava na faculdade de arquitetura, tinha um professor que era especial, pensamento vivo e pouco convencional. Era o Stélio. Ele era um coroa bem coroa para nossos padrões, próximo da aposentadoria. Dava aula de desenho, ou seja, desenho de observação, e a aula consistia em irmos a algum lugar do Rio de Janeiro desenhar as construções.
Uma vez, estávamos vários sentados no chão de uma calçada desenhando e ele veio olhando os desenhos do pessoal. Parou em frente a um colega que se esmerava em produzir um desenho todo caprichado e disse a ele: “Não queria fazer de todo desenho um quadrinho”.
Ou seja, disse a este colega para não atentar tanto para um resultado final perfeitamente balanceado e caprichado.
De certa forma, ClÃcio, é isto.
Mas, como bem disse a Dulce e como eu mesmo já insinuara, o mundo não perdoará as tentativas. “O ClÃcio pirou!”. “Já não é o ClÃcio dos bons tempos”. Isto seria dito se suas tentativas e garatujas viessem a público ANTES de terem alcançado o resultado que você imagina. E a busca dessa linguagem diferente não é apenas uma decisão, precisa de explorações, de empirismo, de tentativa-e-erro.
Pois a lógica do mundo é bicar o fÃgado enquanto a montanha é escalada, e depois louvar quem atingiu o topo. Ninguém perdoa ninguém que queria escalar, mas todos adoram quem chega lá (como se não fosse preciso escalar para chegar…).
Então é preciso construir dentro de si mesmo uma oficina secreta, um espaço de permissão que talvez inicialmente não seja visÃvel nem público, no máximo mostrado a um ou outro de muita confiança. Este casulo permitirá a metamorfose, e poderá emergir dele algo maior do que o anterior. Sem esse espaço de permissão no qual serão produzidas obras incompletas, estranhas, ainda não balaceadas, será difÃcil mudar.
A coisa bacana disso é que ao criarmos em nós uma forma nova de fazer não esquecemos a antiga. É só um “poder” a mais.
Grande abraço,
Ivan
O extremo é sempre misterioso, grandioso… Tanto para o positivo “belo”ou negativo”feio”, sendo assim a arte se concentra no polo negativo ou positivo tendo como referencia a interpretação da mente de cada pessoa… o fato é quanto mais extremo melhor, não importa o lado… ls
GRANDE Joel Peter!
Sempre pensei que ele traz imagens do Id, lá dos recônditos, do porão que ninguém quer mexer. Sou fã.